quarta-feira, 1 de setembro de 2021

O Atlântico negro. Paul Gilroy.

Em minhas leituras, andei pela África, pelas Américas e detive-me, particularmente, no Caribe. Li Leonardo Padura e Achille Mbembe. Água por todos os lados e Necropolítica. Cuba e o Haiti mereceram uma atenção maior. Por essas leituras cheguei a um livro extraordinário, O Atlântico negro, de Paul Gilroy. Aí se somaram os fatores de espaço e tempo, juntando quinhentos anos de história no espaço do Oceano Atlântico, por onde andavam europeus e africanos, uns livres e outros forçados, compondo o período histórico que chamamos de modernidade.

O Atlântico negro. Paul Gilroy. Editora 34. 2019. Tradução: Cid Knipel Moreira.

O livro de Paul Gilroy, O Atlântico negro é mais ou menos isso. No Atlântico se encontram os povos europeus, brancos, no novo tempo histórico da modernidade, alavancados por uma filosofia que atendia pelo nome de iluminismo ou esclarecimento, pelo qual a humanidade daria verdadeiros saltos no rumo de um progresso que não mais teria fim. A razão e a ciência seriam as responsáveis por esta tamanha façanha. Os europeus brancos vieram para a América, de norte a sul, passando pelo Caribe. Na África iriam buscar os trabalhadores que trabalhariam nas plantations, num novo velho sistema de trabalho, a escravidão. Essa reintrodução da escravidão nas relações de produção provocou a diáspora do povo negro, fadado a se submeter à supremacia branca. Ao menos é isso que nos é contado pelos livros de história.

Esses povos negros tinham um tradição e uma identidade cultural que, pela subordinação à condição de escravos, deveria ocupar um lugar secundário em suas vidas. A supremacia europeia branca lhes seria imposta. Mas eles não se rendem. Preservam seus traços originários e identidários. Preservam sua linguagem e formas de comunicação, especialmente pela literatura, pela poesia e pela música. Não abdicam de seus amores e de suas paixões. E as expressam. E as culturas se misturaram. Passaram a existir negros, também na Europa e na América. É a diáspora dos povos africanos.

Esses povos que navegam pelo Atlântico negro se encontram e mantém os mais diferentes tipos de relações. Essas relações se contrapõem frontalmente com os princípios da doutrina do esclarecimento, do iluminismo, especialmente com os ideais de emancipação humana, proclamados em seu hinos e slogans revolucionários: "Liberdade, igualdade e fraternidade". Em 1804, na proclamação da independência do Haiti, a casa caiu. Esses princípios seriam válidos apenas para os povos europeus, praticantes dos princípios da cultura ocidental, que continham em si a irrevogável hegemonia ou supremacia. Vejamos isso, numa frase de Du Bois, um dos autores analisados no livro de Gilroy:

"[...] a característica de nossa era é o contato da civilização europeia com os povos não desenvolvidos... Guerra, assassinato, escravidão, extermínio e devassidão: este tem sido reiteradamente o resultado de se levar a civilização e o abençoado evangelho às ilhas do mar e aos pagãos sem lei" (página 234). Que síntese!


O  escritor britânico Paul Gilroy.

O livro de Gilroy apareceu pela primeira vez no ano de 1991, em inglês. No Brasil, tivemos a primeira edição datada de 1993. Paul Gilroy é historiador e escritor britânico e fundador do Centro para o Estudo da Raça e Racismo Sara Parker, do University College de Londres. O título completo do livro é O Atlântico negro - Modernidade e dupla consciência. Na contracapa da edição brasileira lemos o seguinte comentário:

"Clássico contemporâneo da sociologia e dos estudos da cultura, O Atlântico negro, de Paul Gilroy, professor da Universidade de Yale, busca definir a modernidade a partir do conceito de diáspora negra e suas narrativas de perda, exílio e viagens. Histórias de deslocamentos e identidades caracterizam essa formação que Gilroy chama de Atlântico negro: um conjunto cultural irredutivelmente moderno, excêntrico, instável e assimétrico, que escapa à lógica estreita das simplificações étnicas, e se manifesta tanto nos escritos de W. E. B. Du Bois como nas letras dos rappers do século XXI".

"Nas letras e nos rappers". Essa é a construção do livro, de 427 páginas, divididas em seis capítulos e dois prefácios, um dedicado especificamente à edição brasileira. Os capítulos tem os seguintes títulos: 1. O Atlântico negro como contracultura da modernidade; 2. Senhores, senhoras, escravos e as antinomias da modernidade; 3. "Joias trazidas da servidão": música negra e a política de autenticidade; 4. "Anime o viajante cansado": W. E. B. Du Bois, a Alemanha e a política da (des)territorialização...; 5. "Sem consolo das lágrimas": Richard Wright, a França e a ambivalência da comunidade; 6. "Uma história para não passar adiante": a memória viva e o sublime escravo.

Fiz algumas anotações ao longo da leitura dos capítulos, mas vou me ater apenas a alguns comentários. Por óbvio, os capítulos 4 e 5 são uma análise dos autores que constam no título. No primeiro ele enfoca a questão do título da Modernidade e dupla consciência. O autor é negro e europeu. Aparecem também os primeiros autores analisados. Já no segundo capítulo, o foco se centra na dialética do escravo de Hegel, interpretada sob a ótica do negro. Nesse capítulo tem uma citação de um escritor, Frederick Douglas, muito interessante sobre os piores escravocratas: "Se eu tivesse de ser novamente reduzido à condição de escravo, em seguida a esta calamidade, eu deveria considerar o fato de ser escravo de um proprietário religioso o pior que poderia acontecer. De todos os proprietários de escravos com que me encontrei alguma vez, os religiosos são os piores" (página 133). No terceiro capítulo é abordada uma das mais ricas herança negras, a sua música. O último capítulo é dedicado a diáspora e às perspectivas. É feita uma comparação entre os dois povos que sofreram as maiores diásporas da história.

Tive muitas dificuldades na leitura do livro. O tema da identidade da cultura negra e o seu tratamento na literatura me é praticamente desconhecido. Dos livros citados e analisados li apenas Toni Morrison  Amada. Já dos autores da construção da modernidade Gilroy tem um domínio absoluto, passando por Kant, Hegel, Nietzsche, Foucault, Adorno, Benjamin, Jameson, entre outros. Um livro para especialistas, creio ter sido esta a dificuldade que eu encontrei para a sua leitura. Um livro de extrema erudição.

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