quarta-feira, 9 de março de 2022

1922. A semana que não terminou. Marcos Augusto Gonçalves.

Aproveitando a efeméride do centenário do acontecimento, me propus a releitura de 1922 A semana que não terminou, do jornalista Marcos Augusto Gonçalves, quando me dei conta de que não o havia lido por inteiro. Eu explico. Em 2012 eu ainda me encontrava em sala de aula e tinha que dividir as aulas com as leituras. Mas tinha lido uma boa parte. Também guardo uma certa simpatia pela palavra "efeméride", pois, com ela eu garanti, no longínquo janeiro de 1971, uns pontinhos a mais no concurso que eu prestava para fazer parte do quadro próprio do magistério público do Estado do Paraná, na disciplina de História. Como não o havia lido por inteiro, repito, aproveitei a efeméride para a fazer, dessa vez em seu inteiro teor.

1922. A semana que não terminou. Marcos Augusto Gonçalves. São Paulo. Companhia das Letras. 2012.

Como fazer a resenha de um evento tão significativo e tão controverso. Confesso não ser uma tarefa fácil. Junto ao sumário do livro tenho anotada a seguinte observação: "Ver o caráter elitista desta semana em ALMEIDA, Agassiz. A República das Elites. Ensaio sobre a ideologia das Elites e do Intelectualismo. Rio de Janeiro. Bertrand Brasil. 2004. Cap.33. O elitismo e a semana da Arte Moderna". Já está aí levantada uma boa polêmica. Um movimento elitista.

Vou começar por dar a estrutura básica do livro. Ele tem 366 páginas e está dividido em três partes, sem especificação de títulos, mas num atrevimento meu, afirmo que na parte I - há um panorama dos antecedentes e do clima cultural vivido em São Paulo nesse início da década de 1920. Na parte II, há todo um relato histórico/jornalístico dos acontecimentos e dos personagens envolvidos e, na parte III, temos os detalhes dos três dias de apresentações. O livro termina com um posfácio, agradecimentos, notas, bibliografia e índice remissivo. As partes estão divididas em pequenos capítulos, num total de 24. Lembrando que a famosa semana ocorreu entre os dias 13 e 18 de fevereiro de 1922. Sendo que as apresentações ocorreram nos dias 13, 15 e 17. O local foi pura e simplesmente o Teatro Municipal de São Paulo.

Na parte I temos três capítulos: 1. Manifestação telúrica. Aqui é mantido o primeiro contato com os temas (artes, música e literatura), os principais nomes envolvidos e a grande finalidade do evento; 2. A coqueluche do grand monde. É anunciada a grande contenda do evento entre passadistas (Rio de Janeiro - monarquia) e futuristas (São Paulo e a República); 3. O vernissage. A pretendida grande exposição de arte na abertura da semana.

Na parte II, temos 17 capítulos. É certamente a razão de ser, o cerne do livro. Envolve todos os acontecimentos e personagens. 4. As cores da novidade. Reúne dados sobre Anita Malfatti. 5. O teatro da pauliceia. Apresenta um panorama da soberba São Paulo e a sua grande casa de cultura: O Teatro Municipal. 6. Da casa Mappin ao Meine. Continua a trajetória de Anita Malfatti, uma exposição sua na grande loja do Mappin e a sua ida aos Estados Unidos. Anteriormente já estivera na Europa. 7. Na terra do Saci. Um convite de Monteiro Lobato por uma arte que expresse o nacional. 8. A fúria do Jeca. Os primeiros passos em torno dos temas nacionais. O grupo em torno da arte moderna começa a se formar. 9.Mário de Maria. Uma pequena biografia de Mário de Andrade, um católico fervoroso. De Maria, deve ser uma menção ao congregado mariano que era. 10. Oswald da mamãe. Trechos biográficos de Oswald de Andrade. 11. Isadora e o furacão. A extraordinária frase de Oswald, que sintetiza este momento de sua vida: "O contrário do burguês é o boêmio". Os muitos amores de Oswald, incluindo Isadora Duncan. 12. Juca e Miramar. O encontro dos modernistas Menotti e Oswald. Os grandes jornais da época, que cobriram o evento eram O Estado de S. Paulo e o Correio Paulistano. 13. A realeza da República. Foi para mim o mais significativo capítulo do livro. São Paulo, pela sua pujança econômica, passa a ser o centro da irradiação de um novo sentimento de nacionalidade. Tem uma bela interpretação de Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Ataíde, sobre os centros irradiadores do Brasil e a sua época. Assim o século XVI foi de Pernambuco, o século XVII, da Bahia, o século XVIII, de Minas Gerais, o século XIX, do Rio de Janeiro e o século XX de São Paulo.

