quarta-feira, 27 de novembro de 2024

Juventude sem Deus. 1938. Ödön von Horváth. Prefácio. Uma contextualização.

Este post tem por objetivo apresentar o prefácio da edição brasileira do livro Juventude sem Deus, do escritor croata (Na época a Croácia pertencia ao Império austro-húngaro), Ödön von Horváth. A sua publicação original data do ano de 1938. O livro apresenta os dramas de consciência de um jovem professor alemão diante da imposição de valores apregoados pelo Terceiro Reich e os valores humanos dos quais ele era portador. Apesar dos êxitos imediatos do livro, ele, na época, não teve uma tradução para a língua portuguesa. O livro tem agora, em 2024 a sua primeira publicação no Brasil. As razões para isso parecem óbvias: a virulência com que os ideais fascistas estão ressurgindo. Deixo a resenha do livro:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/11/juventude-sem-deus-odon-von-horwath-1938.html

O prefácio da edição brasileira, escrito pela professora Michele Gialdroni, graduada em literatura alemã e com especial foco na literatura do entre guerras, é algo precioso. Uma contextualização da época, fato que nos permite estabelecer paralelos. 

Juventude sem Deus. Ödön von Horwáth. Todavia. 2024. Tradução: Sérgio Tellaroli.

A professora retrata o jovem dramaturgo aos 36 anos, agora radicado na Alemanha nazista. É bem sucedido em sua carreira mas sofre os seus próprios dramas de consciência. O regime não permite o exercício da liberdade em expressar a sua arte e também sente que não tem mais público que aprecie as suas manifestações. Radicaliza em não condescender com o sistema. Os seus próprios dramas, vividos entre a adesão e o manifestar seus conflitos interiores, seus dramas de consciência o levaram ao livro Juventude sem Deus. Sobre o livro, assim se expressa a um amigo afirmando que "a grande novidade da obra era esta: ter dado voz ao ser humano fascista, ou melhor, se corrige, 'ao ser humano na época do fascismo"'(página 10). Aderir ao sistema seria ajudar a criar monstros. 

Qual seria então a missão do professor diante dessa realidade? A mesma que o escritor dá à sua literatura: "O sofrimento do narrador, o professor, que, embora movido por uma incontestável moralidade e por sentimentos de solidariedade humana, não consegue tomar posição, não consegue mudar, é também o sofrimento de Horváth. Quando o professor conseguir sair do isolamento de sua condição de espectador, será outro vivisseccionador da realidade a morrer: o estudante insuspeito, aquele com olhos de peixe, o garoto que, como o próprio professor, quer ver a realidade até o momento derradeiro, que transforma a curiosidade e o desejo de conhecimento em desprezo e sadismo. Essa dicotomia entre realidade e verdade é bem presente nas obras  de Horváth. Os fanáticos do realismo são os carrascos, os algozes, aqueles que afirmam que nada pode ser feito, porque as coisas são como são" (páginas 10-11). Semear a utopia. Um não ao conformismo.

O Juventude sem Deus começa altamente provocativo. Já no primeiro capítulo, sob o título Os negros, encontramos o professor a corrigir redações. O aluno N escrevera: "Todos os negros são traiçoeiros, covardes e vagabundos". "Generalização absurda" corrige o professor. Foi o suficiente para lhe causar problemas. Mas ele se afirma diante dessa realidade. A sua consciência triunfa sobre a adesão.

A prefaciadora em sua análise da obra vê no livro um manifesto contra todas as sociedade "liberticidas e militarizadas" que tiveram ampla adesão "pelo oportunismo das velhas gerações de diretores de escola, grandes industriais e pequenos comerciantes, mas também o entusiasmo das novas gerações"(página 11). E num passo magnífico ela apresenta as denúncias contra uma escola autoritária, que aparecem na literatura, já antes das grandes guerras. Me permitam uma transcrição um pouco mais longa. São indicações preciosas e necessárias:

"Na literatura alemã das primeiras décadas do século XX, iniciando-se com O anjo azul, de Heinrich Mann, de 1905, o professor tinha sido representado por antonomásia - pensemos também no oprimente convento de Maulbronn em Unterm Rad  [Debaixo de rodas], de Hermann Hesse, ou no claustrofóbico colégio militar de O jovem Törless, de Robert Musil, ambos publicados em 1906" (Páginas 11-12). E agora as reflexões e as decisões a serem tomadas 

"Aquele que era o opressor, o representante do sistema que deve educar  seus alunos à obediência, torna-se agora nas mãos de Horváth, com todas as incertezas, o alter ego do escritor (e figura de identificação do leitor), que se depara com uma geração de jovens cegados pela fúria coletivista. Uma sociedade que exclui definitivamente aqueles que não são considerados parte integrante do corpo compacto da nação, por nascimento, por escolha, às vezes por necessidade. Ou seja, não só judeus, negros e ciganos, não só comunistas e sindicalistas, mas também pessoas com deficiência e doentes, também os míseros trabalhadores que em Juventude sem Deus vivem nos velhos casebres acinzentados do povoado, os moleques inconformados que se escondem nos bosques e roubam para sobreviver. Enfim, uma sociedade que não tolera os professores que se rebelam contra o regime e têm de escolher a via do exílio para poder viver uma vida digna, para redimir-se das maldades justo ali onde mais cruelmente foram cometidas, no contexto colonial" (Página 12).

Depois a prefaciadora se detém em dados mais pessoais da biografia do escritor, um permanente exilado em seus países de origem. Teve uma morte prematura trágica, quando tencionava vir morar na Califórnia, para se aproximar de Hollywood. Do trágico acidente que ceifara a sua vida (a queda do galho de uma árvore em um temporal, na proximidade dos Champs Élysée) sobraram duas estrofes de um poema seu:

"E as pessoas dirão // Em longínquos dias azuis // Quando finalmente se distinguirá // O falso do verdadeiro // Que aquilo que é falso ruirá // Embora hoje reine // E o verdadeiro triunfará // Embora hoje deva morrer" (Página 15).

Uma bela oportunidade para profundas e reflexões e atitudes a tomar frente a nova onda autoritária, fascista que nos assola. E, para aprofundar as reflexões sobre um fascismo latente e iminente, vejamos algumas constatações de Humberto Eco, uma radiografia:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/03/fascismo-eterno-umberto-eco.html

E a terrível e marcante frase: "Aderir ao sistema seria ajudar a criar monstros". Também estamos permanentemente diante de escolhas.

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

JUVENTUDE SEM DEUS. Ödön von Horwáth. 1938.

Antes de mais nada, devo dizer que o romance Juventude sem Deus, do croata (então Império Austro-Húngaro) Ödön von Horwáth (1901-1938), reflete os dramas de consciência de um professor alemão, diante da ascensão do regime nazifascista na Alemanha de então. Sob este regime, o professor perde completamente a autonomia em sala de aula e passa a ser uma engrenagem da máquina publicitária na transmissão dos valores pregados pelo sistema. É a chamada "Guerra Total" em que todos os instrumentos culturais são colocados a serviço do regime. Ao professor caberia a adaptação, ou a resistência. Um horror!

Juventude sem Deus. Ödön von Horwath. Todavia 2024. Tradução: Sérgio Tellaroli.

Horwáth é um jovem escritor, também envolvido com teatro e cinema, morto precocemente em Paris, nas proximidades da Champs-Élysées, atingido pelo galho de uma árvore, caído numa tempestade. Ele encontrou enormes dificuldades em viver livremente na conturbada Europa desse período. Sendo filho de diplomatas, acompanhou os pais por vários países, encontrando dificuldades de se estabelecer em todos eles. A sua morte ocorreu quando, em Paris, estava negociando os direitos autorais de Juventude sem Deus para o cinema.  Mas vamos ao livro.

Juventude sem Deus, por óbvio, não pode ser publicado na Alemanha, sob o Terceiro Reich. Foi então publicado na Holanda em 1938 e imediatamente foi traduzido para várias línguas. Mas não para o português. Assim o livro ficou praticamente desconhecido no Brasil. O personagem do romance é um professor e o tema é a relação desse professor com os valores que a escola deveria transmitir aos alunos, como engrenagem da máquina publicitária formadora de consciências sob o domínio do Reich. Como esses valores se contrapõem aos seus, eles geram os dramas de consciência. Mas, vamos a orelha do livro para uma contextualização:

"Todos os negros são traiçoeiros, covardes e vagabundos." Ao ler essa frase na redação de um aluno, o professor reage: "Os negros também são seres humanos." É esse o ponto de partida desta pequena joia da literatura em língua alemã, escrita em 1937, em plena vigência do Terceiro Reich.

O livro acompanha a crise de consciência desse professor, em meio ao ambiente sufocante do regime racista e colonialista imposto pelo governo de Hitler. A atitude do professor em defesa dos negros soa revoltante para a casta que apoia o regime: burocratas acomodados, como o diretor da escola, ou industriais e comerciantes, como os pais de alguns alunos. Sem falar nos próprios adolescentes, entusiasmados com o patriotismo que a política oficial lhes impinge e cegos para a desumanização a que são submetidos diariamente (O mal se banaliza).

Mais adiante, o professor vai com a turma para um acampamento destinado à realização de treinos militares. E ali se envolve num episódio trágico que lhe custará o emprego, já em risco depois que ousara confrontar as afirmações racistas de seu aluno.

A "Guerra total", o rádio e o cinema como instrumentos de propaganda, os livros proibidos, a moralidade pública, a educação para a guerra e a 'regeneração' da juventude - todos esses elementos mobilizados na obra reconstroem o clima político do nacional-socialismo, cristalizado na impotência de um protagonista em crise e numa linguagem de simplicidade desconcertante.

Proibido na Alemanha, Juventude sem Deus foi publicado na Holanda, em 1938, ano da morte precoce do autor - Horwáth morreu após a queda de um galho em sua cabeça, em Paris, em plena ascensão como escritor e dramaturgo.

Recebido com entusiasmo por Hermann Hesse, Thomas Mann e Joseph Roth, admirado por Natalia Ginsburg e Peter Handke, adaptado para o teatro e o cinema, Juventude sem Deus é um clássico ainda pouco conhecido no Brasil - e sua publicação se torna mais premente numa época em que os fascismos insistem em mostrar que não morreram".

