terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Tenda dos Milagres. A minissérie.

Faz uns dois anos que li Tenda dos Milagres de Jorge Amado. Foi, entre os seus livros, o que mais me impressionou. Soube também que é o romance preferido do próprio autor. E não é por nada. O livro é o maior tributo ao legítimo povo brasileiro, nem branco, nem negro e nem índio, mas, isso sim, estes três povos absolutamente misturados. Um tributo à miscigenação e contra os preconceitos culturais e raciais que a acompanharam. Agora acabo de assistir a minissérie produzida pela Central Globo de Produções, numa adaptação de Aguinaldo Silva e Regina Braga e direção geral de Paulo Afonso Grisolli. São quatro discos com quase catorze horas de duração. A minissérie foi lançada em 1985.
Capa de Tenda dos Milagres, com destaque para Pedro Archanjo, o seu personagem principal.


Em outro post falei o que Jorge Amado acha da adaptação de suas obras para o cinema e para a televisão. Parece não gostar muito. Seria a transformação de um trabalho artesanal numa espécie de produção em série. De um homem diante da máquina de escrever e do papel para uma equipe de especialistas, dividindo as tarefas.  As adaptações de Jorge Amado, de uma maneira geral, são muito bem feitas. Os recursos da dramaturgia, do vídeo, da reconstituição de época e da música tem muito a acrescentar na obra do autor, sem deformar a verdadeira intenção do autor com a sua obra.

A adaptação é extremamente fiel ao legado de Jorge Amado. O personagem central é Pedro Arhcanjo (Nelson Xavier), seguramente um bom baiano ou a soma de muitos deles. Ele e mestre Lídio (Milton Gonçalves), o riscador de milagres, numa jura de amor imorredouro, se sensibilizam com o sofrimento da Bahia negra, sofrimento imposto pela elite econômica branca, latina e católica. O tempo descrito é o dos anos 1930. Tempos de Hitler e tempos do professor Nilo Argolo (Osvaldo Loureiro), o todo poderoso professor da faculdade de medicina da Bahia, a primeira do Brasil. Tempos de racismo, de eugenia e de arianismo, que tinham como contrapartida, a condenação à inferioridade da raça negra e, mais ainda, das raças misturadas.
A Tenda dos milagres se situava no Pelourinho e era a verdadeira Universidade Popular da Bahia.


A proposta da elite era o zelo pela moralidade e pelos bons costumes, não seguidos pelos negros, que cultivavam as suas próprias tradições, as tradições trazidas da mãe África. Estas tradições ligavam os negros aos festejos do carnaval e aos cultos religiosos realizados nos inúmeros terreiros espalhados por toda a Salvador. Estes cultos são respeitosamente mostrados, sempre presididos pelas mães de santo, como Magé Bassã (Chica Xavier) e por Sabina de Iansã (Solange Couto), após a sua falta. A cultura afro é perseguida com toda a violência policial, sempre agindo no esmero de prestar bons serviços para a elite.
Nelson Xavier no papel de Pedro Archanjo. Que personagem extraordinário.


A liberdade para festejar o carnaval e a liberdade do culto às tradições africanas torna-se o principal objetivo dos grandes amigos Pedro Archanjo e Mestre Lídio. Estes criam a Tenda dos Milagres, em pleno Pelourinho que, aparentemente, era apenas a oficina de trabalho do riscador de milagres. Na verdade, era o grande centro de referência e o ponto de encontro dos sofridos negros em suas perseguições. Magé Bassã faz entender a Pedro Archanjo que a luta seria difícil e que ela exigia disciplina e organização. Deveria haver um trabalho teórico que desse consistência à defesa da causa. Assim Pedro Archanjo, com a ajuda do professor Fraga Neto (Gracindo Júnior), torna-se bedel da faculdade de medicina, transformando-se no contraponto às doutrinas do professor Argolo.

Archanjo abandona a sua vida de vadiagem para se dedicar a uma vida de estudos e de pesquisa e isso lhe exige muita dedicação, organização e disciplina. Redige livros sobre os costumes do povo baiano e alcança o ponto máximo quando descreve, em seu terceiro livro, a origem miscigenada das famílias brancas da Bahia. A indignação de Argolo atinge o seu ápice, pois ele provara que ele e o prof. Argolo eram primos, descendentes do mesmo avô. Também fizeram circular um jornal com as causas negras, ajudados por uma jornalista, Ana Mercedes (Tânia Alves), vinda do Rio de Janeiro. A reação se fez violenta, na mesma proporção do avanço da causa. Os sofrimentos são inenarráveis.
Capas internas dos DVDs com os símbolos da cultura afro. São 4 discos com mais de treze horas.


Archanjo tinha os seus afilhados.O mais importante deles foi Damião (Joel Silva), o primeiro aluno do curso de engenharia e que se enamorou de Luísa (Júlia Lemmertz). O problema é que Luísa é a filha do professor Argolo. Muito romance e suspense se formam em cima deste par. Damião fez carreira no Rio de Janeiro, junto com a equipe de Paulo Frontin. Zabela (Yara Cortes) cumpre papel relevante na minissérie. Seu humor e a onipresente ironia a tornam um personagem com uma presença extremamente agradável.

As cenas de maior violência ocorreram na repressão a festa de 75 anos de Magé Bassã, na destruição da gráfica de mestre Lídio e na sua morte, as cenas da prisão de Ana Mercedes e as perseguições a Pedro Archanjo. Os delegados competem entre si como se estivessem a disputar o troféu de quem era o mais violento. Também o negro Zé Alma Grande (Tony Tornado) se esmerou nessa função. A minissérie termina com o grande reconhecimento a mestre Pedro Archanjo, amado e idolatrado pelo povo da Bahia. Há de nascer, há de crescer e há de se misturar. Essa frase ganha destaque todo especial, tanto no livro, quanto na minissérie.
Contra capa da minissérie, com destaque a diversos personagens, como a mãe de santo Magé Bassã e Luísa.


Gostaria de destacar mais duas coisas. Uma sobre a luta de Jorge Amado em defesa da liberdade religiosa e outra sobre as contradições existentes dentro da Rede Globo de Televisão. Jorge Amado se elegeu Deputado Constituinte e conseguiu aprovar o item referente à liberdade religiosa na Constituição de 1946. Esse item permanece inalterado na atual Constituição brasileira (1988). Quanto a Rede Globo tenho a lamentar o seu comportamento jornalístico, especialmente em tempos de eleição, em que sempre evidencia favorecimentos e, não raras vezes, tendências golpistas. Como é que uma emissora com esse tipo de comportamento produz esta obra prima em favor, acima de tudo, de todas as formas da liberdade de expressão e um libelo contra o racismo e contra a eugenia e a favor da mistura benfazeja de raças e de culturas. A Bahia é um jeito de viver.



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