sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

"Onde está a honestidade"? Noel Rosa.

Este post tem a sua origem no dia 9 de dezembro, o dia marcado para lembrar que a corrupção precisa ser combatida. Por ele, quero prestar uma homenagem para todos aqueles que acreditam que a corrupção foi inventada no dia primeiro de janeiro de 2003, no dia em que Lula, do Partido dos Trabalhadores, tomou posse como presidente da República Federativa do Brasil. O dedico para todos aqueles que acreditam, ou melhor, se esforçam por acreditar, que antes nunca houve corrupção e que alimentam esta crença, seja por desonestidade, por preconceito ou meramente por ignorância.
O belo livro - Memórias Póstumas de Noel Rosa - uma longa conversa entre Noel e São Pedro num botequim lá do céu.

Para estes trago uma passagem do belo livro da Companhia das Letrinhas com o título de Memórias Póstumas de Noel Rosa - Uma longa conversa entre Noel e São Pedro num botequim lá do céu. Qualquer livro de memórias de Noel Rosa, ou sobre o Noel, só poderia se ocupar, prioritariamente, de  música. Não será, no entanto, o que eu pretendo fazer. O livro é belíssimo e nos dá um belo panorama da cultura brasileira dos anos 1930 e nos conta sobre o surgimento da autêntica Música Popular Brasileira. As letras das músicas de Noel são crônicas de uma época, com forte teor de ironia e de crítica social.

Mas, nem tudo são alegrias neste maravilhoso livro. Duas fatalidades acontecem quase que simultaneamente. A doença e o suicídio de Manuel, seu pai e primeiro professor de violão e o diagnóstico de tuberculose dele próprio. Tuberculose, na época, era uma espécie de condenação, ou anúncio antecipado de morte. De fato, Noel morreu logo depois, aos 26 anos de idade. Neste período de fatalidades escreveu uma de suas músicas, que ficou bastante conhecida, exatamente pelo seu conteúdo de crítica social. - Onde está a honestidade?
Noel junto com o violão. A crítica social sempre esteve presente em suas composições.

O pai de Noel, seu Manuel, não seguiu a profissão da família, a medicina. Passou por muitas dificuldades. Fora comerciante e, com a crise que veio junto com a Primeira Guerra Mundial em 1914, simplesmente faliu. Foi arrumar emprego em São Paulo, em Araçatuba, como agrimensor. Só vinha para casa em finais de ano. Depois da volta para o Rio teve uma fase de inventor, até arrumar um emprego, por influência de um amigo, na Prefeitura do Distrito Federal, como funcionário da Inspetoria de Abastecimento.

O problema ocorreu quando o diretor desta Inspetoria foi demitido e o novo, arbitrariamente, resolveu aumentar os preços. Como seu Medeiros Rosa se posicionou contrariamente, pois a população estava sem dinheiro e os preços já estavam muito altos, também ele foi demitido. O livro faz um pequeno comentário: "Seu Manuel sabia que a ganância dos políticos era enorme", para logo em seguida acrescentar; "Papai não aguentou o baque: se trancou em casa, voltou a ficar calado, deprimido, isolado em seu mundo". Foi nesta ocasião que o pai foi internado e, por sentir a vida  inútil, se suicidou.
Está aí o samba em questão. Onde está a honestidade?


Mas o que eu quero contar é sobre o samba que o filho fez nesta ocasião. Isso ocorreu lá nos idos de 1936/37. Só para mostrar que já naquela época havia corrupção e que o povo já se revoltava contra ela. O samba levava por nome - "Onde está a honestidade"? Também quero deixar bem claro que não foi também nessa época em que a corrupção foi inventada. É evidente que a honestidade criticada é a honestidade dos políticos, já que o povo trabalhador sempre foi muito honesto (Deixo aqui registrado que por estes dias - 9.12.2014 - o governador do Paraná, Beto Richa deu aos paranaenses um pacote de maldades, como presente de natal, depois de...). Só tenho dúvidas mesmo, se esses políticos, que tem a honestidade questionada compram também a felicidade. Aí seria demais! No máximo alguma alegria passageira sarcástica. Vejamos a letra:
Noel compondo suas memórias. As letras de suas músicas, de sua crítica social, não precisavam de máquina de escrever. Estas eram feitas pelos botequins da Vila Isabel e dos morros dos arredores.


"Você tem palacete reluzente,
Tem joias e criados à vontade
Sem ter nenhuma herança nem parente,
Só anda de automóvel na cidade
E o povo já pergunta com maldade
Onde está a honestidade? Onde está a honestidade?
E o povo já pergunta com maldade
Onde está a honestidade, onde está a honestidade?

O seu dinheiro nasce de repente,
E embora não se saiba se é verdade
Você acha nas ruas diariamente
Anéis, dinheiro e até felicidade
E o povo.........

Vassoura dos salões da sociedade,
Que varre o que encontrar em sua frente,
Promove festivais de caridade
Em nome de qualquer defunto ausente
E o povo já pergunta com maldade:
Onde está a honestidade? Onde está a honestidade?
E o povo já pergunta com maldade:
Onde está a honestidade? Onde está a honestidade?

Resta uma pergunta. O que pensar de um sistema em que "ficar rico", "ter $uce$$o", "ser bem sucedido" são apresentados como os valores maiores? Tudo passa a ser permitido para que esses valores sejam atingidos. Então, a corrupção passa a fazer parte de todo um sistema e ser uma coisa muito antiga, bem antiga.

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