domingo, 30 de maio de 2021

Servidão Humana. Somerset Maugham.

Entusiasmado com a leitura de O Fio da Navalha, de imediato emendei com a leitura de Servidão Humana, livros do escritor francês/inglês Somerset Maugham. Não consigo conter meu entusiasmo diante deste escritor, especialmente, pela sua qualidade de narrador. Maugham nasceu em 1874, em Paris e morreu em Nice, em 1965. O Fio da Navalha é do ano de 1944 e Servidão Humana, de 1946. Os dois livros são bastante autobiográficos.

Servidão Humana. Coleção: Imortais da Literatura Universal. Abril. 1971. Tradução: António Barata.

Maugham ficou órfão de pai e de mãe muito cedo e a sua educação foi confiada a um tio, que seguia a carreira religiosa. A exemplo do pai, Somerset também se tornou médico, mas não seguiu a carreira, dedicando-se integralmente à literatura. Philip Carey, o personagem principal de Servidão Humana, também muito cedo se tornou órfão de pai e de mãe e a sua educação foi confiada ao seu tio, que respondia pelo vicariato de Blackstable. Philip, por intercessão de sua tia, consegue fazer estudos de alemão em Heidelberg, voltando depois para a Inglaterra e, mais uma vez, por intermédio da tia bondosa e compreensiva, consegue ir a Paris para se dedicar à pintura, depois de uma passagem por estudos de contabilidade. Dois anos após, sente-se um fracassado e retorna para a casa dos tios.

Preocupado com os rumos de sua vida, resolve seguir os passos de seu pai e se dedicar ao curso de medicina. Quando se formou e se encaminhou profissionalmente termina a narrativa do romance. Em síntese, este é o enredo deste romance de 122 pequenos capítulos, que ocupam 563 páginas de letra miudinha, de Servidão Humana, da coleção Os Imortais da literatura Universal, da  qual ocupa o volume de número 19. A sua leitura me ocupou por mais de uma semana. É fácil perceber que se trata de um romance de formação. E é nisso que está todo o seu valor.

Cada diferente personagem é um novo mundo que se descortina. O tio e a tia Carey. Ele, em contradição com a sua vida de pregação e a tia cheia de dedicação, bondade e generosidade. Os amigos estudantes, cada um com a diversidade de seus mundos e interesses. Os estudantes de pintura de Paris e os de medicina de Londres. A simplicidade da família Athelny, que o cativam profundamente, a sabedoria de Cronshaw, que se deixa consumir em sua sabedoria e pela bebida. Mas tem também Mildred, a personagem mais emblemática e perversa do romance, por quem Philiph arde em incompreensíveis paixões, que tantos sofrimentos lhe causam. Sally, a filha dos Athelny, merece uma atenção toda especial. Além disso muitos projetos de vida e interrogações em torno da mesma. A busca pelo sentido da vida está sempre presente na obra do escritor.

Esta é a história, junto com outros personagens que vão se cruzando na vida do jovem, perdido em suas buscas. Mildred é uma personagem feminina de Maugham. Sobre elas lemos, na biografia que acompanha a coleção: "As personagens femininas, de modo geral cruéis e interesseiras, na maioria das vezes nutrem profundo desprezo pelos homens que as amam e se comprazem em vê-los degradar-se". E como Mildred é perversa. A paixão incontida de Philiph por essa megera, para dizer pouco, é irritante. E lá está ele, novamente a acudi-la, de novo e mais uma vez.

O livro de biografias, ao se deter na análise de Servidão Humana, traça o seguinte perfil de Philip: "...Philip, que recusara Deus por não lhe haver curado o pé, despreza as explicações religiosas e prefere ver na vida apenas um sentido estético. Compara-a a um tapete persa: 'Assim como o tecelão elabora o tapete sem outro cuidado senão o prazer estético, um homem pode viver a sua vida... Nada impede que se considere a vida como um desenho', composto de 'acontecimentos, ideias'. Nessa elaboração, pouca importância tem a dor ou a felicidade, simples detalhes do desenho final'. Ao morrer, cada homem deixará a sua trama, e ela sempre será pessoal e bela, mesmo que ninguém venha a conhecê-la". Mas haja sofrimento, penúria e servidão. O que seria a tal da servidão humana?

Ele lida muito com a falta de dinheiro e conhece bem os estragos por ele provocados. No livro encontramos passagens que refletem bem a questão, como esta: "(Philip) Achava delicioso ter o coração livre e o bolso suficientemente cheio para prover às suas necessidades. Ouvira outros falar com desprezo do dinheiro. Teriam experimentado um dia viver sem ele? Sabia que a falta de dinheiro torna o homem mesquinho, vil e avarento; deforma-lhe o caráter e o faz olhar o mundo por um prisma vulgar. Quando se tem de levar em conta cada vintém, o dinheiro assume uma importância grotesca. É preciso que estejamos numa situação desafogada para atribuir-lhe o seu valor real" (Página 531).

No livro de biografias encontramos a descrição de sua relação com o tio, responsável por sua educação, baseada nos relatos de Servidão Humana. O tio Henry Carey é descrito como "um homem sumamente egoísta, mesquinho e provinciano. A casa do pastor era severa e fria, ausente de crianças, cheia de livros e quadros religiosos. A noção de pecado era recordada a cada instante, o menino vivia em sobressalto. Tia Sofia, uma aristocrata alemã, procurava atenuar a dureza do marido e compensar a ausência dos pais no coração do sobrinho, apesar de sua sincera afeição".

Interessante também é observar um pequeno defeito no pé (Talipes ou pé torto), que o personagem Philip carregava. Era uma fonte permanente de preconceitos e até de xingamentos de "seu aleijão". Um dos mais belos capítulos do livro é o de número 113, onde Philip, fazendo seus últimos estágios para a sua formação em medicina, entra diretamente em contato com a realidade econômica e social do povo, dependente dos serviços médicos de um obstetra. Realiza 63 partos, geralmente de crianças indesejadas, vindas ao mundo, acompanhadas pelo desespero dos pais.

Por tratar-se de um romance de formação, separei duas passagens para posts especiais. Eu os qualificaria como textos retirados da literatura para aulas de filosofia. O primeiro é quando vai para Heidelberb, e um novo mundo de relações lhe amplia a visão de mundo e promove a sua ruptura com a religião herdada e o segundo, quando já está em Paris, e lhe são lançadas as questões fundamentais perante a vida. E uma recomendação final. Leiam e recomendem William Somerset Maugham.

quinta-feira, 20 de maio de 2021

O Fio da Navalha. William Somerset Maugham.

Buscando em minha biblioteca livros ainda não lidos, deparei com O Fio da Navalha, do escritor francês/inglês W. Somerset Maugham. O livro integra a coleção da Biblioteca Folha, fato que explica o não tê-lo lido logo após a compra. Livros que integram uma coleção... Nunca tinha lido nada desse escritor maravilhoso. A sua forma simples e direta de narrar me surpreendeu agradavelmente. Depois li no livro de biografias que acompanha a coleção Os imortais da literatura universal, que O Fio da Navalha é uma de suas melhores obras e que o personagem Larry reflete as suas próprias preocupações diante da vida.

O Fio da Navalha. Biblioteca Folha. 2003. Tradução: Lígia Junqueira Smith.


W. Somerest Maugham nasceu em Paris, em 1874. Terá uma longa vida, vindo a morrer em Nice no ano de 1965, depois de percorrer o mundo inteiro. Os seus relatos biográficos o apontam, acima de tudo, como um grande contador de histórias. No caso de O Fio da navalha ele próprio toma parte da história contada, sendo ele o Mr. Maugham. O romance foi escrito no ano de 1944. A primeira guerra mundial e a depressão econômica de 1929 e as ruínas econômicas por ela provocada fazem parte da história. 

O romance começa  com Mr. Maugham empreendendo uma viagem ao oriente, no ano de 1919. Em meio a viagem, se detém em Chicago por três semanas, atendendo convite de seu amigo Elliot Templeton, um americano radicado em Paris, com gosto pela vida social, nobreza e obras de arte. Sua vida é uma festa. Dessa estadia, surgem os personagens do romance. Nas recepções Mr. Maugham conhece Isabel, filha de Louisa Bradley e sobrinha de Templeton, namorada de Laurence Darrell, ou simplesmente Larry, o personagem central do romance. Ainda é personagem de destaque Gray Maturin, filho de um rico corretor de títulos na cidade e um eterno apaixonado pela bela Isabel. Bem, esses são os personagens. O cenário mais frequente será a cidade de Paris, junto com a Riviera francesa. A história, por óbvio, eu não vou contar. Existem alguns outros personagens, também dignos de notas. Você os encontrará: Sophie, Suzzanne, o industrial Achille...

Dou, no entanto, uma visão do romance, a partir da orelha do livro da edição da Biblioteca Folha: "O século 20 produziu uma quantidade enorme de histórias sobre ex combatentes de guerra que, ao voltarem para casa, não se reconhecem mais naquilo que veem e precisam  de algum modo reencontrar o fio da meada. No entanto poucas obras literárias se tornaram tão emblemáticas dessa situação quanto esse romance de W. Somerset Maugham.

Depois de ver seu melhor amigo morrer nos campos de batalha da Primeira Guerra, o jovem norte-americano Larry Darrell retorna aos Estados Unidos completamente transformado. Em pouco tempo, decide deixar a vida burguesa de Chicago e adiar seu casamento com a bela Isabel. Como muitos jovens de sua geração, Darrell vai passar uma temporada de aprendizado existencial em Paris, onde perambula pelos cafés e começa a ler livros sobre a Índia e o Nepal.

Entusiasmado com as descobertas e a possibilidade de um mundo radicalmente novo, Darrell viaja para esses países em busca de iluminação espiritual - assim como o próprio autor fez na década de 30. Anos mais tarde, de volta a Paris, Darrell reencontra Isabel e vários amigos americanos que haviam deixado os EUA depois da crise financeira de 1929".

A história, com o narrador participante, se desenvolve ao longo de sete capítulos, sendo o de número seis todo dedicado a Larry e seu encontro com os sábios do budismo na Índia e no Nepal. Larry é um personagem ímpar e imprevisível. Traz a marca profunda de sua participação na Primeira Guerra, quando um amigo seu morre para salvar-lhe a vida. Daí a busca para dar à sua vida um significado e um sentido. Será incompreendido por todos, menos pelo narrador, que passara por questões semelhantes.

Do livro de biografias, anotei algumas passagens marcantes sobre o escritor e os seus personagens, passando antes por algumas marcas nessa sua biografia, como a precoce orfandade de mãe e pai, passando pela presença meio nefasta de um tio padre, pela sua formação no curso de medicina em Londres e o seu abandono para se dedicar inteiramente a literatura. Pelo fato de Isabel ser a personagem feminina mais importante, uma nota sobre as mulheres em seus livros: "As personagens femininas, de modo geral cruéis e interesseiras, na maioria das vezes nutrem profundo desprezo pelos homens que as amam e se comprazem em vê-los degradar-se. Amor é ilusão, diz Maugham ao longo de sua obra: amor provoca mais sofrimento que felicidade e, quando se restringe à mera atração física, é uma fonte de contínua tortura e servidão".