Este último parágrafo nos leva à atualidade do livro. Nos leva a uma análise do quadro educacional do Brasil, neste momento tão delicado da vida nacional. A serpente do fascismo está mais do que visível em seu ovo. E este ovo está sendo cuidadosamente chocado. Os controles sobre a escola praticamente não tem precedentes (até o macarthismo foi fichinha), especialmente após o golpe de 2016. Temos os movimentos do Escola sem Partido, do Novo Ensino Médio (escola dual), da censura a livros (O avesso da pele, de Jeferson Tenório), do reforçar dos elementos de vigilância sobre os professores, da militarização e privatização das escolas, da negação da diversidade cultural e da uniformização dos conteúdos, dos controles desses conteúdos pela avaliação padronizada e pelo massivo uso de plataformas de aulas prontas, sem a autoria (donde deriva autoridade) do professor e, acima de tudo, pela sua desvalorização como um profissional, reduzindo-o a um burocrata que meramente aplica aulas. E ai dele se não o fizer! Os meios de controle hoje estão muito mais sofisticados, praticamente ocorrem em tempo real.

Daí a atualidade do livro e a premência de sua publicação, mesmo que, mais de oitenta anos após a sua publicação original. A história se repete, agora como farsa. Além desse drama de consciência do professor, o romance também possui um valor literário extraordinário, especialmente pela sua força narrativa e linguagem envolvente e precisa. Tudo é narrado em pequenos capítulos de duas a três páginas (44 no total, abrangendo 173 paginas).

Um suspense acompanha a narrativa, especialmente após o acampamento para a realização de treinamentos militares. Vejam bem, treinamentos militares. Creio que a militarização de nossas escolas ainda não chegou a tanto. E, algo fantástico e maravilhoso. A dialética (A denúncia precede o anúncio - nos lembra Paulo Freire). Alguns alunos, motivados pelo exemplo do professor e inconformados com os valores desumanizadores, formam um clube de leituras onde se examina, não o real, pregado pelo sistema, mas o como este real deveria ser, para não ser o elemento desumanizador da sociedade. Também vale muito o precioso prefácio de contextualização da época, escrito pela professora Michele Gialdroni, especialista em literatura alemã e com foco voltado para o período entre guerras. Este prefácio merecerá um post especial. A tradução é de Sérgio Tellaroli e a editora é a Todavia. A publicação é do ano de 2024.

E ainda, um ponto alto do livro a destacar: A ligação existente entre o colonialismo e o racismo. A justificativa da existência de colônias necessariamente leva ao racismo. É uma cultura superior dominando uma inferior. Daí a hierarquia das raças e a ideologia que justifica o colonialismo. Levar o progresso aos continentes, povos e raças atrasados. Observem a linguagem. Para este tema é fundamental o livro de Frantz Fanon, Os condenados da terra. Deixo a resenha:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2023/03/os-condenados-da-terra-frantz-fanon.html



quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Simpósio do Barreado. Dante Mendonça.

Domingo 10 de novembro de 2024. Recebi um agradável convite do meu amigo Valdemar para um almoço no Sarau do Oba. Além do almoço, cujo cardápio era um baião de dois, haveria um show de "Moda de viola", com Ana Decker e Júnior Bier. Como sempre estou disposto para festas, não titubiei e fui. O dia foi para muito além do imaginado e do esperado. Comida boa, ambiente agradável e o show então, nem falar. Conseguem imaginar um show de vila caipira! E a Ana Decker e o Júnior, simplesmente maravilhosos.

Simpósio do Barreado. Dante Mendonça. Ed. Senac. 2023.

Ao final, ainda fomos brindados pelo anfitrião, o senhor Orlando, com um livro maravilhoso Simpósio do Barreado - Origens e receita do prato típico paranaense. A autoria é do jornalista, aquarelista e escritor Dante Mendonça. Na contracapa do livro estão os objetivos do tal do simpósio. - Afinal, o Barreado nasceu em Morretes, Antonina ou Paranaguá? Na antiga Grécia, durante um sympósion os convivas discutiam, comiam, bebiam e cantavam. No Simpósio do Barreado, especialistas se reuniram em Porto de Cima para um banquete na história do prato mais típico do Paraná.

O livro é uma grande obra de arte e uma peça de humor inigualável, além das aquarelas do autor. O livro também contém valiosos dados históricos das três cidades do litoral paranaense. A história do barreado tem os seus registros já a partir de 1820, quando Saint Hilaire, foi de Curitiba para o litoral e atendendo a pedido seu sobre a indicação de algum prato típico, lhe indicaram o barreado. A partir de então está viva a disputa sobre a origem e a receita ortodoxa do famoso prato. 

Para estabelecer a verdade, num sábado, dia 15 de agosto, dia de Na. Sa. da Guia, reuniu-se no Porto de Cima o tal do simpósio. O local era considerado neutro, uma vez que recebia as cargas vindas de Curitiba e se fazia o transbordo das cargas para os diferentes portos. O simpósio, na abertura, foi abrilhantado pela banda euterpina morretense, que, embora um vento venenoso vindo da Ilha das Cobras fizesse voar as partituras, o Guarani de Carlos Gomes foi magistralmente executado. A banda é o orgulho da cidade de Morretes.

Foram compostas a mesa que presidiu os trabalhos e a dos convidados ilustres. Entre eles estavam Jaime Lerner, o folclorista Luiz da Câmara Cascudo, o chef estadunidense Anthony Bourdain, o escritor Alexandre Dumas (autor de Memórias gastronômicas e Pequena história da culinária) e o naturalista Auguste de Saint-Hilaire. Mesa de muito respeito.

No simpósio, ao narrar a origem do prato, também são narradas as origens das cidades e apresentados usos e costumes dos povos fundadores e da população caiçara, já com vistas para a argumentação em defesa desta ou daquela cidade. Colonização portuguesa e espanhola e a chegada dos italianos em Alexandra. Entre as argumentações, os defensores das diferentes causas falavam do bom gosto originário das populações, dos maus hábitos alimentares dos adversários, do só comer peixes, outros apenas charque, dos bons restaurantes dos países originários. Alta erudição e muitas digressões, como o uso ou não do tomate, do qual resultou a horrível praga mundial do ketchup. O representante de Antonina faz uma bela referência às festas do entrudo e carnaval, ligando-os aos festejos da Capela, em louvor à virgem do Pilar. Morretes foi acusada de servir um barreado pouco ortodoxo, adaptado ao gosto dos turistas. Componentes e modos de preparo também mereceram longas discussões, especialmente o cuentro.

O simpósio teve três sessões ao longo do dia mas a decisão foi adiada para o dia seguinte. Nela, os jurados seriam isolados e comeriam dos três diferentes púcaros, estes, sem a identificação da cidade de origem. Rafael Greca coordenou estes trabalhos. Ernani Buchman foi nomeado o porta voz dos jurados e, depois de lavar as mãos  nas águas do Nhundiaquara, proferiu o veredito final:  "O Barreado nasceu com a fome e a vontade de comer, da cabeça e imaginação de algum índio carijó do litoral paranaense. Revogam-se disposições em contrário, e elegemos, como fórum do próximo Simpósio do Barreado, a Ilha do Mel".

Coube ao escritor Domingos Pellegrini escrever a orelha de capa, num belíssimo texto: "Este é, antes de tudo, um livro de amor e arte.

Pois só quem, como Dante Mendonça, ama a cozinha e a arte consegue reunir as duas tão amorosamente.

E só quem ama a História consegue transformá-la em história como aqui, casando também dimensão histórica e narrativa literária humana e envolvente.

É, por isso, um livro de quem e para quem sabe que mais humano que viver numa terra é viver a terra, conhecendo e amando sua gente, seus mestres e seus costumes.

Também é livro de arte nas aquarelas de Dante, que chegaram ao que mais pode almejar o artista, ter sua arte reconhecível à primeira vista, pois basta bater os olhos na sua lev1eza e expressividade para saber: é coisa do Dante.

Com tudo isso, este livro de arte e de amor à terra e sua história, sua gente e seu jeito de ser, consegue ainda ser também um gostoso livro de culinária! Que, além da autêntica receita do barreado, tem toda página como convite aberto para olhar e ver, pensar e rir, sentir e amar a vida, tornando este Simpósio do Barreado um livro muito vivo!"

A edição é de 2023, da Editora Senac. E o nosso domingo só terminou com a quase chegada da segunda feira! Maravilhoso.





quinta-feira, 14 de novembro de 2024

AINDA ESTOU AQUI. O filme.

Dia 11 de novembro fui ao Shopping Barigui, para assistir a uma das maravilhas do cinema mundial, Ainda estou aqui, filme dirigido por Walter Salles e tendo como protagonistas Fernanda Torres, Fernanda Montenegro e Selton Mello. O roteiro do filme é uma adaptação do livro de Marcelo Rubens Paiva, do mesmo nome, e que foi publicado no ano de 2015. A adaptação do roteiro ficou a cargo de Murilo Hauser e Heitor Lorega. O filme é sobre Eunice Paiva, uma mulher monumental. O filme teve  sua pré estreia no Festival de Veneza, onde foi aplaudido de pé, por dez minutos.

Cartaz de divulgação do filme Ainda estou aqui.

Vou situar brevemente e, em primeiro lugar, Marcelo Rubens Paiva, o autor do livro. Ele se tornou conhecido pelo seu Feliz Ano Velho, livro em que relata seu acidente, ocorrido na cidade de Campinas no ano de 1995 e que o deixou tetraplégico. O Ainda estou aqui, é o seu livro do ano de 2015 e que eu li no ano de 2017, depois de ganhá-lo de presente do meu filho Iuri. O livro tem o foco em seus pais Rubens e Eunice Paiva. O que esta família tem de singular? Vamos então aos seus personagens. Antes, deixo a resenha do livro.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2017/04/ainda-estou-aqui-marcelo-rubens-paiva.html

Rubens Paiva foi um deputado federal, eleito pelo PTB de São Paulo, no ano de 1962. Já em 1964 teve o seu mandato cassado pela recém instaurada ditadura militar. Então, depois de inúmeros percalços e, na condição de engenheiro, se estabelece na construção civil, no Rio de Janeiro. Já Eunice Paiva cursou Letras na aristocrática e conservadora Universidade Mackenzie, onde conviveu com pessoas do mundo das letras. Fixaram residência no Rio de Janeiro, no bairro do Leblon. Talvez um dado interessante precise ser mencionado. A família de Rubens Paiva tinha propriedades no Vale do Ribeira, onde ocorreram as guerrilhas de Lamarca. Isso lhe atraiu uma constante vigilância. No Leblon viviam a típica vida de classe média alta, com cinco filhos, quatro meninas e o caçula Marcelo Rubens.

