terça-feira, 9 de julho de 2019

O Último dia de um condenado. Victor Hugo.

Não me lembro bem se cheguei a este livro através de uma recomendação ou por uma propaganda de livraria pelo facebook. O certo é que se trata de um livro de valor extraordinário. Trata-se de O último dia de um condenado, de Victor Hugo. O tema e o autor me levaram à compra. E como é bom ler um clássico. O livro é de 1829 e se constitui num dos maiores libelos contra a pena de morte. Argumentos racionais, morais e emocionais para que o crime público ou o "assassinato judicial" não mais seja cometido.
A bela edição da Estação Liberdade. Dois prefácios que complementam a obra.

Como já citei, o livro apareceu em 1829 e, já neste ano, ele teve três edições e na terceira, teve um prefácio que se tornou famoso. Ele foi escrito em forma de uma pequena peça de teatro, em que os atores se mostram perplexos diante do fato de alguém ser contra a pena de morte. Nestas edições o livro ainda não mostrava a pessoa do famoso escritor. Em 1832 apareceu outro prefácio famoso, desta vez com todas as argumentações contra esta pena, fora dos parâmetros da civilização. 

O livro não é longo. A edição da Estação Liberdade tem exatas 198 páginas, mas nela estão incluídos os dois prefácios e um pequena resenha biográfica do escritor. Ao todo o livro consta de 40 capítulos, sendo que muitos deles não passam de meia página. O crime cometido não é relatado, valendo assim para todos os tipos e circunstâncias em que foi praticado. Por outro lado ele tem um autor e este, embora não nominado, possui família, mulher e uma filha, a pequena Marie. Esta relação ocupa as páginas mais sensíveis do livro.

O enredo se passa em três locais diferentes: primeiro no Bicêtre, que é o local para o qual os condenados são levados após a sentença de condenação. Ali permanecem por seis semanas, até se esgotarem todos os recursos de apelação; o segundo é a da Conciergerie, a ante sala da morte, onde são feitos os últimos preparativos para a morte. Finalmente aparece a praça de La Grève, local onde os condenados são guilhotinados. A guilhotina "humanizou" a morte, fazendo-a durar menos de trinta segundos.

As primeiras reflexões se voltam ao condenado após ele receber a sentença da condenação. Aí começam as reflexões sobre a vida, e uma primeira grande frase de efeito: "Os homens estão todos condenados à morte com direito a sursis indefinidos". Na mente não sai a onipresente sentença: Condenado à morte. Depois os sonhos de vida e de liberdade não lhe saem da mente. Neste local também estavam os condenados as galés. No início preferiu a pena morte aos trabalhados forçados, mas à medida que a morte se aproximava passou a aceitar plenamente a possibilidade da troca da pena. Começa a escrever o diário de seus sofrimentos.

As reflexões mais profundas se dirigem a seus familiares, a mãe, a mulher e a filha. Serão elas as maiores vítimas. Enquanto lê as frases deixadas nas paredes pelos hóspedes que o precederam, pensa na filha, a pequena Marie, de três aninhos. Recebe a sua visita. Ela o chama de senhor. No seu imaginário o pai tinha morrido. Perguntando se não era ele, ela respondeu que não, que o seu era muito mais bonito. A ausência da perspectiva de vida já o tinha feito abandonar os cuidados com o corpo e a barba já estava crescida e desalinhada. E, ainda em sonhos, projeta fugas mirabolantes.

Um encontro muito comovente vai se dar com o padre. Ele o rejeita. Quer ser atendido por um outro padre, não o capelão do cárcere. Este já estava habituado com a morte. Ela já lhe dizia muito pouco. O cotidiano abrandara os seus sentimentos, emoções e afetos. Queria um outro padre, ainda sensível à terrível pena. A visita de um arquiteto, diretor do presídio, o aborrece profundamente. Ele lhe fala sobre as melhoras que passarão a ser introduzidas. Haja sensibilidade. Outro preso lhe pede para que, após a morte, ele volte para ditar os números premiados da loteria. Ele não quer deixar dívidas para seus familiares.

Finalmente chega o estágio final. Aí não são mais contados os dias, mas as horas e os minutos, até chegar a hora fatal. Quatro horas. Os horários precisam ser rigorosamente cumpridos, sem atrasos. Ainda pensa em escrever para Marie, explicando para ela as razões de sua condenação.

Do prefácio de 1832 selecionei uma bela reflexão sobre o espírito punitivo reinante. Aliás, Beccaria já é citado. Mas fiquemos com esta bela reflexão sobre as causas que levam ao crime: "pobres diabos que a fome leva ao furto, e o furto ao resto; crianças deserdadas de uma sociedade madrasta, que a casa de detenção pega aos doze anos, as galés aos dezoito e o cadafalso aos quarenta; desafortunados que com uma escola e uma oficina os senhores poderiam ter tornado bons, morais, úteis, e com os quais não sabem agora o que fazer". Seria uma antevisão de Os miseráveis? 

Me lembrei muito das discussões, ou júris simulados, que se faziam nas faculdades de Direito em torno do tema. Quantos vezes já fui entrevistado ou solicitado a dar referências contra a aplicação da pena! Deixo, assim, aqui esta preciosa referência, junto com uma observação final. Como é bom ler livros escritos por intelectuais, quando os intelectuais efetivamente eram ouvidos. O mundo pós-moderno simplesmente os substituiu por especialistas, que falam, tanto a favor, quanto contra, dependendo da oferta recebida para se manifestar. Dá uma tristeza.

Deixo ainda os últimos parágrafos da orelha do livro: "Em O último condenado, o poeta engaja toda a sua eloquência a serviço dessa causa, demonstrando a injustiça, a ineficácia da pena, a barbárie e os horrores da execução e de suas consequências: "esse homem tem uma família; e então acham o golpe com o qual o degolam fere apenas a ele? Seu pai, sua mãe, seus filhos não sangrarão também? Não? Matando-os, os senhores decapitam toda a família.

Ao mesmo tempo que apresenta técnicas narrativas extremamente avançadas para a época, Victor Hugo nos faz acompanhar as seis últimas semanas de um condenado à morte, desde o tribunal onde foi declarada a sentença capital até o pé do cadafalso.

A polêmica que a obra causou permitiu a sequência de edições (três no ano do lançamento) e o acréscimo de dois prefácios, que trazemos nesta edição. No ano de 1829, com uma paródia em forma  de peça de teatro, Victor Hugo rebate as primeiras críticas à obra. Mas em 1832, o requisitório racional e argumentativo pela abolição da pena de morte é o complemento perfeito à defesa literária e sentimental de seu romance-manifesto.

Por vezes ingênuo em seu papel de reformador social, Victor Hugo é, no entanto, um magistral e eloquente porta-voz da condição humana e de seus direitos". Um monumento de livro.

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