Quanto a Suzzanne, uma das personagens femininas de O Fio da Navalha, que se casa, possivelmente por interesse, ela mesma afirma: "Creia-me, amigo, os outros podem dizer o que quiserem, mas o casamento continua sendo a melhor profissão para uma mulher".

Mas a tese central do livro é a busca de um sentido para a vida, assim expresso em Larry, numa das respostas a Mr. Maugham, quando este lhe pergunta se a América é o melhor lugar para por em prática a filosofia de vida que aprendera em sua viagem para a índia: "Não sei por que não. Vocês europeus, nada conhecem da América. Pelo fato de amontoarmos grandes fortunas, acham que é só dinheiro que nos interessa. Pouco ligamos a ele; assim que o possuímos tratamos logo de gastá-lo, às veze bem, às vezes mal, mas em todo caso o gastamos. Dinheiro nada significa para nós; é apenas o símbolo do sucesso. Somos os maiores idealistas do mundo; só que, no meu modo de pensar, pusemos o nosso ideal onde não devia estar; acho que o maior ideal que um homem possa ter é o seu próprio aperfeiçoamento". Com essa busca pelo "próprio aperfeiçoamento", concluo o post, para que essa imagem seja a que continue ocupando o espaço em nossa mente.

Mas antes vamos lembrar que Maugham também fez muito sucesso com a adaptação de sua obra para o cinema. Com meia dúzia de clicks você localiza O Fio da Navalha. No cinema essa obra ganha maior dramaticidade. Lembrando que o romance teve a sua primeira publicação no ano de 1944, dado fundamental para entender o espírito da obra.


terça-feira, 11 de maio de 2021

Vita Brevis. A carta de Flória Emília para Aurélio Agostinho. Jostein Gaarder.

Creio que todas a pessoas, que minimamente conhecem a formação da cultura ocidental, concordam que um dos livros mais importantes em sua gênese é  Confissões, o livro de memórias de Santo Agostinho, o Aurélio Agostinho (354-430), bispo de Hipona, no norte da África, atual Argélia. O livro é autobiográfico, um relato de sua vida até os anos de sua conversão por influência de Santa Mônica, sua mãe. Pelas Confissões, o convertido lamenta o seu passado de volúpia e concupiscência da carne, pois vivera em concubinato com uma mulher, da qual tivera um filho, de nome Adeodato, dádiva de Deus.

Confissões, como vimos, é um dos mais influentes livros na formação da cultura ocidental. Ele representa uma transição da cultura clássica (especialmente Platão) para o cristianismo, que busca se transformar em uma religião universal. Assim ele é um dos livros mais impactantes de todos os tempos e se transformou num livro de leitura obrigatória. Se Confissões tem toda essa importância, imagina então, a sua primeira contestação, que Agostinho teria recebido ainda em vida. Esta contestação é Vita brevis - a carta de Flória Emília para Aurélio Agostinho, um manuscrito, conta Jostein Gaarder, o famoso autor de O mundo de Sofia, do qual ele teria encontrado uma cópia num sebo da cidade de Buenos Aires, onde havia participado de uma Feira de Livro.

Vita Brevis. Jostein Gaarder. Companhia das Letras. 2003. Tradução: Pedro Maia Soares.


No prefácio do livro de Gaarder está a história do encontro da cópia deste manuscrito e de sua compra e as possíveis hipóteses sobre a existência do original e da cópia, cópia esta, datada do final do século XVI. Gaarder ainda relata que levou esta cópia ao Vaticano, que veementemente negou a sua existência. O livro de Jostein Gaarder é a transcrição desta carta que Flória, a concubina de Aurel, a ele escreve. O livro de Gaarder data do ano de 1996.

A carta, de dez capítulos, teria consumido quase todas as economias de Flória, na compra dos pergaminhos. A carta é belíssima, profundamente humana e reflexiva. Reflexões sobre a religião, a qual Agostinho se convertera, mudando completamente os rumos de sua vida, que antes compartilhava com Floria. Depois de sua conversão, abomina esta vida, passando a considerar o próprio filho Adeodato como um "fruto do pecado", da lascívia de sua paixões. Transcrevo a orelha do livro para dele dar uma visão sem a minha interferência. Depois destaco algumas passagens que sublinhei ao longo da leitura.

"O Aurélio Agostinho do título deste livro é nada mais, nada menos que Santo Agostinho, um dos pilares do pensamento cristão e da Igreja católica. Em suas famosas Confissões, Agostinho relata a própria trajetória atormentada de jovem inquieto, amante dos prazeres sensuais, até a conversão plena ao cristianismo, que para ele significou renunciar totalmente aos bens terrenos e às paixões do mundo e levar uma vida de rigorosa continência sexual. Entre as coisas (? - interrogação minha) a que renuncia, está a mulher que foi sua concubina durante doze anos (era costume na época os homens terem concubinas antes de casar), a quem se diz afeiçoadíssimo e com quem teve um filho aos vinte anos. Apesar dessa longa convivência e dos protestos de amor, ela não merece mais que duas frases das caudalosas confissões e nem mesmo tem seu nome mencionado.

É do teor desse parágrafo que parte Gaarder, recriando aqui a história desse amor interrompido sob o pretexto de que Agostinho iria casar com menina nobre, cuja família exigia o fim da relação. Mas o ponto de vista que o autor adota é o da mulher abandonada, questionando severamente o comportamento e as ideias de Agostinho. Aquilo que para o futuro santo é busca de salvação da alma, libertação dos baixos instintos e aproximação de Deus, para ela representa traição, negação da mais alta forma de amor, desrespeito pela pessoa humana, afastamento de Deus. Influenciado pelo neoplatonismo, Agostinho aceita uma divisão radical entre corpo - fonte dos pecados - e alma - espiritualidade pura -, enquanto Flória Emília defende o espírito encarnado e a dignidade do corpo, também criação divina.

Escrito na forma de longa carta, o texto que Gaarder atribui à concubina de Agostinho mescla os sentimentos mais pungentes à reflexão madura, a linguagem coloquial e afetiva à erudição refinada, tal como fez o próprio Agostinho, mestre do virtuosismo literário, que combinava em seus textos o estilo elevado clássico com o sermo humilis, o estilo simples da cristandade".

Na contracapa o texto é mais incisivo: "Flória Emília amou profundamente Aurel, entregando-se a ele  e aos prazeres sensuais em que ele era mestre. Foi sua companheira fiel nas horas difíceis e dele gerou um filho. Doze anos coabitou com ele, embora pertencesse a uma casta inferior e, por isso, fosse malvista pela família de Aurel, sobretudo por sua mãe. Então, foi abandonada, expulsa de repente, sem nem poder dizer adeus ao amado filho, que nunca mais veria. Mesmo assim, jurou fidelidade eterna a Aurel, a ele que se tornaria exemplo cristão, bispo de Hipona, Padre da Igreja católica, e por fim santo. Santo Agostinho. E agora, Flória Emília escreve-lhe esta carta".

Que forma criativa de escrever um livro. O leitor fica na dúvida - se o que está lendo é realmente obra de Flória ou do sábio narrador. Destaco três passagens do último capítulo, que considero absolutamente relevantes. São falas de Flória: "Deixaste de amar, Aurel. Assim como deixaste de apreciar a comida, de cheirar as flores,  [...] Oxalá tais atrativos não me acorrentem a alma. Que ela seja somente possuída por aquele Deus que criou essas coisas tão boas".

Vamos a segunda. Nela Flória pede uma volta: "Acho que deves estar exausto depois de tudo o que passaste, realmente exaurido, nem escondes isso. Se pudesses  ao menos me dar agora - e, portanto, ao mundo físico - umas poucas horas a mais de tua vida na terra. Vai para a rua, Aurel! Sai e deita-te sob a figueira. Abre teus sentidos, nem que seja pela última vez. Por mim, Aurel, e por tudo o que demos um ao outro. Aspira o ar, escuta o canto dos pássaros, olha para a abóbada celeste e chama todos os odores para ti. É isso que é o mundo, Aurel, e está aqui agora. Aqui agora. Estiveste no labirinto dos teólogos e dos platônicos. Mas não mais, agora voltaste para o mundo, para nosso lar humano".

A terceira é uma grave advertência. Envolve a questão da mulher: "Sou assediada pelo medo, Aurel. Tenho medo daquilo que os homens da Igreja possam um dia fazer a mulheres como eu. Não apenas porque somos mulheres - pois Deus criou-nos mulheres. Mas porque tentamos a vocês, que são homens - pois Deus criou-os homens. Achas que Deus ama os eunucos e castrados acima daqueles homens que amam uma mulher. Então cuida como louvas a obra de Deus, pois ele não criou o homem para se castrar".

Na questão referente a mulheres, no que diz respeito à igualdade, Agostinho não é nenhum exemplo. Pelo contrário, certamente, tem forte influência no machismo que impera na cultura ocidental. No livro IX, 9, sob o título Mônica - esposa modelar, Agostinho fala do padrão de esposa, sobre a sua submissão ao marido. Deve ser submissa, conformada e tudo suportar. Vejamos um post específico sobre o tema: http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/07/confissoes-livro-ix-9-monica-esposa.html.

De Agostinho também trago na memória uma oração sua, contida nas Confissões, Livro IX, 10, oração essa, que Flória também lhe lembra. Ela diz assim: "Dá-me a castidade e a continência, mas que não seja para já".  Enfim, um livro maravilhoso, escrito com muita humanidade e bons sentimentos. E, pela importância que o santo exerce na formação da cultura ocidental, esta leitura como uma crítica, se torna leitura absolutamente imprescindível. Um grande livro.

quarta-feira, 5 de maio de 2021

A Metamorfose. O Veredicto. Franz Kafka.

Depois de ler o magnífico Franz Kafka & Praga, de  Harald Salfellner, decidi avançar nas leituras desse grande e emblemático escritor. O livro/biografia é um passeio pelos locais de formação, de trabalho e de seus escritos. Pode servir até de guia para quem alimenta o desejo de visitar essa fantástica capital europeia, que nos tempos de Kafka, nada devia em efervescência cultural a capitais como Paris, Viena e Berlim. Além disso, o livro também envereda pela vida familiar complicada, embora de leve, especialmente a relação com o seu pai, um comerciante de origem judaica. Os negócios marcaram a vida do pai. Ele era unidimensional. Não havia espaço para atenção e afeto.

A obra de Kafka precisa ser lida com muita atenção. Não é leitura de entretenimento. Recentemente eu reli O Processo e agora retomei A metamorfose, "a mais conhecida, a mais citada, a mais estudada de suas obras", conforme nos conta Marcelo Backes em Prefácio ao livro, na edição da L&PM. Dele, Kafka se ocupou ao longo de 20 dias, entre os meses de novembro e dezembro de 1912. Na mesma edição temos uma pequena resenha biográfica do escritor. Vejamos o que se lê sobre o ano de 1912:

A Metamorfose. Franz Kafka. L&PM. Tradução e notas de Marcelo Backes.

"O ano capital na vida de Kafka. Viaja com Max Brod (seu maior amigo, confidente e responsável pela internacionalização da obra e a sua não destruição) a Weimar e conhece de perto o ambiente dos grandes clássicos, Goethe e Schiller. [...] Em setembro escreve O veredicto (Das Urteil), sua primeira obra de importância. Em outubro é tomado, conforme pode-se ver nos Diários iniciados quatro anos antes, por pensamentos de suicídio. De 17 de novembro a 7 de dezembro escreve A metamorfose (Die Verwandlung), a mais conhecida de suas obras".