14. Eduardo e Paulo. É mostrada essa rica família paulistana dos Prado, desde a sua mansão em Paris e os encontros literários (Nabuco, Graça, Eça) até a necessidade da formação de uma consciência nacional, a partir de São Paulo. Paulo Prado é tido como o "fautor" da semana. 15. O Rodin brasileiro. Trata-se de Brecheret. São apresentados dados biográficos. 16. O estalo do desvario. O encontro dos desvairados, Mário de Andrade, Brecheret, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti e os tempos de abundância proporcionados pelo café. 17. Máscaras no Trianon. O local do encontro dos modernistas. Menotti anuncia os princípios do modernismo. No ano do centenário da independência, deveria também ocorrer a independência mental. 18. Os bandeirantes vão à praia. Os novos "bandeirantes" fazem uma expedição ao Rio de Janeiro, em missão "civilizatória". Conversam com Manuel Bandeira e Villa-Lobos. 19. A visita do jovem senhor. Trata-se de Graça Aranha, que com Di Cavalcanti e Paulo Prado começam a planejar a semana. Paulo Prado aluga o Teatro Municipal. 20. Organizando a bagunça. A partir de novembro organizam o evento. Programação, custos, participantes.

Na parte III, com quatro capítulos, temos a descrição das três apresentações. 21. O leão e a pianista contrariada. Mostra a fala de abertura de Graça Aranha e o inconformismo de Guimar Novaes com parte do repertório. Villa-Lobos é bem recebido. A noite foi descrita como uma noite "comprida e chata". 22. Happening futurista. Para a semana ser efetivamente uma marca, deveria haver vaias, muitas vaias. Oswald de Andrade teria se encarregado da arregimentação. Menotti, Oswald e Mario falam. Também houve a hora da estrela, Guimar Novaes. Isso foi o segundo dia. 23. A consagração do maestro. A terceira noite foi toda de Villa-Lobos. Um grande sucesso, mas sem unanimidade. 24. Turma animada. A semana deveria ter continuidade. A semana foi o lançamento de um movimento. A sua continuidade viria com a revista Klaxon. Os envolvidos celebram a fama alcançada e a certeza de que os escritores envolvidos seriam lidos.

Ainda para destacar a importância da semana, deixo a síntese apresentada na contracapa do livro: "Na noite de fevereiro de 1922, curiosos, estudantes, figurões da política e sobrenomes de tradicionais famílias paulistas compareceram ao Teatro Municipal para a inauguração da Semana de Arte Moderna. Era um festival de artes plásticas, música e literatura, que provocava discussões nos jornais e prometia exibir o que havia de mais atual na estética da época. Iniciativa de representantes da elite de São Paulo e de talentos da nova geração, como o pintor Di Cavalcanti e os escritores Mário e Oswald de Andrade, a Semana, com o passar dos anos, transformou-se numa espécie de mito sobre a fundação da cultura moderna no Brasil. Graças à liderança triunfal da emergente e 'futurista' Pauliceia, o país teria descoberto, enfim, a luz elétrica da modernidade, deixando para trás a escura arte do passado. Mas será que foi isso mesmo o que aconteceu? Noventa anos depois (o livro teve a sua primeira edição em 2012), o jornalista Marcos Augusto Gonçalves mescla reportagem e relato histórico para revisitar os principais fatos e personagens da semana mais polêmica do Brasil".

Resta um olhar sobre a década brasileira de 1920, uma década que prenunciava grandes transformações, marcadas em profundidade pela industrialização e pela urbanização. Haveria transformações de ordem econômica, política e social, com a formação de uma sociedade plural e cosmopolita, em busca de representação e de identidade.


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