quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Europa 2019. 5. RÜDESHEIM - CRUZEIRO PELO RENO - ST. GOAR - COCHEM - BURG ELTZ - COLÔNIA.

Dia 23 de julho. Terça feira. Nos despedimos de Frankfurt com um aceno à escultura em homenagem ao trabalhador e ouvindo peculiaridades sobre a cidade, dadas pelo Marcos, que ainda continuava sendo o nosso guia. Uma destas peculiaridades é que na catedral da cidade se coroavam os reis do Sacro Império Romano Germânico. Estávamos, portanto, no seu pleno centro. Na cidade se praticam dois atos, essencialmente, os atos de dormir e de trabalhar. Tive e tenho as minhas dúvidas. Os negócios sem diversão não fazem muito sentido, e, muitas vezes, nem mesmo se realizam. Frankfurt é a capital do estado de Hesse.
O que aconteceu de verdade nas catedrais?

Próximo a Frankfurt se encontra a cidade de Wiesbaden, cidade de águas termais e de muita história. Ela abriga uma base aérea da OTAN. Marcos ainda nos falou das universidades, tanto da de Frankfurt, quanto da de Wiesbaden e de Mainz, com a Universidade Gutemberg, um ilustre morador da cidade. Depois o rio Reno virou o centro das atenções. O Reno não é o maior rio da Europa mas, seguramente, o mais importante do ponto de vista histórico e econômico. No seu estuário está o famoso porto de Roterdã. Ao longo de seu caminho encontramos muitos castelos, histórias, vinhedos e inspirações para a literatura e para a música. Lembrei especialmente de Richard Wagner e o seu Das Rheingold, do ciclo do Anel dos Nibelungos, num trocadilho com o rio e o ouro em estado puro. O guia nos falava de Loreley, a pequena sereia do Reno.
Entre castelos e parreirais. Tour pelo Reno. Patrimônio da Humanidade.

Navegamos pelo rio por aproximadamente duas horas, de Rüdesheim a St. Goar. Este trecho é Patrimônio da Humanidade, assim declarado pela Unesco. Um rio totalmente despoluído. Às margens, temos rodovia e ferrovia. O rio também é usado como meio de transporte, não apenas o turístico. Os rios estão todos interligados por canais. A maioria dos castelos foi transformada em hotéis e pousadas. Foi o passeio mais encantador de toda a viagem. O Reno, junto com o Ruhr formam o coração industrial da Alemanha e a região mais densamente povoada, onde se processou a transformação da economia feudal para a economia capitalista da industrialização, possibilitada pelas minas de carvão. Mas sobre isso iremos falar amanhã. Desembarcamos em St. Goar.
Mais uma cena medieval fantástica.

St. Goar (Sankt Goarshausen) nos remete diretamente para a história de Loreley. É a história de uma sereia, que habitava a região e que, com a sua beleza e o pentear de seus cabelos, seduzia, encantava e distraía os navegadores, levando-os à morte. Nesta parte o rio formava uma curva acentuada, com rochas salientes, águas pouco profundas, margem estreita e forte correnteza. Exatamente na região em que mais atenção se exigia, ela distraía, com seus encantos de sereia, os navegadores desatentos. Fazia isso, conta-se, em função de uma traição amorosa. Como podem ver, um tragédia grega. Loreley se tornou célebre por um romance de Clemens Brentano e imortalizada num poema de Heinrich Heine. Vejam a descrição, a partir do poema de Heine. "Ele descreve a mulher de mesmo nome como uma espécie de sereia que sentada no penhasco acima do Reno e penteando seus cabelos dourados, inconscientemente distraiu os marinheiros com sua beleza e música, fazendo-os colidir com as pedras".
Com a história da Loreley, o nosso tour renano chegava ao seu final.

Como não fomos seduzidos pela Loreley, a nossa viagem continuou. Deixamos o rio Reno e enveredamos pelo Mosela. Seguimos por pequenas estradas vicinais até a cidade de Cochem, onde almoçaríamos. A região é toda formada por pequenas cidades que se dedicam à agricultura e à indústria, atuando no chamado sistema de integração. Muitos também trabalham nas cidades grandes das proximidades. O trânsito permite deslocamentos rápidos e fáceis. Entre os alemães existe uma verdadeira paixão por morar nestas pequenas aldeias. Entre os bosques, o carvalho desponta soberano. Única árvore com folhas não caducas. Uma árvore profundamente simbólica e mística. Suas sombras teriam muitas histórias para contar.

