segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Memorial de Aires. Machado de Assis.

Memorial de Aires é o último romance escrito por Machado de Assis. Ele foi publicado em 1908, que foi também o ano de sua morte. É um livro de memórias, as do conselheiro Aires, que tem traços muito próximos aos do escritor. Na sua escrita, em vez dos capítulos, sempre curtos, aparecem as datas de um diário. As anotações do diário abrangem os anos de 1888 e 1889. Quando o romance foi criticado por ter pouco enredo, um amigo seu, Salvador de Mendonça, assim absolveu o amigo da acusação: "Na idade de Machado de Assis, não se enreda - desenreda-se".
Memorial de Aires, da Garnier, a edição que eu li.

O livro foi escrito quando Machado já estava viúvo de sua esposa Carolina. Muitos apontam que ela está bem retratada na personagem de Dona Carmo, esposa de Aguiar. Se isto for verdade, ele lhe prestou uma bela homenagem, pois, Dona Carmo é uma adorável pessoa, meiga, carinhosa e toda ela, bons sentimentos. A ironia e sátira praticamente desaparecem nesta obra, substituídas por uma certa nostalgia e das aflições da velhice que vivem os seus personagens já mais idosos, como é o caso do próprio conselheiro, do casal Aguiar e do desembargador Campos.

O romance inicia com a narrativa da volta do Conselheiro Aires da Europa para usufruir de sua aposentadoria de uma carreira dedicada à diplomacia. É um sexagenário, viúvo, culto e extremamente devotado a Rita, sua irmã, e aos amigos, especialmente o casal Aguiar, ele gerente de banco e Carmo, a dedicada e solícita esposa. O casal não tem filhos, apenas os postiços. Tristão era o afilhado e Fidélia, a linda e jovem viúva, que chamava Dona Carmo de mãe. Além desses personagens o desembargador Campos também entra na história, sendo o tio de Fidélia.
Memorial de Aires é o último romance escrito por Machado. É de 1908, o ano de sua morte.

Na volta da Europa, o conselheiro e a sua irmã Rita, vão ao cemitério São João Batista e lá também encontram a jovem viúva, por quem o conselheiro se encanta. Depois de lhe dedicar os seus encantos, confiados às páginas de seu diário, ele lembra de sua condição de sexagenário e a ela não se declara. O enredo faz com que os personagens já citados comecem a se enredar. O local dos desenlaces será a casa do casal Aguiar, que em comemoração de jubileu de bodas de prata recebe os amigos em sua casa no Flamengo. Tristão não estará presente ao evento pois o afilhado fora estudar em Lisboa, as artes da medicina.
O livro da Garnier tem ilustrações de Poty Lazarotto. Os encantos do memorialista com o RJ.

A história de Eduardo e Fidélia é a historia de amor de um Romeu e Julieta tropical. As famílias não se davam, mas o amor dos filhos se fez mais forte e os levou ao casamento, rompendo com os pais. Em Lisboa, já casados, Eduardo estudava medicina, mas quis o destino, que ele tivesse morte súbita e Fidélia o trouxe ao Rio de Janeiro, para perpetuar-lhe a memória, no São João Batista. Rita soube da história, que lhe foi contada pelo desembargador Campos, de quem Fidélia era sobrinha. O conselheiro interessou-se vivamente pela história da bela viúva.

O encontro entre Fidélia e Tristão ocorreu quando este voltou da Europa, que seria por um breve tempo, pois, além da medicina, estava também envolvido na política e, segundo amigos, já podia se considerar como um deputado eleito. A viúva Fidélia recebia o consolo, quase que diário, de sua mãe postiça, Dona Carmo. Após a morte do pai, Fidélia pretendia vender as terras da família em Paraíba do Sul e vir morar com a "mãezinha". Parecia não ter olhos para novos namoros. Depois de vários encontros ocorre o enamoramento, mas Fidélia recusa o pedido. Então Tristão prepara a viagem de regresso à Europa, mas se demora, esperando pelo dia do consentimento, que não tardou.
Mais uma ilustração do Poty. O memorialista escrevendo.

O casamento foi celebrado por um padre amigo de Tristão, o mesmo que o batizara. Depois de um certo tempo o casal partiria para morarem em Lisboa, para tristeza do casal Aguiar, que perderiam os dois filhos emprestados, de uma só vez. De Lisboa chegam notícias de que Tristão não se elegera deputado. Coisas próprias da política.

Ainda resta uma observação a fazer. É sabido que Machado de Assis não teve filhos. Não legou a dor humana para ninguém. O mesmo ocorre com a maioria de seus personagens. Isso, por exemplo, ocorre com o casal Aguiar, que os tem, mas postiços ou emprestados. Quando eles partem para Lisboa, a tristeza e a nostalgia são profundas. Fortes lamentos de ausências. Memorial de Aires também tem uma outra peculiaridade. Todos os personagens são bons, com exceção de alguns venenos destilados pela picante Cesária, coisas que, no entanto, não vão além de alguma fofoca com algum teor de maldade. Todo o resto é uma reconciliação com os seus personagens.
Uma edição antiga do livro.

Por uma questão de curiosidade, transcrevo uma parte do memorial, referente ao dia 13 de maio de 1888, o dia da abolição. Vejam como Machado testemunhou o fato, pela pena de Aires. "Enfim, lei. Nunca fui, nem o cargo me consentia ser propagandista da abolição, mas confesso que senti grande prazer quando soube da votação final do senado e da sanção da Regente. Estava na rua do Ouvidor, onde a agitação era grande e a alegria geral". Uma observação meio geral e distante.

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