Há muito eu desejava fazer a releitura do livro de Eduardo Galeano, As veias abertas da América Latina. Creio que não poderia ter havido melhor oportunidade do que a do momento, por causa do sequestro praticado por Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos, de Nicolás Maduro, o governante da Venezuela,. É sabido que o país possui as maiores reservas de petróleo do mundo. Mais explícito do que o foi Trump sobre o motivo desse sequestro, é absolutamente impossível: A posse e o controle do petróleo. Não quero aqui emitir qualquer juízo sobre o governo ou o regime de Maduro. Apenas afirmar que tudo o que aconteceu, se deu às margens do Direito Internacional. A vontade de Trump foi superior a toda a legislação construída ao longo de todo um processo civilizatório. Os governadores de estados brasileiros, ligados à extrema direita, tiveram ou simularam orgasmos múltiplos, ao contemplarem a ação não civilizada de Trump.
As veias abertas da América Latina. Eduardo Galeano. Paz e Terra. 2007. Tradução: Galeno de Freitas.Dito isso, vamos ao livro, um dos maiores marcos da história. Galeano nos conta sobre seus propósitos: "Esse livro é uma busca de chaves da história passada, que contribui para explicar o tempo presente (que também faz história), a partir da base de que a primeira condição para modificar a realidade consiste em conhecê-la" (Do posfácio de 1978. Página 341). Galeano terminou a escrita do livro no ano de 1970 e a primeira edição apareceu já em 1971. No Brasil ele apareceu bem tardiamente. Apenas no ano de 1978. Lembro-me bem de sua leitura e de seu uso em sala de aula. Um furor!
É, sem dúvida, um dos maiores livros de denúncia que se possa imaginar. A sangria das riquezas da América Latina, que escorriam pelas "veias abertas", drenadas assim para os países colonialistas e mais tarde imperialistas. É a história da pirataria praticada pelos exploradores espanhóis e portugueses, tanto de nossas riquezas minerais e vegetais, das provenientes da agricultura e, mais tarde, de nossos minerais, nossas riquezas de subsolo. E, ainda mais tarde, a partir dos processos de independência, ou melhor, da troca da dependência da Espanha ou de Portugal, pela Inglaterra, tão ou mais perversa quanto aquelas. Uma história de piratas.
O livro é denso. Tanto em volume quanto em fatos. A edição que tenho em mãos é da Paz e Terra, 46ª edição, do ano de 2007. Presente de um amigo. Ele possui 365 páginas, sob as quais se estendem as duas partes, com os seus cinco capítulos do corpo do trabalho, mais um prefácio de autoria de Isabel Allende, uma introdução e um posfácio, este escrito em 1978. Aos pés da páginas estão centenas de notas explicativas e referências bibliográficas. As duas partes tem os seguintes títulos: Primeira parte: A pobreza do homem como resultado da riqueza da terra; Segunda parte: O desenvolvimento é uma viagem com mais náufragos do que navegantes.
A primeira parte tem três capítulos. De maneira geral, se ocupa dos tempos coloniais. Colônias espanholas e portuguesas. Exploração pura. Nenhuma colonização. Devastação predatória no mais elevado grau. Vejamos os títulos dos três primeiros capítulos e algumas considerações: 1. Febre de ouro, febre de prata. Aí é tratada mais a questão espanhola, já que encontraram essas riquezas logo de saída. O ouro dos maias e dos astecas, a prata de Potosi; os mecanismos de dominação: entre a cruz e a espada, a cruz do convencimento e o desenraizamento das tradições culturais e a espada da violência. O extermínio das populações indígenas. E, mais tarde, o ouro de Ouro Preto. Essas riquezas e o desenvolvimento industrial europeu, predominantemente inglês.