Esta obra inicia com a impactante frase - "Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso". Assim começa a metamorfose do trabalhador Gregor Samsa/Franz Kafka. A transformação do ser humano em animal/coisa. A novela é profundamente autobiográfica. Na exata medida em que se metamorfoseou também lhe vieram cobranças. Devia ter levantado para pegar o trem das cinco horas da madrugada para cumprir a sua jornada de trabalho. Suas frágeis perninhas, perninhas de inseto, não o sustentavam. O mesmo acontecia nos horários seguintes.

Toda a família dependia de Gregor Samsa. O pai havia falido e não mais trabalhava. A irmã Grete era ainda uma mocinha. Com o seu trabalho Gregor mantinha a família no  padrão de classe média, o que implicava pagar também aulas de violino para a irmã. Na medida em que o tempo passava e o quarto não se abria, vinham e aumentavam as cobranças. O pai mandara chamar o serralheiro para arrombar a porta, a mãe mandara chamar um médico, o gerente veio lhe cobrar a ida ao trabalho e lhe fazer cobranças de produtividade. A irmã, junto com a mãe, se preocupavam com o seu estado.

Com o passar do tempo as coisas só foram se agravando. Samsa já não andava, apenas se arrastava. O trabalhador, um caixeiro viajante, não se recuperava. A novela é dividida em três capítulo. O primeiro deles descreve a metamorfose, a coisificação do pobre rapaz, as cobranças e o desespero da família e a incompreensão e a brutalidade do pai. No segundo, Gregor já se adaptara a sua nova situação, já tinha o domínio de si, já vivia a sua coisificação. Seu quarto passa por adaptações para melhor se adaptar a vida de rastejante. Do pai, apenas via o gigantismo de suas botas opressoras a lhe dedicar uma guerra com o jogar nele as frutas existentes na casa. Joga-lhe uma maçã nas costas e ela se aloja nelas. Tudo é profundamente simbólico. A maçã lhe é jogada por trás, nas costas. A maça simbolizando o pecado original do existir e, ainda por cima, pelas costas.

O terceiro capítulo trata da nova situação da vida familiar. O pai trabalha de funcionário num banco, A mãe costura para um empresário e Grete, atrás de um balcão. O aluguel do quarto de Grete para três forasteiros complementa o orçamento da casa. Gregor é mantido no quarto, às escondidas. O pai se desmancha em cuidados com os inquilinos. Estes se assustam quando Gregor consegue dar uma escapada do quarto. A situação se torna insustentável quando Grete reclama que esta "coisa" não pode mais ficar na casa. Quando esta "coisa" percebe a situação, Gregor simplesmente morre. A família muda de casa e assim a vida simplesmente continua.

Uma obra profundamente existencialista, que põe o ser humano frente ao trabalho opressivo, frente ao emprego e o medo de perdê-lo e a coisificação da existência. Kafka chegara a frequentar clubes socialistas. Também o põe em contato com as relações familiares, a convivência entre marido e mulher e filhos e a figura opressora do pai. Kafka sempre tivera graves problemas em suas relações familiares, tanto com o pai (Carta ao pai) quanto com as suas noivas. Vamos em frente, com O Veredicto.

Homenagem a Kafka, na casa de seu nascimento, em Praga.

O veredicto é um conto de apenas 20 páginas, em livro de bolso, escrito num domingo à noite. Foi iniciado as dez horas e, as seis da manhã de segunda, já estava concluído. Ele trata de toda a relação complicada que existe entre pai e filho, a morte da mãe, o noivado do filho que amadurece, de um amigo distante e o veredicto condenatório do pai. Uma obra profundamente emblemática.

sábado, 1 de maio de 2021

Franz Kafka & Praga. Harald Salfellner.

No dia 27 de julho de 2019, num sábado pela manhã, saímos da cidade de Berlim com destino a Praga, numa distância de 350 km. No meio do caminho fizemos uma parada na bela e rica cidade de Dresden, que já havíamos conhecido no tour alemão. Esta cidade chegou até ser a capital da Polônia. Ela fica a  menos de 200 quilômetros de Berlim. Agora, olhando os mapas, percebe-se com facilidade a concentração de importantes cidades num raio de distâncias relativamente curtas. Assim visualizamos Berlim, Praga, Budapest, Bratislava e Viena, muito próximas.

O famoso relógio astronômico de Praga no prédio da prefeitura da cidade velha.

Pela tarde chegamos em Praga. Visitamos o Castelo, a Ponte Carlos e o relógio astronômico (de 1410) no prédio da prefeitura da cidade velha. No dia seguinte fizemos um tour panorâmico, que incluiu os jardins do Palácio Wallenstein, sede atual do senado, a igreja de São Nicolau, a igreja de Nossa Senhora da Vitória, onde se encontra a famosa imagem do Menino Jesus de Praga, fizemos um passeio pelo rio Moldava e outro a pé pelo bairro judaico, terminando mais uma vez no prédio da prefeitura, com o seu famoso relógio. Tivemos ainda, uma tarde inteira ao nosso dispor, para tomar a cerveja tcheca. Deixo aqui o post desses dois dias fantásticos. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/08/europa-2019-8-praga-na-republica-tcheca.html

Kafka na casa em que ele nasceu. Muito próximo do relógio astronômico.

Bem, vamos ao livro. Creio que logo entenderão o motivo pelo qual eu fiz essa abertura. Segundo um escritor tcheco, "Franz Kafka era Praga e Praga era Franz Kafka". Kafka e a cidade estavam umbilicalmente interligados, assim como também com a sua Boêmia, povo que serviu de base para a formação do que é hoje a República Tcheca. Ela foi formada pela Boêmia, Moldávia e Silésia. Com a viagem e, agora com o livro, aprendi muito sobre a região, sempre conturbada, especialmente na primeira metade do século XX, com a passagem por duas guerras mundiais, das quais podemos dizer que ela foi um de seus epicentros. Estou falando do livro Franz Kafka & Praga, de Harald Salfellner.

Com a leitura do livro, além de conhecer Kafka e a sua relação com Praga e outras peripécias da vida do escritor, revivi os meus dois dias em Praga.  O livro, eu o comprei em 2012, certamente numa promoção e só fui lê-lo agora. Ele se alonga por sete capítulos, 361 páginas e a inserção de 269 fotografias de época. Notas, tabela de equivalências (em português, tcheco e alemão - dos principais lugares citados no texto), Referências bibliográficas e dois mapas da cidade complementam o livro.

Franz Kafka & Praga. Harald Salfellner.  Tinta Negra. 2011. Tradução: André Delmonte.

Os sete capítulos tem os seguintes títulos: I. Resumo biográfico; II. A Praga de Franz Kafka; III. Os primórdios da família Kafka em Praga; IV. Itinerário de Kafka em Praga; V. Passear por Praga. VI. Praga e a Boêmia nas obras de Kafka; VII. A Boêmia amada por Kafka. Os mais densos são os de número quatro e sete. Um prefácio, escrito por Hugo Rokyta, apresenta o livro. Nele é mostrada a importância do amigo Max Brod na preservação da obra do amigo; que Kafka escrevia em alemão e que o biógrafo austríaco Harald Salfellner mostra a cidade de Praga como Kafka a enxergava.

Do primeiro capítulo - Resumo biográfico - anotei os seguintes destaques: Nascimento em 1883 e morte por tuberculose em 1924; que era o primogênito da família e que estudou em escolas alemãs; que o seu primeiro encontro com Max Brod aconteceu no ano de 1902 e que em 1906 concluiu o seu doutorado em Direito. Grande destaque é dado ao fato de ter toda uma formação em escolas alemãs, em meio ao nacionalismo tcheco em formação. Antes da primeira guerra a região integrava o império austríaco.

Do segundo capítulo - A Praga de Franz Kafka -, rico em história, economia e geopolítica, nos mostra a cidade de Praga, capital da Boêmia, uma província austríaca dos Habsburgos. Na cidade havia uma efervescência cultural equivalente a Paris, Berlim e Viena. O sentimento nacional tcheco estava em formação e havia forte oposição entre alemães e tchecos. Judeus e alemães eram como que aliados. Os alemães ocupavam as áreas mais nobres da cidade. Ao fim da primeira guerra surge a Tchecoslováquia, enquanto as antigas forças austríacas se esvaíam. A Praga eslava não era a Praga de Kafka.

No terceiro capítulo - Os primórdios da família Kafka em Praga, tomei os seguintes apontamentos: a família chega do interior e se dedica ao mundo dos negócios; as suas queixas constantes de que não havia vida familiar, apenas negócios; as constantes mudanças de endereço da família e o ambiente triste em que viviam.

Já o capítulo quarto, razão principal de ser do livro - Itinerário de Kafka em Praga - é o mais interessante e o mais longo de todos. É o passeio pela cidade. São apresentados 38 lugares que são as marcas de Kafka na cidade, entre eles os pontos históricos da cidade, o local de nascimento, as escolas em que estudou, a praça central da cidade e o seu famoso relógio astronômico, a ponte Carlos e o rio Moldava, o coração da cidade, seus locais de trabalho, terminando pela apresentação do cemitério judaico e pelo monumento em sua homenagem. 

No quinto capítulo -  Passear por Praga - mostra os momentos de lazer do escritor e onde os passava: as ruas, as praças, os parques, os cafés...

No sexto capítulo - Praga e a Boêmia nas obras de Kafka - encontramos os lugares que são descritos ou serviram de inspiração para a sua obra.

O sétimo capítulo - A Boêmia amada  por Kafka - é de novo um capítulo que cresce em importância. Devido aos seus compromissos de trabalho ele viajava pouco ou o fazia a trabalho, no que diríamos hoje, seria no Ministério do Trabalho ou da Previdência Social. Conhecia e adorava as cidades do interior da Boêmia, ricas e fortemente industrializadas. Ao fim de sua vida as conhece em função dos seus tratamentos de saúde, mas a sua tuberculose a cada dia se tornava mais irreversível.

Tomo ainda os três parágrafos da contracapa do Livro: "Você já se imaginou andando pelas ruas de Praga, a capital mais charmosa da Europa, na companhia de Franz Kafka?

Um dos escritores de maior renome do mundo guiará você pelas ruas, cafés, hotéis e monumentos da cidade natal. Franz Kafka & Praga lança um novo olhar sobre a cosmopolita e clássica capital da República Tcheca. Uma viagem à "nova Paris" do início do século XX, ponto de efervescência político-cultural, uma cidade recriada sob a ótica de um de seus habitantes mais ilustres".

"Um tesouro incrível dotado de acontecimentos políticos, história cultural e citações de Kafka se abre aos olhos do leitor quando Harald Salfellner começa sua narrativa" Deutsche Welle. Gostei demais e super recomendo a leitura.


domingo, 25 de abril de 2021

O mestre de esgrima. Arturo Pérez-Reverte.

Mais um livro comprado em promoção e não lido logo após a compra. O comprei no ano de 2011 e, como já contei em outro post, nas promoções eu comprava, ou pelo autor, pelo tema, ou pela editora. Este - O mestre de esgrima, de Arturo Pérez-Reverte, certamente foi em função da editora, a Companhia das Letras. Do autor, nunca tinha ouvido falar e nunca me detive sobre o tema da esgrima, nem como arma e nem como esporte. 

