sábado, 28 de abril de 2018

Ricos, podres de ricos. Antonio David Cattani.

Ricos, podres de ricos é um livro necessário. É uma veemente denúncia sobre a exagerada concentração de rendas, hoje um fenômeno global, não mais restrito aos países subdesenvolvidos.Os malefícios, por sua vez, são também globais. A autoria do livro é de Antonio David Cattani, professor de sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A publicação é da Marcavisual / Tomo Editorial.
 A bela capa do livro, uma ilustração de Edgar Vasques.

A frase em epígrafe dá o tom ao livro: "A luta de classes existe, mas é a minha classe, a classe rica que está fazendo a guerra e nós estamos ganhando". Ela é de Warren Buffet, a segunda pessoa mais rica do mundo, com fortuna avaliada em 75 bilhões de dólares. Eu estaria tentado a dizer que foi por meritocracia, mas o livro me ensina, que a riqueza e a sua acumulação exagerada não é dada por um fenômeno natural, mas que foi construída toda uma ideologia para justificá-la, aplacando assim as consciências, se é que isso é possível.

Passo, inicialmente, a mostrar a contracapa do livro: "A expressão podre de rico tem um duplo sentido. O primeiro remete ao superlativo da riqueza. O segundo tem um significado sarcástico ou debochado. Termos similares existem em várias línguas: podrido de dinero, em espanhol; filthy rich, em inglês; stinkreich, em alemão, sempre com um sentido de posse exagerada e ultrajante.

Etimologicamente, "podr" é um antepositivo latino para referir-se a algo estragado, pervertido ou corrompido. Essa ambivalência da expressão é perfeita para dar conta da negatividade relacionada à posse da riqueza desmedida. A concentração de renda é fonte de injustiças e de ineficiência econômica. Para ampliar o bem comum, é preciso repartir melhor os resultados da produção social."

O livro contém um prefácio à segunda edição, destacando o conceito gramsciano do "pessimismo da razão e do otimismo da vontade" e uma apresentação introdutória ao tema, onde, desde já, a ideologia da meritocracia ganha destaque. Seguem quatro capítulos: Riqueza desmedida; a riqueza mistificada ou a construção da legitimidade; a riqueza como problema e, é possível mudar?

No primeiro capítulo sobre a riqueza desmedida, o autor fala da dificuldade de sua mensuração pela falta de termos comparativos, da riqueza substantiva, da ocultação destas riquezas em paraísos fiscais, além de nos apresentar a restrita listinha dos plutocratas brasileiros, citando os Marinho, os Lemann, o Safra e o Blairo Maggi. Fala das origens destas fortunas e dos diferentes mecanismos de sua manutenção e multiplicação. Uma síntese disso pode ser dada pelo dado da riqueza substantiva, aquela que soma o poder econômico ao poder político. Bens públicos como presentes é um dos subtítulos, referente às privatizações. Aqui existe uma recomendação interessante. A leitura de Brasil privatizado, de Aloyzio Biondi.

No segundo capítulo fala da busca da naturalização do processo de acumulação, numa mistura de pseudo ciência e senso comum, por teorias absolutamente ideologizadas. Estas são produzidas e reproduzidas por escolas, igrejas e meios de comunicação. Por elas se impede o avanço de ideias força que poderiam se opor a esta acumulação. O elitismo aristocrata se justifica pela meritocracia, a falsa justificativa para a riqueza. Além disso, existe todo um linguajar, meticulosamente construído, inerente ao fenômeno. Vejamos uma pequena ilustração: "No caso dos não ricos, existe uma constelação de termos  depreciativos tais como: pobreza, miséria, indigência, exclusão, ralé. A eles se agregam a apatia, o acomodamento, a preguiça, a desordem, o consumo de drogas e outras negatividades". Já do outro lado, só positividades: "Eles se autodesignam como 'classes produtoras', elite, classe A, extratos superiores, alta sociedade. Além de outras qualidades a eles referentes como talento e liderança, competência, empreendedorismo, bom gosto, prestígio e tradição".

No terceiro capítulo são mostradas as nefastas consequências desta acumulação, como o entrelaçamento entre as grandes corporações e a corrupção, com o verdadeiro sequestro da política, sobre a qual exercem o seu domínio e legitimação, os altos custos sociais e ambientais, além do rentismo e do fenômeno do parasitismo e da expressão violenta do ódio contra os trabalhadores. Além disso criam uma imagem de filantropia, esta praticada, preferencialmente, com os cofres públicos.
A contracapa do livro.

No quarto capítulo são apontadas as alternativas. Quando no início do século XXI se clamava que "um outro mundo é possível", este clamor, hoje, se torna absolutamente necessário. Também a expressão neoliberal do Estado Mínimo, ela, hoje dever ser substituída pela do Estado Necessário. Isso só pode ser feito por uma organização coletiva, sob os auspícios do princípio iluminista do ouse saber kantiano e sob os princípios da justiça, pois, "a civilização progride pela justiça. São justas as condições que promovem a igualdade de oportunidades e a emancipação social regida pela busca do bem comum". E, um acréscimo meu. Isso não será feito pela justiça que emana das leis e de sua interpretação e aplicação pelo Poder Judiciário.


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