Um pouco de Cochem e um brinde com o vinho branco da uva Riesling.

Chegamos em Cochem, uma pequena e linda cidade medieval, que possui algo em torno de cinco mil habitantes, junto ao Castelo de Reichsburg. O vale do Mosela é uma região de campings, que são procurados, em épocas de férias, pelo povo de menores recursos ou pelo simples gosto de aventura. Cochem me reservou algo muito particular, que me levou a verter uma lágrima. Depois de um lauto almoço, acompanhado de uma taça de vinho branco da uva Riesling, a mais cultivada, quando já voltava para o ônibus, uma bandinha tipicamente alemã, estava tocando. Lembranças da infância, dos Kerb de Harmonia, me vieram imediatamente à mente convulsionando o imaginário.
A encantadora música alemã da minha infância.

Mas, uma outra atração ainda estava em nosso caminho, o Burg Eltz. Ele tinha finalidades estratégicas e sempre foi um dos bastiões do catolicismo. Ele pertence à mesma família, que hoje mora em Frankfurt, e prepara a sua transmissão, por herança, para a 34ª geração. A construção remonta ao século XII. Ao longo de sua história sofreu as mais diversas influências arquitetônicas. Era um excelente ponto de observação para a salvaguarda das férteis terras do rio Eltz, um afluente do Mosela. O castelo se situa em meio a uma floresta de carvalhos. Ele também inspirou Walt Disney, sendo o palácio da madrasta da Branca de Neve, um conto do folclore alemão, recolhido pelos irmãos Grimm.
O carvalho e o famoso Castelo do Burg Eltz

Como estávamos nas proximidades da cidade de Bonn o guia começou a falar da cidade que foi a capital alemã, durante a Guerra Fria, a partir de 1949. A cidade ainda abriga a sede de alguns ministérios e é hoje basicamente um cidade dormitório de Colônia. A capital foi restituída a Berlim após a reunificação alemã. Bonn é famosa por sua universidade, fundada em 1818. Por ela passaram alemães ilustres como Habermas, Heirich Heine, Adenauer, Joseph Ratzinger, (Bento XVI), Marx, Friedrich Nietzsche, além de um outro, que certamente envergonha a instituição, Joseph Goebbels. Por ali passaram também sete prêmios Nobel. A cidade também viu nascer Beethoven, mas este foi logo se estabelecer em Viena, que era então a capital da música.
Uma das maiores e mais simbólicas catedrais.

Com estas conversas já estávamos chegando em Colônia, destino final do dia de hoje. Colônia é acima de tudo uma pujante cidade para a economia alemã. Ali tem sede indústrias ligadas à petroquímica, como a Bayer e uma das maiores sedes da anglo holandesa Shell. Mas nada se compara em fama, à sua catedral, que junto com a de Milão, são as maiores catedrais góticas do mundo. Também é famosa a sua Água de Colônia 4717, que teria sido usada por Napoleão e por Richard Wagner. A sua universidade, a quarta fundada no Sacro Império Romano Germânico, data de 1388 e conta hoje com mais de 50.000 alunos. Entre os famosos estão Alberto Magno e santo Tomás de Aquino e Heinrich Böll, Nobel de Literatura do ano de 1972 e de quem eu conheço o livro O Anjo silencioso. Colônia é hospitaleira, carnavalesca e marcada pela simpatia de seu povo.


Mais duas cenas de Colônia. A sua famosa Água de Colônia e os cadeados para prender o amor.

Me reconheci na cidade, onde estive em 1995. Na oportunidade subi os 503 degraus da torre da catedral, experiência que não recomendo a ninguém. Fui também até a ponte mais próxima do Reno, fazer um reconhecimento de terreno. Ainda sobrou tempo para tomar uma Kohlbier, a mais famosa cerveja local. No dia seguinte teria mais: Düsseldorf, Zollverein (Essen), Hamelin e Hannover.




terça-feira, 13 de agosto de 2019

Europa 2019. 4. FÜSSEN (Neuschwanstein)- ROTEMBURGO - FRANKFURT.

Segunda feira, dia 22 de julho. A cada dia novos encantos. De Munique partimos para o sul, no rumo dos Alpes e, já próximos da divisa com a Áustria. A paisagem se modifica um pouco. Os trigais e milharais cedem espaço para a pecuária leiteira e para as áreas de reflorestamento. Marcos continua sendo o nosso guia. Nos fala das cidades a serem percorridas, assim como de Frankfurt, o nosso destino de hoje. Frankfurt é uma cidade de negócios e de passagem. Ela dorme cedo. Lá se dorme e se trabalha. Tenho minhas dúvidas. Cidade de negócios...
Possivelmente o Castelo mais bonito do mundo. Neuschwanstein.

