sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

HISTÓRIA DA RIQUEZA DO HOMEM. Leo Huberman. 1936.

As minhas releituras. Desta vez foi a de um dos livros mais impactantes em toda a minha formação. Trata-se de A história da riqueza do homem, de Leo Huberman (1903 - 1962). Ele foi o chefe do Departamento de Ciências Sociais de uma das mais prestigiadas universidades dos Estados Unidos, a Colúmbia University, de Nova York. Foi jornalista e escritor militante. A pesquisa para o livro foi realizada na Faculdade de Economia de Londres. Um livro de enormes repercussões. A primeira edição apareceu em 1936. Esta data marca, portanto, também o limite dos fatos históricos relatados. Véspera de uma guerra previsível. Guerras inerentes ao sistema.

História da Riqueza do Homem. Leo Huberman. Zahar. 1983. Tradução: Waltensir Dutra.

Não faço a menor ideia de como cheguei ao livro, de indicações recebidas. Mas lembro bem, eu o usei muito como professor do Ensino Médio, no Colégio Estadual de Umuarama. Também lembro de uma outra experiência. A Secretaria de Estado da Educação promovia cursos de formação continuada junto aos professores, via Núcleos Regionais de Educação. Num desses encontros me coube a tarefa de coordenar o trabalho junto aos professores de história da Rede Estadual. Não tive dúvidas. História da Riqueza do Homem foi a minha grande referência. Os resultados foram excelentes. Recentemente encontrei um participante desse encontro. Ele me falou que ele marcou a sua formação. Um bom livro sempre é muito poderoso.

Um amigo meu, com quem eu comentei que estava relendo o livro, também me falou dele. Este amigo foi militante da Ação Popular (AP), uma organização de militância cristã no combate da ditadura civil-militar de 1964. Me contou ele que este livro marcou o seu ingresso na organização, na passagem de um mero simpatizante para passar à categoria de militante. Creio que este fato marca bem a importância que foi dada a este livro como formador da consciência, da consciência de classe, obviamente. Mas o que ele tem de tão extraordinário?

No pequeno prefácio da primeira edição o próprio autor define os objetivos: "Este livro tem um duplo objetivo. É uma tentativa de explicar a história pela teoria econômica, e a teoria econômica pela história. Esta inter-relação é importante - é necessária. O ensino da história se ressente quando pouca atenção se dispensa ao seu aspecto econômico; e a teoria econômica se torna monótona quando divorciada de seu fundo histórico. A 'Ciência triste' quando divorciada, enquanto ensinada e estudada num vácuo histórico". Mais adiante, no capítulo VI, a mesma ideia reaparece:

"Mas não se enquadrava (a ideia de preço justo) na economia do mercado grande, exterior e instável. As modificações das condições econômicas provocaram uma modificação das ideias econômicas. Quando o mercado passou a constituir-se de algo mais do que compradores e vendedores de mercadorias feitas na cidade, e dos produtos das vizinhanças, e quando compradores e vendedores de uma área maior trouxeram ao mercado novas influências, abalou-se a estabilidade das condições locais. Isso ocorreu nas feiras, que não estavam sujeitas aos regulamentos sobre o justo preço. Com a ampliação do comércio, as condições relativas ao mercado passaram a ser muito mais variáveis, deixando aquele preço de ser praticável. Ele deu lugar, finalmente, ao preço do mercado" (Página 71). Ideias econômicas e fatos econômicos se interligam e se movem.

Creio que essas pequenas observações já nos dão a ideia exata do teor do livro. A formação e a análise do sistema capitalista e as suas possibilidades futuras. Mas vejamos isso, a partir da organização do livro: Ele está dividido em duas partes: Parte I - Do feudalismo ao capitalismo e Parte II - Do capitalismo ao...? A primeira parte ocupa treze capítulos e vai até a página 164. A segunda parte ocupa os capítulos de número 14 ao vinte e dois, alcançando a página 318, a página final. Como os títulos dos capítulos não são longos e bastante autoexplicativos eu os apresento, com alguma explicitação a mais.

Primeira Parte: Do feudalismo ao capitalismo. Um apanhado histórico. Capítulo I. Sacerdotes, Guerreiros e Trabalhadores (As estruturas da sociedade feudal); Capítulo II. Entra em cena o comerciante (Das cruzadas à expansão comercial. Mercados e feiras); Capítulo III. Rumo à cidade (As cidades e as corporações. Os mercadores); Capítulo IV. Surgem novas ideias (Concepção medieval sobre juros e usura em prejuízo dos comerciantes. A Igreja); Capítulo V. O camponês rompe amarras (rupturas na estrutura feudal. Novo regime de trabalho. Revoltas camponesas); Capítulo VI. E nenhum estrangeiro trabalhará (Do artesanato à indústria. As corporações de ofício. A ascensão do burguês e o declínio do senhor feudal).

