quarta-feira, 31 de março de 2021

A tirania do mérito. O que aconteceu com o bem comum? Michael J. Sandel.

Mais um livro que comprei por efeito da publicidade, daquela que aparece quando você compra livros e eles oferecem outros com temas similares. Mas, o motivo maior da compra foi em função do instigante e polêmico tema da meritocracia. Trata-se de A tirania do mérito - O que aconteceu com o bem comum?, de Michael J. Sandel. Confesso que desconhecia o autor, mas já tinha ouvido falar de outro livro seu O que o dinheiro não compra: os limites morais do mercado. O seu livro mais famoso, no entanto, anunciado até na capa do presente livro, é Justiça: o que é fazer a coisa certa. Sandel é professor na Universidade de Harvard. Pelo seu curso Justice já passaram mais de quinze mil alunos. O livro é de 2020.

A tirania do mérito. Michael J. Sandel. Civilização Brasileira. 2020. Tradução: Bhuvi Libanio.

Como a orelha da capa nos põe em contato com o tema central do livro, começo por aí a resenha. A questão posta é esta: "As democracias liberais estão em risco. E, de acordo com o filósofo Michael J. Sandel, o princípio do mérito, um de seus pilares básicos, é o responsável por esse cenário". Não imaginava que toda a pregação em torno da "força do indivíduo" pudesse atingir tal nível de contestação. Mas, vamos m frente:

"Vivemos em uma constante competição, que separa o mundo entre "ganhadores" e "perdedores", esconde privilégios e vantagens e justifica o status quo  por meio de ideias como "Eu quero, eu posso, eu consigo" e "Quem acredita sempre alcança". O resultado concreto é um mundo que reforça a desigualdade social e, ao mesmo tempo, culpabiliza as pessoas, o que gera uma onda coletiva de raiva, frustração, populismo, polarização e descrença em relação ao governo e aos demais cidadãos.

Ao analisar conceitos em torno da ética do estudo, do trabalho, do sucesso, do fracasso, da tentativa e de quais são os meios considerados legítimos para trilhar esses caminhos, Sandel sugere um novo olhar para essas relações. O autor salienta as contradições do discurso meritocrático, seus contextos estruturais e a arrogância dos "vencedores", que julgam duramente os "perdedores".

A tirania do mérito propõe que, para existir uma ética diferente e dignificadora, o sucesso deve ser compreendido em prol da coletividade. Indica que uma alternativa de pensamento guiado pela humildade, pela compreensão do papel do acaso na vida humana e pela criação real da oportunidade poderá ser, então, a melhor bússola para a democracia, para o bem comum".

Do prólogo tomo os três parágrafos finais, que também considero uma boa provocação para a leitura do livro, que é a finalidade dessa resenha: "Essa maneira de pensar sobre sucesso torna difícil acreditar que "Estamos todos juntos nisso". Ela persuade os vencedores a considerarem que o sucesso deles é resultado de suas ações e os derrotados a sentirem que aqueles no topo olham para baixo com desdém. Isso ajuda a explicar por que os deixados para trás pela globalização ficam irritados e ressentidos, e por que se sentem atraídos por populistas autoritários que atacam as elites e prometem reafirmar as fronteiras nacionais com vingança.

Agora, são essas figuras políticas, apesar de desconfiarem da experiência científica e da cooperação global, que deverão conter a pandemia. Não será fácil.  Mobilizar para confrontar a crise global de saúde pública que encontramos exige não só habilidades médicas e científicas, mas também renovação moral e política.

A mistura tóxica de arrogância  com ressentimento que arremessou Trump ao poder não é uma fonte possível da solidariedade que necessitamos agora. Qualquer esperança de renovarmos nossa vida moral e cívica depende de entender como, ao longo das últimas quatro décadas, nossos laços sociais e nosso respeito um pelo outro se desmantelaram. Este livro procura explicar como isso aconteceu e refletir sobre como poderemos encontrar o caminho para uma política do bem comum".

O livro, de 349 páginas, está dividido em sete capítulos, além de prólogo, introdução e conclusão. A introdução é explosiva, mostrando as fraudes no sistema de ingresso nas universidades renomadas que formam a  IVY LEAGUE. Os sete capítulos tem os seguintes títulos: 1. Ganhadores e perdedores; 2."Grandioso porque é bom", uma breve história moral do mérito; 3. A retórica da ascensão; 4. Credencialismo: o último preconceito aceitável; 5. Ética do sucesso; 6. A máquina da triagem; 7. O reconhecimento do trabalho. A conclusão tem por título - O mérito e o bem comum.

Tenho a síntese dos capítulos, mas seria um trabalho muito longo, por isso vou selecionar algumas categorias trabalhadas ou outras pequenas dicas do que se ocupa cada capítulo. Assim, no primeiro temos: globalização, arrogância, humilhação, ressentimento, discórdia. No segundo: Graça divina, recompensa por mérito, prosperidade, sofrimento e a "América é grande porque é boa".  No terceiro: sucesso, esforço próprio, fé, responsabilidade, discurso inspirador ou discurso ofensivo. No quarto: credenciais universitárias, educação, igualdade e desigualdade, o smart X Stupid, tecnocracia X democracia. No quinto: aristocracia X meritocracia, liberalismo e neoliberalismo, o estigma burro/inteligente. No sexto temos a triagem. Por óbvio, o tema é o do ingresso nas universidades, os vencedores e a felicidade, o trabalho em nível superior e em nível técnico. No sétimo temos análises estatísticas da remuneração, a degradação da dignidade do trabalho e o grave problema de que a questão financeira não é a única que gera angústias, mas que as agrava. Volta também a questão do ressentimento. Trata também dos suicídios, denominados de "mortes por desespero".

E, ainda como provocação para a leitura, duas passagens: A primeira é retirada do capítulo 3, a retórica da ascensão: "A tirania do mérito é resultado não só da retórica da ascensão. Ela consiste em um conjunto de comportamentos e circunstâncias, que, agrupadas tornaram a meritocracia tóxica. Primeiro, sob condições de desigualdade desenfreada e mobilidade barrada, reiterar a mensagem de que nós somos responsáveis por nosso destino e merecemos o que recebemos corrói a solidariedade e desmoraliza pessoas deixadas para trás pela globalização. Segundo, insistir na ideia de que algum diploma universitário é o principal caminho para um emprego respeitável e uma vida decente cria um preconceito credencialista que enfraquece a dignidade do trabalho e rebaixa pessoas  que não chegaram à universidade; e terceiro, insistir na ideia de que problemas sociais e políticos são mais bem resolvidos por especialistas com educação de nível superior e valores neutros é presunção tecnocrática que corrompe a democracia e tira o poder de cidadãos comuns". p. 105.

A segunda é a exortação final do livro: "A convicção meritocrática de que pessoas merecem quaisquer que forem as riquezas que o mercado concede a partir de seus talentos faz a solidariedade ser um projeto quase impossível. Por que as pessoas bem-sucedidas devem algo aos membros com menos vantagens na sociedade? A resposta para essa pergunta depende de reconhecer que, para todos os nossos esforços, não vencemos por conta própria nem somos autossuficientes; estar em uma sociedade que recompensa nossos talentos é sorte, não é obrigação. Uma sensação viva do contingente de nosso destino pode inspirar certa humildade: "Aí vou eu, mas pela graça de Deus ou por acidente de nascimento, ou ainda, por mistério do destino". Essa humildade é o começo do caminho de volta da dura ética do sucesso que nos divide. Aponta para além da tirania do mérito na direção de uma vida pública menos rancorosa e mais generosa". pp.325-6.

Por fim, dois depoimentos da contracapa: "Acessível e profundo, A tirania do mérito é uma análise reveladora da perversa injustiça da nossa sociedade, movida em parte por uma ingênua e míope confiança na noção de mérito. Em tempos de retórica fácil e tribalismo irrefletido, este livro provocativo é leitura obrigatória àqueles que ainda se importam com o bem comum". E "Sandel oferece uma crítica convincente e profunda da meritocracia, essa que [...] deteriorou nosso senso de comunidade e respeito mútuo [...]. Uma análise instigante de um grave problema político e social".

É a velha distinção entre o ser como um indivíduo ou como um ser social. Uma questão de concepção. Uma leitura necessária.


terça-feira, 23 de março de 2021

FASCISMO - um alerta. Madeleine Albright.

Cheguei a este livro por meio da publicidade virtual que é feita quando você compra livros. Eles aparecem como sugestões por afinidade de temas com os livros que você comprou. Também ouvi boas referências no programa do Reinaldo Azevedo, que agora, praticamente, se transformou num programa referência nas questões políticas e jurídicas. Quem diria? A compra também foi efetuada em virtude da autora do livro, a ex-secretária de Estado dos Estados Unidos. Confesso que até o deixei numa fila de espera, pensando se tratar de um livro de teoria que exigiria grande concentração de esforços. Nada disso. O livro é fluente e de agradável leitura, apesar da nebulosidade do tema. Trata-se do livro: Fascismo - um alerta, de Madeleine Albright.

Fascismo - um alerta. Madeleine Albreight. Crítica. 2020. Tradução: Jaime Biaggio.

Na página final do livro lemos sobre a escrita do mesmo: "Se Donald Trump não tivesse sido eleito presidente, ainda assim eu teria mergulhado neste trabalho, pois concebi o projeto com a ideia de dar impulso à democracia durante o primeiro mandato de Hillary Clinton. A eleição de Trump só fez aumentar o sentido de urgência". p.284. A edição estadunidense do livro data de 2018 e a brasileira de 2020. E, como diz o subtítulo, um alerta, evidencia que a democracia está sob sérios riscos.

O livro começa profundamente autobiográfico, mostrando a fuga da família de Madeleine, de Praga, sua cidade natal, para a Inglaterra durante a ocupação nazista da Tchecoslováquia e depois com a ocupação do país pelo regime soviético. Posteriormente a família se estabeleceu nos Estados Unidos, onde ela exerceu importantes atividades políticas, foi professora universitária (Georgetown University - Washington) e escritora. Escreve este livro, portanto, a partir de um posto de observação extremamente privilegiado. Ela foi a poderosa secretária de Estado no governo Clinton. Um governo neoliberal, diga-se de passagem.

