terça-feira, 22 de setembro de 2015

A ferocidade se aprende. Não é inata. nada é natural.

Nesses tempos neoliberais já ouvi falar muito em ranking, principalmente na educação. Ele é tido como um dos medidores da meritocracia. Agora, com a leitura de ZeroZeroZero, de Roberto Saviano me deparei com o ranking mais triste que já vi: O ranking da crueldade. Saviano apresenta os principais competidores. Sérvios, tchetchenos, liberianos, albaneses, romenos, croatas e esquadrões especiais como os Legionários franceses, El Tercio espanhol e o Bope brasileiro são alguns dos players em competição. Boinas-verdes e rangers sempre aparecem como treinadores. Seriam os templários do mundo moderno?
No livro de Saviano encontramos o capítulo sobre a ferocidade que se aprende.


Como já fiz a resenha do livro, quero hoje apresentar o capítulo # 3, subcapítulo 5, - A ferocidade se aprende. Seguramente, na minha condição de professor, de educador e formador, é a coisa mais triste que eu já li. Maquiavel, em O Asno, tem uma observação que me marcou profundamente: "Não inflige dor um porco a outro porco, um cervo a outro: somente o homem outro homem mata, crucifica e despoja!". com esta leitura, dá para complementar, que ele se esforça, e muito, para fazer isso. Não existem limites para a atrocidade humana.

Nos treinamentos, não é só musculação que é feita. É preciso atingir a consciência e domesticar a mente. "A ferocidade se aprende. Não é inata", constata Saviano para, logo em seguida, continuar: "Pensar que a ferocidade é intrínseca ao ser humano é cômodo e faz o jogo de quem quer limpar a consciência sem antes prestar contas". Nada é natural, já nos dizia Brecht, pois tudo é cultural. Lembrando que a cultura é a invenção humana por excelência. Tristeza. A experiência relatada é a dos "Kaibil", da Guatemala. Este país viveu uma sangrenta guerra civil, que durou 36 anos, de 1960 a 1996.
Roberto Saviano é considerado um heroi nacional por Humberto Eco. A força do jornalismo investigativo.


Os "Kaibil" surgiram em 1974. Foi formado como um Esquadrão da elite Antissubversão do Exército da Guatemala, com a criação da Escola Militar que se transformou no Centro de Adestramento e Operações Especiais Kaibils. Foi considerada como a melhor força anti subversiva e transformada, a partir de 1996, a pedido do governo dos Estados Unidos, como o exército da Guatemala. A melhor definição de quem são os "Kaibils" é muito simples: são "máquinas de matar". A Guerra Civil da Guatemala deixou um saldo de 200.000 mortos, 36.000 desaparecidos e 626 massacres. Das denúncias desses horrores é que surgiu Rigoberta Menchu, prêmio Nobel da Paz de 1992.
Encontrei algumas imagens dos Kaibil.


"Oito semanas", relata um soldado, "oito semanas e tudo o que existe de humano no ser humano desaparece". O relato do soldado continua: "Em dois meses, pode ser extraído de um corpo tudo o que o diferencia dos animais. O que faz com que ele distinga maldade, bondade, moderação. Em oito semanas, você pode pegar são Francisco e transformá-lo em um assassino capaz de matar animais a dentadas, sobreviver bebendo só mijo e eliminar dezenas de seres humanos sem sequer se preocupar com a idade das vítimas". Como se consegue isso? O que seria uma aula desse aprendizado? Um kaibil, que jamais será um ex kaibil, explica:

"Lá, você aprende o que é um irmão guerreiro. Dividimos o rancho, ficamos juntos quando faz frio, pedimos para levar porrada até sair sangue para manter o nervosismo adestrado" e o autor comenta: "Deixar de ser homem, deixar de ter as suas melífluas qualidades e seus imperfeitos defeitos. Tornar-se um kaibil. Viver odiando". O autor ainda nos dá a inscrição de um centro de treinamento: "Bem-vindos ao inferno" e "Se eu avançar, me siga. Se eu parar, me empurre para a frente. Se eu recuar, me mate". O kaibil ainda relata as diferentes fases do treinamento.
Imagens e simbolizações dos Kaibil.


A primeira fase dura vinte dias, depois vem a segunda, de 28. Esta é realizada na selva. "Rios, pântanos, campos minados. Essas são as casas dos Kaibiles. E, assim como você ama a sua casa, o Kaibil ama a dele". Depois vem a última semana. Concluída esta, você será um Kaibil de verdade. "Você aprende a se alimentar com o que tiver, com o que encontrar. Baratas, cobras. Aprende a conquistar o território inimigo, aniquilá-lo e apossar-se dele". Vejamos mais um relato:

"Para chegar ao fim do curso é necessário ficar dois dias sem dormir em um rio com água até o pescoço. Eu e meus cuas (Camaradagem, União, Apoio e Segurança - se tratam por irmãos) ficamos encarregados de um filhote de vira-lata com olhar meigo. Nos disseram para tomar conta dele, que faria parte da fraternidade. Tínhamos de levá-lo a todos os lugares e alimentá-lo. Demos um nome ao bichinho e estávamos nos apegando a ele quando o nosso chefe nos disse que teríamos de matá-lo. Uma facada de cada um, na barriga. Já estávamos no fim do adestramento e não fizemos muitos questionamentos. O chefe nos disse então que tínhamos de comê-lo e beber o seu sangue. Assim demonstraríamos a nossa coragem. Executamos aquela ordem também, era tudo muito natural". Ainda um parágrafo sobre os resultados:
Os Kaibil encontram mercado de trabalho fácil no México e na América central.


"O Kaibil sabe que para sobreviver não é necessário beber, comer, nem dormir. São necessários munição e um fuzil eficiente. Éramos soldados, éramos perfeitos. Não combatíamos por uma ordem, não teria sido suficiente. Pertencíamos a algo, e isso é mais forte do que qualquer imposição. Só um terço de nós chegou ao fim. Os outros fugiram ou foram caçados. Outros ainda adoeceram ou morreram". Uma última observação do Kaibil, contada por Saviano. "Olfato. Audição. Tato. Visão. Paladar. Os cinco sentidos que o perfeito Kaibil deve desenvolver e manter sempre em alerta para sobreviver. E para matar".

Basta. Lembranças me levam ao Laranja Mecânica e aos terríveis questionamentos de Adorno, em seu Educação após Auschwitz. Quanto aos Kaibils, como desenvolveram bem o corpo e a mente como "capital humano", encontraram fácil mercado de trabalho em milícias, nas organizações paramilitares e no mundo dos mafiosos cartéis das drogas, o mundo dos narcodólares, um mundo que desconhece por completo qualquer sintoma de crise.




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