quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Iracema. Vestibular da USP.

Iracema é uma poesia em forma de prosa. É uma bela história de amor e, como toda a história de amor dentro do romantismo, ela tem muito sofrimento. É um de seus componentes. É um amor impossível, ou então, de consequências terríveis se fosse consumado. Coisas da mitologia indígena. Também é um romance histórico. A visão que José de Alencar tem da colonização portuguesa e o seu choque com a cultura indígena não passa pela relação da contradição. É uma integração harmoniosa. Como isso é possível?
Iracema. Edição da Penguin&Companhia das Letras.

A história é relativamente simples. Remete à história da colonização do Ceará. Seus personagens principais são Iracema, a virgem dos lábios de mel, Martim é o colonizador português, o primeiro em terras cearenses. Iracema é filha de Araquem, o pajé da tribo Tabajara que ocupa as terras do interior cearense. Sempre, em nome de Tupã, recebe bem os brancos. Caubi é irmão de Iracema e tem ainda, Irapuã, o chefe dos guerreiros Tabajaras. Parece que ele gosta de Iracema. Do outro lado e como amigo de Martim está Poti, da tribo inimiga dos pitiguaras, habitantes do litoral.

A virgem dos lábios de mel guarda o segredo de Jurema. Enquanto o segredo for guardado, sua tribo vai bem. Se for violado ela morrerá e sobre o seu povo recairão desgraças. A paixão faz com que Iracema dê para Martim o alucinógeno segredo sob forma de uma bebida. O amor se consuma e o casal vai com Poti para as terras do litoral. Martim arruma cabana para morarem. Mas a guerra chama Martim e Poti, agora contra os holandeses. Quando regressam Iracema já dera a luz a Moacir, um fruto da miscigenação. Conforme a lenda indígena, Iracema morre cumprindo o seu destino.

Eu li uma bela edição da Penguin&Companhia das Letras. Ela tem uma série de notas. Na primeira Alencar fala dos temas que o inspiraram a escrever. Na segunda é reproduzida uma carta que Alencar enviou para o Dr. Jaguaribe. Explícita e muito ilustrativa. Primeiramente Alencar chama o seu romance de literatura amena, para em seguida falar de sua origem: "Cometi a imprudência quando escrevia algumas cartas sobre a Confederação dos Tamoios de dizer: 'as tradições dos indígenas dão matéria para um grande poema que talvez um dia alguém apresente sem ruído nem aparato, como modesto fruto de suas vigílias"'. O livro já estava concebido.

Um pouco mais adiante ele explica melhor: "Quando em 1848 revi nossa terra natal, tive a ideia de aproveitar suas lendas e tradições em alguma obra literária. Já em São Paulo tinha começado uma biografia do Camarão. Sua mocidade, a heroica amizade que o ligava a (Martim) Soares Moreno, a bravura e a lealdade  de Jacaúna, aliado dos portugueses, e suas guerras contra o célebre Mel Redondo; aí estava o tema. Faltava-lhe o perfume que derrama sobre as paixões do homem a alma da mulher". Estava o componente histórico e a poesia. Alencar também dá longas explicações sobre a grafia de muitas palavras.

Alfredo Bosi, em posfácio, nos contempla com uma análise sobre o indianismo de Alencar. Bosi reconhece toda a importância de José de Alencar: "O Guarani e Iracema fundaram o romance nacional". Mas a contribuição mais importante de Bosi é sobre a concepção indígena do romântico romancista. Ela está dentro da concepção de Rousseau do "bom selvagem". O índio de bom grado recebe o colonizador e se esmera ao máximo para recebê-lo bem. Foi o que aconteceu com Martim, na tribo Tabajara, por Iracema e Araquem.
A obra de José de Alencar levada ao cinema. Iracema a virgem dos lábios de mel (1979).

Bosi assim descreve o encontro entre o colonizador e o colonizado: "Assim, o mito alencariano reúne, sob a imagem comum do heroi, o colonizador, tido como generoso feudatário, e o colonizado, visto ao mesmo tempo como súdito fiel e bom selvagem". Os comentários de Bosi se referem mais ao conjunto da obra de Alencar do que a Iracema, mais especificamente, mas são fundamentais para uma melhor compreensão.

Alguma contextualização de José de Alencar também será útil. Ele é cearense, nascido em 1829. Seu pai era extremamente influente, tanto na corte como no governo da província do Ceará. Acompanhou os pais morando mais na corte do que no Ceará. Estudou direito em São Paulo, com passagem também por Olinda. Sempre foi extremamente conservador. O escritor romântico e apreciador das riquezas naturais do Brasil morre no Rio de Janeiro, em dezembro de 1877. Aliás o livro da Penguin&Companhia das Letras, termina com uma detalhada cronologia do autor.

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