O livro acompanha a sua trajetória de vida e aponta os principais entraves ou retrocessos mundiais para assegurar o processo democrático. Isso é narrado ao longo de dezessete capítulos, ao longo de 299 páginas. Vou enunciar os títulos dos capítulos para depois tecer breves comentários: 1. Uma doutrina de raiva e de medo; 2. O maior espetáculo da terra; 3. "Queremos ser bárbaros"; 4. "Não tenham piedade no coração"; 5. A vitória dos Césares; 6. A Queda; 7. A ditadura da democracia; 8. "Há muitos corpos lá em cima"; 9. Uma difícil arte; 10. Presidente vitalício; 11. Erdogan, o magnífico; 12. O homem da KGB; 13."Somos quem um dia fomos"; 14. "O líder sempre estará conosco"; 15. Presidente dos Estados Unidos; 16. Sonhos ruins"; 17. As perguntas certas. Vamos aos comentários.

1. Nesse capítulo Madeleine narra a sua familiaridade com o tema do fascismo, que o acompanha desde a sua tenra infância de fugas, primeiro do nazismo e depois do regime soviético, de sua cidade natal, a bela Praga, para a Inglaterra, para depois se estabelecer nos Estados Unidos. De lá, com notoriedade acompanhou os grandes fatos políticos do mundo, até, com estarrecimento, acompanhar o governo de Trump, "o primeiro presidente antidemocrático  na história moderna dos EUA".

2. Nesse capítulo é narrada a ascensão do fascismo na Itália, com destaque para a crise generalizada, que se tornou o campo fértil para a ascensão de Mussolini. A Itália, no imaginário popular, sentia a necessidade de um Duce.

3. O terceiro capítulo é dedicado a Hitler e às condições da Alemanha para a sua ascensão. Pesaram para isso a insatisfação popular, o Tratado de Versalhes e a fragilidade da República de Weimar. De Hitler ela destaca o uso do rádio, a Internet da época, e as fortes autoconvicções de grandeza do Führer, o Duce alemão.

4. O quarto capítulo é particularmente lindo. Ele começa com o filme de Chaplin - O Grande Ditador. Então, por óbvio, o tema são as relações entre os dois comandantes, especialmente no que diz respeito à Guerra Civil Espanhola, onde entra em cena um terceiro comandante fascista, o general Franco, que, contudo, não se alinhou. A minha referência à beleza desse capítulo é a relação estabelecida com o filme de Chaplin e não às relações entres os ditadores. Também as divisões entre os grupos de esquerda na Espanha ganha a sua abordagem.

5. O capítulo tem por tema o poderoso Império Austro-húngaro e a sua adesão ao nazismo. Também é analisado o Zeitgeist da época, de grande perigo de adesão em massa ao regime do nazi/fascismo, tanto na Inglaterra como nos Estados Unidos.

6. O tema do capítulo não poderia ser outro, senão o do enunciado do título. A queda, primeiro de Mussolini e depois de Hitler. Ao final, Chaplin volta à cena com o seu fantástico discurso, cheio de humanidade, de seu Último Discurso.

7. Um belo capítulo sobre o pós-guerra. Ela retoma as memórias de sua cidade natal e os desesperos de uma menina de oito anos a estabelecer paralelos entre dois regimes totalitários, que falavam a mesma língua, a língua da violência. Fala de sua adaptação nos Estados Unidos, a sua nova pátria, envolvida com os horrores do macarthismo, onde o medo do comunismo alavancava o espírito fascista.

8. Este capítulo começa com o discurso de Truman, em São Francisco, na recém fundada ONU. "O fascismo não morreu com Mussolini. Hitler está liquidado, mas as sementes espalhadas por sua mente doentia estão solidamente enraizadas em um número muito grande de cérebros fanáticos". A grande abordagem é o perigo representado pelo fanatismo da tradição e dos nacionalismos. O traço biográfico está de volta, com a narrativa de suas intervenções, já como Secretária de Estado, especialmente no que diz respeito à Guerra dos Balcãs, com o esfacelamento da antiga Iugoslávia. Uma história de muito horror.

9. Outro capítulo extraordinário. Ela apresenta as suas percepções de mundo. A deterioração geral dos salários a partir do final dos anos 1970 (Lembrando que são os anos em que se iniciam as políticas neoliberais, com as ascensões de Thatcher, em 1979, Reagan em 1980 e Kohl em 1982). Ela destaca quarenta anos de insatisfações, em contraposição aos anos imediatamente posteriores à Guerra. Faz alusão às semelhanças entre os climas da ascensão do fascismo e do nazismo com o clima hoje existe em, no mínimo, setenta países. Esses sintomas foram agravados com a crise de 2008 e com a generalização da propagação de falsas verdades, as famosas fake news.

10. Este capítulo é dedicado à Venezuela de Chávez e Maduro e sobre as origens do bolivarianismo. Uma bela análise em que condena a política de ameaças de Trump a Maduro.

11. O capítulo é dedicado à Turquia e ao presidente Erdogan.

12. Interessante capítulo sobre a Rússia pós 1991. Todo o destaque vai para Putin e aos problemas que ele enfrenta e como os enfrenta. Putin é sempre um amigo de governos autoritários.

13. O capítulo versa sobre a União Europeia, seus avanços, dificuldades e crises. Orban da Hungria é o personagem mais retratado. Os inimigos de Bruxelas.

14. Capítulo dedicado aos problemas da Coreia, desde a Guerra Fria, com destaque para a única família no poder, desde aqueles tempos, até os dias de hoje na Coreia do Norte. É claro que o líder Kim Jong-un e a sua política de armas nucleares é o personagem central.

15. O presidente do título é Donald Trump, "o primeiro presidente antidemocrático da história moderna dos EUA". O capítulo termina com uma advertência de Primo Levi, um raro sobrevivente de Auschwitz, sobre os sintomas do fascismo que se manifesta "não só através do terror da intimidação policial, mas pela negação e distorção das informações, pelo enfraquecimento dos sistemas de justiça, pela paralisação do sistema educacional e pela disseminação, de várias formas sutis, da nostalgia por um mundo onde reinava a ordem". Os sintomas estão visíveis.

16. O capítulo apresenta as percepções da autora sobre o mundo atual, em que, lamentavelmente, predominam os aspectos negativos.

17. Um grande capítulo final, o capítulo do grande alerta, do subtítulo do livro. Uma interrogação fundamental paira sobre o capítulo, bem como sobre todo o livro: Quando começa o fascismo? Quando "queremos que nos digam para onde marchar". Eis a resposta. É quando perdemos a capacidade da autodeterminação e, cegamente, obedecemos. Comando e massa unificados. Essa sempre foi a senha. É quando morreu a contradição. Quando ocorre a sintonia absoluta e inquestionável entre quem manda e quem obedece. Aí mora o perigo. As pré-adesões, com a ausência da crítica e da deliberação.

A resenha ficou um pouco longa, mas foi o meu desejo de fazer a provocação para a leitura por meio desse aperitivo do livro. E, para os meus amigos professores dos cursos de relações internacionais, ligados à geopolítica e disciplinas afins. Eis um programa de aulas pronto, quase completo. Leitura imperdível. Sim, uma última observação. O livro é escrito em parceria com o grande jornalista Bill Woodward. Quanto ao olhar, o ponto de observação do livro, apresento uma frase da autora: "Ninguém que um dia tenha estado em um cargo de confiança, inclusive eu mesma, pode olhar para trás sem arrependimento pelos muitos problemas deixados sem resolução". p. 223. Ela enxerga o mundo a partir de sua morada e da cultura de seu entorno.

terça-feira, 16 de março de 2021

O Brasil no espectro de uma Guerra Híbrida. Piero Leirner.

Procurando compreender os bastidores da política brasileira recente, mais precisamente após o golpe 2016 e a eleição de Bolsonaro em 2018, me deparei, entre outros, ao menos com três livros bem interessantes: Bolsonaro - o mito e o sintoma, de Rubens Casara, A República das milícias - dos esquadrões da morte à era Bolsonaro, de Bruno Paes Manso e, por último, O Brasil no espectro de uma Guerra Híbrida - militares, operações psicológicas e política em uma perspectiva etnográfica. Três livros profundamente reveladores e impactantes.

O Brasil no espectro de uma guerra híbrida. Piero Leirner. Alameda 2020.

A República das milícias e O Brasil no espectro de uma Guerra Híbrida tem em comum o delicado tema da ação das forças armadas. Em ambos, são os herdeiros dos militares da chamada "linha dura", dos "anos de chumbo" que são os protagonistas. Militares inconformados e ressentidos com o desfecho do golpe de 1964, regime do qual queriam a continuidade. No primeiro livro é abordada a questão dos esquadrões da morte e a sua migração para as milícias e, no segundo, o protagonismo exercido pelo grupo, especialmente pela ação dos generais Augusto Heleno e Villas Boas nos bastidores do governo Dilma e provocando a "guerra híbrida", da qual resultou a eleição de Bolsonaro, guerra que, longe está por acabar.

Por fidelidade ao livro, apresento primeiramente a orelha do livro, numa bela síntese: "Este livro trata de um tema novo, a assim chamada Guerra Híbrida, e o modo que ela está sendo realizada no Brasil. Não se trata de uma "guerra clássica", com fogo, mas de uma guerra que visa sobretudo a captura e neutralização de mentes. Suas "bombas" são antes de tudo informacionais, visam causar dissonâncias cognitivas e induzir as pessoas a vieses comportamentais: percepção, decisão e ação passam a trabalhar a favor de quem ataca. Seu objetivo último é o que se chama nas teorias desse tipo de guerra de uma "dominação de espectro total". Essa ideia de "totalidade" está no âmago da Guerra Híbrida: não há mais a separação entre guerra e política, ou "tempo de guerra/tempo de paz"; todos passam a ser, voluntária ou involuntariamente, combatentes; e não se vê exatamente nem seu princípio, nem seu fim.

A hipótese central aqui levantada é que o Brasil foi, e é, um laboratório onde este modelo foi aplicado. Embora estejamos falando de algo que remonte a vários fenômenos que atravessaram a última década - sociais, políticos, culturais e militares - constatou-se aqui o acionamento de elementos que estavam latentes há muito tempo. O caso aqui estudado leva a um dos protagonistas principais desta forma de guerra e sua estratégia: um certo grupo de militares, operações psicológicas e o modo como isso se disseminou na política. O resultado, que vai muito além da eleição de 2018, é a dissonância generalizada que impera no Brasil hoje, que aqui segue um dos conceitos centrais da Guerra Híbrida - a cismogênese".

