terça-feira, 16 de maio de 2017

A Gênese das teses do Escola sem Partido. Guadêncio Frigotto.

Na sexta feira, dia 12 de maio, fui assistir uma palestra, organizado pela APP-Sindicato, pelo seu Núcleo Curitiba-Sul, com o professor Gaudêncio Frigotto, que versaria sobre o movimento do Escola sem Partido. Conheço o professor, já de longa data, e a sua fala qualificada, bem como os seus textos e livros sempre são uma referência para mim. A sua fala foi vigorosa e reconfortante.

Tomei as devidas anotações para fazer este post, mas ao final de sua palestra eu adquiri o livro organizado por ele, Escola "sem" partido - Esfinge que ameaça a educação e a sociedade brasileira. Como muito do que ele falou está contido no seu artigo no livro, será ele a referência para o post. Ele versa sobre a gênese das teses do movimento, e usa, para combatê-lo, as imagens de Édipo diante da Esfinge, o Ovo da Serpente do filme de Ingmar Bergman e duas crônicas, O Ódio e O Alarme, de Luiz Fernando Veríssimo. Basta jogar no google, e você as terá.
Como não encontrei o livro em livrarias, dou o contato via e-mail: uerj.Ipp@gmail.com

Três tópicos constituem a estrutura do texto. A estrutura do sistema capitalista, anulação da política e estado policial; retorno do fundamentalismo mercantil e o desmanche da escola pública e a função docente e -  para concluir: o golpe, o escola sem partido, a esfinge, o ovo da serpente, o ódio e o alarme. Todo o texto é permeado pelo princípio de que vivemos numa sociedade capitalista, fundada no lucro e dividida em classes. Este fato implica em graves conflitos que são resolvidos por guerras, revoluções e golpes.

Do primeiro tópico destacaria a ideia de que as crises são fator de acumulação de capital, hoje concretizado pelo assalto institucional da dívida pública, que abocanha 45% do total do orçamento anual da União. Se antes as crises eram cíclicas e locais, hoje elas são globais e permanentes. Para viabilizar a acumulação sem contestações, se instala  o estado policial. Para executar este projeto, no interesse da burguesia, ela coopta uma série de coadjuvantes como a mídia, moedora de cérebros, e seitas religiosas, que transformaram "deus" numa mercadoria abstrata. Esta burguesia que é anti nação, anti povo e anti escola pública quer, pelo projeto, instituir uma pedagogia do medo e da violência, pelo instrumento da delação.
O autógrafo e a certeza de estarmos nas mesmas lutas.

No segundo tópico o conceito básico é o de que hoje todas as relações sociais são pautadas e permeadas pela mão invisível do mercado. Todo o histórico da escola pública republicana é substituído pelo ideário do capital humano, que individualiza a culpa, ou do êxito, ou do fracasso. Os pobres são pobres porque não se empenham, não investem em sua produtividade. Este mercado educacional não necessita de políticas públicas, pois a educação saiu da esfera dos direitos para entrar na dos investimentos, que, no mercado são regidos pelo implacável processo de competição. Este forma os seus intelectuais orgânicos em organizações próprias, como a OMC, o BIRD e o BID. Esta educação exige um novo currículo e um novo professor. Nesta escola apenas se pratica, sem práxis, o ato de ensinar. O professor é destituído de sua função educadora e formadora.

Na conclusão, Frigotto nos mostra que o "Escola sem Partido" é o projeto desta burguesia que quer esta nova escola e este novo professor. Quer lhe retirar seus direitos e lhe impor um estado policial fundado na denúncia, na delação e implantar nas escolas uma verdadeira pedagogia do medo, do medo que está entre nós, com a presença dos próprios colegas. Por fim ressalta que é preciso desvendar o enigma da esfinge  e enxergar o filhote da serpente, ainda dentro do ovo, através da fina membrana que o encobre e ver os alertas feitos pelas crônicas de Veríssimo, antes que a esfinge nos devore e que a serpente, já não mais dentro do ovo, destile o seu veneno e contamine todas as instituições da sociedade brasileira.
Sempre é bom o encontro de amigos.

Para isso é fundamental vencer o medo. No texto Frigotto nos remete a Antônio Cândido, a um artigo seu, publicado no jornal Opinião, em janeiro de 1972, sob o título O caráter da repressão. Um texto imperdível, disponível no Portal Vermelho. Ele termina com uma citação de Alfred de Vigny, sobre o medo do medo. " Não tenha medo da pobreza, nem do exílio, nem da prisão, nem da morte. Mas tenha medo do medo". O oposto do medo é a coragem, a coragem para decifrar o enigma da esfinge   e para destruir a serpente, ainda dentro do ovo, para que o fascismo em implantação, seja contido antes que propague todos os seus males, como já o foi tristemente experimentado.

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