terça-feira, 2 de maio de 2017

Auto de Fé. Elias Canetti.

Este livro é mais uma das indicações, dos nove maiores romances da literatura mundial, indicados pelo escritor Vargas Llosa. Encontrei a referência no Portal Raízes. Trata-se de Auto de Fé, do escritor búlgaro/inglês, com sobrenome italiano e que escrevia em alemão, Elias Canetti. O livro foi publicado em Viena em 1935, o segundo ano da ascensão do nazismo. Elias Canetti chegou à condição de Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1981.
A edição de Auto de Fé da Nova Fronteira com tradução de Herbert caro.


Confesso que tive enormes dificuldades na leitura e na metabolização do mesmo. O real e o imaginário se misturam o tempo todo, ao longo de suas longas 671 páginas. No Brasil o livro foi editado pela Nova Fronteira. Para facilitar um pouco a sua compreensão e como é hábito meu, vamos a uma rápida contextualização do autor e de sua obra. Elias Canetti nasceu na Bulgária em 1905, filho de uma família judaica espanhola com grande tradição de erudição. Já aos cinco anos foi levado para Londres e, com a morte prematura do pai, a mãe o levou para Viena. A sua formação basicamente se deu na Alemanha. Em 1938 exilou-se na Inglaterra, fugindo do nazismo. Morreu em 1994, na Suíça. Vida agitada, como podem ver.

Vamos ao livro. Ele foi publicado em 1935 em Viena. Encontrei em um blog, entre os comentários, uma informação interessante sobre a escrita do mesmo. Consta que ele foi escrito ao longo de três anos, em um quarto extremamente confortável, situado em frente a um manicômio, ouvindo o grito dos "loucos". Esta era a denominação da época e, sobre isso, existem muitas referências no livro (sobre a psiquiatria). A mim me pareceu que todos os personagens que interagem no livro eram internos deste manicômio. Erro de percepção. Os personagens eram reais, de uma Europa dilacerada, com os indivíduos se decompondo em massa, que não parava de crescer, no início dos anos 1930. Tempos de crise geram monstros. A massa fanática se sobrepõe a todo e qualquer princípio de lógica e de racionalidade.

O romance é de leitura complicada, já que os personagens vivem a realidade da loucura. O humor e a ironia são componentes fundamentais, entremeados com a loucura.  O personagem mais importante é um intelectual, o maior sinólogo (entendido em China) da época e dono de uma vasta biblioteca, a maior biblioteca privada da cidade. Não se relaciona com ninguém. Vive enclausurado dentro da enorme biblioteca, em contato apenas com uma governanta, com quem mantém pactos de não comunicação. É um intelectual respeitado mas absolutamente estéril. Após oito anos de convivência com Therese, a governanta, lhe propõe casamento. Assim não precisaria mais pagar-lhe ordenado. Aí começa a sua ruína. Peter Kien, este é o nome do sinólogo, manifesta uma misoginia tão explícita, como nunca vi paralelo em qualquer outra leitura que já fiz.

Um terceiro personagem é um brutamontes, um policial aposentado, que é o zelador do prédio e que aparentemente é aliado do professor. Vejam a representação da violência na figura do policial. Pfaff, tal é o seu nome, visa apenas ganhos pessoais e para obtê-los carece de qualquer tipo de escrúpulos. Aliás a questão do dinheiro está onipresente no livro. Todos o buscam inescrupulosamente. Um quarto personagem é Fischerle, um anão corcunda, que perambula junto com o professor Kien em suas desventuras, longe de sua biblioteca, da qual fora posto para fora por Therese. Ajuda ao professor na construção de sua nova biblioteca, agora em seu imaginário. Carrega e descarrega diariamente os livros de sua cabeça, alinhando-os cuidadosamente nos hotéis em que se hospedam.

Ficherle introduz o intelectual no submundo, levando-o aos prostíbulos da cidade, no Paraíso, mais elitizado e no Babuíno, frequentado por estes, que dão o nome à casa. Fiz uma consulta para ver o significado exato da palavra. Conferiu com os frequentadores. Fischerle era esperto, dizia-se campeão mundial de xadrez e sonhava com a América e com os sonhos a que ela induzia. No Babuíno arrumou um passaporte falsificado de primeira. Vivia fazendo trapaças, conseguindo dinheiro em fraudes de todos os tamanhos. Pensando na aplicação de mais golpe, manda um telegrama ao irmão de Kien, um psiquiatra, que presidia um manicômio em Paris.

Que o leitor não queira saber sobre o final da história. Ela não se fecha. Tudo permanece inconcluso. O irmão Georges, que quando jovem fora renomado ginecologista e, onde as mulheres adoeciam quando os maridos viajavam, não deixavam de se consultar. Depois se transformou em psiquiatra, tendo sob seus cuidados mais de 800 internados. Quando ele chega a cidade do irmão, aparentemente o liberta de tudo, isto é, do jugo de Therese, do zelador e da gang de Fischerle. Então começam as brigas entre os dois irmãos. São as discussões mais elevadas do livro. Esta passagem me lembrou um pouco de A Montanha Mágica. O autor tem estofo para os diálogos deste livro, mas não os seus personagens. Estes o levam aos submundos de seu tempo.

O livro está dividido em três partes que recebem os seguintes títulos, que podem nos dar uma pista sobre o seu conteúdo, ou não. Uma cabeça sem mundo; um mundo sem cabeça e um mundo na cabeça. Valeu? Além do Nobel de Literatura de 1981, Canetti recebeu também o prêmio Franz Kafka, o mais importante prêmio da literatura austríaca. O maior mérito do livro está, sem dúvida, em nos apresentar este destroçamento psíquico em que a Europa vivia neste tempo de entre guerras e a ascensão dos regimes fascista e nazista. Lembrem-se que ele pertenceu a uma família de judeus. O google me deu a seguinte definição de auto de fé: Auto-de-fé ou auto-da- refere-se a eventos de penitência realizados publicamente (ou em espaços reservados para isso) com humilhação de heréticos e apóstatas bem como punição aos cristãos-novos pelo não cumprimento ou vigilância da nova lhes outorgada, postos em prática pela Inquisição, principalmente em Portugal ...

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