Domingo (01.02.2026) foi um dia maravilhoso. Tive a oportunidade de receber na chácara um grupo de alunos, capitaneados pela Mari, formandos do ano de 2009, do curso Publicidade e Propaganda da Universidade Positivo. Muita empatia, memórias e gratas lembranças. Entre os temas das conversas, por óbvio, estava a Universidade Positivo e peculiaridades do curso. Lembramos de cursos de leituras, de Ler e Ver, entre outros assuntos. Na época tínhamos, no meu entendimento, um bom grupo de professores e uma coordenação extraordinária (Professora Eveline e depois o professor André Tezza).
A leitura sempre é um tema fascinante. Lembro que entre nós professores trocávamos muitas leituras e até a mesa que aglutinava os professores do curso se tornou conhecida. Eu particularmente trocava as leituras com o professor Ferrari e com o professor Rafael. Trago esta memória para dizer que terminei de reler Ei, professor, de autoria de Frank McCourt, que por trinta e seis anos exerceu a função de professor do ensino médio na cidade de Nova York, em diferentes colégios, dos mais populares até em um dos mais elitizados. O livro é um relato de suas experiências, escritas já no seu tempo de aposentadoria, e que foi laureado com o Prêmio Pulitzer. Este conteúdo transparece num diálogo que o professor mantém, quase ao final do livro com um aluno seu. Vejamos.
Ei, professor. Frank McCourt. Intrínseca. 2006. Tradução: Rubens Figueiredo. Prêmio Pulitzer."Senhor McCourt, o senhor tem sorte. O senhor teve uma infância infeliz e então tem um assunto para escrever. Sobre o que a gente vai escrever? A gente só faz nascer, ir para a escola, ficar de férias, ir para a faculdade, se apaixonar ou coisas assim, formar-se na faculdade, e começar uma carreira, casar, ter os dois vírgula três filhos em média de que o senhor vive falando, mandar os filhos para a escola, se divorciar como faz cinquenta por cento da população (Em outra passagem, o autor cita que o divórcio em Nova York é um esporte muito popular (Página 237), engordar, ter o primeiro ataque do coração, aposentar-se morrer.
Jonathan, essa é a mais lamentável sinopse da vida americana que já vi numa sala de aula do Ensino Médio. Mas você forneceu os ingredientes para se escrever o grande romance americano. Sintetizou os romances de Theodore Dreiser, Sinclair Lewis, F. Scott Fitzgerald" (Página 252). No capítulo 18, o Sr. McCourt dá a resposta. Transcrevo o capítulo por inteiro VOU TENTAR. E a tentativa se transformou num grande êxito literário americano.
Ao ver estes escritores, eu voltei a me lembrar de nossos círculos de leituras. Por eles eu entrei em contato com outro escritor, descritor da vida americana, Philip Roth. Dele lemos o maravilhoso A marca humana. E, depois li quase a sua obra por inteiro, ao menos no que diz respeito a seus livros traduzidos para o português. Ah sim! lembrando. O professor André Tezza, na qualidade de coordenador do curso, nos presenteou com o livro. Penso em relê-lo.
Antes de fazer alguns destaques, vamos a orelha do livro: "Agora, eis aqui o tão aguardado livro de McCourt no qual ele conta como seus 36 anos de carreira no magistério engendraram seu segundo ato como escritor (O primeiro - As cinzas de Ângela). Ei, professor é também um tributo pungente a todos os professores. Com uma prosa ousada e vivaz, em que se destaca seu humor irreverente, com uma franqueza tocante, McCourt registra as tentativas, os triunfos e as surpresas com que se deparou em escolas públicas na cidade de Nova York. Ao lançar mão de métodos que nada tem de convencionais. McCourt cria um impacto duradouro em seus alunos por meio de tarefas imaginativas (orienta uma turma a redigir "Um pedido de desculpas de Adão ou de Eva para Deus"), músicas (nas quais a lista de ingredientes de uma receita toma o lugar da letra original) e passeios (imagine levar 29 garotas agitadas para um cinema em Times Square!).