O professor de esgrima. Arturo Pérez-Reverte. Companhia das Letras. 2003. 

Não me decepcionei com a leitura. O tema é muito interessante. A disciplina exigida para a prática da esgrima é algo impressionante. Era uma arma da nobreza e exigia total disciplina, concentração e o cumprimento de todo um ritual, até mesmo para eliminar o adversário. Atrás da esgrima havia um rigoroso código de postura e de ética. Quanto ao autor, fiquei surpreso. Ele é lido em mais de vinte países. O livro pode ser enquadrado como um romance policial e histórico e, sob certo aspecto, até romântico amoroso.

O ano dos acontecimentos é o ano de 1868 e o país é a Espanha e a sua monarquia. Isabel II era a rainha, no poder desde 1830. O tema do livro são as insurreições deste ano que a derrubam do poder, mas não derrubaram a monarquia. Essas intrigas são parte integrante do romance, do qual, no entanto, o professor dom Jaime Astarloa, mestre pela Academia de Esgrima de Paris é o protagonista. Os personagens coadjuvantes, às quais o leitor deverá prestar atenção, são Dom Luis de Ayala, o marquês de Alumbres, amigo e aluno do mestre dom Jaime, a bela Adela de Otero, uma mulher estranha que entra na história também como aluna de dom Jaime e o amigo jornalista Agapito Cárceles. 

O romance, desenvolvido ao longo de oito capítulos e 271 páginas, se ocupa da descrição da esgrima e os lamentos do professor, no que diz respeito às armas de fogo e a consequente decadência dessa arte de defesa e ataque em duelos, especialmente, em defesa da honra. Essa decadência também afetava a demanda por alunos, cada dia mais escassos. Contra os princípios de Dom Jaime ele admite Adela de Otero como sua aluna, por quem se apaixona perdidamente. Sempre, no entanto, soube manter a compostura. Já era um senhor de certa idade. Bem, o resto é a trama do enredo, começando a parte policial. A leitura é extremamente agradável e fluente. É daqueles livros que você não quer parar de ler.

Para dar o tom do romance transcrevo um parágrafo em torno da ética e valores da esgrima e sobre a decadência desses mesmos valores, em que Adela de Otero cobra do mestre os ganhos do seu, digamos, estoicismo: "De todos os personagens deste drama, senhor Astarloa, foi o senhor o mais crédulo, o mais querido e o mais digno de dó. - As palavras pareciam gotejar lentamente no silêncio. - Todo mundo, os vivos e os mortos, mandou a consciência às favas. E o senhor, como nas comédias ordinárias, com sua ética ultrapassada e suas tentações vencidas, interpretando o papel de marido enganado, o último a saber. Olhe para o senhor, se for capaz. Pegue um espelho e me diga onde foi parar agora todo o seu orgulho, toda a sua segurança, sua fátua auto complacência. Quem diabo o senhor achava que era? Bem, tudo foi muito enternecedor, está certo. Se desejar, pode se aplaudir mais uma vez, a última, porque já é hora de baixar o pano. O senhor precisa descansar". p. 264. Foi para humilhar!

Deixo a orelha do livro para aguçar a sua curiosidade para a leitura: "Dom Jaime de Astarloa, um homem habituado aos usos da tradição, a honra é mais importante que o sucesso ou o poder político. O sexagenário professor de esgrima permanece fiel aos valores de toda uma vida: a lealdade é um princípio natural e a nobreza significa mais do que títulos adquiridos em ocasião propícia.

Nas ruas de Madri, porém, a agitação crescente - ouvem-se rumores sobre tropas revolucionárias que planejam deixar o exílio e derrubar a casa real dos Bourbon. A esperança republicana toma corpo, mas dom Jaime não se deixa levar pela instabilidade.  Apesar das transformações em curso, tudo é ordem e têmpera para o mestre de esgrima.

O mecanismo de relógio que rege a pacata existência do professor, entretanto, está prestes a ser desregulado.  A misteriosa e sedutora Adela de Otero, de pele acobreada e olhos cor de violeta, acrescenta vertigem à vida do experiente mestre e convence dom Jaime a lhe ensinar os segredos de um golpe fatal, conhecido como a mortífera 'estocada de duzentos escudos'.

À súbita paixão vêm se somar os percalços das intrigas políticas, que chegam aos ouvidos de dom Jaime pelas confissões de um de seus alunos, dom Luis de Ayala, o influente marquês  do los Alumbres. A dom Jaime somente, graças à lealdade do professor, o marquês confia segredos de alcova e documentos lacrados, bem como suas mais secretas opiniões sobre o poder.

Uma investigação policial termina por lançar o mestre de esgrima definitivamente no centro das convulsões políticas e sociais. A perícia de esgrimista terá então de conduzir seus movimentos, e qualquer hesitação poderá custar-lhe a vida. Como afirma o próprio mestre nesta inquietante parábola, 'em esgrima, o simples, é inspiração; o complexo é técnica'. Este parece ser também o norte do estilo do autor: um mínimo de retórica para um máximo de efeitos".

Plenamente recompensado com a leitura do livro e mais do que recomendações para a sua leitura. O autor é espanhol, nascido em 1951. É jornalista de profissão, profissão que abandona em favor da literatura. O mestre de esgrima data do ano de 1988. A edição brasileira é de 2003. A tradução é de Eduardo Brandão.



domingo, 18 de abril de 2021

A misteriosa chama da rainha Loana. Romance ilustrado. Umberto Eco.

É mais um Umberto Eco. Trata-se de A misteriosa chama da rainha Loana. Romance ilustrado. Comprei o livro em 2009 e o li em partes. Fiz até alguns apontamentos. Deles não me lembrava absolutamente nada. Não, não se apavorem. Eu não perdi a memória. Apenas para dizer que o livro trata da perda da memória e da tentativa e dos esforços feitos para recuperá-la. O livro se divide em três partes: Primeira: O acidente; Segunda: Uma memória de papel; Terceira: OI NOZTOI (O Z, na verdade é o Zigma).

A misteriosa chama  da rainha Loana. Umberto Eco. Record. 2005. Tradução: Eliana Aguiar.

Na primeira parte Yambo, o protagonista do romance, sofre um acidente (certamente um AVC) e perde a memória em partes. Não mais lembra quem ele é ou como se chama, mas ainda consegue dirigir, identificar as diferentes cores e não perdeu o sabor (ainda bem - assim pode tomar uma garrafa de vinho, acompanhando as refeições). Relembra a sua profissão de comerciante de livros raros e de sua secretária, a bela (bela até demais - segundo Paola, a esposa) Sibilla. Politicamente, lembra que era um pacifista. São os quatro primeiros capítulos.

Na segunda parte, Yambo busca a recuperação da memória, indo para a pequena cidadezinha de Solara, onde, na casa do avô, volta a ter contato com os anos de sua infância e juventude. É a parte mais longa do livro e grande parte dele se passa no sótão, onde estão encaixotadas as coisas desse tempo. Passa por reencontrar uma enciclopédia, revistas em quadrinhos, um rádio e documentos e recortes de jornais dos anos do Fascismo e da Guerra. A época retratada, os anos de infância e juventude, são os da década de 1930 e 1940. Encontra ainda discos e seus cadernos e livros escolares. Aí está a preciosidade do romance. A reconstituição de uma época, retratada pelos livros oficiais. Como eles vão até depois da guerra, é notável observar a mudança de posição com relação a valores e heróis. Passa oito dias no sótão e a sua pressão se altera, ela sobe.

Quando descobre um livro raro de Shakespeare, que vale uma fortuna, ele não aguenta. Entra em coma. Aí vem recordações enevoadas. As artimanhas de um narrador. É a terceira parte do livro. As contraposições da história oficial se acentuam com as derrotas do nazi-fascismo, mostradas especialmente nas revistas em quadrinhos, onde agora irão aparecer os heróis norte-americanos. O capítulo dezesseis é o mais rico deles. Nele, Yambo estabelece diálogos com Gragnolo, um jovem anarquista, um contestador, qualidade inerente a todo anarquista. Deus, o Bem e o Mal, Fascismo e Livre Arbítrio são alguns temas abordados. Nesta parte do livro ele entra, não sei se é correto dizer, em fluxos de consciência. Relembra os seios nus de Josephine Baker e a homenagem que lhe presta, devidamente confessada ao padre, - mas se fixa mesmo, num amor platônico de sua adolescência, - a menina, LILA, que na história real desaparecera por completo de seus horizontes. Ela viera para o Brasil e dela não se teve mais notícia. Sim, o romance tem a Itália fascista como cenário junto com a eclosão da Segunda Guerra e o seu final. Esse amor seria a misteriosa chama?

Para dar uma ideia mais precisa do livro, transcrevo a sua orelha: "Depois de Baudolino, Umberto Eco lança um romance cheio de calor e lembranças, de suspiros (mitigados) e saudades. Decidiu assumir a paisagem de sua geração e, a partir dessa luz, obteve uma narrativa de fundo biográfico, num vasto painel dos anos 1930 e 1940, do brevíssimo e sobressaltado século XX.

O protagonista, Yambo, é um senhor de meia-idade, provido de grande cultura, que trabalha com livros raros, em Milão. Após salvar-se de uma doença grave, Yambo perde uma parte da memória afetiva ou biográfica. Para tentar recuperá-la, passando um longo período nas montanhas do Piemonte, na casa que fora de seu avô. As lembranças reaparecem - com idas e vindas - quando se depara com um acervo que lhe marcou a infância: jornais, discos, quadrinhos - um imenso parque (ou cemitério) de objetos. Toda uma semiologia que leva aos tempos do Fascismo e às portas da Segunda Grande Guerra.

Desdobra-se o romance no repertório fundamental da primeira e da segunda infâncias de Yambo-Eco, nos sonhos de heróis e distâncias impossíveis: das figurinhas de álbuns famosos aos mais diversos gibis; do suplemento Corrieri dei Piccoli; das obras de Emilio Salgari, em orientes perdidos e suspirados; da canção popular, por onde passam jovens frágeis e inesquecíveis (Signorinella pallida), outras, apaixonadas (C'erevamo tanti amati), ousadas, patriotas ( Le ragazze di Trieste); além dos hinos fascistas, com suas promessas de perenes primavera e juventude (Primavera , Giovinezza),, visando ao fortalecimento moral das fronteiras do Império Italiano. E mais, o rádio de galena, as ondas curtas e a BBC de Londres.

Que o leitor descubra todo o percurso de Yambo, e que reconheça imagens e canções, que marcaram parte essencial da história da Itália e do Mundo.

Nesse romance pós-moderno, será difícil não evocar as Confissões de Agostinho ou a filogenética, a delicada fronteira do repertório individual e do coletivo, o palácio da memória e a digital da história. Eco nos traz um romance largo e emocionado"

Como pontos altos do livro, destacaria, do capítulo 17 (são 18 ao todo), a discussão entre Yambo e Gragnolo, o seu amigo anarquista, uma discussão sobre o fascismo (p. 341), sobre os males contidos nos dez mandamentos (apenas quatro são bons), ditados por um Deus fascista (p. 342-345), sobre o Bem e o Mal e o Livre Arbítrio. Do Livre Arbítrio tomo a reflexão final: "Você fala como um teólogo, só que todos eles falam de má-fé. Dizem como você que o Mal existe, mas Deus nos deu o mais belo presente do mundo que é o livre-arbítrio. Podemos livremente fazer o que Deus ordena ou o que o diabo sugere, e se depois vamos para o inferno é porque não fomos criados como escravos, mas como homens livres, só que usamos mal a nossa liberdade e isso foi uma decisão nossa". Isso. Isso? Mas quem lhe disse que a liberdade é um presente? p. 349. E aí vem as contestações.