É um livro complexo e exige muitos pré-requisitos para a sua leitura, especialmente no campo da teoria. O livro tem um prefácio, de Marco Antônio Gonçalves, sob o título Adeus Tocqueville! A Guerra Híbrida e novos sentidos da democracia, que fala da retomada do poder pelos militares e da forma como isso foi feito, especialmente pelo uso das redes sociais. Tem-se nele o primeiro contato com os termos Guerra Híbrida e Cismogênese.

O livro está estruturado em três capítulos, precedidos por uma longa introdução e sucedidos por uma conclusão, que bem poderia também ser o capítulo final do livro. Os três capítulos tem por título: 1. O lugar do antropólogo; 2. O lugar da guerra: problemas conceituais e terminológicos; 3. A cismogênese Dilma - militares e além. A conclusão leva por título o termo alemão Blitzkrieg.

Na introdução temos uma breve análise de conjuntura dos fatos, a partir de 2014, como a Lava Jato, Comissão da Verdade e o governo Dilma e a relação com os militares; as palestras de Olavo de Carvalho no Clube Militar, as paranoias em torno do Foro de São Paulo, as ações do Poder Judiciário em orquestração com os setores militares; estes e a Guerra Híbrida e, ainda, a relação entre etnografia, Guerra Híbrida e redes sociais.

No capítulo primeiro o foco vai para os estudos que os antropólogos fazem dos movimentos militares, para estudar em profundidade a sua cultura e o seu pensamento, chegando até o novo momento das guerras, que são as Guerras Híbridas, com o aprisionamento das mentes pela produção de consensos em torno das novas formas das operações militares. Um capítulo de muita história dos últimos movimentos militares, especialmente por parte dos Estados Unidos.

No segundo capítulo é apresentado o Estado neoliberal, que para transferir a renda para o 1% privilegiado da sociedade, em favor dos papeis e contra a produção e o trabalho, precisa de uma guerra total e permanente e da militarização do Estado. Isso só pode ser atingido por uma nova forma de fazer a guerra, a Guerra Híbrida, com o captar das mentes. O caso brasileiro, a partir de 2013. passa a ser o tema abordado.

Creio que a maior razão de ser do livro é o seu capítulo terceiro: A cismogênese Dilma, em que são analisadas as células que se formam nos meios militares, a sua observação das ações do governo da "ex-guerrilheira"  e a "janela de oportunidades" que se abre para o personagem Jair Bolsonaro. Ó capítulo é uma extraordinária contextualização dos fatos e dos personagens envolvidos. Chama a atenção também a fraca percepção das ações militares pelo governo Dilma, especialmente pelos Ministérios da Justiça e da Defesa.

Na conclusão continua a análise da fraca percepção da movimentação dos militares contra o governo Dilma, uma breve análise do governo Temer e a captura de sua pauta das reformas, com a intervenção militar no Rio de Janeiro e o direcionamento do mercado em favor da campanha da candidatura de Bolsonaro. Por fim detalhes da campanha.

Piero Leirner também merece uma palavra. Que pesquisa! Que pesquisador! Na orelha da contracapa lemos: "Piero Leirner é Doutor em Antropologia pela USP e Professor Titular do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFS-Car. Estuda temas relacionados aos militares, guerras e hierarquia desde o começo da década de 1990. Super recomendo a leitura.

quarta-feira, 10 de março de 2021

SAPIENS. Uma breve história da humanidade. Yuval Noah Harari.

Há uns dois anos fui consultar um oftalmologista. Coisas de rotina, nada de especial. A conversa, por óbvio, girou em torno de leituras. Falei das minhas preferências pelos clássicos, das biografias, dos romances históricos e dos livros de teoria política. Ele, por sua vez, confessou todo o seu entusiasmo pelo best seller do Yuval Noah Harari, Sapiens - Uma breve história da humanidade. Falei que não conhecia o livro e prometi que iria lê-lo.

Sapiens - Uma breve história da humanidade. 2020. L&PM. Tradução de Janaína Marcoantonio.

Tenho uma certa prevenção com relação a best sellers e dificilmente os leio. Mas agora, lendo o livro do Juremir Machado da Silva, Raízes do conservadorismo brasileiro - a abolição na imprensa e no imaginário social, vi referências muito elogiosas ao livro e, como o Juremir tem bons créditos comigo, li o livro. O projeto do livro é realmente grandioso. Não deve ser nada fácil querer condensar toda a história do Homo sapiens em apenas 459 páginas. Mas o Yuval o conseguiu.

Para a primeira apresentação tomo a contracapa do livro: "O que possibilitou ao Homo sapiens subjugar as demais espécies? O que nos torna capazes das mais belas obras de arte, dos avanços científicos mais impensáveis e das mais horripilantes guerras?

Nossa capacidade imaginativa. Somos a única espécie que acredita em coisas que não existem na natureza, como Estados, dinheiro e direitos humanos.

Partindo dessa ideia, Yuval Noah Harari, doutor em história pela Universidade de Oxford, aborda em Sapiens a história da humanidade sob uma perspectiva inovadora. Explica que o capitalismo é a mais bem sucedida religião; que o imperialismo é o sistema político mais lucrativo; que nós, humanos modernos, embora sejamos muito mais poderosos que nossos ancestrais, provavelmente não somos mais felizes.

Um relato eletrizante sobre a aventura de nossa extraordinária espécie - de primatas insignificantes a senhores do mundo".

Essa eletrizante aventura é narrada em quatro partes e ao longo de vinte capítulos. Na primeira parte é apresentada a Revolução Cognitiva. Ela nos é descrita em quatro capítulos, a saber: 1. Um animal insignificante; 2. A árvore do conhecimento; 3. Um dia na vida de Adão e Eva; 4. A inundação.

Na parte dois, outra revolução nos é apresentada, a Revolução Agrícola. Também ela nos é mostrada em quatro capítulos: 5. A maior fraude da história (Seria o sedentarismo?); 6. Construindo pirâmides; 7. Sobrecarga de memória; 8.  Não existe justiça na história.

Na parte três, o autor nos apresenta o que ele chama de: A unificação da história, contada ao longo de cinco capítulos: 9. A seta da história; 10. O cheiro do dinheiro; 11. Visões imperiais; 12. A lei da religião; 13. O segredo do sucesso.

Na quarta parte, estamos de volta com as revoluções. Dessa vez nos é apresentada a Revolução Científica, esta em sete capítulos: 14. A descoberta da ignorância; 15. O casamento entre ciência e império; 16. O credo capitalista; 17. As engrenagens da indústria; 18.  Uma revolução permanente; 19. E eles viveram felizes para sempre; 20 O fim do Homo sapiens. Por fim o epílogo, de apenas uma página e meia, O animal que se tornou um deus nos é apresentado.

Na contracapa também lemos a nota do Financial Times, de que "Este livro fascinante não pode ser resumido; você simplesmente terá de lê-lo". Também eu tomo esse caminho, mas não sem antes apontar para três capítulos irretocáveis. Os de número oito, sobre as injustiças das desigualdades entre os homens ao longo de toda a história, o de número 16, sobre o credo capitalista, em que ele conta a história da Holanda, para depois nos mostrar o inferno do mundo da ganância e o de número 19, onde mostra as relações entre a economia, o progresso e a felicidade.

Como costumo deixar um ou dois parágrafos como aperitivo para a leitura, tomo dois, já da parte final do livro. O primeiro, do capítulo 19 em que o autor nos faz este belo questionamento: "Nosso mundo moderno se orgulha de reconhecer, pela primeira vez na história, a igualdade elementar entre todos os humanos, porém pode estar prestes a criar a sociedade mais desigual de todas. Ao longo da história, as classes superiores sempre afirmaram ser mais inteligentes, mais fortes e, em geral, melhores do que as classes inferiores. Normalmente, elas estavam se iludindo. Um bebê nascido em uma família camponesa pobre tendia a ser tão inteligente quanto o príncipe-herdeiro. Com a ajuda de novas capacidades médicas, as pretensões das classes superiores podem logo se tornar uma realidade objetiva". p. 422.  Eita  Admirável mundo novo!

O segundo, é o parágrafo final do livro: "Além disso, apesar das coisas impressionantes de que os humanos são capazes de fazer, nós continuamos sem saber ao certo quais são nossos objetivos e, ao que parece, estamos insatisfeitos como sempre. Avançamos de canoas a galés a navios a vapor e naves espaciais - mas ninguém sabe para onde estamos indo. Somos mais poderosos do que nunca, mas temos pouca ideia do que fazer com todo esse poder. O que é ainda pior, os humanos parecem mais irresponsáveis do que nunca.  Deuses por mérito próprio, contando apenas com as leis da física para nos fazer companhia, não prestamos conta a ninguém. Em consequência, estamos destruindo os outros animais e o ecossistema à nossa volta, visando a não muito mais do que nosso próprio conforto e divertimento, mas jamais encontrando satisfação. Existe algo mais perigoso do que deuses insatisfeitos e irresponsáveis que não sabem o que querem?". pp. 427-8.



terça-feira, 2 de março de 2021

Racismo estrutural. Sílvio Almeida.

A leitura necessariamente chama ou clama por novas leituras. Lendo sobre a questão da escravidão, e a sua permanência dentro da realidade brasileira, mais cedo ou mais tarde, você se depara com o livro de Sílvio Almeida, Racismo estrutural. O livro é extraordinário e, como o título define, o fenômeno do racismo é visto em sua forma estrutural, isto é, ele está nas entranhas do sistema capitalista, colonialista, imperialista, sistema em que estamos inseridos, quer queiramos ou não.
Racismo estrutural. Sílvio Almeida. Jandaíra. 2020. Coleção Femismos Plurais.

Na orelha do livro, Marcelo Paixão, professor do Departamento de Estudos Africanos e Afro-diaspóricos da Universidade de Austin, do Texas, e que foi debatedor com o Sílvio Almeida numa comunicação sobre o movimento negro na Universidade de Harvard, assim se expressou sobre o livro: "O livro Racismo estrutural reflete o que ouvi naquela apresentação. E, como tal, é uma importante contribuição de um jovem intelectual negro para o avanço do pensamento social do país rumo a novas abordagens mais críticas e ousadas sobre os antigos, novos e novíssimos problemas enfrentados pelo Brasil". A partir disso eu faço a minha confissão: com a leitura do livro, pela primeira vez, também eu me senti nesta Universidade, entre os presentes à palestra.