A medida que avançamos, a paisagem continua se modificando. Os Alpes já estão ao alcance dos olhos. Ainda estamos na Baviera. A região é muito parecida com as colônias alemãs do Rio Grande do Sul. Inicialmente a região fazia parte do Sacro Império Romano Germânico e depois integrou o reino da Bavária. Um de seus reis se tornou muito famoso, por ser louco e que por ocasião da unificação alemã se isolou completamente. Trata-se de Luís II, ou o rei Ludvig, já que Ludvig é Luís em alemão. Uma de suas maiores loucuras foi a construção do Castelo de Neuschwanstein, quando os castelos já não mais faziam qualquer sentido.
Detalhes mais próximos do fabuloso Castelo.

O Castelo é uma obra ímpar da arquitetura romântica alemã e que simboliza todo um mundo de sonhos. A decoração interna tem como tema os cenários das óperas de Richard Wagner e a exaltação dos mitos alemães, a mitologia nórdica. O rei Ludwig II teve uma intensa relação com o compositor. O castelo possui mais de duzentos cômodos e quase levou o reino bávaro à falência. Chegou a custar o dobro do previsto, lembrando que os cálculos são alemães. É um castelo de conto de fadas. O nome tem o significado de Novo (Neu) Cisne (Schwans) de Pedra (Stein). Fica próximo ao Schwansee, o lago dos cisnes. O Palácio foi usado por apenas 172 dias.
Um outro Castelo nas proximidades de Füssen, nas vizinhanças com a Áustria.

Hoje o Neuschwanstein é uma das maiores atrações turísticas da Alemanha, recebendo em torno de dez mil turistas diariamente e em torno de 1,5 milhões ao ano. Este palácio serviu de inspiração para que Walt Disney construísse o Palácio da Bela Adormecida na sua Disneyworld. A cidade de Füssen, a cinco quilômetros da fronteira com a Áustria, lhe serve de base de apoio. Você sobe ao palácio por um ônibus e tem a opção de voltar com o mesmo, ou a pé, ou ainda, com charmosas charretes. Teria valido muito a pena ter ficado mais tempo para uma visita ao interior do palácio. Mas a nossa rota continuaria, por aquilo que os alemães chamam de rota romântica. Fizemos uma parada para o almoço num lugar ambientado com a história dos irmãos Grimm, João e Maria.
Na bela cidade, onde tudo remete ao natal. Rotemburgo.

Chegamos, agora já no estado de Baden-Württemberg, cuja capital é Stuttgart, na pequena e medieval cidade de Rotemburgo, protegida por dupla muralha. Medievalismo e a tradição natalina garantem a fama da cidade. Da cidade conta-se uma lenda que é bem famosa. A cidade era protestante e durante a Guerra dos 30 anos (1618-1648) os católicos a tomaram. Consta que nas negociações, para que a cidade não fosse destruída, o chefe protestante teria que tomar três litros de vinho, num gole só. Foi o que ele fez, sem qualquer cerimônia. Se não quiser acreditar, você poderá dizer que a cidade foi preservada por outros motivos, como pagamento em dinheiro e por ser rica em fontes de água. Ao menos tem mais lógica. Esta história é muito contada e ajuda na atração de turistas. A cidade também se orgulha por ter sido escolhida para as filmagens por Walt Disney, para a história italiana do Pinóquio.
Mais detalhes da cidade de Rotemburgo.

Mas o que torna a cidade famosa mesmo é a sua vinculação com o natal. Em todo o mês de dezembro e em todos os dezembros, a cidade é uma festa só. Muitos motivos natalinos permanecem o ano todo. Encontra-se na cidade também o Deutsches Weihnachtsmuseum, onde é natal o ano inteiro. O museu fica dentro de uma grande loja. É uma grande mostra da evolução das decorações e tradições natalinas. Uma cidade muito aconchegante, com as suas casas multicoloridas.
Os detalhes do conceito de pertencimento. O cuidado.

O destino final deste dia seria em Frankfurt. A cidade é famosa pelo seu aeroporto e por ser o grande centro financeiro da Alemanha e de toda a Europa. Possui em torno de 700.000 habitantes, mas tem a marca de uma cidade de passagem, sem uma identidade definida. Ela é banhada pelo rio Main, o que permite um trocadilho, para dizer que ela é a Mainhattan alemã. A cidade foi toda ela bombardeada na Segunda Guerra mas foi totalmente reconstruída e, hoje, conta com inúmeros arranha céus, que servem de sede para as instituições financeiras e para os centros de eventos, que ocorrem com muita frequência.
O multicolorido da cidade de Frankfurt.