O fato de ser um romance ilustrado nos põem em contato com um rico acervo de capas de livros e de revistas, de manchetes de jornais e artistas em cartaz na época. Coisa bem do campo e do domínio do escritor.  Dois grandes temas em foco. A perda da memória e a memória dos tempos do fascismo.

terça-feira, 13 de abril de 2021

O Cemitério de Praga. Umberto Eco.

É um Umberto Eco. Comprei O Cemitério de Praga em 2011, quando ainda estava em sala de aula. Por esta razão, apenas comecei a sua leitura, sem concluí-la. É um livro volumoso. São 479 páginas. Agora o retomei e o li em uma só sentada. Não é um livro de leitura fácil. São muitos personagens e vários fatos históricos, dos quais você precisa ter algum conhecimento, para que a leitura flua. Ao final do livro, o próprio autor procura facilitar a leitura, através de uma coluna em que alinha o capítulo com o enredo e a história. Ao todo são 27 capítulos e o tempo histórico descrito vai de 1830 até 1898.

O Cemitério de Praga. Record. 2011. Tradução de Joana Angélica d'Avila Melo.

Simone Simonini é o personagem central do livro e, segundo o autor, é o único personagem inventado na história. Todos os outros são personagens reais. Simonini divide o seu protagonismo com o seu alter ego, o padre Della Piccola. Simonini escreve o seu diário de memórias, iniciado em 24 de março de 1897 e o termina em 20 de dezembro de 1898. Ele conta a sua história de vida, desde os anos de sua infância vividos em Turim, a sua participação nas guerras da unificação italiana, o seu exílio em Paris, de onde assiste e participa, nos bastidores, com a elaboração de documentos históricos e falsificações, dos episódios da segunda metade do século XIX. Catolicismo, jesuítas, maçonaria e judeus constituem o núcleo central do livro. 

Ao final do livro, na página 478, temos uma espécie de adendo - Fatos póstumos - que esclarece muitas coisas. Aparecem quatro datas; 1905, quando na Rússia se fala de uma "sinistra conspiração mundial", uma "conspiração maçônica judaica", que pode ser conhecida através  de um manuscrito, sob o título Protocolos dos anciãos de Sião; 1921, quando o London Times estabelece relações entre o livro de Joly (este autor aparece muitas vezes ao longo do romance) e os protocolos e os considera como uma falsificação; 1925, Hitler cita os protocolos no Mein Kampf e 1939, ano em que Henry Rollin considera os protocolos como a obra mais difundida no mundo depois da Bíblia.

Vamos agora procurar elucidar o título do livro - O Cemitério de Praga. É neste cemitério que se reuniam os rabinos para debaterem o seu plano de dominação do mundo. Esse projeto envolvia judeus,  maçons e os jesuítas, que não passam de "maçons vestidos de mulher". p. 22.  Muitas tramas neste romance, que pode ser qualificado como um romance histórico, uma vez que os personagens envolvidos são reais. Uma história de horrores, que viria a desaguar nos acontecimentos da primeira metade do século seguinte. Espionagem e contraespionagem, traições e assassinatos, cadáveres ocultos em cloacas, falsificação de documentos, perfuração de hóstias consagradas em missas de magia negra vão se sucedendo ao longo dos 27 capítulos do livro.

Na resenha vou me ater ao capítulo 26 que leva o título de "A solução final". Nele está revelado o famoso plano de dominação mundial. Assim lemos: "Conferi o que eu já tinha usado para os discursos  precedentes do rabino. Os judeus se propunham apoderar-se das vias férreas, das minas, das florestas, da administração, dos impostos, do latifúndio; visavam à magistratura, à advocacia, à instrução pública; queriam infiltrar-se na filosofia, na política, na ciência, na arte e, sobretudo na medicina, porque um médico entra nas famílias mais facilmente do que um padre. Convinha minar a religião, difundir o livre pensamento, suprimir nos programas escolares as aulas de religião cristã, açambarcar o comércio do álcool e o controle da imprensa. Santo Deus, o que mais eles pretendiam". p.450. Na sequência, são listados os meios para atingirem seus fins. A frase atribuída a Maquiavel aparece explicitamente:

"Para impedir que o povo descubra, por si só, uma nova linha de ação política qualquer, nós o manteremos distraído com várias formas de divertimento: jogos ginásticos, passatempos, paixões de vários gêneros, tabernas, e o convidaremos a participar de competições artísticas e esportivas... Estimularemos o amor pelo luxo desenfreado e aumentaremos os salários, mas isso não trará benefícios ao operário, porque simultaneamente acresceremos o preço das substâncias mais necessárias, sob o pretexto de maus resultados nos trabalhos agrícolas. Minaremos as bases da produção, semeando os germes da anarquia entre os operários e encorajando-os ao abuso de bebidas alcoólicas. Procuraremos dirigir a opinião pública para toda espécie de teoria fantástica que possa parecer progressista ou liberal". p. 451. Também havia um programa de controle dos estudantes:

"Quando estivermos no poder, supriremos dos programas educativos todas as matérias que possam perturbar o espírito dos jovens e os reduziremos a criancinhas obedientes, que amarão seu soberano. Em vez de estudar os clássicos e a história antiga, que contêm mais exemplos ruins que bons, mandaremos que estudem os problemas do futuro. Cancelaremos da memória dos homens a lembrança dos séculos passados, que poderia ser desagradável para nós. Com uma educação metódica, saberemos eliminar os resíduos de independência de pensamento da qual desde há muito nos aproveitamos para nossos fins... Sobre os livros com menos de trezentas páginas, baixaremos uma taxa dupla, e essa medida obrigará os escritores a publicar obras tão longas que terão poucos leitores. Nós, ao contrário, publicaremos obras baratas para educar a mente do público. A taxação determinará uma redução da leitura deleitável e ninguém que deseje atacar-nos com sua pena encontrará um editor". p. 452. Quanto a imprensa também havia um programa:

"Quanto aos jornais, o plano judaico prevê uma liberdade de imprensa fictícia, que sirva para o maior controle das opiniões. Dizem os nossos rabinos que será preciso apoderar-se do maior número de periódicos, de modo que expressem opiniões aparentemente diferentes, a fim de dar a impressão de uma livre circulação de ideias, ao passo que, na realidade, todos refletirão as ideias dos dominadores judeus. Observem que comprar os jornalistas não será difícil, porque eles constituem uma maçonaria e nenhum editor terá coragem de revelar a trama que liga todos à mesma trilha, uma vez que ninguém é admitido ao mundo dos jornais sem ter tomado parte em algum negócio escuso na sua vida privada.... p. 452. E assim por diante...

Como não tenho imagens do cemitério, vai aí um dos símbolos da cidade. O relógio astronômico.

Quero deixar ainda uma frase que, para mim, foi a mais marcante do livro. Ela é dita por um russo, Rachkovsky, que pede a Deus, para que sempre tenham um judeu a quem possam expressar o seu ódio: "É necessário um inimigo para dar ao povo uma esperança. Alguém já disse que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas: quem não tem princípios morais costuma se enrolar em uma bandeira, e os bastardos sempre se reportam à pureza da sua raça. A identidade nacional é o último recurso dos deserdados. Muito bem, o senso de identidade se baseia no ódio, no ódio por quem não é idêntico. É preciso cultivar o ódio como paixão civil. O inimigo é o amigo dos povos. É sempre necessário ter alguém para odiar, para sentir-se justificado na própria miséria. O ódio é a verdadeira paixão primordial. O amor, sim, é uma situação anômala. Por isso, Cristo foi morto: falava contra a natureza. Não se ama alguém por toda a vida; dessa esperança impossível nascem adultérios, matricídios, traições dos amigos... Ao contrário, porém, pode-se odiar alguém por toda a vida. Desde que esse alguém esteja sempre ali, para reacender nosso ódio. O ódio aquece o coração". Hoje poderíamos dizer, - um inimigo, seja ele quem for, mas um inimigo, nem que ele seja uma construção, uma invencionice. 

Para dar uma ideia mais precisa do livro, transcrevo o primeiro parágrafo da orelha da capa: "Ao longo de todo o século XIX, entre Turim, Palermo e Paris, encontramos uma satanista histérica, um abade que morre duas vezes, alguns cadáveres no esgoto parisiense, um garibaldino que se chamava Ippolito Nievo, desaparecido no mar nas proximidades de Stromboli, o falso bordereau de Dreyfus para a embaixada alemã, a disseminação gradual da falsificação conhecida como Protocolos dos sábios de Sião (que serviriam de inspiração a Hitler para os campos de concentração), jesuítas que tramam contra maçons, maçons, carbonários e mazzinianos que estrangulam padres com as tripas das próprias vítimas, um Garibaldi de pernas tortas, os planos dos serviços secretos piemonteses, franceses, prussianos e russos, os massacres numa Paris da Comuna em que se comem ratos, golpes de punhal, horrendas e fétidas reuniões por parte de criminosos que, entre doses de absinto, planejam explosões e revoltas de rua, barbas falsas, falsos notários, testamentos enganosos, irmandades diabólicas e missas negras. Um material perfeito para um romance-folhetim ao estilo oitocentista, ilustrado com os feuilletons daquela época".

Este romance aparece em 2010, trinta anos após o insuperável O nome da rosa. Trata-se de uma antevisão dos horrores do século XX, quando efetivamente todos os ódios implodem ou explodem. Uma obra, para implodir também, toda e qualquer ingenuidade. E, acima de tudo, extremamente atual. "Que Auschwitz não se repita", nos alertava Adorno. Será difícil. E, como diz Primo Levi, um raro sobrevivente de Auschwitz, em frase de epígrafe no livro Fascismo - um alerta, de Madeleine Albright, "Toda era tem o seu próprio fascismo". Infelizmente, o Brasil tem o seu, com uma dose de ódio mais forte do que as doses de absinto que são sorvidas no livro.

terça-feira, 6 de abril de 2021

A morte de Rimbaud. Leandro Konder.

Em 2011 eu ainda dava aulas na universidade. Assim eu não lia todos os livros que eu comprava. Lembro que as livrarias Curitiba faziam grandes promoções de queima de estoque, livros encalhados, certamente. Eu comprava por dois critérios, por autor ou por editora. O livro A morte de Rimbaud atendia a estes dois critérios: um bom autor, Leandro Konder e, uma grande editora, a Companhia das Letras. Também um terceiro quesito me chamou a atenção. Rimbaud, o escritor francês. Somente agora eu fiz a leitura.

A morte de Rimbaud. Leandro Konder. Companhia das Letras. 2000.