Em janeiro de 1971 a família recebe uma correspondência vinda do Chile e, a partir dela, a família passa a viver o verdadeiro estado de terror de um regime cruel e assassino. Rubens é detido (preso, como mais tarde será provado) e torturado até a morte, mas será dado como desaparecido. Eunice também foi presa, por 12 intermináveis dias de tortura psicológica. Uma das filhas, então com apenas 15 anos também passou pela prisão. Aí já entramos na narrativa ou no roteiro do filme, e Eunice passa a ser a grande protagonista. Imaginem a situação!

Sem marido, sem rendas, cinco filhos para criar (isso a obriga a disponibilizar patrimônio) e com o nome da família enlameado, uma vez que a mídia, além de outras instituições, transformaram o golpe militar na "Revolução Redentora", que livrara o Brasil dos "facínoras comunistas". Eunice assume o comando! Muda-se para São Paulo, volta para a Mackenzie, agora no curso de Direito, e se torna uma conceituada e prestigiada advogada. Além dos cuidados com os filhos, ela assume duas grandes causas: desvendar a morte do marido e assumir a defesa das causas indígenas. (Junto com Manuela Carneiro da Cunha, autora do livro Índios no Brasil: história, direitos e cidadania, conseguiram que figurasse na Constituição de 1988, o seu artigo 231).

Com relação ao marido, em 1996 (sob FHC) consegue, pela Lei dos Desaparecidos, o seu Atestado de Óbito, sem, no entanto saber sobre o paradeiro do corpo. Mais tarde, com a instituição da Comissão Nacional da Verdade (Dilma Rousseff), foi confirmada a sua morte no Doi-Codi, órgão submetido ao exército, sob tortura, bem como a identificação dos assassinos torturadores. Estes, no entanto, nunca sofreram qualquer tipo de punição, conforme depoimento de Marcelo Rubens, ao jornalista Juca Kfouri, no TVT. A impunidade favorece a repetição dos fatos, triste constatação.

Aos 72 anos Eunice é acometida pelo mal de Alzheimer, que a consumirá ao longo de 14 anos. Ela veio a falecer em dezembro de 2018, aos 86 anos. A interpretação de Eunice foi confiada a duas atrizes de primeira grandeza e - nem poderia ser diferente. Fernanda Torres representa a Eunice, como chefe da família e da grande batalhadora, cabendo a Fernanda Montenegro, por sete ou oito minutos memoráveis, sem uma única palavra, representar os seus momentos finais. Interpretações dignas da vida de lutas de uma grande mulher. A atuação de Selton Mello é destacada por Marcelo Rubens, na mesma entrevista concedida a Juca Kfouri, como a expressão fiel do caráter bondoso, gentil e brincalhão de seu pai. 

E o momento do filme! Não poderia haver melhor e mais oportuno. Após o golpe de 2016, a instável democracia brasileira vive sob o estado de cio dos remanescentes facínoras desse período triste de nossa história. Passamos por um governo horroroso e pela tentativa de golpe do 8 de janeiro e agora, pelo movimento de concessão de anistia para os bandidos depredadores desse mesmo 8 de janeiro (Escrevo no dia 14 de novembro, dia posterior a um novo ato terrorista em Brasília, que provavelmente sepultou esse movimento pela anistia). Foi lançado num momento em que precisamos brigar pela democracia. Walter Salles, com este seu filme, usa do cinema para cultivar a memória nacional e, pelo recurso da arte, nos provoca o horror diante dos fatos que tanto nos envergonham. O filme representa um grande movimento em favor da democracia, do horror às ditaduras com as suas costumeiras torturas, e da permanente luta em favor de um mundo que não perca a sua dimensão de alegria (o sorriso nas fotos), da riqueza das relações e dos ideais de humanidade. 

Um filme, que no dizer de Juca Kfouri, deveria ser passado em praça pública. É um dever de cidadania e humanidade assistir e divulgar este filme. Ele ainda dará muito o que falar por ocasião das festas do Oscar. E - juntos devemos bradar em alto e bom som - Ainda estou aqui. Mesmo porque eles (os facínoras) também ainda estão. E - precisam ser combatidos.

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

O Morro dos Ventos Uivantes. Emily Brontè. 1847.

Quando tomei em mãos O Morro dos Ventos Uivantes para a sua leitura, apareceu em meu facebook, uma resenha do livro e, em um comentário, alguém escreveu que, mal começara a sua leitura, já o largou após as primeiras páginas. Quando eu a comecei, logo me indaguei se não aconteceria o mesmo comigo. Eu explico. O livro é muito sombrio e isso ocorre já a partir das primeiras páginas. Senão vejamos o diálogo que se estabelece entre o sr. Lockwood, um locatário, com o sr. Heathcliff, o proprietário da locação. Depois de falar da beleza do local, se trava o seguinte diálogo:

O Morro dos Ventos Uivantes. Abril. 1971. Tradução: Oscar Mendes.

"- Sr. Heathcliff! -  disse eu. 

Respondeu com um aceno de cabeça. 

- Sou Lockwood, seu novo inquilino. Dei-me a honra de visitá-lo, logo depois que cheguei, para exprimir-lhe a esperança de não me ter tornado impertinente, ao insistir em ocupar Thrushcross Grange. Ouvi dizer ontem que o senhor tinha certas intenções...

- Thrushcross Grange - interrompeu ele, retraindo-se - é propriedade minha. Não permito que ninguém me aborreça quando posso a isso me opor... Entre! 

O "entre" foi dito de dentes cerrados e soava como se fosse um "vá para o diabo!" A própria porteira, sobre que se apoiava, não revelava nenhum movimento em acordo com o convite. Foi esta circunstância, creio, que me impeliu a aceitá-lo. Sentia-me interessado por um homem cuja reserva parecia mais exagerada do que a minha".

Essa péssima recepção é prenúncio do comportamento de Heathcliff, que, seguramente, eu apontaria como um dos mais sombrios personagens da literatura universal. Bem! Ao contrário do comentário lido, eu continuei persistente. E creio que esse diálogo inicial também nos dá a primeira abertura para situar o romance de Emily Brontè, datado de 1847. Nele aparece o sr. Heathcliff, o protagonista da obra. Aparece também o nome de uma das propriedades rurais, Thrushcross Grange, local dos acontecimentos, junto com a outra, que dá o nome ao romance O Morro dos Ventos Uivantes.

O Morro dos Ventos Uivantes, para continuar a apresentação do romance, pertence à família Earnshaw, composta pelo sr. e sra. Earnshaw e Hindley e Catarina, os filhos. Já a Thrushcross Grange pertence à família Linton, da qual são retirados como personagens os irmãos Edgar e Isabela. Da família Earnshaw surge outro personagem, Heathcliff, que, como já vimos, será o protagonista. Ele é trazido pelo patriarca da família, de uma viagem que ele fizera a Liverpool. Ele o recolheu na qualidade de um menino indigente, franzino, sujo e sobretudo faminto. Sua cor é um pouco mais escura, fato imediatamente percebido por todos. O senhor Earnshaw lhe dedica grandes afeições e atenções, logo sentidas por Hindley, que passa a hostilizá-lo. Já Catarina lhe lança olhares furtivos no começo, que logo a seguir, se tornaram afoitos. Tudo indica que nascera um grande amor! Será?

Esses são os ingredientes em que o leitor precisa ter atenção para não se perder nos labirintos da história. A narradora dessa história será Nelly Dean, uma empregada, meio governanta, que trabalhara nas duas propriedades. Essa história sinistra é contada ao longo de 34 capítulos, no decorrer de 313 páginas. Ela a conta para o sr. Lockwood, o locatário. Ela tem como mote principal a vingança de Heathcliff, pelos maus tratos recebidos por Hindley e pela pouca atenção de Catarina. Como resultado, todas as relações estabelecidas entre eles se tornam diabolicamente envenenadas, fechando todas as possibilidades de humanidade e de um final feliz. Todos são enlouquecidos por um ódio infernal. Heatcliff dominará a todos. Será rico, poderoso e proprietário das duas herdades, adquiridas ou por dinheiro, ou por herança. Dá para sentir o enredo!

Como vimos, o romance, que é a única obra da escritora, apareceu no ano de 1847, ano ainda pertencente ao romantismo. Dez anos depois, Gustave Flaubert inaugurará o realismo com o seu Madame Bovary. A escritora viveu apenas por 30 anos. Nasceu no Reino Unido em 1818 e, também nele, veio a falecer em 1848, um ano após o lançamento de seu livro. 

A edição que eu li é da coleção Os Imortais da Literatura Universal (Abril, 1971) e, no livro de minibiografias que a acompanha, lemos o que segue sobre a obra: 

"... O enredo gira em torno de Heathcliff, um coração livre que se endurece por ter sido vítima de maldades. Abandonado pela jovem que ele ama, emprega toda a sua força para se vingar das pessoas que provocaram a separação. Num clima de ódio e revolta, Heathcliff vai aniquilando, um por um, todos aqueles que considera seus inimigos. Ninguém é poupado, nem o próprio algoz. Pela primeira vez na literatura romântica, as personagens não são rigidamente classificadas como boas ou más. Vícios e virtudes nelas se mesclam, como nas criaturas reais. Entre os protagonistas - Heathcliff e Cathy - existe um amor torturado, levando antes à destruição que à felicidade. As personagens mais próximas dos tipos virtuosos são fracas e suscitam pena. A autora se abstém de apresentar juízos morais e, pela maneira que descreve as figuras principais, percebe-se que sua simpatia se volta para os que sofrem. A intensidade das paixões, a densidade das sombras que pairam sobre as personagens, a violência do amor e do ódio constituem os elementos característicos do livro e entremostram a riqueza de sentimentos que Emily guardava dentro de si. O clima tenso da obra não impede, todavia, a presença de um lirismo estranho e comovente, em que as misérias e as paixões humanas são tratadas de maneira incisiva".

Creio que O Morro dos Ventos Uivantes é a mais sombria das obras que eu já li. Todas as pessoas estão profundamente contaminadas pelo ódio, interessadas em fazer mal às pessoas e provocar mal-estar. E, como conseguem!... E como as relações fazem mal, muitas se refugiam na solidão e no isolamento, fatores que não são estranhos à biografia da escritora. Agora, o que é de estranhar é a força com que ela  apresenta os personagens em sua complexidade psicológica. Em seus poucos anos de vida sempre fora uma leitora exímia, fato que expandiu enormemente a sua mente. Outro elemento extraordinário em sua obra é o panorama traçado da Inglaterra dos meados do século XIX, especialmente o de seu meio rural, interiorano. Grande obra! 

