quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

A idade do humanismo está acabando. Achille Mbembe.

Vi, pelas redes sociais, um chamado para o texto que anunciava o fim da era do humanismo, de autoria do historiador camaronês (francês), Achille Mbembe, nascido em 1957, que estudou na França e nos Estados Unidos e que hoje leciona em uma Universidade na África do Sul. Encontrei o texto, devidamente traduzido, no site do Instituto Humanitas, ligado à UNISINOS, uma universidade dos padres jesuítas. O texto é desesperado grito de alerta.

Confesso que é um dos textos mais vigorosos que li nestes últimos tempos. É uma reflexão profunda sobre os destinos do ser humano numa era de total transmutação de paradigmas, com o fim da era do iluminismo e do racionalismo e da construção da chamada democracia liberal, que bem ou mal norteou o mundo da chamada modernidade, até o começo deste nosso século. Este mundo está em processo de desconstrução. O artigo foi publicado em dezembro de 2016.
No mundo do capitalismo financeiro não haverá mais espaço para as palavras cuidado, compaixão e generosidade.

O autor começa fazendo algumas constatações: 2017 não será diferente do que foi 2016, pois, a Faixa de Gaza continuará sendo a maior prisão, a céu aberto, do mundo, negros continuarão sendo assassinados nos Estados Unidos e o autoritarismo liberal continuará triunfando na Europa. Também continuará a destruição ecológica mundo afora, como também as desigualdades sociais continuarão crescendo e, em vez de serem confrontadas com a tradicional luta de classes, elas serão confrontadas pelo racismo, pelo ultra nacionalismo, sexismo, rivalidades étnicas e religiosas, xenofobia, homofobia, e outras paixões mortais.

As virtudes tradicionais como o cuidado, a compaixão e a generosidade estão condenadas e serão substituídas por uma única e nova virtude, que é a de "ganhar", não importando os meios. Imperará um novo darwinismo social e surgirão novos apartheid, novos separatismos e mais muros, protegidos com a militarização das fronteiras e com métodos letais de policiamento, que por sua vez gerarão guerras intestinas nestes países. 

O mundo do pós guerra, de descolonização, da Guerra Fria acabou e um outro jogo mortal começou. "O principal choque da primeira metade do século XXI não será entre religiões ou civilizações. Será entre a democracia liberal e o capitalismo neoliberal, entre o governo das finanças e o governo do povo, entre o humanismo e o niilismo", adverte o historiador. Se a segunda metade do século XX foi marcada pelo triunfo do capitalismo, com a derrota do fascismo e do comunismo, ele nos trouxe a globalização e os seus princípios, como uma nova ameaça, nos alerta mais uma vez o historiador "A crescente bifurcação entre a democracia e o capital é a nova ameaça para a civilização".

O mundo da democracia liberal, fundado em direitos individuais e sociais, está hoje sob ameaça, pois, a democracia liberal não é compatível com a lógica do capitalismo financeiro e o confronto que decorrerá desta incompatibilidade será marcado não pela razão, mas pelas paixões, pela emoção e pelos afetos, fora portanto, dos domínios da racionalidade, principal fundamento do mundo moderno.

Quanto ao conhecimento, o único a ter valor será aquele voltado para o mercado. Em vez de pessoas com corpo, carne e história, seremos levados em conta apenas por inferências estatísticas. Tudo derivará da computação e quem nada terá para vender, nada valerá e merecerá o mais absoluto desprezo (Me lembrou Adorno, o seu texto - Educação após Auschwitz). O sujeito racional, fruto do iluminismo e do racionalismo, capaz de fazer escolhas será substituído pelo homem consumidor e, para formatar este novo homem, um novo mundo de vontades, impulsos e desejos está sendo construído. E seguem algumas reflexões sobre as alterações psicológicas que esta realidade provocará, uma total reconfiguração de paradigmas.

Já na conclusão do texto o autor aponta para as implicações políticas destas suas considerações, afirmando que o fim desta era do humanismo anda de mãos dadas com o desprezo pela democracia. O neoliberalismo se converterá em estado de guerra total (Olha aí o diagnóstico hobbesiano), de guerra de classes, que, no entanto, nega a sua natureza classista. Será uma guerra contra os pobres, uma guerra racial e contra as minorias, de gênero contra as mulheres, religiosa contra os muçulmanos e contra os deficientes.

Afirma ainda que o capitalismo neoliberal deixou uma multidão de sujeitos destroçados, submetidos à violência e à ameaças existenciais. Para estes destroçados já não existe mais um mundo de certezas, do sagrado, de hierarquias, de religião e de tradição. Para eles o mundo se apresenta como um pântano mal drenado, que precisa ser limpo. A ordem natural deverá ser restaurada pela violência e somente ela fará imperar o mundo da masculinidade e da virilidade. Somente os políticos que abraçarem estas ideias é que triunfarão.

Deixo com vocês a força dos parágrafos finais. "Neste contexto, os empreendedores políticos de maior sucesso serão aqueles que falarem de maneira convincente aos perdedores, aos homens e mulheres destruídos pela globalização e pelas suas identidades arruinadas.

A política se converterá na luta de rua e a razão não importará. Nem os fatos. A política voltará a ser um assunto de sobrevivência brutal em um ambiente ultracompetitivo.

Sob tais condições, o futuro da política de massas de esquerda, progressista e orientada para o futuro, é muito incerto. Em um mundo centrado na objetivação de todos e de todo ser vivo em nome do lucro, a eliminação da política pelo capital é a ameaça real. A transformação da política em negócio coloca o risco da eliminação da própria possibilidade da política.

Se a civilização pode dar lugar a alguma forma de vida política, este é o problema do século XXI".

Os dados estão aí colocados. Como fazer o confronto? Com toda a certeza, este é um gigantesco trabalho de um esforço coletivo. Horizontes pautados, com certeza os temos. São os tradicionais valores do humanismo, da dignidade e da autonomia do ser humano, seres humanos pertencentes ao reino da liberdade.

2 comentários:

  1. Boa tarde, Pedro!

    Aqui é o Mateus, um dos fundadores do Vooozer, uma startup que está dando voz huamana à internet. Gostaria de conversar com o senhor para estudarmos uma parceria. Através de que e-mail posso entrar em contato? Obrigado pela atenção,
    Mateus

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  2. Oi Mateus. Em primeiro lugar agradeço o seu interesse. O contato pode ser mantido pelo seguinte e-mail - pedroeloirech@uol.com.br

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