Ela abriga o Banco Central alemão e também o Europeu e, ainda a mais importante Bolsa de Valores alemã. Seu ponto mais visitado é o aeroporto, o terceiro maior da Europa. É uma cidade em que muitos vem em busca de fortuna. Também é uma cidade de extremos, entre a riqueza e a pobreza. O guia fez uma pequena menção à Escola de Frankfurt, uma Escola dentro da Universidade. Lembrei muito de Adorno e da infelicidade de Walter Benjamin, bem como, da transferência desta escola para a Universidade de Colúmbia, em Nova York, nos tempos do nazismo. Seus pensadores eram majoritariamente judeus.
Frankfurt homenageando o trabalhador.

Com um bom jantar encerramos as atividades do dia, sobrando ainda um tempo para tirar uma foto de uma homenagem ao trabalhador, em constante movimento. O dia seguinte seria uma grande promessa: Rüdesheim am Rein, com um cruzeiro pelo rio Reno, para depois ladearmos o rio Mosela e almoçar em Cochen, acompanhado por uma taça do mais famoso vinho alemão da uva Riesling. O destino final seria a cidade de Colônia.
 

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Europa 2019. 3. KELHEIM - LANDSHUT - DACHAU - MUNIQUE.

Dia 21 de julho. Domingo. O dia começou com uma surpresa agradabilíssima. Um passeio de barco pelos cânyons do rio Danúbio, as chamadas "gargantas do Danúbio". O rio é o segundo maior rio da Europa e que passa pelas mais importantes capitais e cidades europeias, indo desaguar no Mar Negro, na Romênia. Viena, Bratislava, Budapeste e Bucareste são cidades banhadas pelo rio, citando apenas as capitais. Suas águas serviram de inspiração para Strauss compor o sua famosa "Danúbio Azul". 
Um dos passeios mais chiques da minha vida. Pelos cânyons do rio Danúbio.


Chegamos a um determinado ponto para pegarmos o barco que, após 40 minutos de navegação, contra a correnteza, nos deixaria na aprazível cidade de Kelheim. Esta é famosa pelo seu convento e a sua cerveja produzida pelos monges. Uma das mais conhecidas cervejas da região é a Weltenburger Kloster, a cerveja dos monges, que chegaram a ela através dos processos de purificação da água, visando dar ao povo uma água de boa qualidade para o consumo. A produção das cervejas nesta região remete aos anos 800 até se consolidarem por volta do ano de 1040. Adorei esta história da busca do processo de uma água potável de boa qualidade. Na viagem já havíamos visto as plantações de lúpulo, uma trepadeira de uns quatro metros de altura. É da família da maconha. Encontrei a seguinte explicação: "Lúpulo, ou pé-de-galo é uma liana, angiosperma, da espécie Humulus lupulus, da família Cannabaceae, nativa da Europa, Ásia ocidental e América do Norte". Será que é por isso que a cerveja vicia tanto!


Que vontade de trazer uma para cada um de vocês.

Mas voltamos ao passeio. Uma paisagem belíssima, em meio a um rio cheio de curvas e de penhascos, formando a paisagem típica dos cânyions. Barco confortável com boa estrutura de bar. O destino será o famoso mosteiro dos monges produtores de cerveja. Fizemos uma pequena parada e por isso não fizemos a degustação destas famosas cervejas. Mas a cidade é uma bela opção para quem tiver tempo e estiver hospedado nas imediações de Munique e Nuremberg. Também existem as histórias medievais e das poderosas dinastias regionais.

Uma plantação de lúpulo.

Marcos, o guia nos falava das enchentes do Danúbio. Elas são infalíveis, ocorrem todos os anos, maiores ou menores. São uma combinação da água das chuvas com o derretimento da neve. Um dos fatores que permitiu a ascensão ao poder de Ângela Merkel foram exatamente as enchentes do ano de 2005, muito mal administradas pelo poder da época. A senhora Merkel então ascendeu ao poder e nele se mantém até os dias de hoje. Apesar de conservadora, ela transita bem junto a outros partidos. Ela é originária da antiga DDR e lida bem com a política para refugiados. A Alemanha, em constante expansão econômica, tem programado receber seis milhões de refugiados para os próximos anos.
A torre de tijolos que deu fama à cidade.