Quero destacar ainda um fato. Ele é narrado nas páginas finais da obra. Nele Heathcliff está à beira da morte e ainda não elaborara o seu testamento. Para quem deixar a sua herança? Vejamos:

"Quando amanhecer, mandarei buscar Green (o homem da lei) - disse ele. - Gostaria de esclarecer com ele algumas questões jurídicas, enquanto estou em condições de emprestar um pensamento a esses negócios e agir com calma. Não fiz ainda meu testamento e não consegui chegar a uma decisão, a respeito da maneira de dispor de meus bens. Gostaria de suprimi-los da face da terra." (páginas 308-309). Talvez isso tenha me tocado particularmente porque conheço pessoas inconformadas por terem que deixar seus a bens a pessoas que eles julgam não merecedoras dos mesmos. Que horror!


terça-feira, 5 de novembro de 2024

A condição humana (1933). André Malraux.

A minha próxima leitura seria um dos livros da coleção Os Imortais da Literatura Universal (Abril - 1972) que eu ainda não tivesse lido. Creio que ainda me sobra algo em torno de uma meia dúzia. Entre eles estava o livro de André Malraux (1901-1976), com o belo e provocativo título de A condição humana. Confesso que não é um livro de leitura fácil, pois se trata de um tema bem datado, como o é o da Revolução Chinesa de 1927. Na ocasião, ela implodiu dentro da aliança formada por nacionalistas e comunistas para combater os países europeus em busca de autonomia nacional. Essa implosão opôs os nacionalistas aos comunistas.

A condição humana. André Malraux. Abri. 1972. Tradução: Jorge de Sena

Os nacionalistas eram comandados por Chiang Kai-shek e os comunistas chineses, que obedeciam as ordens da Terceira Internacional, sob o comando da União Soviética. Os desentendimentos levaram ao golpe dos nacionalistas. A luta foi violenta e sangrenta e terminou com a vitimização dos comunistas e a implementação de uma ditadura por Chiang Kai-shek. Estes fatos ocorreram, como já vimos, no ano de 1927 e a narrativa de Malraux é de 1933. Este é o ano da publicação de seu mais importante livro. O local das rebeliões ocorre em Xangai e na cidade industrial de Hankow.

Para facilitar a leitura, passo alguns dos personagens que precisam ser atentamente observados para não se perder na narrativa. São eles: Tchen, um terrorista, sempre pronto a morrer pela causa; Katow, experiente revolucionário e um dos comandantes dos comunistas; Kyo e o seu pai Gisors, este um intelectual e professor de arte e aquele, junto com Katow, um dos chefes comunistas; Clappique, um divertido boêmio e traficante, especialmente de armas e de ópio; e mais Ferral, o representante de uma companhia francesa e os seus interesses econômicos.

A narrativa começa no dia 21 de março de 1927, meia-noite e meia, e se estende até meados de abril, quando os personagens diretamente envolvidos com a revolução já estão todos mortos. Essa narrativa ocupa seis capítulos e, um sétimo, se volta para Paris, já em julho, e para Kobe. Em Paris se encontra Ferral, negociando em nome da companhia e em Kobe, Gisors pai e May, sobreviventes aos acontecimentos. São 301 páginas com letras, quase de necessidade de lupa. É, com certeza, um romance de muita ação e profundamente entremeado de reflexões filosóficas sobre A condição humana: sentido da vida, valores éticos, perspectivas diante da morte, o abraçar e se dedicar cegamente a causas, obediência, lealdade, rebelião diante de injustiças e por aí vai.

Como se trata de um romance bem datado e com muitos dados históricos já distantes, eu recorro ao livro de mini biografias que acompanha a  coleção para, primeiramente, falar um pouco de Malraux, do seu gosto pelos temas do oriente, para onde viajou já em 1923, para observar de perto os acontecimentos que ali se desenvolveram e, em segundo, para dar a contextualização em que o livro foi escrito. Primeiro sobre a contextualização: 

"A maior parte do continente asiático achava-se então sob controle econômico e político de potências europeias. E em certos países começavam a tomar impulso os primeiros movimentos de revolta contra as metrópoles do Ocidente. Tal era o caso da China e da Indochina [...]. Revolucionários chineses de todas as tendências reuniram-se sob a bandeira do Kuomintang, partido nacionalista, dirigido por Chiang Kai-shek [...]. Em 1927, uma reviravolta nas alianças políticas leva a China a um banho de sangue: Chiang Kai-shek dá um golpe de Estado e inicia o massacre de seus ex-aliados, comunistas".

E, agora sobre o tema e as reflexões: "A tragédia profunda do homem encontraria novamente expressão política em A condição humana (1933).  O cenário é a China. O tema, a revolução fracassada de Xangai, à qual o escritor assistira em 1927. Por essa razão, nenhuma outra obra de Malraux é tão impregnada de realidade e vida.

Mais uma vez vem à tona a contradição insolúvel da revolução, levada a cabo simultaneamente pela burguesia nacionalista e pelos sindicatos comunistas. A fragilidade dessa aliança é ressentida, em toda a sua extensão, pelas personagens de Malraux, que, no entanto, obedecem às ordens da Internacional stalinista e caminham como bonecos até a morte. (Sobre essa Internacional, a terceira, segue o link: 

O drama dos revolucionários está no papel que representam: meras peças de um jogo político sobre o qual não possuem o direito de opinar. Apenas o fim importa. O homem não tem controle sobre o seu destino, não tem outra alternativa senão procurar realizar-se e encontrar a si mesmo dentro dos limites traçados pelos outros.

Assim, a personagem Kyo Gisors faz da revolução sua própria vida, e a ela cede corpo e alma. Tchen é um fanático, feito terrorista por um mecanismo de compensação, para lavar no sangue a sua própria humilhação e a das massas miseráveis. Hemmelrich é levado por sua impotência a participar da ação: para ele, o combate final aparece como uma porta aberta em direção à liberdade. E Ferral é o capitalista poderoso contra o qual virá chocar-se a revolução.

Seja qual for o campo em que combatem, as personagens são pessoas reais, descritas tal como o autor as conhecera na China. A coragem, mas também o medo, a revolta e a traição constituem sempre hipóteses possíveis para cada uma delas. Independentemente da capacidade e da fidelidade de um indivíduo, ele pode falhar e perder o caminho.

Não há nada mais elevado e ao mesmo tempo mais baixo que o homem, parece dizer Malraux em sua obra. Tudo se encontra em todos os homens: as grandezas e as misérias. Esse o sentido da 'condição humana'. Cada personagem se acha mergulhada na lama de sua condição: por mais que procure, não pode escapar a esse destino.

Verdadeiro centro da obra de Malraux, A condição humana nada mais é que uma etapa da busca apaixonada da liberdade, que parece constituir a razão de ser do escritor. Recebido com entusiasmo pelo público, aplaudido pela crítica e laureado com o Prêmio Goncourt, o livro projeta na cena literária internacional o nome de seu autor.

A França descobre, estupefata e ao mesmo tempo um tanto constrangida, um intelectual de 32 anos que pretende derrubar a ordem estabelecida. Durante alguns meses, Malraux é o herói festejado por toda a imprensa, da extrema-direita à extrema-esquerda. Independentemente das posições políticas, todos reconhecem seu prodigioso talento".

E, para situar historicamente. Em 1946 Mao Tsé-Tung inicia uma nova fase de combates e em 1949, na qualidade de vencedor, proclama a República Popular da China, sob o comando comunista. Chiang Kai-shek ainda fica no poder, mas em Taiwan. Coisas da geopolítica. Fundamental para se compreender a China de nossos dias.




 





quarta-feira, 30 de outubro de 2024

MADAME BOVARY. Gustave Flaubert.

Uma das mais extraordinárias experiências educacionais que eu tive na minha vida foi o envolvimento em um trabalho de leituras, desenvolvido na Universidade Positivo, sob o título Ler e pensar. Participei desses trabalhos, tanto assistindo, quanto apresentando grandes obras. Para isso, tive que estudar muito  e, em consequência, também aprender muito. Num desses trabalhos lemos a obra Madame Bovary, de Gustave Flaubert (1821 - 1880), o pai do realismo. A orientadora dessa leitura era uma especialista na obra do autor, professora na Universidade Federal do Paraná. A obra apareceu sob a forma de folhetim, em 1856 e em livro, já livre de censura, em 1857.
Madame Bovary. Gustave Flaubert. Abril. 1972. Tradução: Araújo Nabuco.


Um breve olhar para a data da publicação nos mostra uma França extremamente agitada num período de grandes transformações (os fatos de 1848) com uma rápida ascensão da burguesia e uma profunda mudança nos costumes. Flaubert ousa abordar o tema tabu dos desejos de uma mulher. Ema, (Rouault de família e Bovary pelo casamento), é a personagem escolhida. Ela, de origem campeira, fora aluna de um colégio de freiras, onde se encantou com a literatura romântica que a tornou uma menina sonhadora e portadora de muitos desejos. Desejava viver intensamente. Aventuras românticas inebriantes. Essas seriam de difícil realização em um ambiente rural, de uma pacata vida no interior.

Apesar de Ema ser a personagem central da obra, ela começa e termina com outro personagem, Carlos Bovary, um médico viúvo da cidadezinha de Tostes. Ele faz um atendimento simples na casa de Rouault, fato que o aproxima de Ema. Esta vê em Carlos uma possibilidade de mudança de ares. Casam-se. Mas aí, como geralmente acontece na literatura romântica, eles, tanto os romances quanto os sonhos, acabam. Carlos Bovary não tinha encantos. Carlos era pragmático, todo devotado ao trabalho. Quase nem a percebia, embora a amasse. Ele era assim. Ema sofria. Carlos não correspondia aos personagens de suas leituras.

A família Bovary muda de ares. Vão morar em outra cidadezinha, em Yonville. Ali, com muitas dificuldades, recomeçam a vida. Novos personagens entram em cena. Entre eles, alguns fundamentais, como o jovem Léon, o esperto farmacêutico Homais, o inescrupuloso comerciante L'Heureux (observem o termo, seu significado: feliz, contente, alegre), e  Rodolfo Boulanger (seu primeiro amante). Ruão, uma cidade maior, ficava próxima. Esses novos personagens são personagens burgueses, todos portadores de uma nova moral, uma moral sem comprometimentos, uma moral em busca da ascensão econômica, social e de reconhecimento. Muitos fatos ocorrem. Carlos não foge dessa moral. Em busca de fama, deixa se iludir pelo ambicioso farmacêutico, que lhe sugere uma cirurgia em um pé defeituoso. O episódio quase o arruína e ele termina em amputação da perna. Com Rodolfo, Ema se envolve em uma fuga amorosa não consumada e junto a L'Heureux submerge em dívidas, notas promissórias e procurações. Léon se mudara para Ruão.