O livro todo é maravilhoso. O encanto me veio já a partir das primeiras páginas, quando o autor fala sobre raça e racismo, de uma perspectiva histórica. Assinalo dois parágrafos que para mim se constituíram na chave para a compreensão do livro. Eles põem em cheque o processo civilizatório do mundo moderno, do projeto do iluminismo. A fundamentação está em Achile Mbembe. São eles: "Achile Mbembe afirma que o colonialismo foi um projeto de universalização, cuja finalidade era 'inscrever os colonizados no espaço da modernidade'. Porém, a 'vulgaridade, a brutalidade tão habitualmente desenvolvida e sua má-fé fizeram do colonialismo um exemplo perfeito de anti-liberalismo'. No século XVIII, mais precisamente a partir do ano de 1791, o projeto de civilização iluminista baseada na liberdade e igualdade universais encontraria sua grande encruzilhada: a Revolução Haitiana". E continua:

"O povo negro haitiano, escravizado por colonizadores franceses, fez uma revolução para que as promessas de liberdade e igualdade universais fundadas na Revolução Francesa fossem estendidas a eles, assim como foram contra um poder que consideraram tirano, pois negava-lhes a liberdade e não lhes reconhecia a igualdade. O resultado foi que os haitianos tomaram o controle do país e proclamaram a independência em 1804" p. 27. Pronto estava instaurado o mundo moderno. O iluminismo virou capitalismo, colonialismo, nacionalismo, imperialismo, escravidão, racismo, apartheid e toda a sorte de dominações e sofrimentos.

A negação dos princípios da liberdade e da igualdade se instauraram nas entranhas da estrutura capitalista em seu todo. Logo o iluminismo se consorciou com o positivismo e procurou legitimar todo o sistema de opressão em nome do processo civilizatório. Além de mostrar essas preciosas observações históricas, o cerne do livro está ancorado em quatro capítulos essenciais, dos quais apresento a estrutura. São eles: 1. Racismo e Ideologia; 2. Racismo e Política; 3. Racismo e Direito; 4.Racismo e Economia. Vamos começar pelo primeiro: racismo e ideologia: Como naturalizamos o racismo; racismo, ideologia  e estrutura social; racismo ciência e cultura; branco tem raça?; racismo e  meritocracia.

O segundo desses capítulos é racismo e política: Mas o que é o Estado?; Estado e racismo nas teorias liberais; Estado poder e capitalismo; raça e nação; representatividade importa?; da biopolítica à necropolítica; racismo e necropolítica. O terceiro capítulo aborda: racismo e o direito. O que é direito?; o direito como justiça; o direito como norma; o direito como poder; o direito como relação social; raça e legalidade; direito e antirracismo.

O quarto capítulo é dos mais importantes, mostrando o entrelaçamento entre o racismo e a economia. As questões levantadas e debatidas são: racismo e desigualdade; uma visão estrutural do racismo e da economia; racismo e subsunção real do trabalho ao capital; o racismo e sua especificidade; sobre a herança da escravidão; classe ou raça?; racismo e desenvolvimento; crise e racismo; o que é a crise, afinal?; o racismo e as crises; o 'grande pânico' de 1873; o imperialismo e neocolonialismo; a crise de 1929, o Welfare State e a nova forma do racismo; neoliberalismo e  racismo.

É a essência do livro, mostrando as interligações do racismo com a ideologia, com a política, com o direito e com a economia. Depois disso é impossível não dizer que o racismo é efetivamente estrutural. O livro é acompanhado de muitas análises históricas e dos melhores referenciais teóricos sobre os temas abordados.

A leitura me fez lembrar de aulas de filosofia que eu dei e me fez buscar duas anotações que fiz ao pé da página do manual de filosofia da Marilena Chauí, Convite à Filosofia, que eu usava muito. A primeira é a frase de Marx, que chama para a necessidade do estudo e da investigação científica; "Se a aparência fosse igual à essência, não haveria a necessidade da ciência" e a segunda é a anotação de quatro palavras, com as quais pode ser instaurada ou explicitada uma base para a dominação e a submissão. São elas: dividir, hierarquizar, naturalizar e universalizar.

E como aperitivo provocativo para a leitura do livro, um parágrafo que fala do atualíssimo tema da austeridade fiscal e de suas consequências: "Chama-se por austeridade fiscal o corte das fontes de financiamento dos direitos sociais a fim de transferir parte do orçamento público para o setor financeiro privado por meio dos juros da dívida pública. Em nome de uma pretensa 'responsabilidade fiscal', segue-se a onda de privatizações, precarização do trabalho e desregulamentação de setores da economia. Do ponto de vista ideológico, a produção de um discurso justificador da destruição de um sistema histórico de proteção social revela a associação entre parte dos proprietários dos meios de comunicação de massa e o capital financeiro: o discurso ideológico do empreendedorismo - que, na maioria das vezes, serve para legitimar o desmonte da rede de proteção social de trabalhadoras e trabalhadores -, da meritocracia, do fim do emprego e da liberdade econômica como liberdade política são diuturnamente  martelados nos telejornais e até nos programas de entretenimento.

Ao mesmo tempo naturaliza-se a figura do inimigo, do bandido que ameaça a integridade social, distraindo a sociedade que, amedrontada pelos programas policiais e pelo noticiário, aceita a intervenção repressiva do Estado em nome da segurança, mas que, na verdade, servirá para conter o inconformismo social diante do esgarçamento provocado pela gestão neoliberal do capitalismo. Mais do que isso, o regime de acumulação que alguns denominam de pós-fordista dependerá cada vez mais da supressão da democracia". p. 206. O livro, entre capítulos e notas, tem 255 páginas.

Por fim a contracapa do livro, por ser bem ilustrativa: "Racismo estrutural traz reflexões inovadoras acerca da construção das noções de raça e racismo.  Depois de fornecer argumentos e tecnologias para a escravidão e o colonialismo, tais conceitos desafiam as sociedades contemporâneas como o Brasil, onde crescem anseios por igualdade racial. A indagação central da obra exige resposta complexa, englobando aspectos históricos, políticos, sociais, jurídicos, institucionais. O autor nos convida à sua demonstração, tecida em análises feitas à luz da Filosofia, da Ciência Política, da Economia e da Teoria do Direito. Com escrita sedutora e admirável erudição, Sílvio Almeida finca o produtivo conceito de racismo estrutural. 

Seu livro constitui-se, desde já, em importante referência para a educação antirracista, calcada nos valores da igualdade, da liberdade e do direito à vida". A referência é da professora Lígia Fonseca Ferreira, da UNIFESP. Sílvio Almeida é professor e advogado, com pós doutorado pela Faculdade de Direito da USP, do Largo de São Francisco.

sábado, 27 de fevereiro de 2021

A República das milícias. Dos esquadrões da morte à era Bolsonaro. Bruno Paes Manso.

Normalmente quando converso com o deputado Tadeu Veneri, trocamos ideias sobre livros que estamos lendo. Desta vez não foi diferente. Eu falava para ele do livro do Rubens Casara, Bolsonaro - o mito e o sintoma e ele me falou de A República das milícias - dos esquadrões da morte à era Bolsonaro, de Bruno Paes Manso. Já conhecia o autor por outro livro seu, sobre a formação e ascensão do PCC, A Guerra - A ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil, escrito em parceria com Camila Nunes Dias. Deixo o link dos dois livros. Primeiro o de A Guerra - http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/06/a-guerra-ascensao-do-pcc-e-o-mundo-do.html e em segundo, o fantástico livro do Rubens Casara. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/02/bolsonaro-o-mito-e-o-sintoma-rubens.html. Na troca de leituras nunca se tem a perder.

A República das milícias. Bruno Paes Manso. todavia. 2020.

O livro de Bruno Paes Manso, jornalista e pesquisador do Núcleo de Estudos da violência da USP, é estarrecedor. Poucas vezes o título e o subtítulo de um livro conseguem expressar tão bem a síntese de uma obra: A República das milícias - dos esquadrões da morte à era Bolsonaro. Na contracapa do livro temos dois depoimentos imperdíveis, junto com a recomendação de Fernanda Torres, de que a leitura do livro se constitui numa obrigação. Os depoimentos são de Luiz Eduardo Soares, autor de Meu casaco de general e de Paulo Lins, autor de A Cidade de Deus. Começamos com o ex-Secretário de Segurança do Rio de Janeiro:

"Esta obra rouba a inocência à boa consciência nacional. Ninguém mais poderá dizer que não sabia. A história da Nova República (após a Constituição de 1988) terá de ser contada de outro modo depois deste livro". Uma verdade. Já o autor de A Cidade de Deus, um dos palcos do livro de Manso, nos diz: "Com uma pesquisa primorosa, Bruno Paes Manso nos revela como o crime organizado chegou aos Poderes Legislativo e Executivo, tornando o Brasil um dos países mais violentos do mundo". Nada mais do que uma triste verdade.

Voltamos ao título e subtítulo, por outras palavras: Como as milícias, representadas por Bolsonaro, chegaram ao Poder. Uma longa história de violência. Tudo começou na ditadura militar, com a ala extremada das Forças Armadas, inconformada com a abertura política. A justificativa era a caça aos comunistas, para eles verdadeiros terroristas. Contra eles, toda a violência se justificaria. Violência, tortura e mortes seriam justificadas em nome da manutenção da ordem. Isso fez surgir os chamados esquadrões da morte, que rapidamente migraram para flagrar outros inimigos, que não os comunistas, mas todos os que perturbavam a ordem das "pessoas de bem". O livro se desenvolve, numa sequência lógica irretocável, ao longo de oito capítulos e uma conclusão, divididos entre as 302 páginas do livro. Eis os capítulos:

1. Apenas um miliciano; 2. Os elos entre o passado e o futuro; 3. As origens em Rio das Pedras e na Liga da Justiça; 4. Fuzis, polícia e bicho; 5. Facções e a guerras dos tronos; 6. Marielle e Marcelo; 7. As milícias 5G e o novo inimigo em Comum; 8. Cruz, Ustra, Olavo e a ascensão do capitão - e a conclusão sob o nome de Ubantu, a filosofia que inspirou Nelson Mandela e o bispo Desmond Tutu.

O primeiro capítulo é marcado por uma entrevista com um miliciano, que expõe toda a filosofia que inspira estes grupos de contravenção em nome da manutenção da ordem, da justificativa da violência para impor a ordem. Fala do nascimento das milícias, com a junção de alas ressentidas do exército com as bandas podres das polícias militares, de suas alianças no combate ao Comando Vermelho.  Também mostra as formas de arrecadação que dão sustentação à organização. Fala também da intervenção das Forças Armadas no Rio de Janeiro. O segundo capítulo é dedicado à formação das milícias na cidade do Rio de Janeiro, a partir da expansão da cidade para Jacarepaguá e Cidade de Deus. Mostra ainda os principais envolvidos, dando destaque para o clã familiar de Bolsonaro. A comoção pela morte de Tim Lopes cria um clima favorável à existência dos justiceiros.

