sexta-feira, 26 de abril de 2019

Relato de um certo oriente. Milton Hatoum. Vestibular UFPR.

Cheguei a este livro pela via de uma lista de livros para o vestibular. No caso, tratava-se do vestibular da Universidade Federal do Paraná. O livro indicado é Relato de um certo oriente, de Milton Hatoum, o hoje consagrado escritor, nascido em Manaus e descendente de libaneses. Aí já estão os primeiros elementos necessários para a compreensão deste complexo livro. Trata-se de seu primeiro romance, datado de 1989.
Edição da CompanhiaDeBolso, 9ª. reimpressão. 2018.

A complexidade do livro está na sua estrutura narrativa, desenvolvida ao longo de oito capítulos que se interligam. A narradora é uma filha de Manaus, que se distanciara de sua cidade natal, morando em São Paulo por vinte anos e que decide voltar à cidade de seu passado e lá ter um reencontro com os personagens de sua infância e primeira socialização. Por adoção, Emilie será a sua mãe e também a personagem central da recomposição de sua viagem de regresso e incursão nas memórias de seu passado.

É a oportunidade que o escritor tem para mostrar as peculiaridades de uma família de imigrantes, libaneses no caso, em busca de fazer a vida, numa cidade tão peculiar, quanto é a cidade de Manaus, uma cidade eminentemente fluvial. A ocupação da família, por óbvio, será o comércio. Ela é a proprietária da loja Parisiense. As relações familiares não vai bem. Um pai silencioso, sempre com o livro ao alcance, uma mãe muito presente e o desencontro com os filhos e deles entre si. Já no primeiro capítulo, quando a narradora chega à cidade e é recebida por uma filha de Anastácia, uma velha criada da casa, ela faz a seguinte descrição: "Talvez (ela) já soubesse da existência dos quatro filhos de Emilie: Hackim e Samara Délia, que passaram a ser nossos tios, e os outros dois, inomináveis, filhos ferozes de Emilie, que tinham o demônio tatuado no corpo e uma língua de fogo" (Página 9).

Já no sétimo capítulo teremos uma referência explícita a esta situação familiar, quando Emilie tentou reconciliar, sem sucesso, os inomináveis com Samara Délia, que praticamente assumira os negócios da Parisiense e que lhes garantia o sustento material. Um deles assim se dirige à sua mãe: "A senhora deu à luz a uma mulher da vida; a senhora devia se odiar e mais que ninguém entender o ódio" Página 136). Samara Délia, como vimos na fala do filho, fora uma mulher da vida. O pai, pelo livro que sempre o acompanhava, a acolhia com o seu perdão. Mas a intriga estava plantada na família. Uma semana após esse incidente Emilie morre. Às vésperas desta morte é que a narradora chega a cidade.

Incidentes trágicos serão os que mais emergem neste mergulho no passado, como o desaparecimento de Emir, irmão de Emilie, por um afogamento suicida e o atropelamento de Soraya Ângela, a filha de Samara Délia. A relação Emilie, Samara Délia e Soraya ângela ganha belíssimas páginas, evocando sentimentos de ternura e de culpa, já ao final do quinto capítulo, o mais longo de todos. Também Dorner, um fotógrafo alemão entra em cena e na memória aparecem também os alemães ao longo da guerra e os seus mecanismos de defesa, como se fossem os culpados pelos acontecimentos ocorridos na Alemanha. 

Outro ponto forte do livro é a descrição das relações sociais estabelecidas. Especialmente as que Emilie travava com Anastácia, a empregada/lavadeira da casa. As relações eram absolutamente verticalizadas e incluíam castigos físicos. As relações sociais eram um simples prolongamento ou extensão dos tempos da escravidão. A fome e a miséria, além das precárias condições de higiene e as condições de insalubridade provocadas pelo clima também são vivamente descritas. A fuga era impossível, pois, significava morte certa, em virtude das muitas doenças tropicais. Da mesma forma ganham destaque também as ervas e as curas.

A beleza do romance chega ao seu auge no capítulo final. Ele trata da solidão, quando as pessoas, especialmente, na figura de Emilie, alcançam a velhice e são excluídas do diálogo, tornando-se "corpos sem fala" e buscando refúgio no bordar. Que imagem! Introspeção e existencialismo tomam conta das páginas finais. Nela a narradora tenta, em carta, sintetizar os fatos envolvendo a morte e os funerais de Emilie para o seu irmão, que mora em Barcelona. Praticamente esta carta dá a estrutura narrativa para o romance. Transcrevo os seus dois últimos parágrafos.

"Quantas vezes recomecei a ordenação de episódios, e quantas vezes me surpreendi ao esbarrar no mesmo início, ou no vaivém vertiginoso de capítulos entrelaçados, formados de páginas e páginas numeradas de forma caótica. Também me deparei com um outro problema: como transcrever a fala engrolada de uns e o sotaque de outros? Tantas confidências de várias pessoas em tão poucos dias como um coral de vozes dispersas. restava então recorrer à minha própria voz, que planaria como um pássaro gigantesco e frágil sobre as outras vozes. Assim, os depoimentos gravados, os incidentes e tudo o que era audível e visível passou a ser norteado por uma única voz, que se debatia entre a hesitação e os murmúrios do passado. E o passado era como um perseguidor invisível, uma mão transparente acenando para mim, gravitando em torno de épocas e lugares situados muito longe da minha breve permanência na cidade. Para te revelar (numa carta que seria a compilação abreviada de uma vida) que Emilie se foi para sempre, comecei a imaginar com os olhos da memória as passagens da infância, as cantigas, os convívios, a fala dos outros, a nossa gargalhada ao escutar o idioma híbrido que Emilie intentava todos os dias.

Era como se eu tentasse sussurrar no teu ouvido a melodia de uma canção sequestrada, e que, pouco a pouco, notas esparsas e frases sincopadas moldavam e modulavam a melodia perdida". Páginas 147-148.

O livro exige uma leitura extremamente atenta e que dificilmente se revelará, por inteiro, já na sua primeira leitura. Na contracapa do livro se lê a seguinte breve apresentação: "Após um longo período de ausência, uma mulher regressa a Manaus, cidade de sua infância. Deseja encontrar Emilie, a extraordinária matriarca de uma família libanesa há muito radicada ali. Encontra a casa desfeita - como desfeitas para sempre estão as casas da infância. Situado entre o Oriente e o Amazonas, este relato é a busca de um mundo perdido, que se reconstrói nas falas alternadas das personagens, longínquos ecos da tradição oral dos narradores orientais".



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