Não tenho grande experiência em fazer resenhas de romances policiais e o livro é do gênero. Não quero dar pistas que possam retirar a curiosidade ao leitor. Então tomo, da contracapa do livro, o seu enredo: "Um milionário apaixonado por literatura francesa resolve sustentar cinco escritores que julga muito talentosos. Passa a chamá-los pelo nome de grandes autores franceses: Rimbaud, Aragon, Rousseau, Malraux e Claudel. Oferece-lhes uma polpuda verba mensal e despacha-os anualmente para férias na França. Rimbaud é encontrado morto. Pode ter sido acidente - ou não". O local do acidente é o Grande Hotel Combray. Bem interessante.

Depois de um pequeno problema em identificar o narrador, a leitura fluiu, como deve fluir um romance policial. Nele notei muito humor, ironia e, com certeza, um fundo moral, motivado pelo financiamento do milionário e a improdutividade dos escritores. O cenário, como os nomes poderiam sugerir, não é a França, mas sim, fictícias cidades brasileiras. Todos os personagens são brasileiros, embora os seus nomes não induzam a isso.

Os cinco escritores são: Cláudio Nicodemo da Silva, o Claudel, Mauro Teodoro dos Santos Oliveira, o Maurô, ou Malraux, José Tibúrcio Gonçalves Aragão, o Aragon, João Carlos Suslov, apelidado de russo, pelo sobrenome, passou a ser chamado de Rousseau e Severino Cavalcante, que na academia de musculação era chamado de Rambo, que se transformou em Rimbaud. O mecenas atende por Bergotte. e o personagem central do romance é Sdruws, um detetive e guarda-costas do milionário mecenas dos escritores. Outro personagem com papel de protagonista é Saint-Ex (Saint-Exupéry), o gerente do hotel onde se dão os acontecimentos. Outros personagens também são envolvidos. Um romance policial sempre precisa de pistas e despistes. É óbvio que um delegado de polícia também é personagem. 

Os escritores, embora os grandes apelidos, são absolutamente grotescos e perversos e são totalmente desprovidos de qualquer criatividade. Os quatro sobreviventes são suspeitos do crime. Se odiavam reciprocamente o suficiente para provocarem tais suspeitas. Também o próprio investigador, Sdruws dá motivos para ser suspeito. Como bons componentes de romance policial também não faltam cenas de traição, de desconfianças, de ciúmes, de desavenças e de relações sexuais com alto teor de perversão. Até traficantes frequentam as páginas do romance.

O livro tem também uma curiosidade interessante, que só poderia estar presente no livro pela enorme erudição de seu autor. Todos os capítulos são antecedidos por frases em epígrafe e que se relacionam com o teor do capítulo. No capítulos final tem uma epígrafe de cada um dos escritores famosos. O livro todo tem uma epígrafe de Marx, a grande especialidade do autor, que é professor de filosofia. Eis a epígrafe: "Perseu precisava de um capacete para perseguir os monstros. Nós, puxando o capacete para baixo, cobrimos os olhos e os ouvidos, para podermos negar a existência dos monstros". A frase está escrita também no original, em alemão. Leandro Konder foi exilado na Alemanha, como vítima da ditadura militar brasileira de 1964. 

Sobre o romance lemos na orelha da capa: "Sem a sua experiência de leitor, ele com certeza não teria escrito um livro que se enquadra com tanta exatidão no gênero policial. Aqui existe, por exemplo, uma morte, que pode ter sido acidente ou assassinato; uma ilustre coleção de suspeitos; um conjunto variado de motivações para o crime e de oportunidades para cometê-lo; pequenas tramas paralelas que são puro diversionismo; uma série de detalhes aparentemente gratuitos e que no entanto se revelam determinantes para o desenrolar da ação; um detetive paciente, pertinaz e autoconfiante, desses que são capazes de se fazerem de bobos apenas para soltar a língua de um suspeito".

O livro integra um projeto da Companhia das Letras, envolvendo a morte de grandes escritores. Rimbaud foi um escritor bastante controvertido e toda a sua literatura foi produzida antes dos vinte anos. Deixo o link de Uma temporada no inferno. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/01/uma-temporada-no-inferno-e.html. Ao final do livro também encontramos notas bibliográficas dos escritores franceses envolvidos.


sábado, 3 de abril de 2021

Neoliberalismo e globalização. 40 anos de deterioração da vida social e construção de desigualdades.

Tempos de pandemia são tempos de recolhimento, tempos de leitura e de reflexão. As presentes reflexões tem como fonte principal os dois últimos livros que eu li. Fascismo - um alerta, de Madeleine Albright e A tirania do mérito - o que aconteceu com o bem comum, de Michael J. Sandel. Os dois livros tem em comum, o título que atribuí ao presente texto, o tema dos quarenta anos de deterioração da vida social e da construção de desigualdades. As consequências são as que estamos vivenciando neste momento de insanidades, de ódio e ressentimento, que, por vezes, sufoca até a esperança presente em nosso imaginário, teimosamente, ainda não reduzida.

Fascismo - um alerta. Crítica. 2020. Tradução de Jaime Biaggio.

Nesses livros encontramos duras advertências: Madeleine Albright nos adverte que, em nada menos de 170 países existem hoje sérias ameaças à democracia, enquanto Sandel nos aponta para o entendimento das insanidades que diariamente estamos assistindo: "Isso ajuda a explicar porque os deixados para trás pela globalização ficam irritados e ressentidos, e porque se sentem atraídos por populistas autoritários que atacam as elites e prometem reafirmar as fronteiras nacionais com vingança".

As frases que mais detiveram minha atenção foram, - de Madeleine Albright, a de que "Em termos globais, mais de um terço da força de trabalho não tem emprego em tempo integral. Na Europa, o desemprego juvenil passa de 25% e a taxa aumenta quando se trata de imigrantes. Nos Estados Unidos, um em cada seis jovens está fora da escola e sem trabalho. Em termos práticos, salários estão estagnados desde os anos 1970" (p. 117), e a de Sandel, a retiro do capítulo sete, todo ele dedicado ao não reconhecimento do trabalho: "A renda média de homens estadunidenses está estagnada, em termos reais, por meio século. Apesar de a renda per capita ter aumentado 85%, desde 1979, homens brancos sem um diploma universitário de um curso de quatro anos hoje recebe menos, em termos reais, do que recebiam". Tomo a liberdade de enunciar a primeira frase do parágrafo seguinte: "Não é surpreendente que eles sejam infelizes" (pp. 283-4).

Retrocedamos então aos anos 1970, ao seu final e ao início dos anos 1980. Ou então, retrocedamos ainda mais, ao final da Segunda Guerra, para entendermos as mudanças havidas. Os anos posteriores à grande guerra  são marcados, em termos, pela construção do Estado de bem-estar social e por uma certa cooperação internacional, com os Planos Marshall, para a Europa e a Aliança para o Progresso, para a América Latina. O Estado de bem-estar social, social democracia ou Estado Democrático de Direito compreende que a estrutura social é fundada sob três pilares básicos: O indivíduo, o mercado e o Estado. O Estado faz o papel de mediação, de regulação e até, de intervenção econômica para direcionar a economia em favor do bem estar social. Afirma a precedência do Estado sobre os mercados. Nesta concepção o Estado faz a mediação entre os indivíduos (organizados em sindicatos e entidades representativas) e o mercado, passando a regulamentar as decisões tomadas. Surge assim toda uma legislação de afirmação de direitos, sob a convicção de que o ser humano é portador de direitos, que são, em contrapartida, deveres do Estado. 

Esta concepção de sociedade promoveu grande euforia, pelo que se convencionou chamar estes anos, de "anos de ouro" do sistema capitalista. Quais foram os seus feitos? Recuperação da Europa destruída pela grande guerra, ter promovido a terceira revolução industrial, a da nano tecnologia e, ainda industrializar uma série de países da periferia do mundo capitalista, entre eles o Brasil. Dominava nesta época o conceito de que industrializar era desenvolver. Só que no Brasil, esse desenvolvimento se deu sob a forma de "modernização conservadora", utilizando até as Forças Armadas (1964) para concretizar essa modernização, sem efetivar os seus benefícios sociais.

Mas em meio a tudo isso, as causas da grande guerra não foram removidas. Vejamos o discurso do presidente Truman, na Conferência de São Francisco, na recém fundada Organização das Nações Unidas: "O fascismo não morreu com Mussolini. Hitler está liquidado, mas as sementes espalhadas por sua mente doentia estão solidamente enraizadas em um número muito grande de cérebros fanáticos. É mais fácil depor tiranos e destruir campos de concentração do que matar as ideias geradas por eles", lemos no livro de Albright, na página 103.

O germe do mal não foi extinto nem com os horrores vividos durante a grande guerra. As sementes estavam sendo guardadas para serem plantadas e fertilizadas em momentos propícios posteriores. No plano político ideológico elas vieram através de um obscuro senador, influenciado por um ainda mais obscuro padre jesuíta. É o senador Joseph McCarthy. Com o macarthismo estava arremessada a semente contra todo o movimento por justiça social. Todos os que por ela lutavam foram rotulados de comunistas. Estava lançado o conceito da "ideologia da segurança nacional", a salvaguarda para o combate ao comunismo. Em nome das liberdades e valores do ocidente cristão surgiram as mais diversas organizações de extrema direita, fanaticamente atuantes até os dias de hoje.

Já no campo econômico, não se esperou pelo término da guerra. Ainda em 1944, Friedrich Hayek lançava as sementes do neoliberalismo, com o livro O caminho da servidão e, já em 1947, dá organicidade à chamada Mont Pèlerin Society. O que ele advogava? Segundo Perry Anderson, em texto no livro Pós-neoliberalismo (livro organizado por Emir Sader e Pablo Gentili), ele faz um balanço deste movimento e denuncia as suas pretensões: "Hayek e seus companheiros argumentavam que o novo igualitarismo (muito relativo, bem entendido) deste período, promovido pelo Estado de bem-estar, destruía a liberdade dos cidadãos e a vitalidade da concorrência, da qual dependia a prosperidade de todos. Desafiando o consenso oficial da época, eles argumentavam que a desigualdade era um valor positivo - na realidade imprescindível em si -, pois disso precisavam as sociedades ocidentais. Esta mensagem permaneceu na teoria por mais de 20 anos" p.10. Trilhar qualquer caminho fora do "livre mercado", seria trilhar O caminho da servidão.

Assim o todo social ganha uma nova estrutura em que as relações se estabelecem apenas entre os indivíduos e o mercado, sem a ação reguladora do Estado. Já não existem mais direitos, e o Estado não deve mais nada a ninguém. O que antes era tido como direito (saúde, educação, previdência...) agora são serviços disponíveis no mercado. Os direitos viraram mercadoria. "Não existe almoço grátis", diriam os adeptos posteriores dessa doutrina. Agora os mercados precederiam à política, subordinando-a a ele. É o anúncio do Estado pós-democrático. Perry Anderson, no texto já citado, critica os seus princípios, pelos quais pretendiam conter as crises econômicas: "O remédio então era claro: manter um Estado forte, sim, em sua capacidade de romper o poder dos sindicatos e no controle do dinheiro, mas parco  em todos os gastos sociais e nas intervenções econômicas. A estabilidade monetária deveria ser a meta suprema de qualquer governo. Para isso seria necessária uma disciplina orçamentária, com a contenção dos gastos com o bem-estar, e a restauração da taxa "natural" de desemprego, ou seja, a criação de um exército de reserva de trabalhadores para quebrar os sindicatos. Ademais, reformas fiscais eram imprescindíveis para incentivar os agentes econômicos. Em outras palavras, isso significava redução de impostos sobre os rendimentos mais altos e sobre as rendas" p. 11.

