sexta-feira, 16 de outubro de 2015

O Encouraçado Potemkin. Sergei Eisenstein.

"No entanto, a proposta de Eisenstein era constituir, seguindo o estímulo de Lênin, um cinema pedagógico, ou seja, fácil de ser absorvido por todo mundo, do intelectual ao proletário, do habitante da metrópole ao camponês, do soviético ao brasileiro. E que fosse, nesse sentido, um instrumento de formação, apropriado para arrancar o homem do estado de ignorância e subserviência", escreve Cássio Starling Carlos, numa das apresentações do filme, na coleção Folha de cine europeu.

Eisenstein, no entanto, fez muito mais do que isso. Fez um clássico, que foi duplamente marcado, tanto pelo seu caráter de formação para a ideologia revolucionária, quanto para a construção das técnicas do cinema. O filme é de 1925 e se reporta ao ano de 1905. Se passa na cidade de Odessa,  hoje Ucrânia, nas costas do Mar Negro. No ano de 1905 Odessa pertencia ao império russo sob o regime czarista, um dos mais violentos da história. As duras repressões conduziram à revolução bolchevique de 1917 e ao regime que viria a se chamar de socialismo real.
O clássico de Eisenstein, da coleção cine europeu da Folha de S.Paulo.

Embora Eisenstein pertencesse a uma família de posses e favorável ao czarismo, ele próprio aderiu aos ideais revolucionários e colocou a arte do cinema a serviço da revolução e o fez de forma magistral. Isso, no entanto, dentro das muitas idiossincrasias do sistema, não lhe garantiu vida fácil. Ele jamais permitiu que a sua arte fosse apenas porta voz ou correia de transmissão do sistema. E muito menos o sistema deu vida fácil aos artistas. Logo depois de Lênin, já sob o comando de Stálin, os artistas foram enquadrados. Muitos não resistiram. Mas isso tudo é uma longa história.

O filme de Eisenstein é dividido em cinco partes: Na primeira, -os homens e as larvas-, são mostradas as cenas de maus tratos a que os marinheiros eram submetidos, com destaque para a má alimentação. Eram tratados com carne podre, na qual as larvas ou os vermes germinavam. Vakulinchuk desponta como o líder dos marinheiros revoltosos; No segundo episódio é apresentado o -drama no convés-, no qual ocorre a rebelião no navio, na qual o líder é morto.
Uma imagem clássica do filme, destacando o navio rebelado.

No terceiro episódio, -o morto brada por justiça-, o encouraçado chega ao porto com o corpo do líder morto.  Quando o povo sabe da notícia da morte de Vakulinchuk, toda ela se rebela e a pregação revolucionária se multiplica com a conclamação de todos os oprimidos da Rússia. As cenas de solidariedade falam muito alto. Mas o quarto episódio, -a escadaria de Odessa-, é o mais famoso. É ali que ocorre a repressão por um violento massacre. As cenas crescem em intensidade dramática, com mulheres, deficientes e crianças sendo vítimas da fúria indomada de bem treinados e obedientes soldados. Diante desse horror, o povo recebe a solidariedade e o apoio do encouraçado, que bombardeia o teatro da cidade, onde os seus dirigentes estavam reunidos.
A cena imortal do filme, o massacre nas escadarias de Odessa.

No quinto e último episódio, -o encontro com a esquadra-, o encouraçado se prepara para o combate, com a esquadra mas, quando tudo está preparado para o enfrentamento, eles lançam a voz para a união e o congraçamento entre todos os irmãos e são atendidos em seu pedido. É a vitória da revolução, que conclamou, contra a opressão, a luta pela emancipação. Historicamente, sabemos que essa vitória só veio em 1917, não pela emancipação das consciências de todo um povo, mas pelas armas de uma elite condutora de um povo. Coisas bem complicadas.

Mas o filme se tornou um clássico, tanto pelo seu conteúdo, quanto pela sua forma. Ele inovou, na fotografia, na montagem das imagens e na utilização da música. Os seus filmes tem uma dramaticidade incomparável. Mas recorro ao crítico de cinema, Paulo Emílio Sales Gomes, que eu tanto admiro, para dar a palavra final sobre o filme:
Sergei Eisenstein (1898 - 1948). Um dos nomes maiores do cinema.

"Não é preciso ser comunista, socialista ou anarquista para se apreciar 'Potemkin'. Também é desnecessário conhecer o episódio da rebelião na Marinha russa durante os acontecimentos revolucionários de 1905. Basta ao espectador a mediana e generalizada capacidade de se insurgir contra a injustiça. Em suma, a cultura não é condição indispensável para se gostar do filme. A não ser as obras de Chaplin, não conheço outra grande obra de arte cinematográfica que, como 'Potemkin', exija tão pouco do espectador e ao mesmo tempo lhe dê tanto".

Em outro post vou relatar a importância que este filme teve na história brasileira, especialmente, sobre a sua Marinha, nas vésperas do golpe militar de 1964, que instaurou uma das mais longas e cruéis ditaduras nesse país.


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