quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Os Maias. Eça de Queirós. O livro.

Sempre é bom ler clássicos. Deve existir uma razão muito forte para eles sobreviverem ao tempo. Eles tem o que dizer. Terminei de ler Os Maias, de Eça de Queirós. Já tinha lido A Relíquia. Na verdade, foi este livro que me levou ao Os Maias. A qualidade que mais gostei deste escritor é, sem sombra de dúvida, a sua ironia, forte e escancarada em A Relíquia e bem mais sutil em Os Maias. Para situar e datar o livro, ele foi escrito em 1888 e o autor pertence à escola do realismo. Um retrato da segunda metade do século XIX. A edição brasileira, da Ateliê Editorial, tem 486 páginas. O livro está dividido em 18 capítulos, sendo que os primeiros e os últimos são os mais andantes e os mais reveladores.
Edição brasileira de Os maias. Reimpressão de 2012. Da Ateliê Editorial.

Das últimas páginas destaco algumas frases, ditas pelos dois grandes protagonistas da obra, Calos da Maia e João da Ega. Depois de todas as desventuras do destino, Ega assim se dirige a Carlos, o grande amigo: " - Falhamos a vida, menino"! Ao que Carlos responde: " - Creio que sim... Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto é, falha-se sempre na realidade aquela vida que se planeou com a imaginação. Diz-se: 'vou ser assim, porque a beleza está em ser assim'. E nunca se é assim, é-se invariavelmente assado...." Mais adiante os dois continuam:

"... Ega não se admirava. Só ali no Ramalhete ele vivera realmente daquilo que dá sabor e relevo à vida - a paixão. Muitas outras coisas dão valor à vida... Isso é uma velha ideia de romântico, meu Ega! - E que somos nós? - exclamou Ega. - Que temos nós sido desde o colégio, desde o exame de latim? Românticos: isto é, indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento e não pela razão... Mas Carlos queria realmente saber se, no fundo, eram mais felizes esses que se dirigiam só pela razão, não se desviando nunca dela, torturando-se para se manter na sua linha inflexível, secos, hirtos, lógicos, sem emoção até ao fim... [...] - Resumo: não vale a pena viver..." Mais adiante arrematam:

" - Que raiva ter esquecido o paiozinho!  Enfim, acabou-se. Ao menos assentamos a teoria definitiva da existência. Com efeito, não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para coisa alguma... Ega, ao lado, ajuntava, ofegante, atirando as pernas magras: - Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder...". É bom dar uma conferida. Em que ano mesmo, o livro foi escrito? Em 1888. A segunda metade do século XIX. Certamente isso ajuda a entender muita coisa.
Eça de Queirós. Em Os Maias, três gerações da família são descritas. Junto com elas, também toda a sociedade portuguesa da época.


Em 18 capítulos estão contadas as histórias de três gerações dos Maias. A de Afonso, o avô, a de Pedro, que terá um relato muito breve, tão breve quanto o fora a sua infeliz vida e, a de Carlos, o neto adorado de Afonso. Se a passagem de Pedro é breve, as consequências de seus atos é que movem, em grande parte, toda a parte final da história. Pedro tivera um amor burguês, não nobre e aristocrático, portanto. Maria Monforte teve outros amores que levaram Pedro ao suicídio, deixando, porém, para Afonso o seu querido neto, Carlos. Soube-se vagamente que Carlos tivera uma irmã, falecida em Londres. Pedro era frágil. Fora educado pela mãe e pelo padre...

Carlos teve requinte em sua formação. Um preceptor inglês e nada de religião. Coimbra entrou em sua vida. Não o curso de direito, que seria a trajetória normal. Carlos optara pela medicina. Creio que dá para dizer que nunca a exerceu profissionalmente. Dinheiro nunca fora um problema para os Maias. Escola é lugar de formação de amizades. Em Coimbra Carlos encontrou o seu maior amigo, o amigo de toda uma vida. João da Ega, um personagem fabuloso e fantástico e de um humor extraordinário. Uma vida apimentada de amores. Os amores da juventude.

Tudo se desenvolvia num grande fausto. Em Santa Eulália, no Douro, uma espécie de refúgio. No Ramalhete, o palacete dos Maias em Lisboa, onde as delícias e o fado da vida aconteciam. Ali também ocorre a morte de Afonso, em parte pela idade, mas também com uma boa dose de armadilhas do destino e do desatino. Também existe a Toca, onde Carlos vive, tanto o seu grande amor, quanto a sua grande tragédia. Maria Eduarda.  Preocupações com trabalho e dinheiro, ao menos por parte dos Maias, nunca fizeram parte da vida destes felizes ou infelizes afortunados.
O autor junto com a sua obra. Eça de Queirós e Os Maias.


Muitas amizades, muitos jantares, muitas idas a Sintra. Muitos saraus literários, muita música e muito piano. Muitas queixas da vida cultural pobre de Lisboa. Sempre miravam Paris. A Europa acabava junto aos Pirineus. Muitas picuinhas e intrigas e até jornais da imprensa marrom, com tentativas de chantagens fenomenais também fazem parte da história. Ainda sobra para muita mesquinharia e covardia. Até um brasileiro, Castro Gomes, entra na história, com um papel, de certa forma, preponderante. Faz parte da trágica história de Maria Eduarda.

Todo o rico final do século XIX está presente, especialmente, nos debates dos jantares. Como viram nas frases  tomadas das últimas páginas do livro,o iluminismo e o racionalismo já está entremeado de pitadas de romantismo, nas discussões filosóficas, enquanto que o realismo e o naturalismo serve de cenário para os embates literários. Mas o que prevalece será a tragédia com os mistérios insondáveis, invariavelmente e implacavelmente impostos pelo destino e sempre presentes no Ramalhete.  Que Carlos e Maria Eduarda o digam e expliquem. Esta parte final fica como página em branco, no grande romance. Carlos...

A minha próxima tarefa, depois de ler, será a de ver Os Maias. A minissérie produzida pela Rede Globo, sob a direção de Maria Adelaide Amaral. Serão 940 minutos que, imagino eu, serão tão agradáveis, quanto as várias horas dedicadas a leitura do livro. Depois eu conto. Mas antes, deixo o registro do comentário de Luis Fernando Veríssimo.
A Rede Globo transformou Os Maias em uma minissérie. Minha próxima tarefa.

"[...] Durante todo o tempo em que assisti a "Os Maias" na televisão pensei no termo musical "andante majestoso",. Não que o andamento da ação fosse invariável e pesado. Pelo contrário, a câmera extraordinariamente móvel do Luiz Fernando Carvalho 'frequentou', mais do que retratou, a frívola Lisboa da época e todas as atmosferas do romance. Mas no fundo havia aquela progressão majestosa, desde a primeira cena, para o desenlace, a câmera andante nos levando como um lento tema trágico que repassa uma sinfonia. Nunca uma câmera de TV foi tão cúmplice e envolvente, nunca a TV foi tão romântica. Tudo contribui para o clima exato do começo ao fim, a começar pela adaptação habilíssima que Maria Adelaide Amaral fez dos "episódios da vida romântica do Eça, e incluindo as interpretações, todas perfeitas. Mas a estrela do espetáculo é o olhar do diretor Luiz Fernando Carvalho, que com "Os Maias" quase inaugura outra arte inédita".

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado pelo comentário. Depois de moderado ele será liberado.