Seguindo viagem, em meio a belíssimas paisagens de campos cultivados e de bosques, chegamos a Landshut, já nas proximidades de Munique. Landshut é famosa, entre outras coisas, por sua torre de tijolos, a mais alta do mundo, neste segmento, com seus 130 metros de altura. Landshut também tem uma festa típica, a Landshuter Hochzeit, realizada de quatro em quatro anos e que remete a um casamento medieval, transformado em grande e colorida festa popular, com trajes medievais. A cidade está em grande crescimento econômico, por influência de sua proximidade com Munique. O aeroporto de Munique está muito próximo. Chamam também atenção as suas casas multi coloridas.
O multicolorido da cidade.

A nossa próxima parada seria a mais triste de todo passeio. Uma visita ao campo de concentração de Dachau, numa antiga e abandonada fábrica de pólvora. Confesso que não me causou tanto impacto, quanto a minha primeira visita, feita em 1995, em Bergen Belsen, um campo de reclusão de mulheres, nas proximidades de Hannover. O cenário é de absoluta tristeza, mas um memorial necessário. É preciso lembrar, para que fatos como estes não se repitam nunca mais.
Um triste cartaz no Museu do campo de Dachau. "Nossa última esperança". Imagina!

Dachau se especializou em receber os opositores do regime, já a partir de 1933. Atingiu o seu apogeu de presos em 1941. Por ali passaram mais de 200 mil pessoas e mais de 30 mil foram executadas. Tudo indica que câmaras de gás não chegaram a ser usadas. O campo foi libertado  no dia 29 de abril de 1945, chegando a haver execuções de oficiais nazistas. Foram encontrados centenas de corpos empilhados já em estado de decomposição. Ainda havia ali mais de 30 mil pessoas por ocasião da libertação. A partir de 1948 o espaço passou a ser utilizado como campo de refugiados e a partir dos anos 1960 passou a ser  transformado em Memorial. Foi o primeiro e o maior de todos os campos de concentração.Me lembrei muito de Adorno e de Hanna Arendt, neste triste lugar. Talvez o fato de estarmos em um tour turístico tenha amenizado os terríveis impactos do lugar e de suas imagens.
Dachau em números e numa estampa. Tristeza profunda.

Pouco tempo depois já estávamos em um dos templos sagrados do capitalismo. O recinto do BMW Welt, um centro de exposições multifuncionais da famosa marca de carros. Junto há um museu e o seu centro administrativo. É um mundo que pouco me encanta. Ao lado está o Olympiadstadium, o local onde foram realizados, os tristemente lembrados, jogos olímpicos de 1972. Sobrou ainda tempo para passear no centro da cidade, visitar o Marienplatz, a Rathauss e o entorno com as famosas cervejarias e restaurantes. Apesar de domingo, havia muito movimento, mas o comércio em geral estava fechado. Uma espiada, um ouvir de música de banda alemã e uma olhada na exposição dos joelhos de porco assando na famosa Hofbräuhaus.
Três imagens da poderosa Munique.

A cidade foi fundada por monges franciscanos, no século VIII. A cidade sofreu muito com as pestes e no Marienplatz está a coluna da Peste, erguida ao final de 150 anos da peste. Estas colunas são encontradas em muitas cidades e eram locais dedicados à oração para que as cidades se livrassem das terríveis consequências da peste negra. A cidade não foi bombardeada ao final da Segunda Guerra e pro isso conserva o seu centro histórico intacto. É uma cidade em franco desenvolvimento e uma cidade com alto custo de vida. É a sede das famosas Octoberfest, com muita cerveja e muita música. Descanso merecido diante da perspectiva de um dia intenso na sequência. Füssen e o Castelo de Neuschwantstein, Rotemburgo e o seu museu de natal e a internacional Frankfurt estavam em nosso horizonte.


sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Europa 2019. 2. DRESDEN - BAMBERG - NUREMBERG.

Hoje é o dia 20 de julho, um sábado. Saímos de Berlim as 7h30, o que significa que levantamos as 6h00. Percorreríamos 540 quilômetros. No horizonte se descortinavam as cidades de Dresden, Bamberg e Nuremberg. Lentamente deixamos Berlim para trás, a sua rua chique, a das compras de marcas famosas, a Kurfürstendamm, o aeroporto de Tegel, rumo ao sul, passando pelos estados da Saxônia e da Baviera.
Dresden, muita história e beleza.

