quinta-feira, 25 de maio de 2017

Queimada. O homem que vende guerras.

Observando os fatos que estão ocorrendo no Brasil após a ruptura democrática de 2016, me deu vontade de rever o filme QUEIMADA. Ele é uma obra prima do cinema político e uma das mais perfeitas amostras da transição  do colonialismo para o imperialismo e da abolição da escravidão, que veio em seu bojo. Queimada é uma ilha fictícia das Antilhas, de colonização portuguesa, e que tem na monocultura canavieira a sua riqueza. Um misto de História do Brasil, de Cuba e também do Haiti, ou em termos mais amplos, da colonização portuguesa e espanhola. Ele esteve proibido no Brasil, ao longo da ditadura militar.
O DVD do filme Queimada, com destaque para o nome de Marlon Brando.

O filme reúne gente de primeira qualidade do cinema mundial. A produção italiana, do ano de 1969, tem a direção de Gillo Pontecorvo, assinatura do roteiro de Franco Solinas e Giórgio Arlório e a música é de, ninguém mais e ninguém menos, que Ennio Morricone. O papel principal, o do colonizador inglês William Walker é de Marlon Brando, em magnífica interpretação. O cenário é paradisíaco e os fatos ocorrem em meados do século XIX. O nome do filme no original é Burn.

Primeiramente dou a resenha da contracapa do DVD: "Uma ilha do Caribe na metade do século XIX. A natureza fez um paraíso aqui; o homem o transformou em inferno. Escravos de vastas plantações de açúcar dos portugueses estão prontos para transformar sua miséria em revolta - e os britânicos estão prontos para despejar a última gota d'água. Eles enviam o agente William Walker (Marlon Brando) em uma missão tripla e desonesta: convencer os escravos a se rebelarem, tomar o comércio de açúcar para a Inglaterra... e restabelecer o regime de escravidão. Os temas do colonialismo e da insurreição são explorados no épico QUEIMADA! Com visual e narrativa impressionantes. QUEIMADA tem o brilho de um diretor genial. A genialidade também é evidente na interpretação complexa e inteligente que Marlon Brando faz de um homem que é, ao mesmo tempo, um cavaleiro e um patife, revolucionário e colonialista. E a música de Ennio Morricone é o acompanhamento perfeito de um roteiro tão forte".

O filme começa com a chegada do agente inglês à ilha. Um negro, imediatamente, lhe oferece ajuda para carregar a sua mala. Estão aí, em cena, os dois principais personagens, William Walker e o negro José Dolores. José Dolores será acompanhado de perto pelo inglês, que fará dele o líder das insurreições. O ensina praticando, - roubos e assassinatos por necessidade, - para se habituar com a ideia e não fraquejar, quando dos acontecimentos. José Dolores passa pelas condições de heroi da independência e de vilão execrado, já sob o imperialismo inglês.

O inglês fomenta a rebelião. Assiste aos festejos da independência e se retira do cenário, voltando à cena, dez anos depois. A ilha já está sob os grilhões dos ingleses que manipulam por completo o comércio do açúcar. Os preços logo estarão abaixo dos custos de produção, levando o país, sob o comando de José Dolores, à uma situação de extrema miséria. José Dolores, já na condição de guerrilheiro, lutará bravamente até a resistência final.

Está aí o triplo papel do agente inglês, do qual fala a resenha. Transformar os negros em rebeldes revolucionários a proclamar a independência e abolir a escravidão, decretando assim, o fim da era colonial; transferir o comando para os ingleses, não mais sob o domínio político direto, mas pelo total e implacável domínio econômico, fato que denominamos de imperialismo, e a terceira missão, que será a da restauração da escravidão, sob uma nova forma, também indireta, que é a do trabalho livre assalariado.

Quero dar destaque especial a duas cenas. A primeira, em que  William Walker tenta convencer  os líderes locais sobre as vantagens da abolição da escravidão. Usa para isso uma comparação da mulher no casamento e da mulher como prostituta. No casamento se assume a mulher pelo resto da vida e, como acréscimo, também os seus custos. Já com a mulher prostituta, paga-se apenas pelos serviços eventualmente prestados, sem nenhuma consequência a mais. Assim também é a escravidão. Com a abolição, paga-se apenas por serviços prestados, sem o ônus da doença, da alimentação e da velhice.

A outra cena, é a do final do filme. A discussão que se estabelece em torno do que  deve ser feito com o líder José Dolores. Como tornou-se absolutamente insubmisso, não haverá fórmula para enquadrá-lo e formatá-lo, como se fazia antes. Se o matam, ele se transforma em heroi e o heroi se torna mito e servirá de exemplo para milhares de outros, que o seguirão cegamente (Seria uma imagem do cubano José Martí?). Ao final, os ingleses induzem o novo governo da ilha a matá-lo, à moda inglesa, por enforcamento. O inglês ainda fará uma última tentativa para deixá-lo vivo. É o momento em que José Dolores, mais uma vez se oferece para carregar a sua mala, aproveitando o momento para apunhalá-lo mortalmente.

O fato de querer rever o filme se deveu fundamentalmente a dois motivos. Ver a questão do líder popular, do seu papel messiânico junto ao povo, e do outro lado, a implacável perseguição que lhe será devotada pelos que se sentiram incomodados em sua confortável situação. O outro motivo foi a questão do imperialismo, que aqui no Brasil, sempre encontrou uma burguesia consular. Eu explico. Aqui sempre existiram chefes políticos locais a entregar as nossas riquezas, para que os interesses imperialistas não encontrassem qualquer tipo de resistência.

 É o que vemos ocorrendo no Brasil, neste momento, com a supressão dos direitos trabalhistas e previdenciários. Como os trabalhadores assalariados, ao longo da história foram adquirindo direitos, aproveita-se agora o momento da crise, para suprimi-los por completo. Seus direitos cessam ao final do trabalho realizado, tal qual o exemplo da prostituta, citado no filme. Ambos recebem o soldo ao final dos serviços prestados. Me acompanha a certeza de que, o respeito devotado pelo colonialista, imperialista ou burguês, ao trabalhador e à prostituta é o mesmo, ou seja, nenhum.

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