sexta-feira, 19 de setembro de 2014

O tetrapharmakon. A ética em Epicuro.

Quem efetivamente quiser estudar a ética, precisa recorrer ao tempo anterior a consolidação das religiões, especialmente das vinculadas ao judaico-cristianismo. Elas se apoderaram de princípios éticos e os converteram em princípios morais, em mandamentos ou códigos de bom ou mau comportamento. Nos tempos atuais é pior. Ética virou código de bom mocismo, editado pelas empresas, ao gosto do patrão, do capital e do lucro. A melhor forma de estudar a ética originária, de seu ponto de vista filosófico, desvinculado das religiões, é recorrer aos gregos.

A filosofia nasceu na Grécia e nasceu da interrogação e da observação. As interrogações são as existenciais e a observação diz respeito essencialmente à observação dos fenômenos da natureza. Na natureza se encontra uma certa paz, uma certa serenidade, uma certa constância, que o homem passou a desejar também para a sua existência. Com este simples dado já encontramos a essência do fenômeno ético. A busca de uma certa paz, constância e serenidade para a nossa vida. É um encontro da pessoa consigo mesmo, procurando dar sentido e significado para a existência.
Adoro o conceito de ética como uma estética da vida, ou então como a arte de viver.

De uma certa forma dá para dizer que os gregos foram os primeiros iluministas. Procuravam encontrar explicações racionais, isto é, providas de uma certa lógica, para a existência. Não deve ser errado pensar que os gregos, com a visão racional do mundo foram os precursores do iluminismo, num movimento interrompido, por uma longa pausa, pelas imposições dogmáticas da religião. Os gregos já procuravam se livrar dos mitos, embora a eles sempre recorressem, quando enfrentavam dificuldades com a explicação racional. procuravam se livrar de obscurantismos que determinariam heteronomamente os humanos.
São dois vídeos sobre ética, produzidos pela TV Cultura, nos anos 1990. Espetacular.

Um dos conceitos mais trabalhados entre eles é o de liberdade e autonomia. Não sei se já usavam estas palavras. As suas noções de ética tinham duas abrangências fundamentais: um plano individual e outro coletivo. A ética tinha que dar conta destas duas dimensões. No plano coletivo a ética ganhou o nome de política, da convivência na pólis. Encontrar maneiras de viver bem, já que o viver só se materializa na pólis. Viver é conviver. Assim os gregos nos deram os primeiros tratados de política. No plano individual, a noção de indivíduo, da individuação lhes era clara. Assim como na dimensão coletiva os indivíduos buscavam o viver bem, através de certos princípios por eles determinados (democracia), buscavam também princípios, que seguidos, lhes dariam a perspectiva da boa vida ou, como diríamos hoje, da felicidade. os gregos já confrontavam a autonomia com a heteronomia.

Nestes vídeos José Américo Pessanha nos fala sobre a ética em Epicuro. 40 minutos de muita sabedoria.

Mas o meu objetivo hoje é falar de Epicuro. Vamos situá-lo, ou datá-lo. Ele nasceu em 341 a.C. e morreu em 271-2 a. C. Se conferirmos as datas vemos que as pólis gregas já tinham perdido a sua autonomia, dominados pela Macedônia de Felipe e de Alexandre. Adeus liberdade política. Na dimensão coletiva da vida a heteronomia passou a reger as relações. O império domina a cidade. Ainda será possível viver bem? Epicuro dará respostas para esta questão. Entra em cena, o jardim, o Jardim de Epicuro.
O Jardim é um lugar distante das turbulências da pólis. É um espaço privado, junto com amigos, onde nem Felipe, nem Alexandre pode chegar. É uma vivência da liberdade, fora dos determinismos.

O jardim é o espaço em que se reúnem os amigos do saber, que buscam viver a dimensão da felicidade interior, onde nenhum Felipe ou Alexandre venha incomodar. O espaço interior sempre será o espaço do exercício da autonomia. O que se fazia na academia ou no jardim de Epicuro? No jardim se reuniam pessoas em busca da serenidade ou da felicidade, que acreditavam que seria uma conquista, jamais uma dádiva. Ela seria alcançada pelo esclarecimento que libertaria de crendices e superstições e pela luta do auto domínio, da auto libertação, ou da autonomia.

A doutrina de Epicuro teve muita repercussão. Ela só foi abafada com a ascensão da doutrina do cristianismo. O essencial da doutrina de Epicuro foi encontrado em escavações na Turquia, onde foi encontrado o chamado tetrapharmakon, os quatro remédios apregoados por Epicuro, também denominado como "o médico da alma". Estes princípios foram levados para a Turquia por um de seus discípulos, Diógenes de Oenoanda. Os quatro princípios que garantiriam a vida serena e prazerosa seriam:
A receita da felicidade. O tetrapharmakon de Epicuro.

1. Não há nada a temer quanto aos deuses (Eles vivem em outra esfera e não se incomodam com os humanos).
2. Não há necessidade de temer a morte (Não haverá castigos).
3. A felicidade é possível (Ela é conquista, esforço na busca da areté, da excelência. Não é dádiva divina).
4. Podemos escapar da dor (seleção no imaginário apenas dos bons momentos).
A ética como uma estética da existência. Uma matéria prima a ser trabalhada com o estilete, para imprimir à vida um estilo, uma singularidade.

Em suma: O território humano é exclusivo do humano - é um espaço onde autonomamente construímos a nossa felicidade. Este post foi elaborado a partir de uma fala de José Américo Pessanha sobre a Ética em Epicuro. Veja o link. http://ade-bergson.blogspot.com.br/2013/07/etica-e-epicuro-prof-jose-americo-motta.html

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