No terceiro capítulo entra em cena a organização da entidade em torno de Rio das Pedras e da Liga da Justiça, como os embriões e cernes da organização. Mostra as formas da organização, da arrecadação e da sua "aliança" com o povo para lhe oferecer proteção. Invasão de áreas, transporte clandestino, construção de lajes, gatonet, venda de gás, achaques e subornos são as principais formas de arrecadação. Tudo em nome da autodefesa das comunidades, contra o poder dos traficantes. No quarto capítulo é mostrada a sua constituição com a união de militares ressentidos com os policiais da banda podre e o jogo do bicho e também com os traficantes não pertencentes ao Comando Vermelho. O pesado mercado de armas também entra em cena. É nesse tempo que nasce o bordão "Bandido bom é bandido morto", nem que seja morto por outro bandido.

No quinto capítulo são mostradas as principais organizações criminosas, como o Comando Vermelho, a ADA e o Terceiro Comando. Ao contrário de São Paulo, onde o PCC se tornou hegemônico no mundo do crime, no Rio de Janeiro nenhuma organização conseguiu se impor. Em meio a essas disputas surge a organização das milícias em aliança com os demais grupos, mais o jogo do bicho,. Todos contra o Comando Vermelho, o que é mostrado no sétimo capítulo. Nesse sétimo capítulo também são mostrados os traficantes evangélicos e os 'Bondes de Jesus', uma verdadeira e inimaginável história de horrores. Também é mostrada a relação com os governadores e as suas políticas de Segurança Pública. Voltando um pouco, o sexto capítulo é dedicado a Marielle e Marcelo, e por extensão, ao PSOL e Marcelo Freixo, em particular. Este sexto capítulo termina com as eleições de 2018 e a ascensão de Bolsonaro, Witzel, Flávio e, o hoje em evidência, Daniel Silveira.

O oitavo capítulo, creio que foi o motivo maior do comentário de Luiz Eduardo Soares, de que ninguém mais poderia se confessar inocente. São devassadas as vidas do entorno de Jair Bolsonaro, as bases de sua formação e o seu sujo e antidemocrático projeto político. No seu entorno estão o general Newton Cruz, Brilhante Ustra, Olavo de Carvalho e o general Mourão, uma síntese de Ustra e Olavo. Bem pior do que se imagina. 

De Ubantu tomo uma frase, entre as mais significativas: "Bolsonaro venceu a eleição em 2018 porque parte dos brasileiros foi seduzida pela ideia da violência redentora. Diante da crise econômica e da descrença na política, os eleitores escolheram um justiceiro para governá-los. Como se o país decidisse abandonar suas instituições democráticas para se tornar uma enorme Rio das Pedras gerida por princípios milicianos.

Sem dúvida, há espaço para aprender e amadurecer depois do surto bolsonarista. A tristeza e a depressão chegaram porque o Brasil prometido pela Nova República não aconteceu. Bolsonaro foi o sintoma dessa desesperança". Que sintoma! O momento final do livro é uma homenagem a Marielle: 'Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe'? "Bolsonaro veio com a proposta de acirrar a guerra. O surto que levou os eleitores a optar por essa via já faz parte da história brasileira, mas, se tudo der certo, será passageiro. Permanece a mensagem deixada por Marielle, a apontar o único caminho possível".

Concluo com a convocação de Fernanda Torres: "A República das milícias é leitura obrigatória" e a citação de uma frase de Leonardo Boff: "Se os pobres deste país soubessem o que estão preparando para eles, não haveria rua onde coubesse tanta gente para protestar". Este livro faz saber o que estão preparando.


 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Admirável mundo novo. Aldous Huxley.

Quem lê Contraponto, de Aldous Huxley, também lê, do mesmo autor, Admirável Mundo Novo. Huxley é um dos mais refinados e eruditos escritores que a literatura universal conheceu. Há muito que eu pretendia lê-lo, mas sempre adiava o projeto. Desde os tempos da leitura do Érico Veríssimo eu me interessava no Contraponto, em virtude da tradução ser do próprio Veríssimo. Deixo a resenha. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/01/contraponto-aldous-huxley.html. Admirável mundo novo possivelmente seja a sua obra mais conhecida e famosa.

Admirável mundo novo. Biblioteca azul da editora Globo. Tradução de Vidal de Oliveira.

O livro é famoso e todos sabem que fala sobre a sociedade do futuro e sobre condicionamentos. Em geral o seu conhecimento para por aí. Não é leitura fácil. É obra para leitores. Descreve sim, a sociedade do futuro, mais precisamente, a sociedade a partir do ano de 632, depois de Ford. Ford, com certeza, é uma das inspirações maiores da obra, a linha de produção em série de seu Ford T. Creio ser fácil imaginar a associação dessa ideia para uma transposição para os humanos. É disso que se ocupam os primeiros capítulos, o centro de incubação e condicionamentos, a sala de decantação, aceitações por repetição à exaustão, uso de psicóticos para a felicidade, o onipresente soma.

O livro foi escrito no ano de 1931. Contraponto é anterior, de 1928. Que tempos! Um mundo entre duas guerras, a grande debacle econômica e a ascensão do nazi fascismo no seu entorno europeu. Vivia, nessa época, em Londres. Mais tarde irá morar nos Estados Unidos. Lembrando que O mal estar na civilização, de Freud, é de 1930. É o clima. Um mundo de automações, de mecanização, de massificação e padronização de comportamentos, que começam a ser ditados pelo famoso modo de viver dos Estados Unidos.

Para a presente resenha, apresento primeiramente três parágrafos da orelha da capa para depois apresentar alguns trechos que julguei mais relevantes para a compreensão do livro. Vamos à contracapa: "A terra agora se divide em dez grandes regiões administrativas. A população de dois bilhões de seres humanos é formada por castas com traços distintivos manipulados pela engenharia genética: nos laboratórios são definidos os pouco dotados, destinados aos rigores do trabalho braçal, e também os que crescem para comandar. Não há espaço para a surpresa, para o imprevisto. O slogan 'comunidade, identidade e estabilidade' sustenta a trama do tecido social. Estamos no ano de 632 depois de Ford - aquele da linha de produção de automóveis -, quando o amor é proibido e o sexo, estimulado.

Tais ingredientes levaram Admirável mundo novo a figurar ao lado de 1984, de George Orwell, e Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, como uma das principais obras antiutópicas do século XX, em que um futuro sombrio aguarda a humanidade. Alguns ainda veem a ficção de Huxley, esse inglês refinado e cultíssimo, uma crítica à crescente influência americana no período entreguerras, que trazia a reboque a cultura de massas e o american way of life.

Este é, acima de tudo, um romance de ideias, que descreve as formas mais sutis e engenhosas que o pesadelo do totalitarismo pode assumir, e que resiste inexpugnável às interpretações político-ideológicas de esquerda ou direita suscitadas desde seu lançamento. Mundialismo, controle genético, adestramento comportamental e intoxicação coletiva não são dados soltos para a mente construir com eles uma utopia: são os órgãos solidários e inseparáveis de um único sistema. Onde quer que apareça um deles, os outros seguirão, mais cedo ou mais tarde. A lógica deste romance imita e condensa a lógica da História. E Huxley, desenvolvendo a sensibilidade a ponto de criar esse retrato ainda hoje tão perturbador, tornou-se o autor de um dos grandes clássicos da literatura mundial".

Bem, vamos aos trechos selecionados, lembrando antes, alguns personagens centrais e uma pequena contextualização. Lenina e Bernard Marx. Estes tiram férias no Novo México e encontram Linda e o seu filho (uma palavra proibida) John e os levam para lhes apresentar o Admirável mundo novo (o termo aparece pela primeira vez na página 171). Destacaria ainda Helmholtz, o amigo de Bernard e Mustafá Monde, o administrador de Sua Fordeza. Eu diria que Ford ocupa, mais ou menos, a figura de Jesus, nessa nova civilização. A religião, como tudo o que é antigo, está condenado a desaparecer. Na página 284 encontramos uma explicação importante: "O cristianismo sem lágrimas, eis o que é o soma". Soma é o remédio que anestesia todos os problemas. Mas vamos aos trechos selecionados. No primeiro, Mustafá Mond explica ao selvagem John, o que é o admirável mundo novo:

"...Porque o nosso mundo não é o mesmo mundo de Otelo (Shakespeare - onipresente na obra). Não se pode fazer um calhambeque sem aço, e não se pode fazer uma tragédia sem instabilidade social. O mundo agora é estável. As pessoas são felizes, têm o que desejam e nunca desejam o que não podem ter. Sentem-se bem, estão em segurança; nunca adoecem; não tem medo da morte; vivem na ditosa ignorância da paixão e da velhice; não se acham sobrecarregados de pais e mães; não tem esposas, nem filhos, nem amantes por quem possam sofrer emoções violentas; são condicionadas de tal modo que praticamente não podem deixar de se portar como devem. E se, por acaso, alguma coisa andar mal, há o soma. Que o senhor atira pela janela em nome da liberdade, senhor Selvagem. Da liberdade! - riu. Espero que os Deltas saibam o que é a liberdade! E agora quer que eles compreendam Otelo! Meu caro jovem". p. 264.

Também há solução para os que não se adaptam ao sistema. Mustafá Mond conta ao Selvagem a experiência do Chipre: "Pois, se quiser, pode chamar-lhe de experiência de reenfrascamento. Começou no ano de 473 d.F. Os administradores fizeram evacuar a ilha de Chipre e, uma vez retirados todos os seus habitantes, recolonizaram-na com um lote especialmente preparado de vinte e dois mil Alfas. Entregaram-lhes todo um equipamento agrícola e industrial, e deixaram-lhes a responsabilidade de dirigir os negócios. O resultado correspondeu exatamente a todas as predições teóricas. A terra não era convenientemente trabalhada; houve greves em todas as fábricas; as leis eram desrespeitadas, as ordens, desobedecidas; todas as pessoas destacadas para um serviço inferior passavam o tempo fazendo intrigas para obter cargos mais elevados e todas as pessoas que ocupavam cargos mais elevados tramavam contraintrigas para, a qualquer preço, ficar onde estavam. Em menos de seis anos, viram-se às voltas com uma guerra civil de primeira ordem. Quando, dos vinte e dois mil, dezenove mil tinham sido mortos, os sobreviventes fizeram uma petição unânime aos Administradores Mundiais para que estes retomassem o governo da ilha, o que foi feito. E assim acabou a única sociedade de Alfas que o mundo viu. p.267-8.

