sábado, 13 de fevereiro de 2021

Bolsonaro - O mito e o sintoma. Rubens Casara.

É impressionante o quanto o Rubens Casara se supera a cada livro que publica. Dele já li Estado Pós-democrático - neo-obscurantismo e gestão dos indesejáveis, livro de 2017 e Sociedade sem lei - pós-democracia, personalidade autoritária, idiotização e barbárie, de 2018. Deles fiz a resenha no blog. Agora, um pouco tardiamente, li Bolsonaro - o mito e o sintoma, uma publicação de 2020. Sob a luz da psicanálise e da teoria do neoliberalismo, redesenhado e reconfigurado aos tempos atuais, em seu mais elevado grau de perversidade, ele analisa o mito e o fenômeno Bolsonaro.

Bolsonaro - o mito e o sintoma. Contracorrente. 2020.

O neoliberalismo, na sua versão mais recente, alterou profundamente a subjetividade humana, fazendo uma verdadeira reconfiguração antropológica. Nela os seres humanos, as pessoas, ou de forma mais apropriada, os indivíduos se transformam em empresas, o "eu empresa" e a partir disso se lançam no mercado e praticam os seus valores, sendo a competição o mais elevado. É a barbárie sem nenhum limite. Nesse mercado concorrencial desaparecem todos os valores da boa convivência, a começar pelo destroçar da solidariedade, da afetividade, da compaixão, entre outros tantos valores humanos e humanizadores. São substituídos pelo ódio, pelos preconceitos enraizados em nossa formação histórica, preconceitos inconfessáveis, mas que se manifestam sorrateiramente e com orgulho incontido, pelo voto no "mito". 

Essa é a temática central do livro. Muita psicanálise, muita teoria econômica (neoliberalismo) e, acima de tudo, muita análise política, do triste momento que estamos vivendo. A obra obedece a uma lógica impecável, tanto na formal, pela sequência ordenada dos temas, quanto na dialética, pelas intricadas análises das contradições que o bolsonarismo apresenta. Isso nos explica, tanto a eleição, quanto a possibilidade de reeleição, que nos é indicada pelos permanentes 30% de aprovação, obtidos em qualquer circunstância, independentes de bom ou mau governo. Mito é a realidade fantasiosa, fora dos parâmetros da racionalidade.

Os livros anteriores aparecem, especialmente nos primeiros capítulos. Eles nos facilitam o entendimento do momento presente. Na sequência aparece a conjuntura, a análise da realidade que permitiu a ascensão do "mito", um personagem que permite a fantasia da realidade, para ao final, apresentar em dois capítulos a realidade do título, a do mito e a do sintoma. O livro termina com uma convocação para a luta em torno do "comum", palavra com a qual podemos reabilitar a convivência civilizada da humanidade. As grandes referências teóricas que perpassam o livro são os teóricos do neoliberalismo, Pierre Dardot e Christian Laval, Adorno quando se refere a questões do comportamento de massa e personalidade autoritária e Lacan, nos assuntos pertinentes à psicanálise.

Para oferecer um panorama provocativo para a leitura, apresento os títulos dos capítulos. Eles são bastante autoexplicativos. Ao final do post elenco algumas frases em destaque. Os capítulos são relativamente curtos e, como já frisamos, obedecem a uma extraordinária sequência lógica. São 20 capítulos, incluída a conclusão, que, por óbvio, é uma conclamação à reação. Os 20 capítulos estão alinhados ao longo de 157 páginas. Muitas das referências teóricas são de autores que a pouco desembarcaram no Brasil. Vamos aos capítulos, mas desde já, manifesto preferência pelo primeiro, que fala do empobrecimento subjetivo. (É uma questão particular minha, de reflexões sobre a educação em Paulo Freire, no ano de seu centenário. Reflexões sobre a construção do ser humano, pelo desvelar provocativo de todas as suas potencialidades, de uma eterna busca do "ser mais", que necessariamente passa pelo enriquecimento subjetivo, pela soma de alteridades). Mas voltemos à resenha, aos capítulos:

1.O empobrecimento do subjetivo; 2. Da "democracia de baixa intensidade" ao "Estado pós-democrático"; 3. O ponto zero: a criação do monstro Behemoth (personagem da mitologia judaica e explorado na obra de Thomas Hobbes); 4. O combate à corrupção; 5. Propaganda bolsonarista; 6. A nova obscuridade; 7. A paranoia como condição de possibilidade do bolsonarismo; 8. O desejo por autoritarismo; 9. Em busca de um líder; 10 A "nova" política.