Marcos é o nosso guia. Vai nos contando sobre a Alemanha, sobre Berlim, sobre a economia e a política alemã e, sobretudo, sobre Dresden, o nosso primeiro destino. A cidade  possui algo em torno de 550.000 habitantes e é Patrimônio Cultural da Humanidade. Impressionam os seus palácios e as suas igrejas, a católica e a protestante. A região pertencia ao Sacro Império Romano Germânico e sempre foi ocupada por poderosas dinastias, como os Witten e os Hohenzollern. São povos de origem eslava. Chegou, inclusive, ser a cidade residencial dos reis da Polônia (1697-1763), dos reis Augusto II e Augusto III. Foi o seu período de maior esplendor.
Os impressionantes palácios de Dresden.

A cidade é mais conhecida por sua riqueza cultural do que econômica. Em 1945 sofreu um bombardeio, considerado criminoso, pois, a cidade não tinha tanta importância estratégica. Este bombardeio matou mais de 25.000 pessoas e arrasou a cidade. No período da Guerra Fria fez parte da República Democrática Alemã. É a capital do Estado da Saxônia. É também forte cidade universitária, com o domínio da tecnologia sobre as humanidades. A sua denominação, inclusive, é Universidade Tecnológica de Dresden e abriga mais de 40.000 alunos. A cidade é também famosa pela sua porcelana, a porcelana de Meissen, que continua sendo produzida.
A porcelana tornou a cidade famosa.

A cidade é dominantemente protestante, apesar de toda a sua vinculação histórica com a católica Polônia. O que eu vi foi, efetivamente, muito maior do que a expectativa que eu alimentava. O castelo e as igrejas evidenciam que foi uma cidade muito importante. Hoje é também importante centro de produção industrial, da indústria química e aeronáutica. Muito contribui a sua excelente localização, nas proximidades de Berlim e de Praga. Uma cidade tipicamente barroca e é esta parte cultural que lhe confere todo o seu charme. A Florença do rio Elba. É Patrimônio Cultural da Humanidade.
Reflexos medievais da cidade.

De relance, Marcos falou que nem tudo são maravilhas nesta cidade. Ela abriga um movimento ultra conservador, o PEGIDA, sigla para Patriotische Europäer gegen die Islamisierung des Abendlandes ou Europeus Patriotas contra a Islamização do Ocidente, é uma organização de extrema-direita que se opõe à imigração de muçulmanos na Alemanha. Foi o que eu busquei agora no Google.
O pórtico de entrada da cidade.

Saímos de Dresden e da protestante Saxônia para entrar na católica Baviera. A entrada seria pela cidade de Bamberg, que ostenta o seu catolicismo com santos nas fachadas das casas. Pelo caminho, enormes trigais, com trigo já colhido e ainda por ser, milharais, bosques de reflorestamento, placas de energia solar e cata-ventos de energia eólica. Mais falas de Marcos, o guia. Até 2025 a Alemanha desativará 9 usinas de energia nuclear e fará um enorme esforço em torno da energia renovável. Também para 2025 a pretensão é a de circularem apenas carros movidos à energia elétrica.
A presença de santos na fachada das casas é anúncio de que chegamos na católica Bamberg.

Chegamos em Bamberg, na região chamada de Francônia. É um importante centro cultural e comercial. A cidade não foi bombardeada e, desde 1993, é Patrimônio Cultural da Humanidade. É também importante centro universitário. Possui em torno de 75.000 habitantes. Sempre teve forte presença religiosa, ligada a ordem dos beneditinos. Seu principal personagem histórico é Henrique II, um rei e santo da igreja católica. Chegou a ser, por algum tempo, a sede do Sacro Império Romano Germânico. A catedral e os palácios são o seu grande patrimônio histórico e por ser uma cidade muito católica, também se tornou famosa pela caça às bruxas, as famosas Hexen. Também a cerveja defumada Rauchbier é uma marca da cidade, assim como os artistas de rua.
A bela catedral da católica Bamberg.

O destino final do dia seria a importante cidade de Nuremberg, que ganhou muita fama em função dos julgamentos dos criminosos do nazismo, após a Segunda Guerra Mundial. Como o tema já ganhou muita literatura, não me atenho a ele, para destacar outros aspectos desta importante cidade, que eu desconhecia. Pelo julgamentos dos criminosos nazistas a cidade se vinculou à construção dos Direitos Humanos. No passado, lamentavelmente, a cidade teve fortes vínculos com o nazismo. Foi ali que se realizaram os grandes congressos e comícios do Partido (1923 a 1939), grandes espetáculos da propaganda nazista, filmados e amplamente divulgados. Por esta vinculação foi considerada como a capital do nazismo e, por isso mesmo, também intensamente bombardeada.
Impressionantes prédios históricos foram reconstruídos na bombardeada cidade.