Capítulo VII. Aí vem o Rei (O sentimento nacional. A burguesia se alia ao rei. A Reforma. Uma religião adaptada ao novo sistema). Capítulo VIII. Homem rico (Viagens e descobrimentos. Ouro e prata. A Revolução comercial. Os banqueiros); Capítulo IX. Homem pobre, mendigo, ladrão (Ouro e prata e a instabilidade dos preços. Perdem os trabalhadores. Revolução na agricultura); Capítulo X. Precisam-se trabalhadores - Crianças de dois anos podem candidatar-se (A expansão do mercado. Os industriais e as corporações. Os sistemas de produção); Capítulo XI. Ouro, grandeza e glória (O que faz a grandeza de um país, estímulos à indústria, o transporte marítimo, colônias e mercantilismo); Capítulo XII. Deixem-nos em paz (Os fisiocratas e o laissez-faire contra o mercantilismo. O livre comércio). Capítulo XIII. A velha ordem mudou ( As revoluções burguesas. A burguesia e os trabalhadores. O Código de Napoleão).

Segunda Parte. Do capitalismo ao ...? Uma análise do sistema. Capítulo XIV. De onde vem o dinheiro? (O capital e os meios de produção. A acumulação primitiva e a industrialização. Uma religião para o novo sistema). Capítulo XV. Revolução - Na indústria, agricultura transporte. (A máquina a vapor, o crescimento populacional, um novo estilo de vida). Capítulo XVI. A semente que semeais, outro colhe. (Os trabalhadores e a Revolução Industrial. Jornadas de trabalho e trabalho infantil, o movimento ludista, sindicatos e partidos de trabalhadores). Capítulo XVII. Leis naturais - de quem? (A economia clássica, Malthus e suas teorias, Ricardo e o valor do trabalho). 

Capítulo XVIII. "Trabalhadores de todos os países, uni-vos". (Socialistas utópicos e não utópicos. Marx e o trabalho. A mais-valia. As contradições do sistema capitalista). Capítulo XIX. "Eu anexaria os planetas, se pudesse". (O livre comércio e as medidas de proteção. A grande indústria, trustes e cartéis, as crises de excesso de mercadorias. O colonialismo e o imperialismo). Capítulo XX. O elo mais fraco. (As crises do capitalismo, a tendência decrescente do lucro, a necessidade de acumulação. Remendar ou revolucionar?). Capítulo XXI. A Rússia tem um plano. (Lênin e a Revolução. O coletivo. O planejamento econômico, o comércio externo e o monopólio estatal). Capítulo XXII. Desistirão eles do açúcar? (A pobreza em meio à abundância. O planejamento capitalista. A propriedade privada dos meios de produção. Fascismo e guerra).

Como vimos, o limite do livro é o ano de 1936. Ele termina mostrando as convocações de Mussolini e de Hitler para a guerra, sobre as inconveniências de um sistema de paz. Vejamos. Mussolini: "Acima de tudo, o fascismo... Só a guerra leva a energia humana à sua tensão máxima, e põe o selo da nobreza sobre os povos que tem coragem de enfrentá-la... Assim, uma doutrina baseada no prejudicial postulado da paz é hostil ao fascismo". E Hitler: "Na guerra eterna a humanidade se torna grande - na paz eterna, a humanidade se arruinaria". E mais, dois dos parágrafos finais do livro:

"O fascismo significa guerra. Significa guerra não porque os líderes dos dois países fascistas gostem dela. Significa guerra porque a economia fascista é a economia capitalista com a necessidade de expansão, a mesma necessidade de mercados, que caracteriza o capitalismo no seu período imperialista.

Quando a economia capitalista entra em colapso e a classe trabalhadora marcha para o poder, então os capitalistas se voltam para o fascismo como a saída. Mas o fascismo não pode resolver seu problema, porque nele, do ponto de vista econômico, nada se modifica. Na economia fascista, como na economia capitalista, a propriedade privada dos meios de produção e o lucro são básicos". Em suma, o capitalismo gera crises, nas crises se recorre ao fascismo e o fascismo gera guerras. Os problemas são inerentes ao sistema e não exteriores a ele.

Deixo ainda uma texto que há muito me acompanha. A teoria dos modos de produção. É Marx - no Prefácio da Contribuição à crítica da economia política.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2015/11/prefacio-contribuicao-critica-da.html


 


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado pelo comentário. Depois de moderado ele será liberado.