Também a redução da jornada de trabalho não deu certo: "Que mais poderiam pedir? É verdade - acrescentou - que poderiam pedir uma jornada de trabalho mais curta. E, por certo, nós poderíamos concedê-la. Do ponto de vista técnico, seria perfeitamente possível reduzir a três ou quatro horas a jornada  de trabalho das castas inferiores.. Mas isso as faria mais felizes? Não, de modo algum. A experiência foi tentada há mais de século e meio. Toda a Irlanda foi  foi submetida ao regime de quatro horas de trabalho diário. Qual o resultado? Perturbações e um acréscimo considerável do consumo de soma, nada mais....p. 268-9.

Uma última observação. Os principais temas humanos são tratados ao longo dos 18 capítulos do livro. Temas como o amor, a família, o luto e a morte ganham capítulos inteiros. Seria este o motivo da onipresença de citações de Shakespeare ao longo da obra? Tudo a ver. Não foi Shakespeare o escritor que melhor retrata as emoções e os sentimentos humanos? Ainda em tempo. Em 1946 o livro ganhou um prefácio do próprio autor. Nele ele explica as razões pelas quais não iria reescrever essa história. Observem bem a data. 1946. Em suma, uma das obras primas da literatura universal, com a preocupação do humano no futuro da humanidade.

PS. No livro famoso de Yuval Noah Harari, Sapiens - uma breve história da humanidade, o capítulo 19 é dedicado à felicidade. Nele, o autor comenta o livro de Huxley, na relação drogas/felicidade. Vejamos:" No romance distópico de Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo, publicado em 1932, no auge da Grande Depressão, a felicidade era o valor supremo, e os medicamentos psiquiátricos substituíam a polícia e as eleições como a base da política. A cada dia, cada pessoa toma uma dose de 'soma', um medicamento sintético que torna as pessoas felizes sem prejudicar sua produtividade e eficiência. O governo mundial, que controla o mundo inteiro, nunca é ameaçado por guerras, revoluções, greves ou manifestações, porque todas as pessoas estão extremamente satisfeitas com sua situação atual, qualquer que seja. A visão de futuro de Huxley é muito mais perturbadora do que a de George Orwell em 1984.  O mundo de Huxley parece monstruoso para a maioria dos leitores, mas é difícil explicar por quê. Todo mundo está feliz o tempo todo - o que poderia haver de errado nisso?". pp.400-1. Em 07.03.2021.

PS. Do livro Laranja mecânica, de Antony Burgess. Do prefácio de Fábio Fernandes. A trindade distópica: "Laranja mecânica faz parte de uma trindade distópica que coroa a ficção científica do século XX. O livro de Burgess divide com 1984, de George Orwell, e Admirável mundo novo, de Aldous Huxley (ambos britânicos e pouco mais velhos que ele) a honra de criar um dos cenários mais apocalípticos da literatura de todos os tempos.

Entretanto Laranja mecânica tem duas características que tornam sua narrativa mais rica e complexa: a primeira é que, embora ambientada numa Inglaterra futurista inexistente, seus elementos de extrapolação são mais próximos do mundo real do que as visões de Orwell (um mundo inteiramente dominado pelo comunismo totalitário de linha stalinista) e Huxley (uma sociedade perfeitamente rica e feliz mantida à base de manipulação genética e drogas, mas que exclui e condena à miséria quem não se adapta ao sistema). Ao extrapolar elementos específicos da sociedade penitenciária como gangues e o sistema penitenciário em vez de propor uma alteração completa na sociedade, Burgess torna o universo de Laranja mecânica mais reconhecível para o leitor - e mais próximo da realidade. Afinal, a violência está cada vez mais próxima de nós no cotidiano" (Pagina X). Em. 26. 12.2024.



sábado, 13 de fevereiro de 2021

Bolsonaro - O mito e o sintoma. Rubens Casara.

É impressionante o quanto o Rubens Casara se supera a cada livro que publica. Dele já li Estado Pós-democrático - neo-obscurantismo e gestão dos indesejáveis, livro de 2017 e Sociedade sem lei - pós-democracia, personalidade autoritária, idiotização e barbárie, de 2018. Deles fiz a resenha no blog. Agora, um pouco tardiamente, li Bolsonaro - o mito e o sintoma, uma publicação de 2020. Sob a luz da psicanálise e da teoria do neoliberalismo, redesenhado e reconfigurado aos tempos atuais, em seu mais elevado grau de perversidade, ele analisa o mito e o fenômeno Bolsonaro.

Bolsonaro - o mito e o sintoma. Contracorrente. 2020.

O neoliberalismo, na sua versão mais recente, alterou profundamente a subjetividade humana, fazendo uma verdadeira reconfiguração antropológica. Nela os seres humanos, as pessoas, ou de forma mais apropriada, os indivíduos se transformam em empresas, o "eu empresa" e a partir disso se lançam no mercado e praticam os seus valores, sendo a competição o mais elevado. É a barbárie sem nenhum limite. Nesse mercado concorrencial desaparecem todos os valores da boa convivência, a começar pelo destroçar da solidariedade, da afetividade, da compaixão, entre outros tantos valores humanos e humanizadores. São substituídos pelo ódio, pelos preconceitos enraizados em nossa formação histórica, preconceitos inconfessáveis, mas que se manifestam sorrateiramente e com orgulho incontido, pelo voto no "mito". 

Essa é a temática central do livro. Muita psicanálise, muita teoria econômica (neoliberalismo) e, acima de tudo, muita análise política, do triste momento que estamos vivendo. A obra obedece a uma lógica impecável, tanto na formal, pela sequência ordenada dos temas, quanto na dialética, pelas intricadas análises das contradições que o bolsonarismo apresenta. Isso nos explica, tanto a eleição, quanto a possibilidade de reeleição, que nos é indicada pelos permanentes 30% de aprovação, obtidos em qualquer circunstância, independentes de bom ou mau governo. Mito é a realidade fantasiosa, fora dos parâmetros da racionalidade.

Os livros anteriores aparecem, especialmente nos primeiros capítulos. Eles nos facilitam o entendimento do momento presente. Na sequência aparece a conjuntura, a análise da realidade que permitiu a ascensão do "mito", um personagem que permite a fantasia da realidade, para ao final, apresentar em dois capítulos a realidade do título, a do mito e a do sintoma. O livro termina com uma convocação para a luta em torno do "comum", palavra com a qual podemos reabilitar a convivência civilizada da humanidade. As grandes referências teóricas que perpassam o livro são os teóricos do neoliberalismo, Pierre Dardot e Christian Laval, Adorno quando se refere a questões do comportamento de massa e personalidade autoritária e Lacan, nos assuntos pertinentes à psicanálise.

Para oferecer um panorama provocativo para a leitura, apresento os títulos dos capítulos. Eles são bastante autoexplicativos. Ao final do post elenco algumas frases em destaque. Os capítulos são relativamente curtos e, como já frisamos, obedecem a uma extraordinária sequência lógica. São 20 capítulos, incluída a conclusão, que, por óbvio, é uma conclamação à reação. Os 20 capítulos estão alinhados ao longo de 157 páginas. Muitas das referências teóricas são de autores que a pouco desembarcaram no Brasil. Vamos aos capítulos, mas desde já, manifesto preferência pelo primeiro, que fala do empobrecimento subjetivo. (É uma questão particular minha, de reflexões sobre a educação em Paulo Freire, no ano de seu centenário. Reflexões sobre a construção do ser humano, pelo desvelar provocativo de todas as suas potencialidades, de uma eterna busca do "ser mais", que necessariamente passa pelo enriquecimento subjetivo, pela soma de alteridades). Mas voltemos à resenha, aos capítulos:

1.O empobrecimento do subjetivo; 2. Da "democracia de baixa intensidade" ao "Estado pós-democrático"; 3. O ponto zero: a criação do monstro Behemoth (personagem da mitologia judaica e explorado na obra de Thomas Hobbes); 4. O combate à corrupção; 5. Propaganda bolsonarista; 6. A nova obscuridade; 7. A paranoia como condição de possibilidade do bolsonarismo; 8. O desejo por autoritarismo; 9. Em busca de um líder; 10 A "nova" política.

11. A defesa do indefensável (o mito conflita com o real, com o racional e, por isso, negacionista); 11.A defesa do indefensável; 12. A autoridade populista; 13. A ignorância como matéria prima; 14. A naturalização das opressões; 15. A revolução cultural bolsonarista (uma naturalização do autoritarismo com muitas aproximações de teses nazistas. É estarrecedor); 16. O bolsonarismo judicial: a tradição autoritária e o modo neoliberal de julgar; 17. Um sub-Trump nos Trópicos; 18. Bolsonaro como mito (realizador dos sonhos infantis, ou infantilizados, de seus eleitores, sonhos fora do real, do racional - isso explica muito de sua aprovação); 19. Bolsonaro como sintoma ("A vitória eleitoral de Bolsonaro permite conhecer algo da sociedade brasileira que ela mesmo se recusa a reconhecer. A crença na violência, o racismo, o machismo, a homofobia, e o antiintelectualismo retornam na forma de voto e apoio a Bolsonaro" p. 147); 20. Conclusão: Pensar em alternativas. O governo Bolsonaro é ou não é um programa para a instauração da barbárie? Assustador.

Pelo fato de Rubens Casara ser mais conhecido no meio jurídico, apresento alguns traços biográficos que constam na orelha da contracapa do livro: "Doutor em Direito, Mestre em Ciências Penais. Estudos de pós-doutoramento na Universidade de Paris X. Professor universitário, Juiz de Direito do TJ do Rio de Janeiro e membro da Associação Juízes para a democracia "... Seleciono ainda três parágrafos do livro, transcritos na contracapa:

"O que há de novo, e revela a engenhosidade do modelo, é que essa nova forma de governabilidade que surge da crise produzida pelos efeitos do neoliberalismo (desagregação dos laços sociais, demonização da política, potencialização da concorrência/rivalidade, construção de inimigos, desestruturação dos serviços públicos etc.) promete responder a essa crise com medidas que não interferem no projeto neoliberal e, portanto, não alcançam a causa dos danos sociais que levam a cólera e ao ressentimento da população".

