segunda-feira, 9 de abril de 2018

Petista doente. Sebastião Donizete Santarosa

Um texto magnífico do meu amigo Sebastião Donizete Santarosa. Enquanto houver indignação haverá esperanças. Toda a luta começa pela indignação. Ela só se hospeda em corações extremamente sensíveis. Ouvi de Paulo Freire que todo o anúncio é precedido pela denúncia, que, por sua vez, dela deriva. Agradeço ao Sebastião a honra em permitir a publicação da beleza deste texto. Podes ter certeza de que ele fará eco.


PETISTA DOENTE

Sou um esquerdopata, um defensor de ladrões, um petista idiota, mesmo sem jamais ter sido petista. Em minha doença e em minha idiotia, entretanto, assim como Mickin, o príncipe de Dostoievsck, encontro lucidez para me reconhecer frente aos outros e me posicionar frente às forças, sempre obscuras, que regem os movimentos da história.
O livro do grande romancista russo.

Sou um idiota, reconheço. Trata-se de uma insanidade que me acompanha e se constrói desde a infância. Muito cedo tive que aprender que a comida era pouca, o rebenque pesado, o sono curto e o fardo pesado. Ver a mãe dizendo que não estava com fome na hora da janta porque sabia que a comida era pouca; frequentar escola em que a professora nos espancava e tentava provar, em cada lição, que não sabíamos falar, que éramos feios  e que o conhecimento não era para nós; começar a trabalhar ainda na infância, acordar bem antes do sol nascer, ir dormir de madrugada com o corpo jovem estraçalhado, ganhar um salário miserável que mal pagava o ônibus, o lanche e a mensalidade do supletivo de colégio de qualidade duvidosa; enfrentar filas infindáveis em busca de empregos que não existiam; apanhar da polícia na rua de casa apenas por ser menor, pobre e estar andando na rua de casa... entre tantas dores e apertos, o corpo vai enfraquecendo, a mente se debilitando, a alma se apequenando. Dessa forma, há que se convir, é impossível deixar de se tornar um idiota.

Confesso que queria ser um empreendedor altivo, desses que confiam na força da mente e da individualidade, desses que creem, sem nenhuma sobra de dúvidas, que tudo é questão de entrar em sintonia com as energias cósmicas superiores. Lamentavelmente, as pessoas que encontrei pelo caminho, e comigo ainda andam, não me ensinaram os passos da santificação.

Sou um pobre diabo, vivi e vivo entre más companhias. Ainda no início da caminhada, fui vítima do falastrão Gregório de Mattos, com quem aprendi que no império da fé reina a hipocrisia. Também fui vítima do ateu Antônio Vieira, para quem a igreja era um dos sustentáculos da opressão e da desumanização através da subversão das palavras de Cristo. Influenciaram-me Castro Alves e Joaquim Nabuco, esses liberais lunáticos que achavam possível acabar com a escravidão e com a obra da escravidão, imaginem em que mundo viviam. Acompanhei as páginas de Machado de Assis e de Aloísio Azevedo, vi e ouvi em suas narrativas as relações de exploração, de exclusão e de violência na construção dos cortiços nas cidades maravilhosas. Com Lima Barreto comecei a fazer perguntas embaraçosas para nobres ouvidos delicados, quis saber como é possível, afinal, um país com tantas riquezas naturais e possiblidades, ser tão contraditório, constituído por uma enorme parcela de gente que rasteja à beira da miséria e da indigência intelectual.  Euclides da Cunha, aquele jornalista inocente e lunático, mostrou-me os sertões, a paisagem mais precisa de uma terra, de um homem e de uma luta. E ai, com os pés fincados no chão de nossa terra, conheci o místico José Lins do Rego, o atormentado Graciliano Ramos e o fanfarrão Jorge Amado. Entre eles, e acima de todos, dei ouvidos aos versos impertinentes e desarrazoados de Oswald de Andrade, esse pária que foi capaz de macular a última flor do lácio ao insinuar que havia beleza no jeito grosseiro do povaréu falar, cantar e contar suas histórias.

Assim desse jeito, como um entre tantos vadios, caminhando e cantando, seguindo rebeldes indecentes, Chicos, Elises, Belchiores e Seixas, petulantemente, vejam só, quis que o pai afastasse de mim esse cale-se. Aos trancos, barrancos e versos, Drummond, o menino indisciplinado expulso do colégio por desacatar o nobre professor de português, ensinou-me que eu vivia em um tempo em que não adiantava morrer, a vida era uma ordem, a vida apenas, sem mistificações.  E foi o alcoólatra Vinícius que me apresentou a mim mesmo como um operário em Construção. Clarice, Lispector e louca, abriu as portas para os perigos da introspecção, adornada com a musicalidade da depressiva Cecília Meireles e do suicida Fernando Pessoa. Este levou-me definitivamente a perdição. Aprendi com ele que não sou nada e que jamais serei alguma coisa, mas, a parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. E com todo o direito a tê-los. Ouviu, com todo direito a tê-los!