Carlos de nada desconfiava, embora todas as falações na cidade. Há também os conselhos do cura, a quem a pobre e desencontrada Ema que, em suas crises, promete se tornar uma santa. O casal, para desespero de Ema, tem uma filha (queria um menino). Berta, praticamente ausente em suas vidas. Uma ida ao teatro, em Ruão, a faz reencontrar Léon. Uma explosão de uma tórrida paixão e um passeio em uma acelerada carruagem, em plena tarde, coisa que nunca se vira, nem mesmo em Ruão. Mas a moral burguesa não permitia compromissos ou comprometimentos, apenas usufrutos. E Ema, atordoada em dívidas, busca um fim aos agitos de sua vida, num final trágico. Carlos, com um ataque apoplético, também tem a sua vida de dores e sofrimentos encerrada. Ficara sabendo de tudo, mas generosamente a perdoava. Sobra a desamparada Berta, acolhida por familiares remanescentes.

Em meu livro, o do número 4 da coleção Os Imortais da Literatura Universal, eu tenho dois apontamentos, que foram feitos por ocasião do nosso trabalho de leitura. O primeiro é o seguinte: Ele o abriu e não encontrou nada. Trata-se de uma referência à parte final da obra, quando o dr. Canivet,  médico famoso, vem fazer a autópsia de Carlos e não encontrou nada  de extraordinário em sua morte. A segunda diz assim: Todos os finais são irônicos. Carlos, como personalidade, estava em julgamento.

Por se tratar de uma obra muito polêmica, obra que inclusive abre o período do realismo na literatura e por ter sido envolvida em censura e o autor submetido a julgamento, deixo as anotações alusivas a esses fatos, tirados do livro de mini biografias que acompanha a coleção. Creio que esclarecem bastante. Elas tem o sugestivo título de O Escândalo do adultério;

"Em julho de 1851, após um longo período de inatividade, Flaubert inicia a composição da mais famosa de suas obras: Madame Bovary, que o tornaria, em pouco tempo, um dos romancistas mais célebres da França. A elaboração exigiu-lhe quase cinco anos de trabalho incessante. O escritor desejava, como sempre, a forma perfeita, a palavra certa. Passava noites em busca de um adjetivo, semanas atrás de uma frase. Escrevia e reescrevia a mesma página dezenas de vezes. Por fim, achando que chegara a expressar o que queria, entregou a obra à publicação. Laurent Pichat e Maxime Du Camp encarregaram-se de imprimi-la na Revue de Paris, a partir de 1856. Tendo em vista, contudo, a austeridade dos costumes vigentes, resolveram cortar alguns trechos do romance, contra a vontade do autor. Tanto esforço ele fizera para encontrar a forma certa, e teria de ver inutilizadas páginas que lhe custaram dias e noites de aflição.

Mal o livro começou a ser publicado, Ulbach, o secretário da revista, levantou objeções à famosa cena do fiacre, na qual Flaubert descreveu, com detalhes, o colóquio amoroso de Ema Bovary com o amante. O episódio deveria figurar no número de dezembro, mas os editores resolveram omiti-lo. Du Camp explica a exclusão: 'Tua cena do fiacre é impossível, não para nós, nem para os que assinam, mas para a Polícia Correcional, que nos condenaria imediatamente'. Não imediatamente; alguns meses mais tarde. Ainda que sem a passagem discutida, a censura decidiu suspender a  publicação de Madame Bovary e processar o autor. A justificativa oficial foi a 'imoralidade' da obra. A verdade, porém, é que o romance atacava a moral burguesa, posta a nu em sua fragilidade, convencionalismo e falsidade, através da caracterização da vida monótona e sem atrativos da província. A única personagem que, para escapar à mediocridade do ambiente, enfrenta os preconceitos e persegue os próprios sonhos e aspirações, é Ema Bovary. Mas acaba destruída, menos por ser adúltera, do que pela incapacidade de enfrentar as dívidas contraídas para salvar o amante. A vitória, ao final do livro, há de pertencer ao mais estúpido dos seres retratados: o farmacêutico Homais, protótipo do interesseiro falso que se presume intelectual. Claro que a sociedade burguesa sentiu a força do ataque, e seus representantes, no poder desde 1848, trataram de punir o acusado atacante.

Flaubert tentou abafar o processo recorrendo a amigos influentes.

Em vão. Em janeiro de 1857, sentou-se no banco dos réus, ao lado de Laurent Pichat. Pinard, o pequeno e nervoso promotor público, descreve Ema Bovary, citando passagens do livro, e investe contra o autor.

Sénard, o arguto advogado de defesa, argumenta explorando um ângulo 'moralista' da história: toda a depravação da heroína tinha de ser muito bem descrita, para provar que o trágico fim de Ema Bovary constitui o justo castigo de seus erros. Sénard chega a demonstrar que a obra, longe de ser uma apologia do adultério, é, ao contrário, uma advertência, por mostrar que desgraças esperam os adúlteros, e, sobretudo, a mulher. Oito dias depois, o autor é absolvido, e o livro, em edição completa, esgota-se em pouco tempo. Flaubert se tornara um nome célebre, tema para elevadas discussões e grotescas caricaturas, uma das quais apresenta o escritor vestido num avental branco, tendo de um lado, instrumentos cirúrgicos e, de outro, um coração atravessado por um bisturi.

Com tanto alarde em torno do romance, principalmente da protagonista, muita gente queria saber quem teria sido Ema Bovary. [...] Nenhuma pista era satisfatória. Às insistências dos curiosos, Flaubert declara: 'Madame Bovary sou eu'. A frase, encarada como gracejo na época, encerra muita verdade. Os fatos de sua vida não são evidentemente os mesmos, mas o temperamento romântico sim. Como Ema, Flaubert também procurava fugir à mesquinhez cotidiana e sonhava com amores irreais, ansiando por uma existência mais plena".

E uma das frases mais precisas do livro. Ema, em seu desespero financeiro, busca socorro com o tabelião Guillaumin, que tenta um lance de sedução. A sua resposta: Eu sou para lastimar, mas não para vender!

Ah! Eu ainda, inspirado em Philip Roth, em O professor do desejo, vou empreender o meu curso de literatura erótica, começando com Madame Bovary e continuando com O primo Basílio e Dom Casmurro. E de lambuja, Anna Karenina. E, ainda, a resenha de O professor do desejo:



quarta-feira, 23 de outubro de 2024

O HORROR ECONÔMICO. Viviane Forrester. 1996.

O ano de 1997 marca a minha chegada a um endereço famoso: rua Monte Alegre, em Perdizes, São Paulo. Depois de minha aposentadoria, como professor da escola pública do estado do Paraná, eu chegava a PUC, para iniciar os meus estudos de mestrado, no renomado programa de História e Filosofia da Educação, sempre laureado com uma nota sete. Foram os anos de aprimoramento da minha formação teórica. Oportunidade rara na vida. Chegava, portanto, ao curso de mestrado, ao final do século XX, num período de grandes transformações, tanto na ordem política, quanto na econômica. Um mundo de novos livros se colocava à frente de meus olhos. Avidamente eu os comprava nas livrarias que rodeavam o famoso endereço. Cada dia mais, aprendia a ler o mundo.

O horror econômico. Viviane Forrester. UNESP. 1997. Tradução: Álvaro Lorencini.

No campo econômico os termos mais citados eram os do neoliberalismo, da mundialização, dos livres mercados, agora globalizados. Revendo as minhas anotações, me deparo com estes termos, ainda hoje em pleno vigor. Anotações de aula da professora Nereide Saviani: desestatização - desnacionalização - globalização; desregulamentação - desconstitucionalização; desuniversalização - desproteção. Entre os autores, apenas os mais citados: David Harvey, Frederic Jameson, Atílio Borón, Perry Anderson, Adam Przeworski, além dos teóricos do liberalismo e do neoliberalismo. Depois veio o Fórum Social Mundial de Porto Alegre, onde entramos em contato direto com muitos desses autores.

Me lembro de um livro, em particular. O tomei para uma releitura. Um pequeno livro que causou profundo impacto. O horror econômico, de Vivane Forrester (1925-2013). O livro surgiu em 1996. Não poderia haver um título melhor para a realidade descrita: O horror econômico provocado pelo fim do mundo do trabalho e dos empregos, categorias estruturantes do sistema capitalista. Vejamos os dois primeiros parágrafos do livro: "Vivemos em meio a um engodo magistral, um mundo desaparecido que teimamos em não reconhecer como tal e que certas políticas artificiais pretendem perpetuar. Milhões de destinos são destruídos, aniquilados por esse anacronismo causado por estratagemas renitentes, destinados a apresentar como imperecível nosso mais sagrado tabu: o trabalho.

Com efeito, deformado sob a forma perversa de 'emprego', o trabalho funda a civilização ocidental, que comanda  todo o planeta. Confunde-se a tal ponto com ela que, ao mesmo tempo em que se volatiliza, seu enraizamento, sua evidência jamais são postos em causa, menos ainda sua necessidade. Não é ele que, em princípio, rege toda distribuição e, portanto, toda sobrevivência? Os emaranhados de intercâmbios que daí decorrem parecem-nos tão indiscutivelmente vitais quanto a circulação do sangue. Ora, esse trabalho, tido como nosso motor natural, como a regra do jogo que serve à nossa passagem para esses lugares estranhos, de onde cada um de nós tem vocação a desaparecer, não passa hoje de uma entidade desprovida de substância" (Página 7).

Está aí anunciado o teor do livro. A explanação e análise se dá ao longo de 12 pequenos capítulos, no decurso de 154 páginas. Nesse novo mundo cabem apenas os seres úteis aos objetivos do sistema, isto é, os que auferem lucros. Para os excluídos, medidas paliativas de "alívio à pobreza", termo tão ao gosto do Banco Mundial, que junto ao FMI e a OCDE, são os gestores do sistema, os formuladores de suas políticas. E não há alternativas. Todos precisam se adaptar ao único sistema viável. É domínio do 'pensamento único". Lembremos da sra. Tatcher, a conhecida sra. TINA. (There Is Not Alternative). Fim do trabalho e pensamento único aprisionam a todos. Não resisto à tentação de transcrever um pequeno texto de Perry Anderson, que descreve esse mundo, no belo livro Pós neoliberalismo, livro organizado por Emir Sader e Pablo Gentili. Usei este texto à exaustão em trabalhos de formação: 

"O remédio, então, era claro: manter um Estado forte, sim, em sua capacidade de romper o poder dos sindicatos e no controle do dinheiro, mas parco em todos os gastos sociais (as medidas paliativas de alívio à pobreza, medidas compensatórias à ausência dos empregos) e nas intervenções econômicas. A estabilidade monetária deveria ser a meta suprema de qualquer governo. Para isso seria necessária uma disciplina orçamentária (Teto de gastos - arcabouço fiscal), com a contenção dos gastos com o bem-estar social, e a restauração da taxa 'natural' de desemprego, ou seja, a criação de um exército de reserva de trabalho para quebrar os sindicatos. Ademais, reformas fiscais eram imprescindíveis, para incentivar os agentes econômicos. Em outras palavras, isso significava redução de impostos sobre os rendimentos mais altos e sobre as rendas" (Página 11).