"Pode-se dizer que com ele (Olavo de Carvalho) nasce o 'intelectual orgânico' da ignorância. No lugar do 'marxismo cultural', Olavo faz surgir o oxímoro 'ignorância cultural'". E, "Bolsonaro é, de fato, um mito. Vota-se em Bolsonaro porque não se pode dizer o que se quer conseguir com esse voto. O apoio manifesto a Bolsonaro esconde o que não pode ser dito e justifica esse apoio".

E para concluir, tomo a convocação final: "Em suma, para superar o neoliberalismo é preciso construir uma racionalidade, uma normatividade e um imaginário do 'comum', daquilo que vale por ser construído 'por' e 'para' todos. Daquilo que, por ser comum, é inegociável. Por isso é preciso insistir na força do comum, desdemonizar a palavra e refundar o conceito de comum como objeto da política. Não é impossível". p.154. A leitura desse livre se constitui num verdadeiro ato político.

P.S. Eu iria abrir o post, com uma publicação atribuída a Emir Sader, mas não a localizei. Como a acabo de receber, a publico como um P.S. Ela nada tem a ver com o livro, mas bem reflete a irracionalidade do sistema capitalista em sua forma neoliberal: "Se um macaco acumulasse mais bananas do que pudesse comer, enquanto a maioria dos outros macacos morresse de fome, os cientistas estudariam aquele macaco para descobrir o que diabos estaria acontecendo com ele. Quando os humanos fazem isso, nós os colocamos na capa da FORBES".

Deixo também a resenha de A nova razão do mundo. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/02/a-nova-razao-do-mundo-ensaio-sobre.html Comum. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/03/comum-ensaio-sobre-revolucao-no-seculo.html


I


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Raízes do conservadorismo brasileiro. Juremir Machado da Silva.

Em novembro de 2020, o coletivo de formação da APP-Independente, em conjunto com o NESEF, da UFPR., deram início a mais um trabalho de formação. Dessa vez o curso se destinaria à formação de lideranças para a atividade sindical. O professor Gaudêncio Frigotto fez a palestra de abertura. O tema trabalhado foi "Estado, educação e sindicalismo no contexto da regressão social". Em sua fala, Frigotto fez uma série de recomendações de leitura e isso me fez retomar uma série delas. Já li e resenhei Octávio Ianni, Guido Mantega e o padre Joseph Comblin.

Entre as indicações, me chamou particular atenção a indicação de Raízes do conservadorismo brasileiro - A abolição na imprensa e no imaginário social, de Juremir Machado da Silva. Conhecia o autor pela sua biografia de Jango e pelas suas participações nos programas da Rádio Guaíba e artigos no Correio do Povo. Vi, agora, que ele não está mais na Rádio Guaíba, mas que continua no Correio do Povo. Depois que esses órgãos da imprensa gaúcha passaram a ser controlados pelo Edir Macedo, eu deixei de acompanhá-los. Vi também que ele é professor na PUC/RS, nos programas de pós-graduação nos cursos de Comunicação Social. É formado em História e em jornalismo pela mesma instituição. É mestre e doutor pela Sorbonne, tendo trabalhado sob a orientação do professor Edgar Morin.

Raízes do conservadorismo brasileiro. Juremir Machado da Silva. Civilização brasileira. 2018.


Na capa do livro, encontramos uma imagem que está no Instituto Moreira Salles - "Negra com criança nas costas", Bahia,c. 1870. Registro isso, para dizer que o tema central do livro é a escravidão, ou como lemos no subtítulo, mais precisamente a abolição. É um mergulho no antes, no fato em si da abolição e também um pouco no seu período posterior. Daí o belo título Raízes do conservadorismo brasileiro. Foram quatro anos de pesquisa, 38 capítulos, divididos entre as 446 páginas do livro. 

Ao longo da obra o autor examina essencialmente os discursos parlamentares e os artigos da imprensa que foram proferidos e escritos na época da abolição, começando pelas leis que a antecederam e que basicamente tinham o interesse em protelá-la. Foi um trabalho árduo. Entre os parlamentares o grande destaque - a favor da abolição - foram os discursos de Rui Barbosa e de Joaquim Nabuco. Já entre os contrários, vou me ater a três nomes, o escritor José de Alencar, o paulista Senador Paulino de Souza e o barão de Cotegipe. Nas atividades de imprensa o destaque vai para três personagens negros: Luiz Gama, André Rebouças e José do Patrocínio.

Perpassa todo o livro o desmonte do argumento principal em favor da escravidão, que é a defesa do "inviolável" direito de propriedade. Todos os protelamentos se basearam nessa argumentação. E, em seu nome, ainda lutaram até as últimas forças, pelo direito de indenização pelo Estado. Neste ato não foram bem sucedidos. O argumento em favor da abolição sempre foi o de que não pode haver "mercadorias humanas". Os horrores do tráfico e da escravidão estão bem presentes e ganha também destaque a atuação das forças institucionais como o exército e o Poder Judiciário a favor da manutenção de tão nefasto e imoral privilégio. Esse contexto todo merece muito a leitura do livro. É uma entrada nos meandros jurídicos.

Também a literatura ganha um capítulo, com atenção especial para Machado de Assis, José Lins do Rego e Josué Montello. É, como lemos no subtítulo, A abolição na imprensa e no imaginário social. Para uma melhor visão da obra, destaco um parágrafo da orelha do livro: "Ciente de que a liberdade não foi uma concessão, mas uma árdua conquista das pessoas negras, o autor demonstra como a estrutura do capitalismo comercial escravista se traduziu - e ressoa ainda hoje - numa intrincada legislação, elaborada para atender a determinados interesses, e num imaginário cultural e ideológico, edificado para justificar a manutenção de privilégios - mesmo que isso implicasse, na época, a desumanização e a coisificação das pessoas".

Para dar uma melhor ideia em torno do livro, dou o nome dos capítulos, embora eles sejam muitos: 1.  Manchetes da segunda feira, 14 de maio de 1888; 2. Parasitas pedem medidas contra a 'vagabundagem'; 3. Lei áurea - 'Inconstitucional, antieconômica e desumana'; 4. Como a cria de qualquer animal e cotas de negros para brancos; 5. Sofismas escravistas de José de Alencar, o escritor e político que votou contra o Ventre Livre; 6. O antiescravismo precoce de José Bonifácio, o velho; 7. A abolição na Câmara dos Deputados e no Senado: a vontade política contra as manobras regimentais; 8. A doença do imperador refém da imprensa; 9. Seis dias inesquecíveis em maio de 1888; 10. Seis senadores votaram contra a abolição.

11. Lenta, gradual e infame; 12. A retórica fulminante de Joaquim Nabuco; 13. Lenda da criação do preto; 14. O emancipacionismo temeroso de Perdigão Malheiro; 15. O grito de guerra de Rui Barbosa; 16. leis antiescravistas que nunca 'pegaram', projetos de abolição e africanos livres que não eram livres; 17. Direito à infâmia; 18.Não se nascia livre pela lei do ventre Livre; 19. Não se ficava livre aos 60 anos pela Lei dos sexagenários; 20. Lutas no campo jornalístico; 21. Jornais abolicionistas e jornais na abolição; 22. A hipótese radical: por que os escravos não mataram todos os seus donos; 23. Senhores e feitores assassinos, um crime exemplar.

24.Os caifazes de Antônio Bento; 25. Heróis negros da abolição (Luiz Gama, André Rebouças e José do Patrocínio); 26. Matar um senhor de escravos é sempre legítima defesa; 27. Províncias abolicionistas e tráfico interprovincial; 28. Tráfico na bolsa de valores; 29. Abolição, imigração e racismo; 30.Abolição com ou sem negros? 31. O 13 de maio na ficção ou como ficção; 32. Escravizar como missão sagrada e alforria para morrer pela pátria; 33. Commodities humanas e marfim; 34. A cerimônia da sanção da Lei Áurea; 35. Festa nas ruas; 36. Holocausto negro: raízes do racismo e do conservadorismo brasileiros; 37. O ponto de virada. 38. O papel de dom Pedro II na abolição. Acompanha ainda uma rica relação bibliográfica.

Do capítulo 36, escolhi uma frase que bem sintetiza o título do livro As raízes do conservadorismo: "Depois da explosão da alegria do dia 13 de maio de 1888, o pior aconteceu. A imprensa voltou a ser dominada pelo conservadorismo com horror das massas. O racismo espalhou-se com um novo impulso. A justiça retomou sua função ideológica tradicional e sua tarefa rasteira de punir as camadas menos favorecidas economicamente da população sem lhes conceder o benefício do desespero. Um setor do exército, no entanto, cumpriria, nos anos 1920, com o chamado tenentismo, um papel revolucionário, ajudando a abrir caminho para a ruptura institucional de 1930. Em 1932, porém, parte dessa força rebelde se enfileiraria com os 'saudosos do antigo regime', sob a cobertura de uma pretensa reconstitucionalização do país. Os revoltosos de 1932 gerariam os golpistas de 1964. A incorporação dos excluídos - os descendentes dos escravos transplantados de terras africanas - seria postergada a cada governo". pp. 418-9.

E o que dizer do Golpe de 2016? Sempre a presença dos mesmos, do golpe que sempre paira no ar. Sem dúvida, a leitura desse livro (Civilização Brasileira, 2018) é um ato de grandeza política.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Sonho de professor do Paraná. Sebastião Donizete Santarosa.

Hoje, mais uma vez, pedi permissão para o meu amigo Sebastião, para a publicação de um texto seu. Esse texto é uma perfeita análise de conjuntura sobre o que está acontecendo com a educação pública no estado do Paraná, sob o comando de um homem de negócios, profissão de origem do secretário. Quanto ao texto, me abstenho de tecer comentários por considerá-los desnecessários, tal a sua força. Vou me permitir apenas uma observação e uma epígrafe. A observação, a tomo da memória das aulas de teorias pedagógicas, que nos apresentam três vertentes fundamentais: a escola tradicional, a escola nova e a escola tecnicista. A escola tradicional se centra no professor; a escola nova, no aluno e a escola tecnicista - nem no professor, nem no aluno, mas nos meios. Que escola é essa?

Quanto a epígrafe, que creio refletir bem os ideais e sonhos de formação humana do professor Sebastião, a retiro da revista CULT, ano 24 - Janeiro 2021 - edição 265.