A cidade foi um importante centro do Sacro Império Romano Germânico e os seus prédios históricos foram todos reconstruídos. A sua localização geográfica sempre a tornou um importante centro econômico e estratégico. A sua pujança econômica é impressionante. Ela é sede de muitas das grande empresas alemãs de alta tecnologia, em praticamente todos os setores. Ali tem sede empresas como a Adidas e a Puma, a Bosch e a Playmobil, a Siemens e a Novartis Pharma, a Faber Castel e a Nestlê, assim como os veículos pesados da MAN.
A imponente presença das igrejas, das catedrais.

Historicamente a cidade esteve muito ligada ao Renascimento e é conhecida como a Florença germânica. Albrecht Dürer foi o seu grande nome. Um sábio universal. Teve grande influência na Alemanha e nos Países Baixos. Seus prédios históricos, inclusive parte de seu muro, de origem medieval foram totalmente reconstruídos. Possui a segunda maior universidade da Baviera, fundada em 1742, a Erlanger-Nuremberg, com mais de 40.000 alunos e muitos convênios internacionais. É banhada pelo rio Pegnitz e um canal interliga os rios Main e o Danúbio. Ali pernoitamos. O hotel estava muito bem localizado, junto a parte central e histórica da cidade. O dia seguinte nos reservava, ainda na Baviera, Kelheim, Landshut, Dachau e Munique.
A presença do cuidado nesta encantadora cidade.


quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Europa 2019. 1. BERLIM.

Sexta feira dia 19 de julho. É óbvio que uma viagem internacional sempre gera expectativas. Depois de muitos preparos, com consultas e leituras, o dia 17 de julho chegou. Curitiba - São Paulo - Frankfurt - Berlim. A viagem na mais absoluta normalidade. Uma viagem longa e um voo de quase 12 horas entre São Paulo e Frankfurt. Um fuso horário de cinco horas. Chegada tranquila em Berlim. Hotel Proarte Maritim, a menos de 700 metros do Portão de Brandemburgo. Melhor impossível. Primeira saída para um lanche e descanso. O dia seguinte prometeria.
O primeiro lugar visitado. O majestoso Portão de Brandemburgo. 

Já pela manhã do dia 19 de julho, as 8h00 estávamos no ônibus da Europamundo, para o city tour na cidade de Berlim. Estávamos na Unter den Lindenstrasse, a principal avenida da cidade, sob o ponto de vista histórico. Ônibus de mais de 60 lugares, todos tomados. A guia local mal e mal começou a falar e já descíamos no Portão de Brandemburgo, uma antiga porta da cidade e, seu símbolo maior. Muita história, tanto da Alemanha, quanto da cidade. A sua primeira origem remonta à guerra dos 30 anos (1614- 1648), que envolveu toda a Europa, movida pelas lutas entre católicos e protestantes, por questões de lutas dinásticas e demarcação de fronteiras.
A quadriga do portão de Brandemburgo, com a deusa da paz - Irene.

Ao final do século XVIII o portão ganhou mais ou menos o seu atual contorno, com as 12 colunas gregas e, em cima, uma quadriga com a deusa grega da paz, Irene. Já no início do século XIX, ou mais precisamente, em 1806 Napoleão leva a quadriga para Paris, de onde ela retorna em 1814, após as derrotas de Napoleão. Como testemunha viva da história esta deusa grega ainda teria muitas histórias para nos contar. Na sua volta a quadriga ganha, como acréscimo, uma águia e uma cruz de ferro, simbolizando a vitória e não mais a paz, tão desejada pela deusa. Por este portão Hitler entra triunfante na cidade no fatídico ano de 1933.
Mais uma foto do famoso portão.

A sua história ganha novos contornos ao final da Segunda Guerra, quando sofreu danificações em virtude dos bombardeios à cidade e gerará novas controvérsias com a divisão da cidade pelos acordos pós guerra. O portão ficará no lado oriental e já não será mais um ponto de passagem, um portão. Ele ficou na divisa entre a parte soviética e inglesa da cidade. Com a construção do Muro de Berlim o portão fica praticamente isolado, ladeado pelo muro e, com uma inversão de lado, por parte dos cavalos. Os russos não sabiam bem o que fazer com toda esta questão simbólica e chegaram a fundir quase que totalmente a quadriga.
Lembranças do muro. Ele passava no lugar demarcado.