É claro que me encontrei com muitos outros deploráveis profanadores do sagrado, indesejáveis e abjetos intelectuais que fizeram da Filosofia, da Sociologia, da História, das Ciências e das Artes exercícios de fé e de militância. Em sua perversidade descomedida, muitos deles ousaram e ousam questionar a verdade inalienável do mundo aparente, tentando-nos convencer de que existem mais coisas entre o céu e a terra do que as nossas perfeitas e santas telas das tevês possam demonstrar. Essa gente é culpada. É gente pretenciosa, que provoca a confusão e promove o mal. Shakspeare, Vitor Hugo, Gogol, Dostoievski, Max Gorki, Brecht, Neruda, Orwel, Freire, Steimbeck, Geraldi,  e esses quixotes todos, com suas palavras e pensamentos sem controle, acabam alargando as fronteiras da percepção e, perigosamente, nos fazem delirar, pensar nossas condições existenciais e sonhar com mundos impossíveis.

Confesso que eu não gostaria de ser um petista idiota. Gostaria muito de não ter sido vítima das más companhias. Se eu tivesse sido convertido por um pastor da universal do reino de deus ou por um padre carismático, se eu me tornasse um fiel pagador de dízimos e tivesse a certeza inabalável de que seria um dos escolhidos para entrar pelas portas do reino dos céus como recompensa pela minha mansidão e resignação, provavelmente eu não seria um esquerdopata. Se eu tivesse sido convertido por alguém que detém os segredos do mistério da vida, certamente eu seria um homem de bem, assistiria a Globo, leria a Veja, iria a missa ou ao culto, oraria pacífico em meu canto, idolatraria o magnânimo Deltan Dallagnol, louvaria o santíssimo Sérgio Moro e também odiaria esse povo do mal, essa gente que quer viver às custas do estado, que não gosta de trabalhar, que anda de vermelho e defende ladrão.

Mas eu não fui convertido. Meus mestres eram do mal. Tornei-me um doente, um petista idiota, um esquerdopata. E agora, com a prisão do maior líder popular que esse país já teve, mais do que nunca defendo o meu direito de ser um doente e de viver minha doença. Mais do que nunca defendo Lula, vítima de um processo político kafkiano. Mais do que nunca tenho a certeza de que as forças de esquerda estão se fortalecendo e que em breve retomaremos o caminho da reconstrução do estado democrático de direito. Mais do que nunca tenho a certeza da necessidade da luta radical em defesa da escola e da universidade públicas e gratuitas, em defesa da saúde de qualidade, de políticas de moradia, de geração de empregos e de valorização do trabalho. Mais do que nunca tenho a certeza de que iremos construir o caminho para o controle popular dos meios de comunicação, para o fortalecimento das relações democráticas, para o avanço tecnológico, para a industrialização, para o cuidado ambiental, para a distribuição de riquezas e para soberania nacional. Em minha idiotia, sonho, e vou ajudar a construir incansavelmente, uma sociedade em que se vive e se deixa viver, cada um em suas singularidades e diferenças.
Foto histórica de Lula saindo do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo no dia 07.04.2018.


Sou um petista doente e continuarei sendo, queiram ou não os sadios, os inteligentões, aqueles que caminham com Bonners, com Leitões, com Sardembergs, com Boecharts, com Dórias, com Ronaldinhos Gaúchos, com Pastores, Franscischinis e Bolsonaros...

Sebastião Donizete Santarosa

Observação: Este texto me provocou para a leitura  de O Idiota de Dostoiévski. Deixo uma pequena resenha deste monumental livro.http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/11/o-idiota-fiodor-dostoievski.html

42 comentários:

  1. Um dos mais lindos textos que li nestes últimos tempos. Resumo assim minha sincera homenagem ao Sebastião.

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  2. Um texto de rara beleza e de profunda indignação. Obrigado, Cláudio, pelo seu comentário. O Sebastião realmente merece esta homenagem.

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  3. Que coisa mais bonita!!! DE chorar, de acreditar, de ficar pasmo e de tentar avançar. Estava já emocionado e tenho que agradecer ao Sebastião por ter colocado meu nome entre pensadores e artistas que ambos admiramos.

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  4. Também o seu comentário é muito bonito. Acho que o Sebastião se superou com este seu texto. Tenho muito orgulho de hospedá-lo no meu blog, como também a satisfação de desfrutar de sua amizade. Pessoas raras.

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  5. O Sebastião renovou minhas crenças ideológicas de esquerda e necessariamente avivou nossa indignação, que precisa ser e estar na primeira pessoa do plural.

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  6. Agradeço o seu comentário. A indignação nos leva à denúncia e ao anúncio. Esperança sempre.

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  7. Com certeza, Rafael. Agradeço a sua manifestação.

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    1. Que texto magnífico! O tom da ironia socrática utilizada com a dialética materialista histórica dignificaram todos os autores que foram citados!! Parabéns, Tião!!

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    2. O teu xará é fera, Sebastião Cláudio. Ele tem tudo para ser um grande escritor. Agradeço o seu comentário.

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  9. De pleno acordo Will Mendes. Agradeço a sua manifestação.

