segunda-feira, 5 de outubro de 2015

O Ovo da serpente. Ingmar Bergman.

"E, portanto, pensar nele como um ovo de serpente, que incubado, deverá, em sua espécie crescer travesso; E matá-lo na casca". Esta é uma fala de Brutus, na peça Júlio César, de Shakespeare. Pois foi esta frase que inspirou Ingmar Bergman a realizar O ovo da serpente, um filme de 1977 e que retrata a perda da fé no presente e, muito mais ainda no futuro, no ano de 1923, na cidade de Berlim, em plena República de Weimar. O filme mostra a semana de 3 a 11 de outubro, exatamente, a semana em que alguém que prometia um futuro, fracassa em seu Putsch, na cidade de Munique.
O cartaz promocional de Das Schlangenei, o ovo da serpente


O filme é muito rico, especialmente em seus minutos finais, quando o Dr. Hans Vergerus revela o teor e o sentido das pesquisas realizadas na clínica psiquiátrica Santa Anna, para Abel Rosenberg, o desencontrado trapezista americano judeu, abalado com o suicídio de seu irmão. "Algum dia poderá dizer isto a quem quer que lhe dê ouvidos. Ninguém vai acreditar em você. Apesar de que qualquer um que fizer um mínimo esforço, pode ver o que lhe espera no futuro. É como um ovo de serpente através da fina membrana, se pode distinguir um réptil já formado".

Embora o filme marque uma volta ao passado o seu tom é profundamente simbólico e aponta para o futuro. Depois de 1923 muitos outros ovos de serpente puderam ser vistos com toda a clareza, mas se fazia e, ainda continua se fazendo, um esforço enorme para não enxergar o prenúncio do mal, com o réptil já formado. Poderosos interesses poderiam ser contrariados.


O filme começa com uma música bem conhecida dos alemães e seus descendentes. A cantarolei junto: schoen ist di Jugendzeit, sie kommt, sie kommt nicht mehr. Um lamento da perda dos tempos da juventude, de tempos que não voltam mais. Com esta música ao fundo começa o enredo. É o  momento em que entra em cena Abel Rosenberg, que fica sabendo do suicídio de seu irmão Max. Os dois eram trapezistas famosos, americanos de origem judaica.Um detalhe importante, marca de uma época anti judaica. Max era casado com Manuella, uma cantora de cabaré. Abel e Manuella enfrentam os difíceis tempos de uma Alemanha pós guerra, que vivia uma espécie de depressão coletiva, oriunda da perda de possibilidades futuras, à espera de um "salvador", ou de um Füher condutor.

A Alemanha vivia então a República de Weimar, uma experiência democrática memorável. Mas, a democracia se move lentamente e o país tinha pressa. A República de Weimar é um belo tema de estudos. A Alemanha fora humilhada pelo Tratado de Versalhes e as condições impostas por este tratado eram praticamente insuportáveis, impossíveis de serem cumpridas. Encontrei uma síntese sobre o período, em seis tópicos.
Abel e o professor Hans. É o momento da metáfora da serpente.


1. Havia uma recessão econômica, um processo de desaceleração do crescimento industrial e uma inflação sem precedentes no mundo civilizado;

2. Havia um clima de impunidade, com um poder judiciário que não funcionava e que, ao mesmo tempo, impedia qualquer tipo de reforma;

3. O ambiente de indefinição e de demora nas soluções propiciava e fazia fermentar  tentativas de golpe de Estado;

4. Havia uma profunda crise moral, de baixa auto estima, de perda da visão num futuro, provocado pelas cláusulas humilhantes e tidas como vingativas, impostas pelo Tratado de Versalhes;

5. A perda de territórios para a  França, pelo mesmo tratado;

6. A geração do clima de xenofobia, de fanatismo político e a potencialização do ódio anti semita. Como vimos, nesta semana retratada ocorreu o fracassado Putsch de Munique, que levou Hitler para a cadeia, onde escreveu a sua Bíblia, o Mein Kampf. A visão deste caldeirão fervendo é a visão do ovo da serpente, que embora, ainda não ter nascida, já está perfeitamente delineada e visível, dentro do ovo.
Uma imagem perfeita do sentido original da metáfora do ovo da serpente.