Pós -neoliberalismo. Paz e Terra. 1995.

Ainda no balanço do neoliberalismo, Perry Anderson nos mostra que, os princípios que permaneceram latentes por vinte anos, com a crise do petróleo, nos anos 1970 se tornaram política dominante já ao final da década. Em 1979 foi eleito o governo de Thatcher, em 1980 Reagan se elege presidente dos Estados Unidos e em 1982, Kohl derrota os sociais democratas na Alemanha. Essa onda neoliberal avança ao longo da década de 1980 por toda a Europa, independente de governos de direita ou de esquerda e nos anos 1990 atinge toda a América Latina, lembrando que sob a ditadura monstruosa de Pinochet, no Chile, se fez o experimento pioneiro, diretamente acompanhado e supervisionado por Milton Friedman, um de seus teólogos, que agora emergem aos borbotões da Universidade de Chicago. O Brasil enveredou por esses caminhos, logo após a promulgação da Constituição de 1988, com os governos Collor e FHC e revertida com a eleição de Lula em 2002. Os governos petistas só foram apeados do poder com o golpe institucional de 2016 e com a eleição de Bolsonaro em 2018. Antes a Justiça se encarregou de afastar, fraudulentamente, Lula dessas eleições.

Guardo comigo um texto, ainda do final dos anos 1990. Nele constam seis palavras que marcaram a efetividade prática do neoliberalismo, evidenciando, que o que o Estado de bem estar regulamentava, o Estado neoliberal desregulamenta. Eis as seis palavras, que aglutinadas, formam o tripé neoliberal: desestatização - desnacionalização; desregulamentação - desconstitucionalização e desuniversalização - desproteção. Creio que todos lembram como estas políticas foram implementadas e como elas vem sendo realizadas agora, quando já estamos vivendo esta triste realidade na política brasileira pela segunda vez. A primeira vez, confesso, que mesmo com toda a perversidade, procuravam executá-las com um certo charme, junto com uma tentativa de construção de hegemonia, sob lideranças como FHC e Jaime Lerner aqui no Paraná. Agora, a partir do do golpe de 2016 e a eleição de Bolsonaro em 2018 ele se reveste, além da violência real e simbólica, do grotesco, do ridículo, do antiintelectualismo e do negacionismo, sob as figuras públicas de Bolsonaro e de Ratinho.

Ainda dos anos 1990, guardo um trabalho sobre o futuro da democracia nos tempos do neoliberalismo. A frase que evoco de memória é a que diz que não se constrói a democracia sob a destruição sistemática e planejada dos direitos civis, políticos e sociais do povo. Isso só se faz mediante o uso da violência e da supressão das instituições democráticas. E, como nos afirmam os livros motivadores dessas reflexões, já faz meio século que assistimos e sofremos sistematicamente  a essa destruição.

Hoje, cada vez que sopram os ventos da democracia as fanatizadas forças conservadoras, inspiradas no anticomunismo dos tempos da guerra fria e banalizada pelo macarthismo, somadas com a dogmática teologia do "livre mercado", associadas às religiões conservadoras vinculadas ao capital, entram em cena para barrar os benefícios que poderiam ser gerados pelo fortalecimento da democracia. Esses ventos também sopram com mais força, transformando-se em verdadeiras tempestades, com a nefasta pregação ideológica da meritocracia, do empreendedorismo, da teologia da prosperidade e da manipulação feita pela indústria cultural do entretenimento. 

Reverter esse quadro, por meio do fortalecimento da democracia e de valores de solidariedade e do bem comum, é o objetivo maior dos dois livros aqui trazidos e que inspiraram este texto. É esta preocupação contida nas exortações finais de Madeleine Albright, quando fala da razão da escrita de seu livro: "Se Donald Trump não tivesse sido eleito presidente, ainda assim eu teria mergulhado neste trabalho, pois concebi o projeto com a ideia de dar impulso à democracia durante o primeiro mandato de Hillary Clinton. A eleição de Trump só fez aumentar o sentido de urgência" p. 254. Já, de A tirania do mérito, tomo a sua preocupação com a democracia, dos primeiros parágrafos do primeiro capítulo - Ganhadores e perdedores: "Estes tempos são perigosos para a democracia. O perigo pode ser visto no aumento da xenofobia e no crescente apoio público de figuras autocráticas que testam os limites das normas democráticas". p.29. Madeleine nos adverte de que a democracia hoje corre sérios riscos em, nada mais, nada menos do cento e setenta países, mundo afora. Com certeza, monstros como Trump, Bolsonaro e tantos outros, se elegeram sob princípios democráticos mas representavam também profundos ressentimentos e ódios incontidos. Que tempos! Meio século de degradação da vida social e da dignidade do trabalho.


quarta-feira, 31 de março de 2021

A tirania do mérito. O que aconteceu com o bem comum? Michael J. Sandel.

Mais um livro que comprei por efeito da publicidade, daquela que aparece quando você compra livros e eles oferecem outros com temas similares. Mas, o motivo maior da compra foi em função do instigante e polêmico tema da meritocracia. Trata-se de A tirania do mérito - O que aconteceu com o bem comum?, de Michael J. Sandel. Confesso que desconhecia o autor, mas já tinha ouvido falar de outro livro seu O que o dinheiro não compra: os limites morais do mercado. O seu livro mais famoso, no entanto, anunciado até na capa do presente livro, é Justiça: o que é fazer a coisa certa. Sandel é professor na Universidade de Harvard. Pelo seu curso Justice já passaram mais de quinze mil alunos. O livro é de 2020.

A tirania do mérito. Michael J. Sandel. Civilização Brasileira. 2020. Tradução: Bhuvi Libanio.

Como a orelha da capa nos põe em contato com o tema central do livro, começo por aí a resenha. A questão posta é esta: "As democracias liberais estão em risco. E, de acordo com o filósofo Michael J. Sandel, o princípio do mérito, um de seus pilares básicos, é o responsável por esse cenário". Não imaginava que toda a pregação em torno da "força do indivíduo" pudesse atingir tal nível de contestação. Mas, vamos m frente:

"Vivemos em uma constante competição, que separa o mundo entre "ganhadores" e "perdedores", esconde privilégios e vantagens e justifica o status quo  por meio de ideias como "Eu quero, eu posso, eu consigo" e "Quem acredita sempre alcança". O resultado concreto é um mundo que reforça a desigualdade social e, ao mesmo tempo, culpabiliza as pessoas, o que gera uma onda coletiva de raiva, frustração, populismo, polarização e descrença em relação ao governo e aos demais cidadãos.

Ao analisar conceitos em torno da ética do estudo, do trabalho, do sucesso, do fracasso, da tentativa e de quais são os meios considerados legítimos para trilhar esses caminhos, Sandel sugere um novo olhar para essas relações. O autor salienta as contradições do discurso meritocrático, seus contextos estruturais e a arrogância dos "vencedores", que julgam duramente os "perdedores".

A tirania do mérito propõe que, para existir uma ética diferente e dignificadora, o sucesso deve ser compreendido em prol da coletividade. Indica que uma alternativa de pensamento guiado pela humildade, pela compreensão do papel do acaso na vida humana e pela criação real da oportunidade poderá ser, então, a melhor bússola para a democracia, para o bem comum".

Do prólogo tomo os três parágrafos finais, que também considero uma boa provocação para a leitura do livro, que é a finalidade dessa resenha: "Essa maneira de pensar sobre sucesso torna difícil acreditar que "Estamos todos juntos nisso". Ela persuade os vencedores a considerarem que o sucesso deles é resultado de suas ações e os derrotados a sentirem que aqueles no topo olham para baixo com desdém. Isso ajuda a explicar por que os deixados para trás pela globalização ficam irritados e ressentidos, e por que se sentem atraídos por populistas autoritários que atacam as elites e prometem reafirmar as fronteiras nacionais com vingança.

Agora, são essas figuras políticas, apesar de desconfiarem da experiência científica e da cooperação global, que deverão conter a pandemia. Não será fácil.  Mobilizar para confrontar a crise global de saúde pública que encontramos exige não só habilidades médicas e científicas, mas também renovação moral e política.

A mistura tóxica de arrogância  com ressentimento que arremessou Trump ao poder não é uma fonte possível da solidariedade que necessitamos agora. Qualquer esperança de renovarmos nossa vida moral e cívica depende de entender como, ao longo das últimas quatro décadas, nossos laços sociais e nosso respeito um pelo outro se desmantelaram. Este livro procura explicar como isso aconteceu e refletir sobre como poderemos encontrar o caminho para uma política do bem comum".

O livro, de 349 páginas, está dividido em sete capítulos, além de prólogo, introdução e conclusão. A introdução é explosiva, mostrando as fraudes no sistema de ingresso nas universidades renomadas que formam a  IVY LEAGUE. Os sete capítulos tem os seguintes títulos: 1. Ganhadores e perdedores; 2."Grandioso porque é bom", uma breve história moral do mérito; 3. A retórica da ascensão; 4. Credencialismo: o último preconceito aceitável; 5. Ética do sucesso; 6. A máquina da triagem; 7. O reconhecimento do trabalho. A conclusão tem por título - O mérito e o bem comum.

Tenho a síntese dos capítulos, mas seria um trabalho muito longo, por isso vou selecionar algumas categorias trabalhadas ou outras pequenas dicas do que se ocupa cada capítulo. Assim, no primeiro temos: globalização, arrogância, humilhação, ressentimento, discórdia. No segundo: Graça divina, recompensa por mérito, prosperidade, sofrimento e a "América é grande porque é boa".  No terceiro: sucesso, esforço próprio, fé, responsabilidade, discurso inspirador ou discurso ofensivo. No quarto: credenciais universitárias, educação, igualdade e desigualdade, o smart X Stupid, tecnocracia X democracia. No quinto: aristocracia X meritocracia, liberalismo e neoliberalismo, o estigma burro/inteligente. No sexto temos a triagem. Por óbvio, o tema é o do ingresso nas universidades, os vencedores e a felicidade, o trabalho em nível superior e em nível técnico. No sétimo temos análises estatísticas da remuneração, a degradação da dignidade do trabalho e o grave problema de que a questão financeira não é a única que gera angústias, mas que as agrava. Volta também a questão do ressentimento. Trata também dos suicídios, denominados de "mortes por desespero".

E, ainda como provocação para a leitura, duas passagens: A primeira é retirada do capítulo 3, a retórica da ascensão: "A tirania do mérito é resultado não só da retórica da ascensão. Ela consiste em um conjunto de comportamentos e circunstâncias, que, agrupadas tornaram a meritocracia tóxica. Primeiro, sob condições de desigualdade desenfreada e mobilidade barrada, reiterar a mensagem de que nós somos responsáveis por nosso destino e merecemos o que recebemos corrói a solidariedade e desmoraliza pessoas deixadas para trás pela globalização. Segundo, insistir na ideia de que algum diploma universitário é o principal caminho para um emprego respeitável e uma vida decente cria um preconceito credencialista que enfraquece a dignidade do trabalho e rebaixa pessoas  que não chegaram à universidade; e terceiro, insistir na ideia de que problemas sociais e políticos são mais bem resolvidos por especialistas com educação de nível superior e valores neutros é presunção tecnocrática que corrompe a democracia e tira o poder de cidadãos comuns". p. 105.

