quinta-feira, 23 de março de 2017

Um posto avançado do progresso. Joseph Conrad.

Um posto avançado do progresso precedeu a obra prima do grande novelista Joseph Conrad, Coração das trevas. Aquele data de 1896, enquanto que a sua obra prima data de 1899. Ambos tem origem numa viagem de Conrad ao coração das trevas, ou seja, ao interior da floresta africana (1890/1), mais precisamente, ao interior do Congo, observando os horrores do 'processo civilizatório' - o posto avançado do progresso - da colonização e o destroçamento psicológico das pessoas por ele causado.
Uma pequena novela está inserida no livro Coração das trevas.Um posto avançado do progresso.


Um posto avançado do progresso é uma novela, um tanto curta, mas bem mais explícita do que é Coração das trevas. Ela é formada por dois capítulos. No primeiro dois colonos, Kayerts e Carlier - chefe e assistente - chegam ao seu destino, um posto comercial em pleno coração das trevas, para a comercialização do marfim. Por necessidade eles tem a obrigação de se dar bem. Makola, um nativo, que já morava no posto avançado, completa o trio dos personagens principais. Kayerts está em busca de um dote para o casamento de sua filha.

A solidão é a maior companhia dos dois. Antes deles já havia um outro chefe, que morrera de febre. Uma cruz em sua sepultura sobrou como memória de sua passagem. Makola muito dele lhes contou. Ele deixou alguns pedaços de livros que lhes serviram de consolo, iniciando-os na leitura. Por ser muito bonito e estimulante para a leitura, transcrevo: "Os dois homens não entendiam nada, não atentavam a nada além da passagem dos dias que ainda os separava da volta do vapor. Seu antecessor abandonara alguns livros rasgados. Pegaram aqueles restos de romances, e, como nunca tinham lido nada do tipo surpreenderam-se e acharam graça". Passaram a contar com a companhia de Richelieu, D'Artagnan, do Pai Goriot e outros tantos personagens.

Mas a tônica mesmo é o processo civilizatório. Tinham encontrado também um jornal que discorria sobre a "Nossa expansão colonial". Ali se lia "numa linguagem bombástica. Falava muito dos direitos e deveres da civilização, do caráter sagrado da obra civilizatória, e louvava os méritos daqueles que partiam levando a luz, a fé e o comércio aos recantos mais escuros da terra". Isso consolava os dois. "Daqui a cem anos, pode ser que aqui exista uma cidade. Um porto, depósitos, e alojamentos, e - salões de bilhar. A civilização, meu rapaz, e a virtude  - e tudo o mais. E então as pessoas vão saber que estes dois sujeitos, Kayerts e Carlier, foram os primeiros homens civilizados a morar neste exato lugar", falou Carlier com o assentimento de Kayerts.

Ao final do primeiro capítulo aparecem visitantes que prenunciam problemas. No posto havia também dez negros a serviço da companhia, para os serviços gerais. Sempre foram qualificados como péssimos trabalhadores. Os visitantes eram comerciantes de marfim. Quem estabelece negociações com eles será Makola. O medo se instaurou no posto e recebe uma belíssima descrição. Quando a paz volta a reinar, os dois estão sozinhos no posto, mais Makola e os seus e - um monte de marfim, da melhor qualidade. Makola negociara os negros como carregadores de marfim em troca de uma boa quantidade deste. Transformara assim Kayerts em traficante, algo abominável para os novos conceitos civilizatórios.

Tendo conseguido o objetivo da posse do marfim, procuram acalmar a consciência, enquanto aguardavam a chegada do vapor que os devolveria à Europa. Mas este não chega. Os dois começam a se desentender. Os alimentos escasseiam. Brigam por causa dos últimos torrões de açúcar, numa bela descrição do que são as relações de poder. Extenuados pela briga, Kayerts mata o agora inimigo e, ainda por cima, descobre que o matara, estando ele desarmado. Os conceitos de traficante, assassino e covarde lhe assombram a consciência. Makola anuncia a chegada do vapor em meio a densa neblina, mas ele já "achava a vida mais terrível e difícil do que a morte".

Na chegada, o comandante do vapor, mesmo sendo um homem experiente, se desconcerta com a cena vista e " procurou nos bolsos (uma faca) enquanto contemplava Kayerts, que pendia da cruz por uma correia de couro amarrada ao pescoço. Evidentemente subira na sepultura, que era alta e estreita  e, depois de prender a ponta da correia ao braço da cruz, atirara-se de lá.  Seus dedos dos pés pairavam a poucos centímetros do chão; os braços pendiam inertes; ele parecia em rígida posição de sentido, mas com uma das faces arroxeadas apoiada no ombro. E, irreverente, mostrava uma língua inchada para o seu diretor-geral". Pagara o preço do processo civilizatório no posto avançado do progresso.

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