quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Metrópolis. Fritz Lang.

Adoro frases sob a forma de epígrafes. As uso em ensaios e em falas. Elas devem ser fortes e se constituírem numa espécie de síntese do que é estudado, trabalhado ou apresentado. Nunca vi frases em epígrafe sendo usadas no cinema. Mas em Metropolis, ela é usada e, ao ver o filme, me deparei com a palavra Sinnspruch, epígrafe em alemão. Sinn tem o significado de sentido, de símbolo e Spruch, de sentença, de lema, slogan, ou ainda, aforismo. Juntando as duas palavras, teríamos então o significado de - uma palavra com sentido, como um símbolo, uma sentença. Mas vamos à Sinnspruch de Metropolis: "O mediador entre a cabeça e as mãos deve ser o coração".
Metropolis, da coleção Folha de S.Paulo - Cine europeu.

Metropolis, o filme de Fritz Lang, é de 1927, nos limites entre o cinema mudo e o falado. Ele ainda pertence ao cinema mudo. A exigência de criatividade é muito grande e Lang não o fez por menos. Produziu um clássico atemporal. Misturou expressionismo, ficção científica e, pasmem, romantismo. Metrópolis é marco do cinema, pelas coisas próprias ao cinema, bem como pelo seu conteúdo. O filme também é marcado pelo flagrar de contradições, de realidades opostas, das quais emana a dúvida e o conflito. Em meio a estas contradições existe espaço, inclusive, para o amor.
O triste retrato do sofrimento dos trabalhadores.


O filme também tem toda uma história, para se chegar a atual versão. Muito do que havia se perdido foi novamente incorporado, depois do encontrado em Buenos Aires. O filme se ocupa de três temas fundamentais: ciência, religião e trabalho. Diria que o tema central são as relações de trabalho, que deveriam ser mediadas pelo coração, mas não o são. A religião entra com o espírito do messianismo, à espera de um mediador, com os sete pecados capitais e a morte e a ciência ocupa o seu espaço com as experiências para se chegar ao homem máquina, à clonagem de Maria. A antevisão do robot.
Rotwang representa a ciência. O robot e a clonagem. Maria sendo clonada.


Metropolis é a cidade. Ela é comandada por Joh Fredersen, um industrial ou um deus quase onipotente. A cidade é mostrada em sua dualidade contraditória. O mundo das mãos, do fazer e o mundo da cabeça, do pensar. O mundo do fazer, o dos trabalhadores é o mundo das profundezas, dos sofrimentos do trabalho pesado e repetitivo, realizado em ambientes profundamente depressivos. Os homens são dominados pela máquina, o deus Moloch, um deus conhecido por sua cólera, que só é aplacada com sacrifícios humanos, especialmente de crianças.
Fritz Lang (1890-1976). A inventividade e a destrutividade do século XX.


Já o mundo do pensar, fica acima e é chamado o "clube dos filhos", que lhes é dado como herança, um jardim eterno de delícias e entretimentos a serem usufruídos, especialmente por Freder, o filho de Joh Fredersen. Neste mundo tem anfiteatros, bibliotecas, teatros e estádios. Os controles sobre o mundo do trabalho são rigorosos e acompanhados por painéis que permitem o acompanhamento de tudo. É o panóptico de Bentham. As cenas dos homens lidando com as máquinas lembram muito um outro filme com o mesmo tema, Tempos Modernos de Charles Chaplin. Mas se alguém se inspirou em alguém, foi Chaplin que se inspirou em Lang, pois o seu filme é de 1936.

O enredo começa com o namoro de Freder com Maria, em meio a seus entretimentos. Maria é operária e uma espécie de, diríamos hoje, sindicalista. Uma "agitadora" entre os operários. O namoro se transforma em paixão e, ao penetrar no mundo de Maria, vislumbra o sofrimento de seus "irmãos"do mundo do trabalho. Ele flagra as contradições. Intercede por eles junto pai, que se mostra inclemente e passa a tomar suas providências. Encomenda a Rotwang, o cientista inventor, um clone de Maria, para afastar o filho da verdadeira Maria, que ficaria presa na casa do cientista.
Cartaz de Metropolis. Foco na ciência.


Maria, diante das injustiças sofridas, sob a admiração dos trabalhadores, lidera uma rebelião. Joh Fredersen parte para a contraofensiva, através de Grot, o guardião da máquina coração. De heroína, Maria, em pouco tempo, se transforma em  em bruxa horrível e que será levada à fogueira pelos próprios trabalhadores. Mas a verdadeira Maria aparece na casa de Rotwang, o cientista, e que com a ajuda de Freder, é libertada. Ocorre então o gran finale, com a cena romântica da reconciliação de todos e com a frase da epígrafe: "O mediador entre a cabeça e as mãos deve ser o coração". 
O final romântico e conciliador. O mediador entre a cabeça e as mãos deve ser o coração.


Uma das cenas mais comentadas do filme é o show de Maria, a clonada, para entreter os operários. Esta cena inspira até hoje cantoras mais populares que reproduzem o seu show. Este é o Fritz Lang futurista. O roteiro do filme é uma parceria com a escritora e roteirista Thea von Harbou, que foi também esposa de Lang, que posteriormente aderiu ao nazismo. Digo isso, especialmente, em função da ideologia presente no filme. Mas tudo indica que o filme não visava ter esse caráter, de formação da consciência de classe. Vejamos o comentário de Paulo Emílio Sales Gomes, o grande crítico de cinema no Brasil e um marxista convicto, a respeito desta questão:
O show futurista da clonada Maria. O show continua sendo clonado ainda hoje.


"Deve-se a confusão, às vezes ridícula, da mensagem moral incluída em Metropolis à total falta de preparo intelectual de Lang para o empreendimento em que se arriscou. Há uma desproporção caricata entre seu rigoroso gênio plástico e a inconsequência do seu pensamento. Mas é possível que precisamente a debilidade ideológica do autor, facilitando a recepção de ideias e sentimentos que lhe eram exteriores, tenha dado à fita a faculdade de refletir a atmosfera ambígua de uma sociedade nos anos que precederam uma escolha grave para o seu destino". Lembrem, o filme data do ano de 1927, um dos anos que antecederam a ebulição do nazismo na Alemanha.




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