11. A defesa do indefensável (o mito conflita com o real, com o racional e, por isso, negacionista); 11.A defesa do indefensável; 12. A autoridade populista; 13. A ignorância como matéria prima; 14. A naturalização das opressões; 15. A revolução cultural bolsonarista (uma naturalização do autoritarismo com muitas aproximações de teses nazistas. É estarrecedor); 16. O bolsonarismo judicial: a tradição autoritária e o modo neoliberal de julgar; 17. Um sub-Trump nos Trópicos; 18. Bolsonaro como mito (realizador dos sonhos infantis, ou infantilizados, de seus eleitores, sonhos fora do real, do racional - isso explica muito de sua aprovação); 19. Bolsonaro como sintoma ("A vitória eleitoral de Bolsonaro permite conhecer algo da sociedade brasileira que ela mesmo se recusa a reconhecer. A crença na violência, o racismo, o machismo, a homofobia, e o antiintelectualismo retornam na forma de voto e apoio a Bolsonaro" p. 147); 20. Conclusão: Pensar em alternativas. O governo Bolsonaro é ou não é um programa para a instauração da barbárie? Assustador.

Pelo fato de Rubens Casara ser mais conhecido no meio jurídico, apresento alguns traços biográficos que constam na orelha da contracapa do livro: "Doutor em Direito, Mestre em Ciências Penais. Estudos de pós-doutoramento na Universidade de Paris X. Professor universitário, Juiz de Direito do TJ do Rio de Janeiro e membro da Associação Juízes para a democracia "... Seleciono ainda três parágrafos do livro, transcritos na contracapa:

"O que há de novo, e revela a engenhosidade do modelo, é que essa nova forma de governabilidade que surge da crise produzida pelos efeitos do neoliberalismo (desagregação dos laços sociais, demonização da política, potencialização da concorrência/rivalidade, construção de inimigos, desestruturação dos serviços públicos etc.) promete responder a essa crise com medidas que não interferem no projeto neoliberal e, portanto, não alcançam a causa dos danos sociais que levam a cólera e ao ressentimento da população".

"Pode-se dizer que com ele (Olavo de Carvalho) nasce o 'intelectual orgânico' da ignorância. No lugar do 'marxismo cultural', Olavo faz surgir o oxímoro 'ignorância cultural'". E, "Bolsonaro é, de fato, um mito. Vota-se em Bolsonaro porque não se pode dizer o que se quer conseguir com esse voto. O apoio manifesto a Bolsonaro esconde o que não pode ser dito e justifica esse apoio".

E para concluir, tomo a convocação final: "Em suma, para superar o neoliberalismo é preciso construir uma racionalidade, uma normatividade e um imaginário do 'comum', daquilo que vale por ser construído 'por' e 'para' todos. Daquilo que, por ser comum, é inegociável. Por isso é preciso insistir na força do comum, desdemonizar a palavra e refundar o conceito de comum como objeto da política. Não é impossível". p.154. A leitura desse livre se constitui num verdadeiro ato político.

P.S. Eu iria abrir o post, com uma publicação atribuída a Emir Sader, mas não a localizei. Como a acabo de receber, a publico como um P.S. Ela nada tem a ver com o livro, mas bem reflete a irracionalidade do sistema capitalista em sua forma neoliberal: "Se um macaco acumulasse mais bananas do que pudesse comer, enquanto a maioria dos outros macacos morresse de fome, os cientistas estudariam aquele macaco para descobrir o que diabos estaria acontecendo com ele. Quando os humanos fazem isso, nós os colocamos na capa da FORBES".

Deixo também a resenha de A nova razão do mundo. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/02/a-nova-razao-do-mundo-ensaio-sobre.html Comum. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/03/comum-ensaio-sobre-revolucao-no-seculo.html


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