quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Diário do Hospício. Lima Barreto.

Cheguei a estes dois livros do Lima Barreto (reunidos num só), Diário do hospício e O Cemitério dos vivos, pela lista dos mais vendidos na FLIP - 2017. Ele ocupou o sétimo lugar. Lembrando que Lima Barreto foi o escritor homenageado desta edição da Feira. Entre os mais vendidos também figurou a maravilhosa biografia do escritor, em terceiro lugar, de autoria de Lília Schwarcz, Lima Barreto - Triste visionário. Uma biografia notável. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2017/08/lima-barreto-triste-visionario.html
Os dois livros do Lima Barreto. Diário do hospício e O cemitério dos vivos.

No Diário do hospício nos deparamos com o Lima Barreto memorialista, embora no livro constem também alguns lances de ficção, poucos na verdade. O livro, da Companhia das Letras tem prefácio de Alfredo Bosi e inúmeras notas explicativas de Augusto Massi e Murilo Marcondes de Moura. As memórias estão contadas em dez capítulos. Desde já destaco o terceiro, que em cinco páginas descreve seu drama vivido em companhia do álcool. O capítulo tem por título: A minha bebedeira e a minha loucura. Dá vontade de transcrever o capítulo inteiro. Mas vamos aos outros.

No primeiro capítulo O Pavilhão e a Pinel faz uma detalhada descrição do hospício. Diz ter chegado a ele da pior forma possível, pelas mãos da polícia. Aliás, a comparação entre a prisão e o hospício é uma constante ao longo da obra. Também nela está onipresente a comparação com o inferno. Dante recebe inúmeras citações. O tratamento dado é desumano e as humilhações são constantes. Deixa também a certeza de que ele não é louco. Está ali por causa do álcool, ao qual estão associados os seus problemas familiares, o seu não reconhecimento, a sua origem e a cor da pele, além dos seus constantes problemas financeiros.

No segundo capítulo Na Colmeil descreve este pavilhão no qual ficou internado, por uma deferência do Dr. Juliano Moreira, uma exceção, no bom sentido, entre os médicos alienistas que o tratam. A frieza dos demais também é constante na obra. Aplicam teorias sem quererem saber a quem elas são aplicadas. Os considera arrogantes e prepotentes, em nome da ciência que julgam dominar. Também aparecem as primeiras descrições dos colegas e da biblioteca do estabelecimento.

Do terceiro capítulo, A minha bebedeira e a minha loucura, tomo apenas uma descrição: "Saído dela (da leitura de Maudsley, O crime e a loucura), escrevi um decálogo para o governo de minha vida; entre os artigos havia o mandamento de não beber alcoólicos, coisa aconselhada por Maudsley, para evitar a loucura. Nunca o cumpri e fiz mal. Muitas coisas influíram para que viesse a beber; mas de todas elas, foi um sentimento ou pressentimento, um medo, sem razão nem explicação, de uma catástrofe sempre presente. Adivinhava a morte de meu pai e eu sem dinheiro para enterrá-lo; previa moléstias com tratamento caro e eu sem recursos; amedrontava-me com uma demissão e eu sem fortes conhecimentos que me arranjassem colocação condigna com a minha instrução; e eu me aborrecia e procurava distrair-me, ficar na cidade, avançar pela noite adentro; e assim conheci o  chopp, o whisky, as noitadas, amanhecendo na casa deste ou daquele.

No quarto capítulo Alguns doentes, Lima defende uma interessante tese de que "não há espécies, não há raças de loucos; há loucos só". Isso devia ser muito forte para ele, pois, conviveu com as teses da degeneração das raças quando elas se misturavam. Este era o seu caso. Por isso a constatação tem tanta ênfase. Também faz a afirmação categórica de que a ciência não pode tudo. Continua tergiversando sobre as possíveis causas da loucura, como o álcool e o amor, ou a falta dele. Descreve os primeiros de seus colegas.

No quinto capítulo Guardas e enfermeiros, estes merecem a sua atenção. De maneira geral lhes faz referências elogiosas. Mas se ocupa mais de reflexões existenciais, sobre a inutilidade da vida. Neste capítulo entram também os primeiros elementos de ficção. Daí em diante, dos capítulos VI a IX, eles não tem mais título e o Xº, nem mesmo recebe numeração. No VIº ele continua analisando seus colegas e faz interessantes considerações sobre o endividamento e sobre os crimes de uxoricídio.

No VIIº capítulo, um dia de tédio, o dia São Sebastião, ganha as suas reflexões. Se depara com uma espécie de arrependimento por não ter seguido na vida por caminhos já batidos, por ter ousado e de querer reconhecimento. Volta à ficção falando de sua mulher, já morta e se culpa por não tê-la amado. No VIIIº capítulo, mais descrições e auto reflexão. Conta sobre a inadequação da biblioteca e busca em sua infância a sua iniciação na literatura com a obra de Júlio Verne. Sobre um suicídio que ocorre nas dependências do hospício ele afirma não ter encontrado forças para cometê-lo também, mas que se voltasse a este local, também nele encontraria a sua morte. No IXº capítulo encontrei duas observações interessantes: poucos internos se davam ao choro e todos, numa rotina de inspeção, manifestavam a imensa vontade de sair deste ambiente.

Já o Xº capítulo consta de umas dez páginas de anotações para um próximo livro. Mais observações em torno do suicídio e uma perspicaz observação sobre os padres, que transcrevo: "Houve festa na capela e ao sair o café (à uma hora) cruzei-me com os padres. Que lorpas! E a Constituição! Padres como esses não fariam mal se não fossem eles a guarda avançada do estado-maior jesuítico que nos pretende oprimir, favorecendo os ricos e pavoneando os seus preconceitos".

E um último pensamento, sobre os livros. Existe uma relação entre a inteligência e a loucura? Entre as suas anotações do capítulo X existe uma anotação a respeito. Mas, no primeiro capítulo existe uma pequena frase que é extraordinária: "Ah! A literatura ou me mata ou me dá o que eu peço dela". Um livro fundamental para melhor compreender este tão fantástico escritor, genuinamente brasileiro.


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