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  10. Uau! Perdi o ar!Amei esse texto mas muito, muito mesmo!

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  11. Então respira fundo, K. O texto é realmente extraordinário.

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  12. Magnífico, perfeito, estupendo...sem puxakismos, professor minha admiração por ti é crescente...

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  13. Olha aí Sebastião, os elogios vem chegando. Obrigado Dirceia pelo seu comentário.

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  14. Excelente texto!!! Parabéns Sebastião! Como é bom nos depararmos com um pouco de lucidez neste momento tão obscuro que vivemos, onde aqueles que fizeram do estado brasileiro um balcão de negócios para o interesse do grande capital, embebidos de hipocrisia, tentam criminalizar um líder que ousou colocar os interesses do povo pobre nas diretrizes de um governo.

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  15. Abrir os espaços dos aeroportos, da participação cultural e das universidades é algo insuportável para a elite brasileira. O Sebastião é um intelectual orgânico. Muito obrigado professor Paixão, pelo seu comentário.

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  16. A escrita do Sebastião, além de perfeita, é maravilhosa. Agradeço o seu "perfeito".

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  17. Perfeito, lindo,alentador. Conseguiu trazer a esperança de volta a meu coração indignado e doente. Muito obrigada!Muitas vezes obrigada! Não vou mais abaixar a cabeça por medo. Vou fazer o que puder pela reconstrução da vida mais digna nesse nosso Brasil.

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    1. Que bom que serviu de alento. Agradeço o teu comentário, Rosa. Transmitirei o teu sentimento para o Sebastião.

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  18. Que maravilha de texto, me encontrei e aninhei nele... Expressa meu pensamento e sentimento nesses tempos difíceis, tristes e doentios... Obrigada e parabéns Sebastião!

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    1. Obrigado FlaThelma. Em nome do Sebastião expresso meus agradecimentos.

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  19. Lindo,lindo... É tudo o que eu queria dizer!

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  20. Sensacional! Amei! Muita propriedade ao falar,tenho orgulho em ser petista e poder ter acesso a esses textos muito inteligentes! Obrigado!

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    1. Nelma, você não está sozinha. Agradeço o seu comentário.

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  21. Nossa indignação nos leva à Resistência até o fim. Esta é nossa Revolução. LULA LIVREja.

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    1. LULA é o grande símbolo em torno do qual se une a nossa luta e a nossa esperança. Lula Livre! Agradeço a sua manifestação.

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  22. E ponha lindo nisso! Agradeço o seu comentário.

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  23. Parabéns, Pedro Eloi Rech por ter publicado. Muito obrigada.

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    1. Muito obrigado Rosa. Imediatamente eu percebi o potencial deste texto.

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  24. Estou com meu coração aos pulos. Vontade de gravar esse texto declamando-o. Vontade de fazê-lo chegar aos corações que como o meu estão ávidos de tudo que possa aplacar nossa tristeza. Esse texto reflexão mais que BELO e REAL chega em tempo despertando minha CONFIANCA porque em tudo dito é o que acredito.
    Obrigado ao autor, e a vc Pedro por ter compartilhado esse Manifesto que vem fortalecer minha e nossa ESPERANÇA.

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    1. Declame-o! Raramente poesia e ironia andam juntas. Belo e real, você definiu bem. Muito obrigado pelo seu comentário.

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  25. De emocionar
    De me fazer acreditar num bom Futuro.
    Obrigada

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    1. A leitura e a ironia como instrumento de resistência. Agradeço o seu comentário.

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  26. A idiotia como categoria para análise. E viva a idiotia. Obrigado Nara.

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  27. Meu Deu!Quanta lucidez desse cara. Sou fã dele e me junto a todos que pensam como ele para CRER que o Brasil ainda vai conseguir se libertar das garras desses malfeitores perigosos, que vamos ter o Lula livre, que o bom senso ainda vai reinar nesde país dos HOMENS DE VERDADE como os citados nesse texto de Sebastião. Que investiram na luta da defesa democrática, para termos um povo livre, independente, vivendo dignamente.

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  28. Ângela, primeiramente quero agradecer o seu belo comentário, tão cheio de sentimento. Ele me fez lembrar Darcy Ribeiro, na magnífica apresentação do livro "América Latina - Males de origem", de Manoel Bomfim: "O aspecto com que mais me identifico na obra de Manoel Bomfim é aquele que o opõe a todos os antigos e modernos pensadores coniventes com os grupos de interesse que mantêm o Brasil em atraso. É sua extraordinária capacidade de indignação e de esperança. É sua certeza de que esse é um país viável. É sua convicção de que construiremos aqui uma civilização solidária e bela, assim que retirarmos o poder de decisão das mãos de nossas classes dominantes, infecundas e infiéis".

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  29. Sebastião é um literata idiotizado... que bom que ainda podemos desfrutar de coisas assim tão lindas! Fiquei emocionada e com mais vontade de lutar por LULA LIVRE JÁ!

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  30. Que maravilha profa. Lérida. A sensação que eu tenho é que não estamos sós.

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