sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

A Vênus das Peles. Sacher-Masoch.


O livro estava em oferta. 50% de desconto e frete grátis. A oferta era da Travessa. Como iria comprar Tolstói - A Biografia, de Rosamund Bartlett, comprei também, movido por uma enorme curiosidade, A Vênus das Peles, de Sacher-Masoch. O livro tem uma pequena apresentação bibliográfica do autor, uma pequena resenha do livro, de Saulo Krieger, o tradutor e de Flávio Carvalho Ferraz, responsável pela introdução ao autor e ao livro e, ainda, uma pequena apresentação da Série Erótica, coleção a que o livro pertence. A editora é a Hedra.
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O livro de Sacher- Masoch, A Vênus das Peles. Para entender o que é o masoquismo.

Na contracapa do livro se lê o seguinte: "A obra de Sacher-Masoch, bem como a de Sade, ficou marcada por sua associação com os desvios patológicos da sexualidade, com a libertinagem e com a imoralidade [...] esta visão acabou por injustiçar estes autores, cujas obras foram muito além do que se pode considerar como literatura pornográfica". O texto faz parte da introdução do livro, escrito por Flávio Carvalho Ferraz, mestre, doutor e livre docente, ligado à Universidade de São Paulo.

O livro é para leitura de um fôlego só. É um pequeno livrinho, de umas 150 páginas, que conta a história de Severin e de Wanda. Severin se fez escravo de Wanda e a história contém "os mais diversos ingredientes da paixão encerrada pelo sofrimento físico e moral. Descerra de maneira explícita e detalhada, o universo das fantasias poderosas que nutrem a paixão e regem aquela excitação que se condiciona aos sofrimentos físico e moral. Deixar-se amarrar e ser chicoteado pela amante corresponde ao primeiro; obedecê-la cegamente, deixar-se humilhar por ela, entregar-se-lhe como posse e, requinte da fantasia, assisti-la entregar-se a outro amante, corresponde ao segundo. Mais do que retirar o véu que costuma cobrir as fantasias mais estranhas e secretas, o texto de Masoch põe em marcha as ações necessárias a sua consubstanciação, ali condensadas no instituto emblemático do contrato".
Como não há beleza sem espinho, não há sensualidade sem tormento. Seria isto uma definição?

O contrato era um compromisso firmado entre Severin e Wanda e constava de dois documentos. No primeiro se lê o seguinte: [...] (Severin) "Na condição de escravo da senhora Von Dunajew, atenderá pelo nome de Gregor, satisfará a todos os seus desejos, obedecerá todas as suas ordens, se mostrará sempre completamente submisso à sua dona, considerando todo e qualquer sinal de benevolência desta tão somente um ato excepcional de piedade.
A senhora Von Dunajew deverá punir seu escravo a seu bel-prazer, não só pelo que lhe pareça o menor descaso ou a menor falta, como também terá o direito de o maltratar, seja por capricho, seja por passatempo, como bem lhe convier, matá-lo até mesmo, se assim o preferir; em suma, terá sobre ele um direito de propriedade ilimitado.
Se a senhora Von Dunajew vier a conceder a liberdade a seu escravo, o senhor Severin von Kusiemski se compromete a esquecer tudo o que experimentou ou suportou como escravo, e jamais, em tempo algum, sob nenhuma circunstância, cogitará vingança ou retaliação".

O segundo documento continha apenas as seguintes palavras: "Após anos de uma existência atribulada por fastios e decepções, por livre e espontânea vontade eu ponho fim à minha vida inútil". Este é o cenário em que se desenvolve esta estranha história de amor, que mais ou menos poderia ser assim resumida: "Tenho a impressão de que não há beleza sem espinho, como não há sensualidade sem tormento".
"E Deus o puniu e o entregou a uma mulher". "O que devo perpetrar para que Ele puna também a mim"?

Do livrinho tiro duas passagens para definir o que é o masoquismo, se é que isso ainda não ficou claro. A primeira é bem curtinha: "Quanto maior a crueldade, melhor.Também isso não será um gozo?". A segunda explicita um pouco mais: " - Sim, com toda a seriedade eu digo que é meu desejo ser teu escravo. Quero que teu poder sobre mim seja sacramentado pela lei, que minha vida esteja em tuas mãos, que nada neste mundo me proteja de ti ou me salve de ti. Ah! Volúpia, sentir que estou completamente sob o teu arbítrio, que dependo de teu humor, de um gesto de teus dedos. E então - que ventura! -, se fores piedosa, se o escravo puder beijar teus lábios, depender de ti na vida e na morte. Ajoelhei e apoiei em seu regaço a minha fronte, que ardia".

O livro contem muita ironia. Tem muito da presença do Fausto de Goethe, da moralidade cristã da sexualidade e da racionalização da vida sexual. Não sei se teve contato com a obra de Nietzsche, meio difícil, mas senti a presença de O Nascimento da Tragédia, ao longo da história. Masoch nasceu em território austro-húngaro, hoje pertencente a Ucrânia, mas ele se considerava um alemão. Nasceu em 1836 e morreu em 1895, após breve internação no sanatório de Mannheim, por crises de demência.
Seria esta uma cena de masoquismo?

Deixo ainda, para deleite de vocês, a frase registrada em epígrafe, uma frase bíblica, do Antigo Testamento. Do livro de Judite, 16,7 "E Deus o puniu, e o entregou às mão de uma mulher". Já no corpo do texto ele acrescenta: "A frase não me sai da cabeça. Quão pouco galantes são os judeus, pensei, e seu deus... Poderiam arranjar expressões mais adequadas ao falar do belo sexo. 'E Deus o puniu e o entregou à mulher'. Eu repetia comigo. Então, o que devo perpetrar para que Ele puna também a mim?"

Uma última observação, o livro termina com uma lição de moral: "Agora temos nós a escolha de ser o martelo ou a bigorna, e eu fui o burro, ao me fazer escravo de uma mulher. Entendes? Daí a moral da história: Quem se deixa açoitar merece os açoites". Vale a pena dar uma conferida.

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