A segunda é a exortação final do livro: "A convicção meritocrática de que pessoas merecem quaisquer que forem as riquezas que o mercado concede a partir de seus talentos faz a solidariedade ser um projeto quase impossível. Por que as pessoas bem-sucedidas devem algo aos membros com menos vantagens na sociedade? A resposta para essa pergunta depende de reconhecer que, para todos os nossos esforços, não vencemos por conta própria nem somos autossuficientes; estar em uma sociedade que recompensa nossos talentos é sorte, não é obrigação. Uma sensação viva do contingente de nosso destino pode inspirar certa humildade: "Aí vou eu, mas pela graça de Deus ou por acidente de nascimento, ou ainda, por mistério do destino". Essa humildade é o começo do caminho de volta da dura ética do sucesso que nos divide. Aponta para além da tirania do mérito na direção de uma vida pública menos rancorosa e mais generosa". pp.325-6.

Por fim, dois depoimentos da contracapa: "Acessível e profundo, A tirania do mérito é uma análise reveladora da perversa injustiça da nossa sociedade, movida em parte por uma ingênua e míope confiança na noção de mérito. Em tempos de retórica fácil e tribalismo irrefletido, este livro provocativo é leitura obrigatória àqueles que ainda se importam com o bem comum". E "Sandel oferece uma crítica convincente e profunda da meritocracia, essa que [...] deteriorou nosso senso de comunidade e respeito mútuo [...]. Uma análise instigante de um grave problema político e social".

É a velha distinção entre o ser como um indivíduo ou como um ser social. Uma questão de concepção. Uma leitura necessária.


terça-feira, 23 de março de 2021

FASCISMO - um alerta. Madeleine Albright.

Cheguei a este livro por meio da publicidade virtual que é feita quando você compra livros. Eles aparecem como sugestões por afinidade de temas com os livros que você comprou. Também ouvi boas referências no programa do Reinaldo Azevedo, que agora, praticamente, se transformou num programa referência nas questões políticas e jurídicas. Quem diria? A compra também foi efetuada em virtude da autora do livro, a ex-secretária de Estado dos Estados Unidos. Confesso que até o deixei numa fila de espera, pensando se tratar de um livro de teoria que exigiria grande concentração de esforços. Nada disso. O livro é fluente e de agradável leitura, apesar da nebulosidade do tema. Trata-se do livro: Fascismo - um alerta, de Madeleine Albright.

Fascismo - um alerta. Madeleine Albreight. Crítica. 2020. Tradução: Jaime Biaggio.

Na página final do livro lemos sobre a escrita do mesmo: "Se Donald Trump não tivesse sido eleito presidente, ainda assim eu teria mergulhado neste trabalho, pois concebi o projeto com a ideia de dar impulso à democracia durante o primeiro mandato de Hillary Clinton. A eleição de Trump só fez aumentar o sentido de urgência". p.284. A edição estadunidense do livro data de 2018 e a brasileira de 2020. E, como diz o subtítulo, um alerta, evidencia que a democracia está sob sérios riscos.

O livro começa profundamente autobiográfico, mostrando a fuga da família de Madeleine, de Praga, sua cidade natal, para a Inglaterra durante a ocupação nazista da Tchecoslováquia e depois com a ocupação do país pelo regime soviético. Posteriormente a família se estabeleceu nos Estados Unidos, onde ela exerceu importantes atividades políticas, foi professora universitária (Georgetown University - Washington) e escritora. Escreve este livro, portanto, a partir de um posto de observação extremamente privilegiado. Ela foi a poderosa secretária de Estado no governo Clinton. Um governo neoliberal, diga-se de passagem.

O livro acompanha a sua trajetória de vida e aponta os principais entraves ou retrocessos mundiais para assegurar o processo democrático. Isso é narrado ao longo de dezessete capítulos, ao longo de 299 páginas. Vou enunciar os títulos dos capítulos para depois tecer breves comentários: 1. Uma doutrina de raiva e de medo; 2. O maior espetáculo da terra; 3. "Queremos ser bárbaros"; 4. "Não tenham piedade no coração"; 5. A vitória dos Césares; 6. A Queda; 7. A ditadura da democracia; 8. "Há muitos corpos lá em cima"; 9. Uma difícil arte; 10. Presidente vitalício; 11. Erdogan, o magnífico; 12. O homem da KGB; 13."Somos quem um dia fomos"; 14. "O líder sempre estará conosco"; 15. Presidente dos Estados Unidos; 16. Sonhos ruins"; 17. As perguntas certas. Vamos aos comentários.

1. Nesse capítulo Madeleine narra a sua familiaridade com o tema do fascismo, que o acompanha desde a sua tenra infância de fugas, primeiro do nazismo e depois do regime soviético, de sua cidade natal, a bela Praga, para a Inglaterra, para depois se estabelecer nos Estados Unidos. De lá, com notoriedade acompanhou os grandes fatos políticos do mundo, até, com estarrecimento, acompanhar o governo de Trump, "o primeiro presidente antidemocrático  na história moderna dos EUA".

2. Nesse capítulo é narrada a ascensão do fascismo na Itália, com destaque para a crise generalizada, que se tornou o campo fértil para a ascensão de Mussolini. A Itália, no imaginário popular, sentia a necessidade de um Duce.

3. O terceiro capítulo é dedicado a Hitler e às condições da Alemanha para a sua ascensão. Pesaram para isso a insatisfação popular, o Tratado de Versalhes e a fragilidade da República de Weimar. De Hitler ela destaca o uso do rádio, a Internet da época, e as fortes autoconvicções de grandeza do Führer, o Duce alemão.

4. O quarto capítulo é particularmente lindo. Ele começa com o filme de Chaplin - O Grande Ditador. Então, por óbvio, o tema são as relações entre os dois comandantes, especialmente no que diz respeito à Guerra Civil Espanhola, onde entra em cena um terceiro comandante fascista, o general Franco, que, contudo, não se alinhou. A minha referência à beleza desse capítulo é a relação estabelecida com o filme de Chaplin e não às relações entres os ditadores. Também as divisões entre os grupos de esquerda na Espanha ganha a sua abordagem.

5. O capítulo tem por tema o poderoso Império Austro-húngaro e a sua adesão ao nazismo. Também é analisado o Zeitgeist da época, de grande perigo de adesão em massa ao regime do nazi/fascismo, tanto na Inglaterra como nos Estados Unidos.

6. O tema do capítulo não poderia ser outro, senão o do enunciado do título. A queda, primeiro de Mussolini e depois de Hitler. Ao final, Chaplin volta à cena com o seu fantástico discurso, cheio de humanidade, de seu Último Discurso.

7. Um belo capítulo sobre o pós-guerra. Ela retoma as memórias de sua cidade natal e os desesperos de uma menina de oito anos a estabelecer paralelos entre dois regimes totalitários, que falavam a mesma língua, a língua da violência. Fala de sua adaptação nos Estados Unidos, a sua nova pátria, envolvida com os horrores do macarthismo, onde o medo do comunismo alavancava o espírito fascista.

8. Este capítulo começa com o discurso de Truman, em São Francisco, na recém fundada ONU. "O fascismo não morreu com Mussolini. Hitler está liquidado, mas as sementes espalhadas por sua mente doentia estão solidamente enraizadas em um número muito grande de cérebros fanáticos". A grande abordagem é o perigo representado pelo fanatismo da tradição e dos nacionalismos. O traço biográfico está de volta, com a narrativa de suas intervenções, já como Secretária de Estado, especialmente no que diz respeito à Guerra dos Balcãs, com o esfacelamento da antiga Iugoslávia. Uma história de muito horror.

9. Outro capítulo extraordinário. Ela apresenta as suas percepções de mundo. A deterioração geral dos salários a partir do final dos anos 1970 (Lembrando que são os anos em que se iniciam as políticas neoliberais, com as ascensões de Thatcher, em 1979, Reagan em 1980 e Kohl em 1982). Ela destaca quarenta anos de insatisfações, em contraposição aos anos imediatamente posteriores à Guerra. Faz alusão às semelhanças entre os climas da ascensão do fascismo e do nazismo com o clima hoje existe em, no mínimo, setenta países. Esses sintomas foram agravados com a crise de 2008 e com a generalização da propagação de falsas verdades, as famosas fake news.

10. Este capítulo é dedicado à Venezuela de Chávez e Maduro e sobre as origens do bolivarianismo. Uma bela análise em que condena a política de ameaças de Trump a Maduro.

11. O capítulo é dedicado à Turquia e ao presidente Erdogan.

12. Interessante capítulo sobre a Rússia pós 1991. Todo o destaque vai para Putin e aos problemas que ele enfrenta e como os enfrenta. Putin é sempre um amigo de governos autoritários.

13. O capítulo versa sobre a União Europeia, seus avanços, dificuldades e crises. Orban da Hungria é o personagem mais retratado. Os inimigos de Bruxelas.

14. Capítulo dedicado aos problemas da Coreia, desde a Guerra Fria, com destaque para a única família no poder, desde aqueles tempos, até os dias de hoje na Coreia do Norte. É claro que o líder Kim Jong-un e a sua política de armas nucleares é o personagem central.

15. O presidente do título é Donald Trump, "o primeiro presidente antidemocrático da história moderna dos EUA". O capítulo termina com uma advertência de Primo Levi, um raro sobrevivente de Auschwitz, sobre os sintomas do fascismo que se manifesta "não só através do terror da intimidação policial, mas pela negação e distorção das informações, pelo enfraquecimento dos sistemas de justiça, pela paralisação do sistema educacional e pela disseminação, de várias formas sutis, da nostalgia por um mundo onde reinava a ordem". Os sintomas estão visíveis.

16. O capítulo apresenta as percepções da autora sobre o mundo atual, em que, lamentavelmente, predominam os aspectos negativos.

17. Um grande capítulo final, o capítulo do grande alerta, do subtítulo do livro. Uma interrogação fundamental paira sobre o capítulo, bem como sobre todo o livro: Quando começa o fascismo? Quando "queremos que nos digam para onde marchar". Eis a resposta. É quando perdemos a capacidade da autodeterminação e, cegamente, obedecemos. Comando e massa unificados. Essa sempre foi a senha. É quando morreu a contradição. Quando ocorre a sintonia absoluta e inquestionável entre quem manda e quem obedece. Aí mora o perigo. As pré-adesões, com a ausência da crítica e da deliberação.

A resenha ficou um pouco longa, mas foi o meu desejo de fazer a provocação para a leitura por meio desse aperitivo do livro. E, para os meus amigos professores dos cursos de relações internacionais, ligados à geopolítica e disciplinas afins. Eis um programa de aulas pronto, quase completo. Leitura imperdível. Sim, uma última observação. O livro é escrito em parceria com o grande jornalista Bill Woodward. Quanto ao olhar, o ponto de observação do livro, apresento uma frase da autora: "Ninguém que um dia tenha estado em um cargo de confiança, inclusive eu mesma, pode olhar para trás sem arrependimento pelos muitos problemas deixados sem resolução". p. 223. Ela enxerga o mundo a partir de sua morada e da cultura de seu entorno.