O local ganhou também nova força simbólica com a noite de 9 para 10 de abril de 1989, com a queda do muro e a reabertura do portão a partir de dezembro do mesmo ano. O cenário foi muito explorado pelas televisões do mundo ocidental. Hoje é o ponto de passagem para o Reichstag, o Parlamento alemão, palácio incendiado pelos nazistas em 1933 e para o Tiergarten, o jardim zoológico no centro da cidade. Nas proximidades se encontra também o Fernsehturm, a torre da televisão, um dos símbolos da cidade, que ficava também na parte oriental.
Vista do Fernsehturm, também um dos símbolos da cidade.

Do Portão seguimos a pé para o Memorial do Holocausto. Antes ainda pudemos ver na rua a demarcação do muro, com tijolos no asfalto, como pode ser visto na foto que anexada. O Memorial ou o Denkmal für die ermordeten Juden Europas, foi construído entre os anos de 2002 e 2003, sob a responsabilidade do arquiteto Peter Eisenman. Ocupa 19 mil metros quadrados e é formado por 2711 blocos de concreto. Estes tem 2,38 metros de comprimento e 0,95 de largura e altura variada. O arquiteto quis provocar a intranquilidade de quem o vê. Intranquilidade diante de um mundo que se desconectou da racionalidade humana. Um lugar que faz pensar e que provoca arrepios.
Uma vista do Memorial do Holocausto. Triste mas necessário.

Voltamos ao ônibus. Passamos pelo imponente Reichstag, pelo bairro das embaixadas e fomos parar no Museu Memorial do Muro de Berlim. Novamente a pé, andamos ao longo do muro, na zona neutra ou zona da morte. Vimos partes que sobraram, uma das guaritas e retratos das pessoas que morreram, tentando a travessia. Lembrando que ele foi levantado em 1961 e marcou um dos pontos mais controvertidos da chamada Guerra Fria. No local que sobrou ele dividiu um cemitério, e a guia deus longas explicações, sempre apontando as separações causadas pelo muro. Um dos momentos muito simbólicos da história e um marco da propaganda contra o socialismo real, aquele implantado pelo regime soviético. A guia desenhava no chão um mapa da divisão de Berlim em quatro partes, a soviética, a inglesa, a americana e a francesa. É preciso lembrar que capitalistas e comunistas lutaram juntos na guerra e  que a União Soviética foi protagonista na derrota do nazismo. Foi o Exército Vermelho que tomou a cidade de Berlim. Cenas onde a história efetivamente aconteceu.
Duas cenas que remetem à memória da existência do Muro.

O city tour foi praticamente isso. A tarde seria livre, com opção para ir a Postdam, a cidade do império prussiano. Muita história. Como voltaríamos a Berlim, não fizemos este passeio neste dia. Aproveitamos a tarde para andar a esmo, aproveitando a excelente localização do nosso hotel. Fizemos um passeio pelo rio Spree, um passeio imperdível. Ali o rio forma a chamada ilha dos Museus. É museu, um ao lado do outro. Este país investe muito em cultura. Passamos também pela Universidade Humboldt, a famosa universidade alemã, situada na rua Unter den Linden. Entre seus alunos ilustres estão nomes como os de Schopenhauer, Fichte, Hegel, Marx, Engels e os cientistas Eisntein e Max Planck. Ela detém 29 prêmios Nobel. Como ela se situa na parte oriental, em 1948, com a Guerra Fria, foi criada, na parte ocidental a Universidade Livre de Berlim, outra universidade de elite da Alemanha. Tomamos ainda um ônibus, do tipo que temos em Curitiba. Sobre preços: ônibus a 17 euros, passeio de barco a 15 euros e almoço em torno de 15 euros, com direito a chopp de maio litro.
Cenário descortinado no passeio pelo rio Spree.

Berlim é uma cidade diferente e impressionante. É uma cidade jovem em tudo e absolutamente cosmopolita. Muita gente, do mundo todo, ali realizou e continua realizando sonhos. A Alemanha tem uma economia estável, e é um só canteiro de obras. Dificilmente se tira uma fotografia sem que as gruas apareçam. A bicicleta está onipresente, assim como os patinetes, uma febre mundial. Dificilmente ocorrem engarrafamentos de trânsito. Possui hoje mais do que  três milhões e meio de habitantes. Emprego pleno. Politicamente usufruem de estabilidade. Angela Merkel está no poder desde 2005. Amanhã tem mais. Dresden e Nuremberg.