McCourt luta para encontrar o caminho correto nas aulas e consome as noites bebendo com escritores e sonhando em um dia pôr no papel sua própria história. Em Ei, professor, vemos McCourt demonstrando sua incomparável habilidade para contar uma história magnífica enquanto, cinco dias por semana, cinco aulas por dia, se esforça para prender a atenção e ganhar o respeito dos adolescentes indisciplinados, sobrecarregados de hormônios ou indiferentes. O periclitante casamento de McCourt, sua fracassada tentativa de obter um doutorado no Trinity College, em Dublin, e suas repetidas demissões causadas pela propensão a contestar os superiores acabam, ironicamente, por levá-lo a trabalhar na escola mais prestigiosa de Nova York, a Escola Secundária Stuyvesant, onde ele por fim encontra um lugar e uma voz. "A tenacidade", diz ele, "não é tão atraente quanto a ambição, ou o talento, ou o intelecto, ou o charme, mesmo assim foi o que me permitiu vencer os dias e as noites".
Para McCourt, contar histórias é em si mesmo a fonte da salvação e, em Ei, professor, a viagem para a redenção - e para a glória literária - é uma aventura muito divertida".
O livro tem 266 páginas. É dividido em três partes, mais um pequeno mas super interessante prólogo. Vamos aos títulos das partes, bastante auto explicativos: Parte 1. - O longo caminho até a pedagogia. Parte 2. - Um burro no meio dos espinhos. Um capítulo valioso sobre o que ocorre nas salas de aula. Os choques de gênero, geração, cultura e raça. Parte 3. - Renascendo na sala 205. Os seus êxitos na Escola de Stuyvesant.
No Prólogo McCourt praticamente se apresenta. Menino infeliz, nascido nos Estados Unidos, criado na maior pobreza na Irlanda e de volta aos Estados Unidos. É simplesmente maravilhosa a sua fala sobre a sua infância infeliz: "Eu poderia sair à procura de culpados. A infância infeliz não acontece à toa. Ela é criada. Existem forças sombrias. Se eu apontar culpados, o farei com um espírito de perdão. Portanto, perdoo às seguintes pessoas: ao papa Pio XII; aos ingleses em geral e ao rei Jorge VI em particular; ao cardeal Mac Rory, que dominava a Irlanda quando eu era criança; ao bispo de Limerick, que parecia achar que tudo era pecado; perdoo a Eamonn de Valera, ex-primeiro-ministro (cargo que os irlandeses chamam de Taoiseach) e presidente da Irlanda. O senhor de Valera era um fanático gaélico semi-espanhol (cebola espanhola num ensopado irlandês) que orientava os professores em toda a Irlanda a incutir em nós, à força, a língua nativa e a retirar de nós, à força, toda a curiosidade natural". O sublinhado é meu. Está já na primeira página.
Esta parte que sublinhei agitou minha memória. Fui à estante buscar uma biografia de Fellini - Fellini - uma biografia, de Túlio Kezich. Duas passagens sobre a infância dele: "Era uma criança como tantas outras, que fazia lindos desenhos, numa cidadezinha como tantas outras numa Itália ultra provinciana, oprimida de um lado fascismo e do outro pela Igreja" (Página 19). "É a mesma rebeldia de Richettino que persiste no jovem estudante, motivada pela impenetrabilidade do 'mundo dos adultos': a família de um lado, a escola do outro. Muitos foram esmagados por esta opressão. Na mesma página de Kafka, do qual já extraímos uma citação, lemos: 'Segundo minhas experiências, na escola como em casa faziam de tudo para apagar nossa peculiaridade'" (Página 25). E lembrando que no Ano de 2026 de nossa era cristã, em São Paulo e no Paraná existem escolas cívico militares. Eu defino estas escolas como O coturno pisando na poesia.
Da terceira parte existe uma passagem com a qual me diverti bastante. Sempre a citava nas aulas: "Quando eu debatia Retrato do artista quando jovem com minhas turmas descobria que eles desconheciam os Sete Pecados Capitais. Fisionomias perplexas na sala inteira. Eu escrevia no quadro: Orgulho, Avareza, Luxúria. Ira, Gula, Inveja, Preguiça. Se vocês não conhecem isso, como conseguem se divertir? (Página 201). E finalmente, uma coisa muito séria: A expectativa dos pais quanto à escola:
"Só sabem pensar em sucesso (Me permitam uma digressão - Eu assisti uma palestra motivacional em que a palestrante escreveu bem grande no quadro: $uce$$o. Disfarcei e me retirei) e dinheiro, diz Connie. Têm expectativas para seus filhos, muitas esperanças, e somos como trabalhadores numa linha de montagem colocando uma pecinha aqui e outra ali, até que o produto final saia prontinho para cumprir os desígnios dos pais e da empresa" (Página 240). E a CIDADANIA onde fica?
E para discutir um pouco mais a educação, recorro ao memorável professor Milton Santos:
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2015/03/os-deficientes-civicos-milton-santos.html
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