sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O AGENTE SECRETO. Quatro indicações ao Oscar.

"Em As veias abertas (da América Latina), o passado sempre aparece convocado pelo presente, como memória viva do nosso tempo. Esse livro é uma busca de chaves da história passada, que contribui para explicar o tempo presente (que também faz história), a partir da base de que a primeira condição para modificar a realidade consiste em conhecê-la". Essa memorável frase foi dita por Eduardo Galeano, no posfácio do livro, sete anos depois de sua publicação, portanto, em 1978, uma vez que o livro teve a sua primeira publicação no ano de 1971.

Me lembrei dessa frase, ainda dentro do cinema, quando fui assistir O agente secreto, no dia 15 de janeiro, logo após ele ser premiado em três categorias pelo Globo de Ouro, a saber: melhor filme de drama, melhor filme em língua não inglesa e melhor ator em filme de drama. Prenúncio de indicações ao Oscar. Hoje (escrevo no dia 22 de janeiro) saíram as suas indicações. A cerimônia da premiação ocorrerá no dia 15 de março. O agente secreto recebeu quatro indicações, a maior indicação para um filme brasileiro: melhor seleção de elenco, melhor ator, - Wagner Moura - (pela primeira vez um ator brasileiro recebe essa indicação), melhor filme e melhor filme internacional. Por que da lembrança?

O agente secreto. Cartaz promocional.

O agente secreto é um filme de memória, um filme de história. Ele busca as chaves de fatos ocorridos no ano de 1977, tempos da ditadura de Ernesto Geisel, para, a partir dessa base entendermos o tempo presente, quando ainda trazemos bem vivos os fatos ocorridos no dia 8 de janeiro de 2023, de tentativa de um golpe de Estado para a implementação de um novo regime autoritário. Os fatos retratados, do ano de 1977, integraram uma interminável ditadura civil-militar iniciada em 1964 e que só veio a terminar em 1985 e sepultada com a promulgação da Constituição de 1988. De uma certa maneira, aprendemos a lição da história, quando pela primeira vez os golpistas foram julgados e estão cumprindo penas prisionais. Mas os apreciadores de golpes que buscam se beneficiar com regimes autoritários, não cessam de se movimentar. Anistia, dosimetria das penas e outras aberrações. Tempos inquietantes.

Tempos inquietantes, como foram aqueles ocorridos e narrados no filme. Os fatos de 1977. Quais são então, essas inquietações? Marcelo (Wagner Moura) é um jovem professor universitário, ligado a pesquisas em tecnologia, em conflito com um poderoso industrial. Em busca de paz e de ter uma aproximação maior com Fernando, o filho, se muda para o Recife. Mas o clima de perseguição não muda. Ele o segue. No Instituto de Identificação de Recife conhecerá a corrupção policial instituída. Nesse momento do filme me lembrei de uma frase que eu ouvia à exaustão nesses tempos de regime autoritário. Até o inspetor de quarteirão se julgava imbuído de um poder maior do que o do próprio ditador de plantão. Cenas kafkanianas. De São Paulo vem a sua sentença, a sua condenação.

As cenas passadas em Recife são belíssimas. Marcelo, agora atende pelo nome de Armando, na busca de documentos que possibilitassem, inclusive, a sua fuga do país. Ele recebe boa acolhida no local de sua hospedagem e de amigos que sabem de sua situação, bem como as raras conversas com Fernando, seu filho, que está sob os cuidados do avô, projecionista de filmes no histórico cinema São Luís. Creio ser esse pessoal no entorno de Marcelo/Armando que fizeram o filme receber a indicação de melhor seleção de elenco, com um destaque todo especial para Tânia Maria, no papel de Dona Sebastiana. Mas os seus assassinos conseguem uma aproximação cada vez maior. Cenas de gângster que nada devem a Hollywood. Rastros de sangue. O desfecho aparece em notícia de jornal, junto com a história da perna, da perna cabeluda, engolida por um tubarão.

O filme é longo (2h40m) e não termina aí. Começa a terceira parte. Flávia é uma pesquisadora, que investiga a vida de Elza (Maria Fernanda Cândido), que é uma das pessoas com quem Marcelo/Armando teve muitas relações em sua passagem pelo Recife. Flávia irá doar sangue num hemocentro do Recife. Lá se encontra com o médico de nome  Fernando. Este recebe os documentos da pesquisa de Flávia, cujos originais ela teve que entregar para a universidade privada em que ela trabalhava. Cenas de rara sutileza. Pesquisa, memória, sensibilidades.

O filme tem roteiro e direção de Kleber Mendonça Filho e a segura e já premiada atuação de Wagner Moura. Um brinde ao cinema, à história, à memória e especialmente à democracia. E no meu modesto entendimento, as entrevistas dadas por Wagner Moura sobre o filme, são, no mínimo, tão boas quanto a sua premiada atuação. Orgulhoso com o cinema e a cultura brasileira, que provocou tanto furor na extrema direita, sempre avessa à cultura. E como começamos com uma frase, vamos também terminar com uma citação. Recorro a um livrinho de Umberto Eco, a transcrição de uma palestra na verdade. Nele ele elenca as características do fascismo. Transcrevo todo o item três:

"O irracionalismo depende também do culto da ação pela ação. A ação é bela em si e, portanto, deve ser realizada antes de e sem nenhuma reflexão. Da declaração atribuída a Goebbels ('Quando ouço falar em cultura, pego logo a pistola') ao uso frequente de expressões como 'porcos intelectuais', 'cabeças-ocas', ' esnobes radicais', 'as universidades são um ninho de comunistas', a suspeita em relação ao mundo intelectual sempre foi um sintoma de Ur-fascismo. Os intelectuais fascistas oficiais estavam empenhados principalmente em acusar a cultura moderna e a inteligência liberal de abandono dos valores tradicionais" (ECO, Umberto. Fascismo eterno. Record. Rio de Janeiro. São Paulo. 2018. Páginas 47-49).

Em suma, um filme absolutamente imperdível. Orgulho do cinema e da cultura brasileira e um tributo às instituições da democracia. Profundamente humano.





Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado pelo comentário. Depois de moderado ele será liberado.