quarta-feira, 8 de novembro de 2017

A elite do atraso. Da escravidão à lava jato. Jessé Souza.

 "Se dou comida aos pobres, todos me chamam de santo. Mas quando pergunto por que são pobres, me chamam de comunista". Dom Hélder Câmara. Frase em epígrafe.

O Brasil está passando por uma grande reinterpretação de suas origens, de suas mazelas e, como consequência, de seu destino. O corajoso e ousado intelectual desta reinterpretação, é Jessé Souza, agora com assento na cadeira titular de sociologia da UFABC, depois da UFF e após ser desalojado da presidência do IPEA, por ação do governo golpista. Termino de ler A elite do atraso - Da escravidão à lava jato, o mais recente livro do brilhante sociólogo. Antes já havia lido A tolice da inteligência brasileira e A radiografia do golpe. Em 2016 assisti também uma aula sua na UFPR, a aula magna no curso de direito.

Mais uma vez um livro instigante e provocativo, como pode ser visto já a partir do título, com a afirmação de que a nossa elite é uma elite do atraso, formada a partir da escravidão e que se utiliza, nos dias atuais, para a sua afirmação, de mecanismos como a lava jato. A tese central do livro já está no A tolice da inteligência brasileira que é a preocupação com a elite brasileira, formada por 1%, que vive às custas dos outros 99% e que ainda consegue se legitimar perante estes 99%. Na aula magna da UFPR, o livro já estava mais nitidamente desenhado.

Jessé bate de frente com as tradicionais interpretações de Brasil, formuladas na USP e repetidas à exaustão por professores, pelos livros acadêmicos e pela grande mídia. Três teóricos são o grande alvo de sua crítica, sobrando também para outros. Sérgio Buarque de Holanda e o seu "homem cordial", Raimundo Faoro e a análise de Os Donos do poder, que com o conceito de patrimonialismo demoniza o Estado e sacraliza o dito livre mercado e Roberto DaMatta, com a teoria do jeitinho brasileiro. Estas teses conduzem ao espírito brasileiro do viralatismo, de uma inferioridade ôntica do povo brasileiro com relação ao tipo ideal, do americano branco, calvinista e empreendedor. 

Pela essência desse viralatismo, de um eterno complexo de inferioridade, seria preferível que as nossas riquezas e as nossas empresas fossem geridas pelos homens superiores do livre mercado, por homens virtuosos e não por um Estado, que na sua longa história, traz a corrupção endêmica do Estado, uma herança trazida de Portugal. Contra estas teorias propõe que a origem de todas as mazelas brasileiras está impregnado pelo conceito que nos foi relegado pela escravidão.

O autor apresenta dois tipos de racismo construídos ao longo da história, o primeiro, de raiz fenotípica, determinado pela cor e o segundo, de raiz cultural, pelo qual tanto negros e brancos, bastando que não sejam calvinistas e empreendedores e não terem vencido no chamado livre mercado, aberto e cheio de oportunidades, para serem considerados seres inferiores. Assim toda a América Latina passa a ser vítima. Busca ainda uma separação entre as virtudes do espírito e as infâmias do corpo, uma longa construção histórica, fundada em Platão e universalizada pelo cristianismo. 

Aí estão dados os pressupostos da nova interpretação de Brasil. Quando Sérgio Buarque de Holanda apresenta o brasileiro como homem cordial, isto é, do cor, do coração, este já não é um homem do espírito, da racionalidade, mas do corpo, sede de infâmias, da sensualidade, da preguiça, da concupiscência e da  malandragem. Seres inferiores, portanto. A este homem cordial soma-se a herança patrimonialista portuguesa, pela qual os homens públicos tem apenas interesses privados na administração do Estado. Eles o administram de forma corrupta, no seu interesse privado. Estas são para ele as duas grandes fontes do conservadorismo liberal no Brasil. Sobra ainda para Francisco Weffort, que demoniza o populismo, termo pelo qual são denominadas as políticas públicas e para Roberto DaMatta, o do jeitinho brasileiro.

A contraposição a estas teorias se dá pela herança do espírito escravocrata de nossa elite, elite praticamente invisível e que ainda busca legitimar a sua grande riqueza e se manter distante do povo, pelo qual sente um profundo menosprezo. Ele considera este povo como escravos e por eles nutre, além do menosprezo, um profundo ódio. Um ódio de classe. Esta elite, na sua afirmação, conta com uma classe média, basicamente formada pelo conhecimento técnico e que ocupa funções de gerência, tanto no Estado, quanto no mercado. Atuam também nas universidades e na grande mídia, buscando legitimar o status quo existente.

As análises de seu livro também passam por descrições da formação destas elites, bem como as classes médias, e a estas, ele divide em protofascistas, liberais, expressionistas e críticas. Um pouco antes examina os grandes segmentos em que se divide a sociedade brasileira: as elites, as classes médias, os trabalhadores e a ralé, termo provocativo por ele usado em livro anterior, em que estuda a formação dos novos escravos brasileiros. Espírito de inferioridade perante as nações desenvolvidas e demonização das políticas públicas em favor desta ralé, faz com que as elites e a classe média estejam em permanente alerta, em estado de golpe, para evitar qualquer possibilidade de ascensão social. O moralismo do dito combate à corrupção sempre foi o grande mote. Este combate à corrupção é extremamente seletivo, demonizando apenas a corrupção de quem promove políticas públicas. É interessante observar que em um país dominantemente cristão o moralismo não se volte ao respeito pelo ser humano e à luta por igualdade e justiça.
Autógrafo para o livro A tolice da inteligência brasileira.

 A última parte do livro é dedicada ao comportamento da mídia, Rede Globo, concessão pública, à frente, acompanhada por mídias privadas como a Revista Veja e os jornais Folha e Estado de São Paulo. Todo este seletivo combate à corrupção, que ele chama de corrupção dos tolos é para que a verdadeira corrupção se torne invisível e que é praticada pela transferência das riquezas do Estado corrupto para o beato e imaculado mercado, das isenções fiscais e pela apropriação do orçamento, construído basicamente com o trabalho dos que ganham até três salários mínimos e pelas altas taxas de juros praticadas, a remunerarem os atravessadores do capital financeiro. 20 anos de congelamento dos gastos públicos são a garantia da intocabilidade dos privilégios dos rentistas.

Sei que esta resenha é uma ousadia. Ela pode conter erros e omissões de dados essenciais. A minha intenção é de que a resenha seja um pequeno chamado para a leitura. Pensador vigoroso, corajoso e ousado, mas extremamente bem fundamentado. Jessé usa para explanar estes conceitos e fazer as suas análises 239 páginas.

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