2. O rei do açúcar e outros monarcas agrícolas. O capítulo é aberto com o açúcar do nordeste brasileiro e a devastação dos solos. O mesmo acontece, logo em seguida, com os países caribenhos. Os trabalhadores da economia açucareira e a volta do trabalho escravizado e seus horrores. Depois o ciclo da borracha, do algodão e do café. O sistema de latifúndio e a fome como um subproduto seu. As primeiras lutas em torno da reforma da estrutura fundiária: a Reforma agrária. O autor ainda faz um importante contraponto com o ocorrido nas 13 colônias ao norte. Uma contraposição entre a Lei de Terras do Brasil (1850) e o Homestead Act (1862) dos Estados Unidos
3. As fontes subterrâneas do poder. A avidez em torno das riquezas de subsolo. Vejamos um subtítulo bem ilustrativo: - A economia norte-americana precisa dos minerais da América Latina como os pulmões necessitam de ar -. Uma história de espionagens e de sublevações. Os temas presentes são o guano e o salitre, os fertilizantes tão necessários; o cobre do Chile, o estanho e os seus pobres mineradores, o ferro e outros componentes e o petróleo, ah sim! Até hoje, o petróleo.
A segunda parte tem dois capítulos: os de número quatro e cinco. 4. História da morte prematura. Os ingleses e a independência das colônias. O desenvolvimento industrial. Protecionismo e livre-cambismo. A ditadura dos portos. Uma bela análise da Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai. As raízes missioneiras do Paraguai e sua economia autossuficiente. Protecionismo e nacionalismo. Os empréstimos e as ferrovias. A drenagem das veias na direção dos portos exportadores de matérias primas e importadores de bens de consumo das elites. E mais uma vez, um belo contraponto com as 13 colônias e os seus êxitos, especialmente após a Guerra da Secessão.
5. A estrutura contemporânea da espoliação. O comportamento das burguesias nacionais. As bandeiras que tremulam sobre as máquinas da industrialização. Os mecanismos da dominação pós Segunda Guerra Mundial: O Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial. Empréstimos e endividamentos. Os mecanismos das dívidas externas. A farsa das integrações latino-americanas. A industrialização e a exportação do produto de braços baratos. A industrialização e a nova geração de desigualdades. As profecias de Simão Bolívar. "Nunca seremos afortunados".
No posfácio, Galeano faz uma retomada do livro, sete anos depois. Belíssimas páginas, em 18 diferentes tópicos. Tomo duas frases; A primeira é de Brecht: "Nos países democráticos não é revelado o caráter de violência que a economia tem; nos países autoritários acontece o mesmo com o caráter econômico da violência". A segunda é de um jornal conservador argentino, revoltado com a rotulação de que a Argentina seria um país subdesenvolvido. Vejamos a sua indignação: "Como uma sociedade culta, europeia, próspera e branca podia ser medida com o mesmo metro com que se media um país tão pobre e negro como o Haiti". Vejam o preconceito!
E a frase final: "Nessas terras, o que assistimos não é a infância selvagem do capitalismo, mas a sua cruenta decrepitude. O subdesenvolvimento não é uma etapa do desenvolvimento. É a sua consequência. O subdesenvolvimento da América Latina provém do desenvolvimento alheio e continua a eliminá-lo. Impotente pela sua função de servidão internacional, moribundo desde que nasceu, o sistema tem pés de barro. Postula a si próprio como destino e gostaria de se confundir com a eternidade. Toda memória é subversiva porque é diferente. Todo projeto de futuro também. Obrigam Zumbi a comer sem sal: o sal, perigoso, poderia despertá-lo. O sistema encontra o seu paradigma na imutável sociedade das formigas. Por isto se dá mal com a história dos homens: pelo muito que esta muda. E porque, na história dos homens, cada ato de destruição encontra a sua resposta - cedo ou tarde - num ato de criação". Um livro escrito com muita gana e muita indignação. E por falar em indignação, uma bela frase sobre a esperança: " A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem. A indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão. A coragem, a mudá-las".
E que momento para a leitura! O episódio da Venezuela não contém nenhuma novidade. As veias da América Latina continuam abertas e a sangrar muito. Deixo ainda a resenha de outro belo livro sobre o tema da exploração da América, sob os auspícios da liberdade apregoada pelo iluminismo.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/09/o-seculo-das-luzes-alejo-carpentier.html

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