Viviane Forrester também estava enfronhada com o mundo da literatura e dela retira alguns personagens para ilustrar as suas análises e aplicar a elas um tom de ironia mordaz. Aos economistas a serviço desse sistema e pregadores de seus dogmas, ela evoca o personagem do senhor Homais, o farmacêutico flibusteiro do livro de Flaubert, Madame Bovary. Um pseudocientista que ditava os dogmas que infelicitavam os seus atingidos. Era ele que detinha o veneno do envenenamento da madame. Genial e perfeitamente aplicável aos economistas de nossa mídia, a serviço do capital.

Entre os parágrafos finais, selecionei este para a conclusão do post: "Não se trata de chorar sobre o que não existe mais, de negar e renegar o presente. Não se trata de negar, de recusar a mundialização, o surto das tecnologias, que são fatos, e que poderiam ser animadores não só para as 'forças vivas'. Trata-se, pelo contrário, de levá-los em consideração. Trata-se de não ser mais colonizado. De viver com conhecimento de causa, de não mais aceitar tacitamente as análises econômicas e políticas (de homens inescrupulosos como o senhor Homais) que passam por cima dos fatos, que só os mencionam como elementos ameaçadores, obrigando a medidas cruéis, as que se tornarão ainda piores se não forem aceitas com toda a submissão" (Página 144).

Carlos Heitor Cony, sob o título O novo holocausto, apresenta o livro em suas orelhas: "Depois da exploração do homem pelo homem em nome do capital, o neoliberalismo e seu braço operacional, que é a globalização, criaram, mantêm e ampliam, em nome da sacralidade do mercado, a exclusão de grande parte do gênero humano. O próximo passo seria a eliminação? Caminhamos para um holocausto universal, quando a economia modernizada terá repugnância em custear a sobrevivência de quatro quintos da população mundial? Depois de explorados e excluídos, bilhões de seres humanos, considerados supérfluos, devem ser exterminados?

O raciocínio é bem mais do que uma hipótese. É um desdobramento lógico do horror econômico fabricado no laboratório dos economistas neste final de século. Horror - este sim - globalizado pelos governos que buscam resultados contábeis e condenam a ação social como jurássica.

A massa de excluídos em todo o mundo constituirá um formidável dinossauro que a economia modernizada eliminará como inviável no Estado neoliberal. Não se trata de um apocalipse, mas de um novo eixo da história. Só os melhores, os economicamente arianos, deverão sobreviver. Os não arianos formarão o gueto - e como a manutenção de um gueto é um paradoxo econômico (para quê produzir para quem não pode produzir?), a solução a médio ou a longo prazo será o extermínio em massa. Menos custo e mais benefício para os balanços de governos e empresas.

Viviane Forrester, romancista e ensaísta, autora de um belo livro sobre Van Gogh (um excluído que nunca vendeu um quadro) e outro sobre Virgínia Wolf, analisa com lucidez e lógica a decomposição dos valores humanísticos e sociais que se tornaram a besta-negra dos guarda-livros que se investiram na função de Sumos Sacerdotes, somente eles capazes de penetrar no Santo dos Santos do templo globalizado.

Ela prefere Rimbaud e Pascal aos economistas do neoliberalismo. O horror econômico denuncia o jargão e as siglas que estão fabricando o abominável mundo novo em gestação. Seu livro é um momento da consciência humana".

Na atualização de leituras sobre o tema, creio que este é o livro que mais aprofundou o tema. Deixo aqui a sua resenha:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/02/a-nova-razao-do-mundo-ensaio-sobre.html


quinta-feira, 17 de outubro de 2024

AS VINHAS DA IRA. John Steinbeck. Nobel de Literatura - 1962,

Neste meu ciclo de releituras chegou a vez de As vinhas da ira. Muitas vezes sou solicitado para fazer indicações, tipo os dez mais, dos melhores livros que já li. Sempre resisti a isso. Não gosto de estabelecer hierarquias, especialmente em campos tão diversos, como o é o dos livros. Mas, se o fizesse, não teria dúvidas em incluir As vinhas da ira nessa lista. O livro é uma verdadeira aula magna, tanto no campo da sociologia, quanto da história, um retrato vivo do sistema capitalista em seu processo duplo, da geração da acumulação, de um lado e o do espalhar a miséria, do outro. Me lembro de uma frase de que a única coisa que o sistema capitalista efetivamente democratiza é a generalização da miséria. John Steinbeck foi Nobel de Literatura de 1962, após oito indicações para tal.


As vinhas da ira. John Steinbeck. Abril. 1972. Tradução. Ernesto Vinhaes e Herbert Caro.

O ano da publicação é o de 1938. Na minha mania de professor, vamos à contextualização. Qual é o fato histórico mais importante próximo a esta data? Por óbvio que no âmbito mundial é a aproximação da Segunda Grande Guerra. Estamos às vésperas. Mas como o cenário do romance é o dos Estados Unidos, vamos retroceder um pouco, ao ano de 1929, o ano da grande crise econômica, da quebra da bolsa de valores e da crise econômica que se segue. É também o momento em que a Revolução Industrial chega com mais intensidade ao campo. O trator, cada vez mais, substituirá os trabalhadores. E estes, endividados, vão em busca de novas fronteiras para o trabalho. Nos Estados Unidos isso representa uma grande marcha para o oeste, para a Califórnia, que fora tomada aos mexicanos.

Este é o caso da família Joad, uma família de pequenos arrendatários de terras no Oklahoma, que trabalhavam no cultivo do algodão. Endividados, são obrigados a se porem em movimento, num velho caminhão, em que tem que caber as treze pessoas da família e os pertences que lhes restaram. A família se compunha do avô e da avó, do pai e da mãe, dos filhos Tom, Al e Noah, de Rosa e o marido Connie, das crianças Ruth e Wienfield, tio John e Casy, o ex pregador, incorporado à família. Esta começa a se desintegrar já na partida, uma vez que Muley se recusa a partir. Saem de Sallisaw, tomam a famosa rota 66, no rumo da Califórnia, levando muitos sonhos e pouquíssimos dólares. Já na viagem ocorrem novas perdas na família, avô e avó morrem no percurso. E sem enterros decentes.

A primeira parte do romance se ocupa com a descrição daquilo que poderíamos chamar de revolução agrícola pela mecanização. Ela expulsa os trabalhadores do campo. Estes, endividados, veem as terras sendo tomadas pelos bancos. Numa imagem nossa diríamos que o agronegócio estava se estabelecendo. A dificuldade dos lavradores em compreender essa situação é enorme, mas o quadro de sofrimentos provocados é real. Cartazes impressos, dizendo que há muito trabalho na Califórnia, os põem em movimento. Pura ilusão. Com a chegada à Califórnia começa a segunda parte do romance. Não há trabalho, ou melhor, há pouco trabalho para milhares e milhares de trabalhadores. Na beira das estradas formam-se as favelas chamadas de Hoovervilles (alusão ao presidente Hoover, o presidente republicano da crise (1929-1933). Ele era liberal. Não admitia intervenções do Estado na economia. A família também encontra um acampamento organizado pelo governo federal. Trata-se do acampamento de Weedpatch. Lá predominava a auto organização e a polícia não entrava.

A ação da polícia é outro ponto forte do romance. Ela sempre será a grande provocadora dos conflitos e sempre atuava em favor do sistema dominante e agia com extrema violência, inclusive com mortes movidas pela impunidade. Este foi o caso do ex pregador Casy, que morre numa greve contra a redução do valor da hora trabalhada. Como a polícia não podia intervir no acampamento de Weedpatch, ali procuravam implantar infiltrados para provocarem confusão, fato que daria motivo para intervenção. Lembrando que o romance foi escrito em 1938 e que, a partir de 1933 até 1945, o presidente dos Estados Unidos passou a ser o democrata F. D. Roosevelt, a favor das intervenções estatais, especialmente  em tempos de crise, em favor da geração de empregos e ajudas humanitárias. Isso explica o acampamento de Weedpatch.

Mas a situação da família Joad não melhora. Seguem a sua sina em busca de trabalho. Isso ocorre apenas esporadicamente e com salários cada vez menores, movidos pelo processo da super oferta do trabalho. Essa era a razão dos folhetos que procuravam atrair tantos trabalhadores. Desemprego parece ser um elemento estrutural do sistema capitalista. Quando não há oferta de trabalho, trabalha-se a troco de comida. O espírito da escravidão parece nunca ter sido abolido. E a família vai sofrendo novas baixas, a miséria vai desintegrando-a por completo.

O contraste entre a acumulação e a miséria é um dos pontos mais elevados do grande romance. A solidariedade humana entre os famintos é extraordinária. Eles partilham, com grande generosidade, o alimento que guardavam para o dia de amanhã, com aqueles que não tinham o que comer no dia de hoje. Por outro lado há grande euforia e total insensibilidade para a acumulação auferida com o emprego da exploração e da violência. Gestos simbólicos são profundamente significativos. Só não há maiores ajudas entre os pobres esfaimados pela absoluta impossibilidade de os mesmos ocorrerem. Entre os personagens, eu destacaria a força de Tom Joad, um ex presidiário e, acima de todos, a mãe Joad, força impressionante e decisiva nos momentos de crise maior. A força da mulher.

Outro ponto impressionante do livro é o ódio. O mesmo ódio tão presente nos dias de hoje. O ódio aos pobres, o ódio aos diferentes, o ódio aos pobres, que imediatamente passam a ser rotulados de vagabundos, preguiçosos, desordeiros e inúteis. Pessoas sem "mérito". Naquele tempo esse ódio era dedicado aos migrantes, aos OKIES, o termo pejorativo com o qual eram chamados os habitantes do Oklahoma. Hoje esse ódio é contra as políticas afirmativas, contra os detentores de ajudas humanitárias governamentais e, especialmente aos IMIGRANTES, sem esquecer também dos próprios migrantes. Vejam o caso brasileiro dos nordestinos.

