sexta-feira, 31 de março de 2017

Doutor Jivago. Boris Pasternak. O Filme

Depois de atenta leitura do livro Doutor Jivago, ficou mais fácil assistir a sua versão espetacular para o cinema. Tudo fora preparado para ser efetivamente uma versão grandiosa. Três pessoas, em particular, foram as responsáveis pela sua efetivação. O produtor Carlo Ponti que se empenhou em buscar financiamento, David Lean, um entusiasta da obra, tida por ele como o melhor romance que já tinha lido e Robert Bolt, o roteirista do filme.
Duas horas de uma grande história de amor. Este foi o foco do filme.

Creio que todos imaginam a dificuldade que foi levar esta obra para o cinema. Necessariamente deveria haver recortes. A primeira impressão que tive, ao rever o filme, após a leitura do livro foi a de que houve uma clara preferência pela romantização da obra. Ao ler os comentários da Coleção Folha - Clássicos do cinema, versão que eu vi,  deparei com as brigas que houve entre o diretor e o roteirista em torno da opção que deveria ser privilegiada.

Robert Bolt tinha uma clara preferência pelos aspectos políticos. Jivago era um nobre, que fora envolvido pelo destino histórico em um turbilhão de ocorrências políticas. A Primeira Guerra Mundial, A Revolução Comunista de 1917 e a Guerra Civil decorrente e mais os fatos relacionados com a implementação do novo regime político e econômico. Já David Lean, com a sua visão de diretor preferiu a opção em torno da romantização dos amores, digamos impossíveis, do casal. As brigas foram enormes e em função delas, os dois chegaram a ficar rompidos por algum tempo. Uma escolha realmente difícil. Prevaleceu a versão romântica, para a qual o tema musical - o tema de Lara - em muito contribuiu.

O livro é dividido em duas partes, divididas exatamente pela irrupção da Revolução. Na primeira parte do livro, os personagens mal e mal se conheceram. Uma vez se encontraram numa festa natalina e outra no front da Primeira Guerra, em que trabalharam, ele como médico e ela como enfermeira. No filme o tema de Lara não para de tocar. Tanto Jivago, quanto Lara eram casados. Foram separados, e tudo indicava que apenas temporariamente, em função dos tristes tempos vividos, que todos esperavam ter um rápido final. Apenas Lara tivera notícias sobre uma possível morte do marido. Mas ele reaparece em cena, sob o nome de Strelnikov, um importante militar do Exército Vermelho. Se dedicou mais à Revolução do que ao casamento.

Na segunda parte do livro, de formas diferentes, Lara e Jivago vão aos distantes Montes Urais, para a cidade e Iuriatin e à localidade de Varikino. Aí realmente a história de amor toma forma mais concreta. Jivago procurou se distanciar das questões ideológicas. Foi sequestrado pelo Exército Vermelho, para nele trabalhar, prestando seus serviços na qualidade de médico. Ao fugir deste trabalho, para voltar para Iuriatin, passou a ser visto como desertor e nesta condição, tanto ele, quanto ela, seriam presos por uma mera questão de tempo.

Eles não tiveram vida fácil para viverem o grande amor, mas que por isso mesmo, ganhou muito em dramaticidade. Não existe final feliz em meio a estes terríveis acontecimentos. Robert Bolt usa, tanto para a abertura da narrativa, quanto para o seu encerramento, o epílogo do livro, ao juntar o irmão de Jivago, general do Exército Vermelho e Tânia Larissa, a filha de Lara com o Doutor Jivago, para iniciar e encerrar a história.

O filme é de 1965, foi dirigido, como vimos, por David Lean e teve o roteiro adaptado por Robert Bolt. Omar Shariff interpretou o Doutor Jivago, Julie Christie, Lara  e Geraldine Chaplin, Tônia, a esposa de Jivago. Entre o grandioso elenco ainda merece destaque o ator Tom Courtenay que interpretou Pasha Antipova e Strelnikov, o marido de Lara. Como prêmio levou cinco Oscars. Melhor direção de arte, melhor fotografia, melhor figurino, melhor trilha sonora e melhor roteiro adaptado.

A crítica não foi tão generosa com o filme, exatamente pelo seu caráter exageradamente romântico, prejudicando a visão política deste importante e ímpar momento da história. Também a aparição exagerada do Tema de Lara foi bastante criticada. Tem 120 minutos de duração. Entre a primeira redação deste post e a sua revisão vi Apocalipse now. Vendo este filme dá para acreditar que Doutor Jivago foi realmente muito romantizado.

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