Nunca vi um ovo de serpente e procurei imagens. Estas não me satisfizeram, pois as imagens não conseguem captar o processo. Mas encontrei alegorias para os tempos presentes.  O filme de Ingmar Bergman, diretor e roteirista, tem a produção de Dino de Laurentis e tem em Liv Ulmann (Manuella Rosenberg) e David Carradine (Abel Rosenberg) os dois atores centrais. Eles são cunhados e vivem juntos os tempos difíceis da época. Gert Froebe, vive o inspetor Bauer. É ele que dá o toque de anti semitismo ao prender Abel como suspeito de crimes, por ser judeu, e Heinz Bennent vive o cientista Dr. Hans Vergerus. Será ele a contar para Abel sobre o ovo da serpente que já está desenhada e que irá desovar dez anos adiante. É interessante mencionar que as pesquisas eram patrocinadas pela iniciativa privada.

Já antes das revelações de Vergerus, um auxiliar se dirige a Abel e lhe faz uma confidência: "Diferentemente de você, eu tenho uma convicção. Algo inaudível está ocorrendo em Munique. Um salvador está nascendo. Mas seu parto ocorre em meio a sangue e dor. Uma época terrível está a caminho".  Vou reproduzir ainda alguns trechos da fala final do Dr. Hans Vergerus, muito proféticas e em que, mesmo contra as suas crenças, promete ajuda aos cunhados:
Como se trata de uma alegoria, ela permite mil interpretações. Eis uma delas.


"Em dois ou três dias - talvez amanhã de manhã, o exército da Alemanha do sul começará uma revolta, comandados por um demente chamado Adolf Hitler. Será um fiasco descomunal. Herr Hitler carece de capacidade intelectual e técnica e não sabe as forças tremendas com as quais se enfrentará". Mais adiante continua: "Observe toda esta gente. São incapazes de uma revolução. Estão muito humilhados, muito temerosos, muito oprimidos. Mas em dez anos... em dez anos [...] Eles terão herdado o ódio de seus pais, mas com a adição de seu idealismo e impaciência, alguém se adiantará e colocará seus sentimentos sem palavras. Alguém prometerá um futuro - alguém fará suas exigências - alguém falará de grandeza e sacrifício. Os jovens e inexperientes brindarão seu valor e sua fé aos cansados e indecisos. E então haverá uma revolução e nosso mundo se fundirá em sangue e fogo".

E como será este tempo? O doutor explicita. "Em dez anos, não mais, eles criarão uma sociedade sem igual na história mundial. A antiga sociedade se baseava numa ideia muito romântica (Rousseau) sobre a bondade do homem. Muito complicado, já que as ideias não concordam com a realidade. A nova sociedade se baseará em um juízo real dos potenciais e limitações do homem. O homem é uma deformidade, uma perversão da natureza". Então os experimentos ganharão força no moldar o homem desejado:
Seria o fundamentalismo religioso, abraçado à política, uma outra antevisão da serpente no ovo.


"Liberamos as forças produtivas e controlamos as destrutivas, exterminamos a inferior e aumentamos  o útil". Aí segue a famosa frase do início do post, sobre a imagem do ovo da serpente. Como já destaquei, o filme, muito mais do que uma volta ao passado é um alerta para o futuro. Lembro de Adorno, quando, em Educação após Auschwitz, pergunta se as condições que provocaram Auschwitz ainda estão presentes na sociedade. A resposta, lamentavelmente, é sim. E o que pensar deste presente momento de destilação de ódio em nossa sociedade brasileira? 

E para terminar, uma frase encontrada pelo caminho nestas buscas, que identificam o momento em que no ovo da serpente já "se pode distinguir um réptil já formado". É quando "O homem sai de si e passa a viver em seu exterior, quando ele começa a viver de acordo com a Opinião Pública, de acordo com o olhar do outro".





 

7 comentários:

  1. Concordo com a alegoria perfeitamente. Vários ovos conservadores no brazix

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  2. Maicom. Você diz bem. Vários ovos conservadores. A serpente foi cultivada. Agradeço o seu comentário.

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  3. Muito boa essa postagem. E esse filme, mais atual impossível. E eu tenho pra mim que enquanto a raça humana existir, o filme sempre será atual.

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  4. A partir de agora, vou acompanhar seu blog

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  5. Perfeito o seu comentário sobre a atualidade do filme. Agradeço o seu comentário e o fato de acompanhar as publicações do blog. Muito obrigado, Matheus.

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  6. Professor Pedro Eloi,
    Que texto fantástico. Oportuníssimo.
    Muito bom.

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  7. Oi professor Marcos, agradeço muito o seu gentil comentário. Estou gostando muito da experiência do blog. A gente pode dividir e compartilhar leituras e experiências. Muito obrigado.

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