O romance não poderia ter um final mais impressionante. Uma grande enchente toma conta e inunda o acampamento onde estão alojados. Pai, Mãe e Rosa, que recém parira uma criança morta, partem em busca de um lugar ainda seco. Num galpão abandonado encontram duas pessoas. Uma criança prestes a morrer de fome é amamentada com o leite que brota dos seios de Rosa. Um hino à solidariedade. Steinbeck ganhou o prêmio Nobel de Literatura, apenas após oito sucessivas indicações. Só em 1962, quando este livro é datado de 1938. Certamente o tema desse livro lhes foi indigesto.

O livro que eu li é da coleção Os imortais da Literatura Universal, volume 34. Ele tem 629 páginas, divididas em 29 capítulos. E uma falha sem tamanho. Há a ausência das páginas 567 a 598. Tive que recorrer ao Google e encontrar um PDF. Nessas páginas há a importante informação de que Tom se vê na obrigação de fugir da polícia, desintegrando assim, ainda mais, a já tão diminuída família. Ah! A família. A instituição Mater da sociedade.

No livro de biografias que acompanha a coleção lemos o seguinte sobre esta grande obra: "Recolhido em sua casa, o escritor dedicava-se inteiramente à composição de As vinhas da ira, romance de tese que relata o calvário dos pequenos agricultores expulsos de suas terras pela industrialização e atraídos pela ilusória fartura de uma Califórnia que a propaganda lhes apresenta como sendo a 'Terra da Promissão'.

As vinhas da ira evidencia mais uma vez, a posição filosófica característica do autor: a ele importa a realidade tal como ela é, não como poderia ou deveria ser, nem por que ou para que as coisas existem. Ante o problema abordado em seu romance, ele não toma partido. Descreve uma situação, mas abstém-se de dar opiniões. Dessa forma, ao longo da obra, conjugam-se curiosamente a nostalgia da vida patriarcal do tempo dos 'pioneiros' e o apelo à revolução social. As personagens e as ideias são superficiais, como geralmente ocorre em toda a sua produção literária. A grandeza de Steinbeck está mais no fôlego épico, na força de convicção e de emoção, na generosidade.

Publicado em 1939, As vinhas da ira transformou-se logo em enorme sucesso de vendas e de crítica, e propiciou ao autor dois importantes prêmios - o Pulitzer e o troféu dos Livreiros Americanos -, além da eleição para membro do Instituto Nacional de Artes e Letras. Para coroar o êxito, Hollywood comprou a estória e transformou-a num grande filme de protesto social, que teve como intérprete principal o ator Henry Fonda".

E, as razões para o título? "E o cheiro da podridão enche o país (diante da destruição dos alimentos, para que estes mantenham os seus preços). [...] Há um fracasso nisso, que opõem barreiras ante todos os nossos sucessos. À terra fértil, às filas retas de árvores, aos troncos vigorosos e às frutas maduras. E crianças sofrendo de pelagra, têm que morrer, porque a laranja não deve deixar de dar o seu lucro. E médicos-legistas devem declarar nas certidões de óbito 'Morte por inanição', porque a comida deve apodrecer, deve ser forçada a apodrecer.

O povo vem com redes para pescar as batatas no rio, e os guardas impedem-no. Os homens vêm nos carros barulhentos apanhar as laranjas caídas ao chão, mas elas estão untadas de querosene. E eles ficam imóveis, vendo as batatas passar flutuando; ouvem os gritos dos porcos abatidos num fosso e cobertos de cal viva; contemplam as montanhas de laranjas, num lodaçal putrefato. E nos olhos dos homens reflete-se o fracasso. E nos olhos dos esfaimados cresce a ira. Na alma do povo, AS VINHAS DA IRA diluem-se e espraiam-se com ímpeto, crescem com ímpeto para a vindima". Página 480. 

Por razões óbvias me lembrei dessa execração ao dinheiro. O texto é de Marx, numa citação de Shakespeare.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2014/03/o-dinheiro-marx-goethe-e-shakespeare.html



segunda-feira, 14 de outubro de 2024

Memórias de minhas putas tristes. Gabriel Garcia Marques. Nobel 1982.

Fiz uma breve busca em minha biblioteca por livros ainda não lidos. Logo de saída me deparei com um clássico que aguardava desde 2007 para ser lido. Trata-se de Memórias de minhas putas tristes, do Nobel de Literatura colombiano Gabriel Garcia Marques. Fui amplamente recompensado em minha busca. Uma leitura agradável e de um fôlego só estava no meu aguardo.

Memórias de minhas putas tristes. Gabriel Garcia Marques. Record.2007.

Na contracapa do livro está transcrita uma parte do seu primeiro parágrafo. Ele nos dá um prospecto da obra e uma perspectiva para a sua leitura: “No ano dos meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. Lembrei de Rosa Cabarcas, a dona de uma casa clandestina que costumava avisar aos seus bons clientes quando tinha alguma novidade disponível. Nunca sucumbi a essa nem a nenhuma de suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza de meus princípios. Também a moral é uma questão de tempo, dizia com sorriso maligno, você vai ver”.

Estão aí os três protagonistas do livro. O idoso senhor, a completar noventa anos, a adolescente virgem e a astuta Rosa Cabarcas, a dona do bordel. O idoso e lascivo senhor, além de protagonista é também o narrador. Ele é homem culto e grande apreciador de música, especialmente a clássica. É jornalista por profissão e que, ainda aos noventa, mantem no jornal da cidade, uma crônica dominical bastante apreciada. Em sua narrativa afirma que as “putas” nunca lhe permitiram tempo para o casamento. Com elas teve uma longa vida, iniciada aos 12 e sem perspectivas de acabar, mesmo após os noventa.

Rosa Cabarcas se especializara no atendimento a seus clientes e não encontrou grandes dificuldades em atender o seu exigente cliente. Recrutou a adolescente virgem em uma fábrica, onde vivia a pregar botões e cuja remuneração ajudava no sustento de seus irmãos e irmãs. Uma presa fácil, no contexto de um mundo de exploração. Um amor para contemplação e sentimentalidades. E, acima de tudo, para a renovação de sua escrita nas crônicas dominicais. Exortações ao amor e às suas sublimidades.

Rosa e Delgadina, este era o nome que o jornalista deu à menina, subitamente desapareceram para só voltarem após trinta dias de vacâncias em paradisíacas praias. Este desaparecimento ocorrera depois do assassinato de um “graúdo”, nas dependências de seu estabelecimento. O desespero tomou conta de sua vida. Após a volta ele é acometido por uma crise de louco ciúme e de um ataque de fúria, do qual resultou a depredação do quarto VIP, que mantinha no estabelecimento de Rosa. As suas já debilitadas finanças acabaram de se arruinar por completo. Ainda lhe restavam quadros e joias, heranças da mãe. Ele não tem dúvidas em sua penhora. Isso proporciona a ele o desvendar das falsificações praticadas por sua própria mãe.

O livro, como já vimos, é de leitura de um fôlego só. São 120 páginas, divididas em cinco capítulos. É um dos últimos romances do autor, do ano de 2004. O Nobel de Literatura lhe fora concedido em 1982. O livro tem uma frase em epígrafe. É de Yasunari Kawabata, autor de A casa das belas adormecidas. Ela diz: “Não devia fazer nada de mau gosto, advertiu a mulher da pousada ao ancião Euguchi. Não devia colocar o dedo na boca da mulher adormecida nem tentar nada parecido”. A Delgadina também permanecia constantemente adormecida.

Na orelha temos um parágrafo bem ilustrativo do livro: "Um leitor mais atento vai encontrar aqui as principais referências e motivações desse hino de louvor à vida e, por extensão, ao amor, já que um não existe sem o outro no imaginário do Prêmio Nobel de Literatura de 1982. Apesar de parecer estranho, uma dessas chaves está no conto de fadas A bela adormecida, que, não por acaso, é citado em um momento crucial dessa narrativa ambientada em uma cidade colombiana imaginária, numa época que de tão remota parece imemorial". 

A edição do livro é da Record. A publicação original é do ano de 2004 e a edição que eu li é de 2007. A tradução é de Eric Nepomuceno.

 

 


segunda-feira, 7 de outubro de 2024

Viagem a Portugal. José Saramago.

As minhas releituras de Saramago. Olhando na estante os livros que tenho de José Saramago, deparo com Viagem a Portugal. Envergonhado, confesso que não me lembrava de tê-lo lido. Mas ao folheá-lo, vi partes sublinhadas e outras pequenas anotações. Assim percebi que o tinha lido, e de ponta a ponta. E forçando um pouco a memória, lembrei das várias vezes que Saramago ia em busca de chaves das igrejas que queria visitar, mas que nem sempre as encontrava, ou então se encontrava com pessoas muito mal humoradas e pouco dispostas em atendê-lo. Mas, afinal, o que devo dizer da releitura deste livro?

Viagem a Portugal. José Saramago. Companhia das Letras. 2010.

Uma viagem. Uma viagem que, como nos diz o próprio Saramago, é um livro de viajante e não de turista. É um livro meticuloso, voltado a detalhes de arte, de história e de cultura, com os quais vai povoando as inúmeras cidades visitadas, de norte a sul de seu país. Isso mesmo, a viagem obedece a este direcionamento. Começa ao norte, em Miranda do Douro, junto a divisa com a Espanha e termina em Lagos, cidade através da qual Portugal promoveu a sua enorme expansão. E haja paisagens geográficas, haja história e cidades históricas, arte mourisca e arte portuguesa, estilos do românico, do gótico e do barroco e, acima de tudo, haja castelos e igrejas. E sim, o estilo manuelino. Tudo isso é entremeado de análises e de críticas. Portugal e a sua história é tema das primeiras grandes obras de Saramago. Para lembrar, cito Levantando do chão, sobre os latifúndios do Alentejo e o sofrimento de seu povo na luta pelo pão de cada dia e Memorial do Convento, em que é contada a história da construção de seu famoso convento e os enormes sacrifícios do povo, no trabalho de sua construção.

O livro é longo. São 484 páginas, divididas em seis partes, ou capítulos, que correspondem às regiões visitadas. Dou, primeiramente, os títulos e as páginas. Faço isso para que se tenha uma ideia do quanto o autor dedicou a cada uma das regiões: 1. De Nordeste a Noroeste, duro e dourado (páginas 15 a 139); 2. Terras baixas, vizinhas do mar (páginas 141 a 185); 3. Brandas beiras de pedra, paciência (páginas 187 a 272); 4. Entre Mondego e Sado, parar em todo o lado (páginas 273 a 381); 5. A grande e ardente terra de Alentejo (páginas 383 a 451; 6. De Algarve e sol, pão seco e pão mole (páginas 453 a 476. Passo a dar também as principais cidades visitadas em cada região e algum detalhe a mais.