"Não sou de forma alguma um otimista [...] sou um prisioneiro da esperança". Cornel West, filósofo e ativista estadunidense. Afrodescendente. 1993.

Sonho de professor do Paraná.

Hoje, vésperas de início de ano letivo em tempos de pandemia, tive um sonho como se fosse uma fotografia. A sala de aula estava cheia. Conversas, risos, reflexões provocativas, brilho nos olhos, esperanças brotando à flor da pele. Era a magia do ensinar e do aprender. Era a escola da alegria, do culto à liberdade e ao direito de criação e de recriação da própria vida.

Mas, em um de repente, de forma muito rápida sem que ninguém esperasse, se fez um silêncio nebuloso. A porta da sala de aula se abriu e uma sombra gelada invadiu corpos e mentes dos estudantes. Pela mesma porta, entrou um sujeito magro, cheiroso e muito bem vestido. Em seu rosto se estampava um sorriso. Um sorriso estranho e assustador. Ele deu um bom dia a todos quase gritado. Em uma de suas mãos, o sujeito sorridente segurava uma corda. Em trejeitos de uma dança macabra, começou a puxar essa corda. Presos a ela pelos pescoços, começaram a surgir na sala os professores da escola. Cabeças caídas, corpos amarelados, mãos amarradas atrás das costas, bocas amordaçadas. "Entrem, queridos mestres. Vocês são o que a escola tem de mais importante. Sem vocês, jamais atingiremos nossos objetivos", bradava a voz do sujeito sorridente, dominando todos os espaços da sala e congelando o tempo. "Entrem. Entrem. Vejam o que eu lhes ofereço. Nosso estado, graças a vocês, terá a melhor educação do Brasil".

De uma grande sacola de supermercado, ele foi retirando equipamentos eletrônicos e colocando-os à frente dos professores amarrados. Eram celulares, computadores, câmeras, telefones, antenas, microfones, lâmpadas, televisores, coisas que nem sabíamos o que eram de verdade. "Vejam a maravilha dos recursos que trago para vocês. Nunca mais vocês precisarão se aborrecer preparando aulas e corrigindo provas". Como mágico em um palco, ele tentou ligar um dos equipamentos para demonstrar a maravilha que era. Mexeu em um e em outro botão. Não funcionou. O sorriso em seu rosto deu uma encrespada, amarfanhou-se. Uma teia de rugas se formaram ao redor de seus olhos. Parecia estar ficando muito irritado, mas rapidamente retomou a postura inicial de confiança e disse que os professores iriam ter formação para trabalhar com aquele equipamento, eram só detalhes.

Voltou -se para os alunos: "O que falta para nossos professores é domínio tecnológico. Muitos, infelizmente, ainda são verdadeiros analfabetos. Faremos testes seletivos anualmente para contratar novos professores, mais capacitados. Vamos criar meios para demitir aqueles que não se atualizarem.

Queremos construir a melhor educação do Brasil. Isso se faz com tecnologia e com gente preparada para lidar com ela". Os alunos, em silêncio petrificado, pairavam os olhares ao horror da presença dos corpos dos professores mortificados. O sujeito sorridente e bem vestido voltou -se novamente para eles: "A escola é para vocês. O mais importante é vocês aprenderem. Estou organizando muitos conteúdos, slides e exercícios que vocês receberão pela internet na casa de vocês todos os dias. Vocês farão quatro provas de avaliação por ano. Vou colocar a polícia na escola para garantir a disciplina. Vou ensinar educação financeira pra vocês deixarem de ser consumistas. Vou tirar da escola essas disciplinas chatas que obrigam vocês a ter que pensar. Eu vou, eu vou..."

E, como um disco riscado, uma fita enroscada, uma carta mal escrita ou um live com falhas de conexão, o sujeito sorridente começou a gaguejar. Raios de sofrimento inundaram seu rosto. Fazia um esforço enorme para articular as palavras. De sua boca saiam grunhidos que ninguém entendia. Ele era agora uma máquina enguiçada, um motor estragado. De sua cabeça começou a sair fumaça. Começam a saltar parafusos e molas das pernas, dos braços, do abdômen. Do peito brotou uma lâmina afiada derretendo.

Sob os olhares atentos e estupefatos dos estudantes, os professores começaram a levantar as cabeças, soltavam um a um os nós que prendiam as mãos e tiravam as cordas dos pescoços. Seus rostos começavam a ganhar cor e seus olhos voltavam a brilhar. Juntos, de mãos dadas, fizeram um círculo em torno do monte de peças soltas que até há alguns minutos formavam o sujeito sorridente e bem vestido. Com uma vassoura e uma pá de lixo, colocaram o monte de molas e de parafusos queimados no saco plástico do supermercado, aquele mesmo onde estavam os equipamentos eletrônicos. A sombra fria foi se desfazendo.

Reecantados, professores e estudantes estampavam em seus rostos um sorriso alegre de quem ama a vida, de quem quer ensinar e aprender para torná-la ainda mais alegre e mais bonita. Dia 18 de fevereiro começa a nossa greve. #forarenatofeder é um imperativo ético.

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Sobre educação - gratidão - invisibilidade e imensurabilidade de seus resultados.

Confesso que os tempos que estamos vivendo não são os melhores. São tempos meio depressivos. Tempos de afirmação de cloroquina e ivermectina, símbolos maiores dos tempos negacionistas que se instalaram nas altas esferas de poder desse "pobre país". Estamos assistindo o triunfo das nulidades e das indecências morais e éticas. Na educação - então! A formação humana, na concepção de Bildung ou Aussbildung se transformou em inimiga dos governantes dessa geração cloroquina no poder. Tempos de triunfo do antiintelectualismo.

"Constituído de modo correto e sem falha, nas mãos, nos pés e no espírito" (Página 13). Um conceito símbolo retirado de um livro símbolo sobre a educação como formação integral do ser humano. Paideia - a formação do homem grego, de Werner Jaeger. Martins Fontes.

Particularmente, no campo da educação, as forças do mercado instaladas no poder estão reduzindo a nobre função de formar o ser humano em um mero adestramento em "habilidades e competências", uma redução à qual, creio, nem mesmo os adeptos das teorias do "Capital humano" conseguem se conformar. Particularmente, no Paraná, os destinos da formação humana estão sendo entregues ao coturno e à continência. A beleza e a leveza do ser humano estão sendo pisadas pelas botinas e entregues à sanha das marchas e dos uniformes. Bem ao gosto...

E, ainda mais particularmente, no campo da educação um dos setores mais minados é o campo da avaliação. Movido pela sanha do controle externo, de setores estranhos ao processo educativo, os  seus resultados são milimetricamente observados e servem, inclusive, de parâmetro para financiamentos. Todo o processo educativo, de longa construção histórica, é submetido à avaliação, ao IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica). Em nome dele, todo um sistema de falsificação de dados é instituído. 

Mas chega de lamentações! Ante esses tristes valores dominantes - a força do humano resiste e, qual "água nova brotando", estão se formando novos fluxos de esperança e de humanidade para os quais não haverá forças que os consigam conter. São as lições da história.

Em meio a esse estado psicológico que estamos vivendo, aprofundado por uma consciência social e desejo de humanidade, recebi um confortável e animador afago. Ele, de forma inesperada, me veio pelo Messenger e, confesso, me fez um bem enorme. Acima de tudo fortaleceu as minhas convicções de que a educação, acima de tudo, é presença, presença interativa, de encontro, soma e absorção de alteridades. As diferenças que se somam e se multiplicam. É óbvio que o sistema educacional não prescinde de planejamento, estabelecimento de objetivos e de avaliação. Mas deixo aqui a minha crença de que os seus melhores resultados serão sempre intangíveis e inalcançáveis pelo olhar dos sistemas avaliativos. Os seus melhores resultados penetram nas entranhas do ser humano e nele se instalam definitivamente para orientarem e darem direção a vidas. São as raízes.

Como estou tecendo considerações para além do conteúdo da mensagem recebida e, como esta me veio de forma privada, mantenho o missivista no anonimato mas, quero publicamente retomar o agradecimento que já manifestei privadamente. Fica aqui registrada a minha gratidão e o meu agradecimento. Eis o teor do afago recebido:

"Oi, professor, tudo bom? Fiz aula contigo nos anos de 2009/2010, curso de Publicidade e Propaganda da Universidade Positivo (na época Unicenp ainda).

Estou passando para te agradecer. Levei comigo duas grandes lições suas (na verdade foram muito mais, mas essas duas foram as mais marcantes). A primeira é que você sempre falava: “tem um monte de curso ensinando aí: leia 200 páginas em uma hora. Vou lançar um curso: leia 5 páginas em duas horas”. Isso mudou profundamente meu contato com a leitura e o estudo. Não fico mais ansioso ao passar um longo tempo apreciando e entendendo poucas páginas. Saber valorizar a profundidade de cada palavra e frase com certeza foi um grande ensino que você me passou. O segundo ensinamento foi uma frase linda: “só voa livre quem tem raízes em algum lugar”. Volta e meia essa frase volta a minha vida, e se encaixa perfeitamente em diversas situações. Era isso. Acredito que a gratidão move o universo e queria te agradecer por ter me presenteado com esses valiosos ensinamentos, mais de 10 anos atrás. Abraço!"

Contextualizando um pouco, relembrando as situações em que esses fatos ocorreram. As minhas aulas sempre foram entremeadas de muitas conversas sobre os momentos vividos. A primeira situação, lembro bem. Era comum que nas feiras universitárias de livros que eu frequentava, sempre havia os "ofertadores" desses cursos de "leitura dinâmica". Creio que era assim que se chamavam. Faz parte da pressa e do aligeiramento da formação. O mundo tem pressa. É a pressão por resultados. A pressão tem consequências.

O segundo fato, também o tenho muito presente. É a presença de Paulo Freire em minha formação. É dele esta frase norteadora. Voar implica em liberdades. Voar exige desprendimentos, exige experimentar inseguranças, desassossegos e desconfortos. Voar está acima das planuras. Mas, com certeza, raízes nos impedem de nos perdermos nos imensos temporais da vida.

Assim está registrado meu agradecimento ao querido aluno dessa mensagem e também a minha indignação diante dos rumos que a formação humana está tomando pelas mãos dos homens unidimensionais do mercado. Afinal, sem a indignação, oriunda da tomada de consciência da situação, não haverá reação. Reação necessária para que o humano e não o econômico volte a ser o princípio norteador de nossas vidas.