quarta-feira, 26 de outubro de 2016

O Pagador de Promessas. Palma de Ouro em Cannes.

O Pagador de Promessas é uma obra escrita em 1959 como uma peça de teatro. Ela foi encenada pela primeira vez em São Paulo, em 1960, no TBC, o Teatro Brasileiro de Comédia. Seu autor é o baiano Dias Gomes. Ela foi levada ao cinema, em 1962, pelas mãos do diretor Anselmo Duarte, que também assina o roteiro, junto com Dias Gomes, o seu autor. O filme se notabilizou especialmente em função de ser o único filme brasileiro que recebeu a Palma de Ouro do Festival de Cinema de Cannes.

O prêmio obviamente foi recebido em função de seus méritos, com grande destaque para a temática abordada, a miscigenação brasileira e, em consequência, o sincretismo religioso e, como resposta, a intransigência da igreja católica que insistia em manter o monopólio da fé. Junto com esta temática também é mostrada a fé ingênua do povo simples, as maldades de aproveitadores na exploração deste mesmo povo e, já que usamos a palavra maldade, a maldade da mídia sensacionalista em fazer intrigas e alavancar as vendas do jornal.
O cartaz promocional de O Pagador de promessas.

A simples curiosidade me levou a rever este filme. Mas tive, com certeza, algumas influências. Primeiramente Jorge Amado, o seu magnífico Tenda dos milagres, com a maravilhosa frase" Há de nascer, de crescer e de se misturar". Também a sua incansável luta em favor da liberdade religiosa que conseguiu inscrever na Constituição de 1946. Na Bahia se misturou tudo: cores, sabores, saberes, sons, hábitos e, acima de tudo, crenças.

Também lembrei de Paulo Freire e o seu magnífico Educação como prática da liberdade, o seu extraordinário capítulo primeiro, sobre a sociedade brasileira em transição. Lembrando que a obra de Dias Gomes foi escrita em 1959 e levada ao cinema em 1962. Não me lembro quando eu o assisti pela primeira vez. Nesses tempos eu vivia protegido destas mundanidades. Eu estava no seminário, donde saí em 1968. Esses tempos eram tempos de profunda agitação política, com Brizola garantindo a volta de Jango, mas que depois tudo ruiu com o golpe de 1964. Eram também tempos de profunda agitação cultural. E eram tempos de reforma agrária.

Bem, vamos ao filme.O roteiro é de extrema simplicidade. Um homem simples, de vida no campo faz uma promessa para Santa Bárbara. Caso seu burro, atingido por um raio, não morresse, levaria uma pesada cruz até a igreja de santa Bárbara, em Salvador, distante de seu sítio uns 40 quilômetros. Fez a promessa num terreiro de candomblé. Também prometeu a divisão de sua terra com o povo pobre do lugar.

Promessa feita é promessa para ser cumprida. Zé do Burro, assim ele era conhecido, junto com Rosa, sua esposa, começa o seu calvário. Os problemas começam com a chegada em Salvador, nas escadarias da igreja da santa, ainda de madrugada e a igreja fechada. Quando padre Olavo fica sabendo que a promessa fora feita em terreiro de candomblé, ele se nega terminantemente a receber Zé do Burro e a sua cruz.

O alvoroço se forma. O cafetão Bonitão vê a beleza de Rosa e a seduz. Zé do Burro concede entrevistas para os jornais de Salvador, que distorcem as suas palavras, transformando-o num agitador político a favor da reforma agrária. O padre Olavo o condena por se apresentar como um novo salvador. Zé do Burro, no entanto, quer apenas cumprir a sua promessa. Pouco entende do que se passa mas nega terminantemente o não cumprimento de sua promessa.

As autoridades se envolvem no caso. A polícia quer prendê-lo, a imprensa o demoniza e o padre leva o caso à alta hierarquia da igreja. Rosa se envolve em confusão com Marly, a amante do cafetão. Quanto mais alta era a hierarquia da igreja, maior era a intransigência. Não era a igreja de Deus ou dos santos, mas a igreja da instituição. Santa Bárbara, segundo a instituição, nada tem a ver com  Iansã. O povo toma o partido de Zé do Burro.

A confusão se generaliza. Zé do Burro não arreda o pé. Quer levar a sua cruz para dentro da igreja e a polícia quer prendê-lo. As mães de santo tomam o seu partido e os capoeiras o protegem. Zé do Burro é morto na confusão e o povo, na marra, carrega a cruz para dentro da igreja. Na sua promessa simples, Zé do Burro encontrou o seu calvário e a sua morte. O tema continua extremamente atual, especialmente, com a ascensão das igrejas fundamentalistas, neopentecostais da corrente da teologia da prosperidade.

As religiões como organizações, dia a dia se afastam da religiosidade e da espiritualidade para se transformarem em instituições de poder e explorarem a fé simples, eliminando assim, o caráter de transcendência da religião. E o povo continua bom, vítima de sua ingenuidade.

O filme se notabilizou também pela segura interpretação do casal da promessa. Zé do Burro é interpretado por Leonardo Vilar e Rosa por Glória Pires, no esplendor de sua juventude. Padre Olavo tem a interpretação de Dionísio Azevedo e a já consagrada Norma Bengell interpreta a amante do cafetão Bonitão. Anselmo Duarte estreia na direção. Filme premiadíssimo.

Além do filme, se eu tiver o direito de fazer recomendações, eu indicaria para a leitura de Tenda dos milagres, que o próprio Jorge Amado considera como a melhor de suas obras. "Há de nascer, de crescer e de se misturar", e com liberdade religiosa, com todo o sincretismo possível.

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