Na primeira parte o viajante se deparou com Bragança, Outeiro, Vila Real, Amarante, Guimarães (a cidade berço do país), Viana de Castelo, Braga (a Roma portuguesa e a rival de Santiago de Compostela), Barcelos (a cidade do Galo) e Porto, junto a foz do Douro.

Na segunda parte, o viajante, após a travessia do Douro, percorre Vila Nova de Gaia (a cidade do vinho), Aveiro, Figueira da Foz, Montemor e Coimbra (a capital nos séculos XII e XIII e a sua famosa universidade jesuítica).

Na terceira parte, o viajante continua pela região central do país e a região da Serra da Estrela. As principais cidades visitadas são Cidadelhe, Belmonte (a terra de Pedro Álvares Cabral e o Museu dos descobrimentos), Marialva, Covilhã, Castelo Branco e Abrantes.

Na quarta parte o viajante vem beirando o rio Tejo. As cidades pelas quais ele andou são Constância (a terra natal de Camões e do Castelo de Almourol, Tomar, a cidade dos templários, com o Convento de Cristo e também um famoso aqueduto, Fátima (cidade tomada pelo comércio e da qual, afirma ele, se salva apenas a fé), Leiria, Batalha (a batalha de Aljubarrota), Nazaré, Alcobaça, Azinhaga (a cidade natal do viajante), Santarém, Óbidos, Mafra (a cidade do convento), Estoril e Cascais e mais de vinte páginas dedicadas a Lisboa.

Na quinta parte, já feita a travessia pela  ponte Vasco da Gama ou 25 de abril, chega-se à famosa região do Alentejo. Entre as cidades visitadas estão Setúbal, Montemor-o-Novo, Pavia, Mora - Brotas, Grândola - Carvalhal, Alter do Chão, Vila Viçosa,  Évora (Templo de Diana), Beja e Mértola. Terra de latifúndios e sofrimento humano.

A sexta parte é a mais breve. É o Algarve. Duas cidades merecem destaque. Faro e o seu museu e Lagos e o museu náutico. Terra de turismo e de estrangeirismos.

Mas, deixemos o próprio Saramago falar de seu livro. Isso ele faz na sua apresentação: "Esta viagem a Portugal é uma história. História de um viajante no interior da viagem que fez, história de uma viagem que em si transportou um viajante, história de viagem e viajante reunidos em uma procurada fusão daquele que vê e daquilo que é visto, encontro nem sempre pacífico de subjetividades e objetividades. Logo: choque e adequação, reconhecimento e descoberta, conformação e surpresa. O viajante viajou no seu país. Isto significa que viajou por dentro de si mesmo, pela cultura que o formou e está formando, significa que foi, durante muitas semanas, um espelho reflector das imagens exteriores, uma vidraça transparente que luzes e sombras atravessaram, uma placa sensível que registou, em trânsito e processo, as impressões, as vozes, o murmúrio infindável de um povo".

Ao final, o viajante nos alerta que em breve ele estará de volta. "Não é verdade. A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse 'Não há mais que ver', sabia que não era assim. O fim duma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já".

Deixo a resenha dos dois livros em que o escritor se ocupa mais diretamente com histórias de seu país. Levantando do Chão e Memorial do Convento.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/08/levantando-do-chao-jose-saramago.html

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/08/memorial-do-convento-jose-saramago.html

sábado, 28 de setembro de 2024

Ensaio sobre a lucidez. José Saramago.

Ensaio sobre a lucidez, o livro de Saramago que reli nesta sequência, é uma continuidade do seu livro Ensaio sobre a cegueira. A cegueira foi o tema abordado em 1995 e a lucidez, quase dez anos depois, em 2004. A cegueira abordada na obra do final do século, para lembrar, era uma cegueira branca. A lucidez, por sua vez, se manifesta por uma decisão popular, de não mais votar em candidatos, mas sim, votar majoritariamente em branco. Na cegueira, as instituições do Estado deixaram de funcionar e na lucidez, o Estado se retirou da cidade e governou à distância, pelo arbítrio. Um mundo de barbaridades.


Ensaio sobre a lucidez. José Saramago. Companhia das Letras. 2004.

Na minha primeira leitura, na página 175 eu sublinhei algumas linhas e escrevi ao lado - Ensaio sobre a cegueira. Eis o trecho sublinhado: "... falemos abertamente sobre o que foi a nossa vida, se era vida aquilo, durante o tempo em que estivemos cegos, que os jornais recordem, que os escritores escrevam, que a televisão mostre as imagens da cidade tomadas depois de termos recuperado a visão, convençam-se as pessoas a falar dos males de toda a espécie que tiveram de suportar, falem dos mortos, dos desaparecidos, das ruínas, dos incêndios, do lixo, da podridão, e depois, quando tivermos arrancado os farrapos de falsa normalidade com que temos andado a querer tapar a chaga, diremos que a cegueira desses dias regressou sob uma nova forma, chamaremos a atenção da gente para o paralelo entre a brancura da cegueira de há quatro anos e o voto em branco de agora..."

Essa passagem é tão significativa para a compreensão do romance, ou do ensaio, que ela se encontra na própria contracapa do livro. Mas na página 186, tenho outras linhas sublinhadas. Ela faz parte de uma carta denúncia, enviada ao governo, por um dos cegos, integrante de um grupo de sete, que teve uma notável particularidade. Vejamos uma parte do teor da carta: "... e essa missão (a do denunciante), senhor presidente da república, consiste em revelar, escrevo a palavra por ser a primeira vez que falo deste assunto a alguém, que há quatro anos, com a minha mulher, fiz casualmente parte de um grupo de sete pessoas que, como tantas outras, lutou desesperadamente para sobreviver. Parecerá que não estou a dizer nada que vossa excelência, por experiência própria, não tenha conhecido, mas o que ninguém sabe é que uma das pessoas do grupo nunca chegou a cegar, uma mulher casada com um médico oftalmologista, o marido estava cego como todos nós, mas ela não..." O remetente da carta ainda alerta que esta mulher, que não cegara, havia cometido um assassinato. A partir dessa página, o romance vira uma investigação policial. Querem atribuir a esta mulher, a culpa pela lucidez que assolara a cidade.

Como já assinalamos, o mote do romance ocorre com uma eleição, ou melhor, pelos resultados dessa eleição. Nela os eleitores aparecem apenas ao final da tarde e, na apuração ficou constatado que 75% dos eleitores votaram em branco. A eleição terá que ser repetida. Os votos em branco aumentaram para 83%. Este é o cenário da crise. Diante dela, como o governo, o mais diretamente atingido, deverá agir? Tudo deveria ser diligentemente investigado. Quem seriam os conspiradores? Medidas urgentes deveriam ser tomadas. Para isso o Conselho de ministros se reúne constantemente. As discussões são hilariantes. As propostas mais absurdas sempre são as dos ministros da defesa e do interior e as menos acatadas, as do ministro da justiça e da cultura. O ministro do interior disputa o poder diretamente com o primeiro ministro.

É preciso endurecer o regime. O estado de sítio é decretado. A vida da cidade continua na mais plena normalidade. Não há indícios de que grupos organizados estejam a comandar o movimento. Uma decisão drástica é tomada. O governo se retira da capital, junto com todas as instituições, inclusive a polícia. Nas reuniões ministeriais passa a imperar o princípio de que o fim justifica os meios, desde que os resultados apareçam. Mas eles não aparecem, As medidas tomadas são as mais ridículas que se possa imaginar. Para que elas tenham efeito, é preciso criar um inimigo. Fundamental, criar um inimigo. Mas quem seria ele?

É o momento em que chega a carta com a denúncia da mulher que não cegara e que cometera um assassinato. É o inimigo perfeito. Ela e o seu grupo. A um comissário e a investigadores é confiada a investigação. Nada constatam que possa desabonar, nem a mulher do médico, nem o seu grupo. Mas o ministro cobra resultados. Uma fotografia do grupo, junto com matérias difamatórias são exibidas nos meios de comunicação. A eles é atribuída a culpa.

As soluções apresentadas pelo governo não são nada honrosas. Depois de arbitrariedades cometidas, o ministro do interior é demitido e o primeiro ministro acumula o cargo. O comissário é assassinado, assim como o médico oftalmologista e a sua mulher e também Constante, que no Ensaio sobre a cegueira aparecia mais sob o nome de cão das lágrimas. Com três tiros o romance é encerrado. Vejamos: " o cão veio a correr lá de dentro, fareja e lambe a cara da dona, depois estica o pescoço para o alto e solta um uivo arripiante que outro tiro imediatamente corta. Então um cego perguntou, Ouviste alguma coisa. Três tiros, respondeu outro. Mas havia também um cão aos uivos. Já se calou, deve ter sido o terceiro tiro. Ainda bem, detesto ouvir os cães a uivar".

Sim, falta a frase de epígrafe: Uivemos, disse o cão. Livro das Vozes.

Vejamos ainda a síntese encontrada nas orelhas do livro: "Numa manhã de votação que parecia como todas as outras, na capital de um país imaginário, os funcionários de uma das seções eleitorais se deparam com uma situação insólita, que mais tarde, durante as apurações, se confirmaria de maneira espantosa. Aquele não seria um pleito como tantos outros, com a tradicional divisão dos votos entre os partidos 'da direita', 'do centro' e 'da esquerda'; o que se verifica é uma opção radical pelo voto em branco. Usando o símbolo máximo da democracia - o voto -, os eleitores parecem questionar profundamente o sistema de sucessão governamental em seu país.

É desse 'corte de energia cívica' que fala Ensaio sobre a lucidez. Não apenas no título José Saramago se remete ao seu célebre Ensaio sobre a cegueira: também na trama ele retoma personagens e situações, insistindo em algumas das questões éticas e políticas abordadas no romance de 1995. Ao narrar as providências do governo, polícia e imprensa para entender as razões da 'epidemia branca' - ações estas que elevam rapidamente a um devaneio autoritário -, o autor faz uma alegoria dos rituais da democracia e da fragilidade  do sistema político e das instituições que nos governam. A lucidez, aqui, é aquilo que se opõe à loucura, ao desvario, à demência: não se trata, portanto, de mera metáfora ou ironia.

O que se propõe não é a substituição da democracia por um sistema alternativo, mas o seu permanente questionamento. É pela via da ficção que José Saramago entrevê uma saída para esse impasse - pois é a potência simbólica da literatura, território em que reflexão, humor, arte e política se entrosam, que por fim se revela capaz de vencer a mediocridade, a ignorância e o medo".

Deixo ainda a resenha do livro lido anteriormente, A caverna.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/09/a-caverna-jose-saramago.html