terça-feira, 5 de janeiro de 2016

A Missão. Com Robert de Niro e Jeremy Irons.

Como estou preparando uma viagem, ou uma incursão pela história da América Latina, estou lendo e vendo o que encontro sobre a notável experiência da colonização dos chamados povos das missões, ou das reduções, comandadas pelos padres jesuítas espanhois. Eram 30 as reduções, sendo oito no Paraguai, quinze na Argentina e sete no Rio Grande do Sul. Elas começaram logo no início do século XVII (1609) e continuaram até meados do século XVIII. O seu fim se deve, entre outras razões, ao Tratado de Madri (1750) e as intrigas que os jesuítas tiveram com as cortes de Portugal e da Espanha.
 Cartaz promocional de belo e premiado filme.

Como é um tema extremamente complexo, deixo as análises maiores para serem feitas após a volta. Quero no entanto, rapidamente situar a questão. Os índios da bacia do Prata eram vítimas da cobiça dos bandeirantes, que os queriam aprisionar para efeitos de escravidão. Aí receberam a proteção dos padres da Companhia de Jesus, que os reuniram em agrupamentos e passaram a organizar a sua vida de forma coletiva. Não vamos aqui discutir a intenção que os jesuítas tiveram com o projeto. Os bandeirantes intensificaram a caça aos índios, pois, com a experiência das missões, os indígenas se tornaram mais valiosos, por estarem mais adaptados e mais aptos para o trabalho.

Hoje quero traçar rápidos comentários sobre o filme inglês A Missão, datado de 1986, numa produção notável e épica. Creio que não erramos ao dizer que os seus realizadores estavam bem intencionados com o filme e procuraram dar uma visão humanizadora aos índios e mostrar um tanto de seu sofrimento sob o processo de colonização. Antes quero registrar uma passagem do livro A Conquista da América - A questão do outro, de Tzvetan Todorov, que situa a questão com muita propriedade: "Não se trata, para estes aproveitadores europeus, de buscar a verdade, mas de encontrar confirmações para uma verdade conhecida de antemão. Tais homens viajando naquela época iniciaram em nome de seu saber - um saber suposto por eles mesmos e sua cultura um processo de colonização e destruição dos outros. O saber era a desculpa para a violência que realizariam em nome da coroa de seu país, do deus de sua religião e, para resumir, da verdade de seu ponto de vista".
Este livro tem um maravilhoso enfoque sobre a conquista da América.

O filme tem direção de Roland Joffé, roteiro de Robert Bolt e a música está a cargo do notável Ennio Morricone. Entre os atores destacam-se Robert de Niro como Rodrigo Mendoza, Jeremy Irons, como o padre Gabriel e Ray McAnally, como Altamirano, funcionário da coroa portuguesa. O roteiro em pouco tempo se torna claro. Mendoza é um mercador de escravos, que em duelo mata o próprio irmão, por uma questão amorosa. Vive carregando a sua pedra de Sísifo, simbolizando o peso de sua enorme culpa. Converte-se e se torna um padre jesuíta. Vive sob o comando do padre Gabriel, a quem jurou o voto de obediência, o principal voto dos jesuítas.

O filme retrata uma das missões, a de São Carlos, fazendo uma notável retrospectiva, que encantou padres e funcionários da Coroa, mas que precisava ser destruída. Do ponto de vista brasileiro o principal motivo da destruição foi a realização do Tratado de Madri (1750), pelo qual se efetivou a troca dos sete povos das missões pela Colônia do Sacramento, estrategicamente localizada na entrada da bacia do Prata. Assim, os sete povos das missões riograndenses se tornaram portugueses. Mas as reduções do Paraguai e da Argentina também foram destruídas, tendo como principal motivo a desavença entre a  Coroa e os padres jesuítas. Creio que um outro grande motivo, que precisa ser considerado, é o de que, uma experiência de organização coletiva da economia precisava ser destruída.

O filme foca a guerra declarada contra a Missão pelos exércitos de Portugal e da Espanha. Os índios, já organizados militarmente, resistem bravamente e contam com a ajuda brava do ex mercador Mendoza, ativamente engajado na defesa indígena e do padre Gabriel, que comanda, creio que poderíamos dizer, a resistência passiva.
Uma das belas imagens do filme. A linguagem universal da música.

Gostaria de destacar certas cenas pela sua grande beleza, como a da linguagem do entendimento  universal pela música, quando o padre está tocando a sua flauta e os índios hostis se aproximam, a cena em que o representante da Coroa portuguesa e o chefe indígena discutem sobre a vontade de Deus no diferente destino da missão e o debate entre Mendoza e o padre Gabriel sobre o voto de obediência.

O filme foi rodado na Colômbia, junto com os índios Waunana, que viviam em condições semelhantes aos índios retratados pelo filme em sua época (O filme é de 1986). Os cenários são belíssimos, junto aos rios e uma bela cachoeira. Aliás, o filme ganhou o Oscar de melhor fotografia, mas o seu prêmio maior foi a Palma de Ouro, em Cannes. O filme tem duas horas de duração e tem mais outra hora de extras com o foco voltado para as filmagens e a relação da equipe com o povo indígena dos Waunana. Um belíssimo filme e uma bela introdução a uma viagem que promete.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado pelo comentário. Depois de moderado ele será liberado.