segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O Quinze. O ano da grande seca. Rachel de Queiroz.

Quando li Vidas Secas (1938) de Graciliano Ramos e Seara Vermelha (1946) de Jorge Amado, procurei ler também O Quinze, de Rachel de Queiroz. Não o encontrando na época, passei para outras leituras. Estes dias, distraidamente, passando por uma livraria, encontro em exposição uma bela edição do livro. Me chamou a atenção uma anotação na contracapa. Edição comemorativa. Deduzi que é comemorativa, em virtude dos cem anos da grande seca de 1915, que é o tema deste romance, o primeiro da grande escritora. Os três livros formam a grande tríade de livros sobre as terríveis secas do nordeste. Rachel foi pioneira. A primeira edição do livro é de 1930.
A edição de número 100 de O Quinze, que numa tradução francesa recebeu o título de O ano da grande seca.


A escritora nasceu em Fortaleza no ano de 1910 e já em 1930 publica o seu romance, um clássico da literatura brasileira. Nunca mais parou de escrever. Logo depois da publicação do livro veio morar no Rio de Janeiro, exercendo conjuntamente, as profissões de escritora e jornalista. Sempre manteve um pé no nordeste, no seu Ceará, na cidade de Quixadá, onde ficavam as propriedades da família. Foi a primeira escritora brasileira a entrar na Academia Brasileira de Letras, isto em 1977. Faleceu no Rio de janeiro em 2003, aos 92 anos de idade.
Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Outro grande livro que aborda a seca.


O livro vem com apresentação de sua companheira de Academia, Nélida Piñon. Como uma espécie de posfácio é mostrada uma síntese da obra e uma pequena biografia da autora. Na contracapa temos outra pequena síntese da obra, escrita por Antônio Torres. Nela se lê: "Numa prosa simples, viva e comovente, Rachel de Queiroz tece o seu relato em duas linhas de força: a história de um amor irrealizado da mocinha que lê romances franceses e sonha com o moço rude entregue à faina solitária de salvar seu gado; e a dramática marcha à pé de um retirante e sua família, sonhando chegar ao Amazonas".
Seara Vermelha, de Jorge Amado completa a grande tríade sobre a seca.


Já Nélida Piñon, em sua apresentação assim mostra o romance: "O tecido romanesco gravita em torno da trágica seca de 1915. Seu emaranhado de episódios e de condutas pungentes, protagonizados por Conceição, Vicente, o vaqueiro Chico Bento, cada qual vivendo sua sorte, impulsiona uma ação que compromete a comunidade rural. Vicente e Conceição padecem de inconclusa história de amor, e o vaqueiro transita em meio à miséria e à dor". A dor de Chico Bento´é dor mais física, enquanto que a de Vicente e Conceição é mais simbólica, se é que é possível separar a dor dessa forma. Dor é dor em todas as suas formas.

Em recente viagem à cidade de Diamantina, percebi que o ciclo das chuvas, mais lá para cima, é bem definido. O maior evento cultural da cidade, que lotas hotéis e pousadas da cidade, é a Vesperata. Ela ocorre duas vezes por mês, entre os meses de abril e outubro. Já entre os meses de novembro até março esta festa está suspensa em virtude das chuvas. As chuvas, portanto, iniciam em novembro e terminam em março. Em O Quinze, o povo estava à espera da chuva e fazia as renovadas preces para São José. São José é festejado em 19 de março, como me diz a minha formação de seminário. Se até março as chuvas ainda não ocorreram, elas deverão vir apenas na temporada seguinte em novembro, como de fato ocorre no romance, quando Vicente observa, mesmo após um finados de morte, os primeiros pingos da chuva, já desacostumado dela.
A casa de Rachel em Quixadá, no Ceará. O sertão foi o grande cenário de O Quinze.


O desespero é total. O que pode ser vendido é vendido e o povo passa a ser retirante, a maioria morrendo pelo caminho. Poucos teimosos, como Vicente, insistem em ficar, num jogo de sorte com poucos sobreviventes, entre gado e gente. Conceição mora na cidade, onde acode tia Inácia. Conceição é a grande alma generosa da história. Com Conceição se inicia a saga das mulheres na literatura de Rachel. Conceição lia romances franceses, cujos temas assim explicava para Inácia: "Trata da questão feminina, da situação da mulher, dos direitos maternais, do problema..." Em resposta, tia Inácia mandava Conceição se casar. Reclusos, embora se gostassem, Conceição e Vicente sempre trilharam caminhos solitários, sempre mais áridos.

O vaqueiro Chico Bento é o retirante. Homem bom, que não encontrando mais trabalho, decide a busca de melhor sorte na Amazônia. É de uma generosidade ímpar, dividindo a comida do amanhã com quem não a tinha hoje. Pelo caminho encontrou mais desamparo que amparo, perdendo os filhos para a morte ou para o mundo até chegar no acampamento dos retirantes e acudido por Conceição, que lhe arruma trabalho e passagens para São Paulo, ficando com o pequeno Manuel, seu afilhado.
Rachel de Queiroz, a grande escritora brasileira.


Três anos depois do terrível 1915 o povo já está novamente em festa de quermesse no natal. O homem e o meio já tinham se reencontrado novamente, encontrando jeito de conviver, o que não ocorreu com Vicente e Conceição que não se encontraram nem nas amenidades do amor. Seriam mesmo amenidades? Sobrevivência e vida longa teve mesmo o romance. A edição que tenho em mãos é de número 100. Talvez o Edição comemorativa possa se referir a este fato. A edição é da Editora José Olympio.
Edição de nº 100. Edição comemorativa.


Selecionei um trecho que achei significativo para o universo de uma pessoa com 19 para 20 anos. É a descrição de um procissão em homenagem a São Francisco, pedindo chuva. As chuvas que começam em novembro, naquele ano de 1915 não tinham vindo. A última data era o dia de São José (19 de março) e se não viessem até essa data só viriam no novembro seguinte. São Francisco é celebrado em 4 de outubro. Enquanto a cantoria aclamava o santo "Cheio de amor, cheio de amor! as chagas trazes do Redentor, Rachel escrevia: "E no andor, hirto, com as mãos laivadas de roxo, os pés chagados aparecendo sob o burel, São Francisco passeou pela cidade, com os olhos de louça fitos no céu, sem parecer cuidar da infinita miséria que o cercava e implorava sua graça, sem nem ao menos ensaiar um gesto de bênção, porque suas mãos, onde os pregos de Nosso Senhor deixaram a marca, ocupavam-se em segurar um crucifixo preto e um grande ramo de rosas". Eu, com a mesma idade dela, me alimentava apenas de certezas. Não havia espaço para a dúvida. Questões de formação.






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