quinta-feira, 26 de março de 2020

A irmandade de São Pedro Claver. São Sebastião do Caí. No livro Escravidão.

Creio que eu sou um saudosista profundo. Tudo o que se refere aos locais de minha infância e juventude, me interessa e interessa muito. Agora, lendo o livro de Laurentino Gomes Escravidão Volume 1 - encontrei uma referência à cidade de São Sebastião do Caí. Jamais imaginei que isso fosse acontecer. A referência está ao final do capítulo 22, que tem por título A cruz e o chicote. O capítulo tem uma frase terrível em epígrafe: "Nunca consideramos este tráfico ilícito. Na América, todo escrúpulo é fora de propósito". A frase é do reitor de um seminário de jesuítas da cidade de Luanda (Angola), um dos grandes portos de exportação da mercadoria humana. O capítulo mostra o quanto a igreja católica esteve envolvida com o tráfico e com a escravidão.
A igreja matriz de São Sebastião do Caí.

Mas a referência à cidade de São Sebastião do Caí não é negativa. Pelo contrário, é extremamente positiva. Ao final do capítulo, quando o autor fala das irmandades, normalmente comandadas por entidades religiosas é que iremos encontrar a referência à cidade. A referência é com relação ao tamanho da instituição. Vejamos: "Uma dessas muitas irmandades - e talvez hoje a menos conhecida - foi fundada em 1888, ano da assinatura da Lei Áurea, no município de São Sebastião do Caí, na Serra Gaúcha, região brasileira de imigração europeia que pouco recebeu escravos, pelo vigário alemão Estevão Kiefer. A nova instituição recebeu o nome de Irmandade de São Pedro Claver, em homenagem ao "escravo dos negros", de Cartagena das Índias, canonizado naquele mesmo ano". Cartagena é a cidade portuária colombiana, famosa por estar entre as que mais receberam escravos africanos. São Pedro Claver é o padroeiro da Colômbia.

Pois bem, vamos um pouco à minha história. Eu nasci em Harmonia, então terceiro distrito de Montenegro, no ano de 1945. Concluído o meu ensino primário, fui encaminhado aos seminários de Bom Princípio e Gravataí. Para Bom Princípio o padre Oscar Mallmann levava a gente. Havia, e ainda há, uma estrada ligando os dois lugarejos, sem passar pelo Caí, como a cidade é comumente chamada. Conheci o Caí, quando fui estudar no seminário em Gravataí. Era uma agonia para um menino tímido nascido na roça.

De manhã cedo pegávamos um ônibus, da empresa Rammé, que fazia a linha entre Tupandi e Montenegro. Apeávamos no Matiel, numa venda e fazíamos a travessia do rio Caí em uma pequena balsa. Travessia feita, já no Caí, pegávamos um ônibus que nos levava gratuitamente até a rodoviária,  para então embarcar para Porto Alegre. Parávamos na igreja de São Geraldo, na Avenida. Farrapos, onde largávamos nossas malas e depois íamos até o terminal do ônibus que nos levaria até Gravataí. Os padres iam buscar as nossas malas. O medo era sempre a nossa grande companheira. Medo de tudo. Medo aumentado pelas mil recomendações de cuidado que recebíamos de todo mundo.

Assim, por anos e anos, nas idas e voltas do seminário, bem como em outros momentos, nas férias ou em companhia dos pais, eu passava por São Sebastião do Caí. De Caí para Harmonia, normalmente caminhávamos até a balsa no rio e esperávamos num bar até a proximidade da noite, quando aquele ônibus da manhã fazia o seu caminho de volta. Se não quiséssemos esperar, um caminho de seis quilômetros era feito a pé. Pela frente tinha um morro terrível, o Morro Peixoto. Depois as coisas melhoraram, com mais linhas de ônibus, estes começaram a fazer paradas também na rodoviária do Caí. Montenegro, a cidade sede do município, vim conhecer bem mais tarde. O meu caminho de passagem sempre passava por São Sebastião do Caí. Hoje a cidade está ligada a Harmonia por, pasmem, três pontes de mão única e sem sinaleira de passagem. É meio no grito.

São Sebastião do Caí é uma cidade antiga. Tem muito a ver com a imigração alemã e também a italiana. Na verdade, ela não fica na serra, como fala o livro. Ela está no pé da serra. Tem muito a ver com São José do Hortêncio, que junto com São Leopoldo foram os berços da imigração alemã no Rio Grande do Sul.  As memórias de meu pai eram ainda mais antigas. Ele usava o porto de São Sebastião do Caí para vender porcos e comprar as poucas coisas que usávamos em casa. A partir do Caí o rio do mesmo nome não era mais navegável. Lembro também, que era no Caí que a minha família buscava toda a assistência médica, junto ao Dr. Bruno Cassel, um médico profundamente humanista, que depois enveredou para a política. Lembro também que minha mãe comprava tecidos na Casa Velten e todo ano ganhava um calendário que tinha também as fases da lua. Meu Deus, como minha memória está falha. Quase ia esquecendo da Loira casada, dos irmãos Bertussi.

Mais uma palavra sobre a cidade, para depois voltar ao livro do Laurentino. A cidade tem hoje 22.000 habitantes. Foi aí que surgiu a indústria A. J. Renner, que depois se transferiu para Porto Alegre. É também a cidade da indústria de conservas Oderich, que até hoje ali mantem a sua base de operações, dividindo-a, com várias outras cidades. A empresa tem uma bela história.
O livro Escravidão - de Laurentino Gomes. Volume I.

Bem, voltamos ao livro e ao padre:  Sensibilizado pela notável obra de caridade do jesuíta espanhol entre os escravos recém-chegados da África, padre Kiefer, também ele jesuíta, mandou pintar um quadro do santo, entregue aos representantes da população 'colorada' ou seja, os negros de sua paróquia, que desde então passaram a transportá-la em procissão pelas ruas da cidade. Hoje, entre os gaúchos, a palavra 'colorado' é associada à cor vermelha. No passado referia-se  aos negros e mulatos, que os imigrantes também chamavam de 'gentinha de cor'. Um dos primeiros clubes de futebol a aceitar jogadores e torcedores de origem africana foi o Internacional de Porto Alegre, enquanto seu rival, o Grêmio era o favorito dos italianos e alemães. Por isso, hoje, os torcedores do Inter se chamam, orgulhosamente, de 'colorados'". Mas deixo aqui a minha profissão de fé no Grêmio. 

Deixo ainda uma recomendação, um livro maravilhoso que enfoca toda a colonização do vale do rio Caí pelos padres jesuítas alemães. Trata-se do livro do padre Ambrósio Schupp S.J. A missão dos jesuítas alemães no Rio Grande do Sul.

Nas notas do livro do Laurentino ele indica a fonte dessa sua pesquisa sobre a irmandade. Ei-la: "As informações sobre a Irmandade de São Pedro Claver em São Sebastião do Caí são de Renato Klein, no blog Histórias do vale do Caí, em <historiasvalecai.blogspot.com>. Certamente o Renato é uma pessoa bem conhecida na cidade.

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