sábado, 17 de janeiro de 2026

As Missões dos jesuítas no Paraguai, vistas em - As veias abertas da América Latina.

O tema das Missões sempre me chamou muita atenção. Sobre elas li bastante e já visitei as reduções que são encontradas no Paraguai, na Argentina e no Rio Grande do Sul. Ao longo deste ano de 2026, há no Rio Grande do Sul, uma extensa programação em comemoração aos 400 anos deste tão significativo fato histórico. As festividades ocorrerão tanto em Porto Alegre, quanto em Santo Ângelo, a principal das cidades missioneiras no estado. As ruínas de São Miguel são Patrimônio Cultural da Humanidade. Os chamados Sete Povos das Missões foram cenário de muitos acontecimentos. Portugueses e espanhóis se empenharam em sua destruição. Pelo Tratado de Madri (1750), houve a troca da portuguesa cidade de Colônia do Sacramento pelos espanhóis Sete Povos das Missões. Além da troca, os assinantes do Tratado deveriam também dar um fim ao experimento dos jesuítas. Segue a sangrenta Guerra Guaranítica e o extermínio dos povos indígenas.

As veias abertas da América latina. Eduardo Galeano. Paz e Terra. 2007. 

Ao reler As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, encontrei uma preciosa referência sobre este experimento jesuítico paraguaio. E como no Brasil estamos comemorando o evento de seus 400 anos, trago para este post, o relato encontrado. Inicia com uma referência aos jesuítas em geral e depois, sobre a sua experiência no Paraguai.

"Os fanáticos padres da Companhia de Jesus, 'guarda negra do papa', haviam assumido a defesa da ordem medieval ante as novas forças que irrompiam no cenário histórico europeu. Entretanto, na América espanhola, as missões dos jesuítas desenvolveram-se sob um signo progressista. Vinham para purificar, mediante o exemplo da abnegação e do ascetismo, uma Igreja católica entregue ao ócio e ao gozo desenfreado dos bens que a conquista pusera à disposição do clero. Foram as Missões do Paraguai as que alcançaram o maior nível; em pouco mais de um século (1603-1768), definiram a capacidade e os fins de seus criadores. Os jesuítas atraíram, mediante a linguagem da música, os índios guaranis que tinham buscado amparo na selva ou que nela haviam permanecido sem se incorporarem ao processo civilizatório dos encomenderos e donos de terra. 

Cento e cinquenta mil índios guaranis puderam, assim, reencontrar a sua organização comunitária primitiva e ressuscitar suas próprias técnicas nos ofícios e nas artes.  Nas missões não existia o latifúndio: a terra era cultivada em parte para a satisfação das necessidades individuais e em parte para desenvolver obras de interesse geral e adquirir os instrumentos de trabalho necessário, que eram de propriedade coletiva. A vida dos índios estava sabiamente organizada; nas oficinas e nas escolas, tornavam-se músicos e artesãos, agricultores, tecedores, atores, pintores, construtores. Não se conhecia o dinheiro; estava proibida a entrada de comerciantes, que deviam negociar a partir de hotéis instalados a certa distância. A Coroa sucumbiu finalmente às pressões dos encomenderos criollos, e os jesuítas foram expulsos da América. Os cadáveres pendiam das árvores nas missões; povoados inteiros foram vendidos nos mercados de escravos do Brasil. Muitos índios voltaram a encontrar refúgio na selva. As bibliotecas dos jesuítas foram parar nos fornos, como combustível, ou foram utilizadas para fazer cartuchos de pólvora". A referência, como explica a nota de rodapé, é uma citação de Jorge Abelardo Ramos, retirada do livro Historia de la nación latino-americana. Buenos Aires, 1968. (Nota 45. Página 248).

A música continua muito forte entre os herdeiros dos missioneiros guaranis. São Luiz Gonzaga é uma espécie de capital da música e de outras tradições missioneiras. Ela abriga os chamados quatro troncos missioneiros: Jaime Caetano Braun, Cenair Maicá, Noel Guarany e, o ainda vivo, Pedro Ortaça. Este, agraciado com títulos de Doutor Honoris causa, de universidades gaúchas, em reconhecimento pelo cultivo das tradições missioneiras. Deixo um link sobre eles. Também é missioneiro um outro monstro sagrado da música missioneira, já falecido, Luiz Carlos Borges. Outro missioneiro é o famoso galo missioneiro, o ex-prefeito de Porto Alegre e ex-governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra, da Bossoroca. E o Chamamé, então, o que falar!

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2016/01/a-musica-missioneira-os-4-troncos.html

Deixo também o Érico Veríssimo falando das Missões em sua memorável obra O tempo e o vento.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/03/erico-verissimo-descreve-as-missoes-o.html

E ainda o melhor livro que li sobre o tema: A República comunista cristã dos guaranis, do padre jesuíta suíço Clovis Lugon.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2016/03/a-republica-comunista-crista-dos.html 

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