segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Os imigrantes do Hunsrück. Haus Weber. Selbrício Bohn.

"Aos primeiros a morte, aos segundos a miséria e aos terceiros, então o pão".

Numa visita ao meu irmão Hédio, na cidade de Mondaí (SC), as origens familiares vieram à tona em nossas conversas. Fotografias, cartas e livros. Entre os livros, apareceu um que me despertou particular interesse. Trata-se de Os imigrantes do Hunsrück. Nossos antepassados: sua partida, sua viagem e chegada em São Leopoldo. Na capa consta que o autor é Selbrício Boh, mas este dado não corresponde. Selbrício é o tradutor. O autor, como consta no interior do livro, é Haus Weber, um escritor da região do Husrück, de onde partiram os emigrantes alemães com destino a São Leopoldo.
O livro contém o romance e os nomes dos emigrados entre 1824 e 1892.

O livro tem muitos problemas, começando por este que já apontei. O maior problema está, creio eu, nem mesmo na tradução, mas no português. Frases inconclusas, erros de grafia e parágrafos inteiros, meio sem sentido. Com um pouco de esforço, no entanto, você consegue ler o livro. É louvável o esforço do Selbrício, que em viagens à região do Husnrück, descobriu o livro e nos legou um importante documento.

O livro é composto de cinco capítulos. No primeiro estão transcritas as dificuldades vividas na Alemanha, na região do Hunsrück, região próxima aos rios Reno e Mosel, nas proximidades da França, com quem disputava o território. Os maiores problemas eram as guerras, (as guerras napoleônicas) os pesados serviços militares obrigatórios, a miséria e a fome e, especialmente, a ausência de perspectiva de futuro. Isto levou muitos ao sonho na distante América. Um projeto de colonização do Império brasileiro chamou a atenção de muitos.

Entre estes muitos havia o casal João Pedro e Regina Teis. Eles tinham cinco filhos, dois meninos e três meninas. Também havia o Frederico Gewehr, marceneiro de profissão. No mercado de Kastellaun ouviram falar do Brasil. Não sem resistência, o pai de Regina vendeu um pedaço de terra, sua futura herança. Esta venda tornou a viagem possível. Estes não foram os colonos da primeira viagem. Esta ocorreu em 1824, no navio Protector. A chegada em São Leopoldo ocorreu em 25 de julho de 1824. Josão Pedro, Regina e Frederico partiram em 1827.

A saída da Alemanha, por si só já foi uma verdadeira epopeia. A ela está reservado o capítulo de número dois. Ela durou um mês inteiro. Embarque no porto de Oberwesel e chegada em Colônia. De Colônia seguiram por terra, pelos serviços postais, até Hannover, para finalmente atingirem o porto de Bremen, do qual saíram, sem a perspectiva de volta. Um misto de medo e esperança foram os grandes companheiros desta viagem. Da data de saída, 1º de abril de 1827, até a chegada ao Rio de Janeiro, em 3 de agosto, decorreu uma eternidade. Mais alguns dias estariam em Porto Alegre e São Leopoldo.

Mas este já é o tema do terceiro capítulo. Na chegada ao Rio de Janeiro tiveram até uma saudação imperial. Já em Porto Alegre e em São Leopoldo alguns colonos das primeiras viagens os aguardavam. Por estradas lamacentas foram até São Leopoldo. Mata virgem, cobras e índios hostis se constituíram em seus novos medos. Os lotes 53 e 54 estavam agora na mão de seus destinatários, as famílias Teis e Gewehr. Horta, pomar e as primeiras plantações vieram junto com um poço. As dificuldades iniciais estavam sendo superadas.

O capítulo IV ocupa apenas três páginas. Ele tem uma espécie de sub título: São Leopoldo, cinco anos depois, 1832. Nele é narrado um ataque indígena com a queima das casas e muitas mortes. Os nossos imigrantes sobreviveram. Em resposta vieram as armas de fogo e uma espécie de militarização da região.

A relativa estabilização dos colonos é descrita no quinto capítulo. Já contam com vaca leiteira, cabra e galinhas. Com fins estratégicos, as casas passam a ser agrupadas. Frederico vai para Porto Alegre exercer a profissão de marceneiro. Um novo e grave problema os aguarda. Em 1835 irrompe a Revolução Farroupilha. Procuram não se envolver. Mas uma lealdade ao imperador os faz ficar ao lado do Império. A revolução vitima o filho mais velho da família. O veneno de uma cobra ceifa a do outro. Em 1854 já havia na região onze mil colonos. E, temendo um estado alemão, os novos colonos serão destinados aos vales do rio Pardo e Jacuí. Ainda no ano de 1854, havia na região, entre serrarias, moinhos e fábricas, 12 igrejas luteranas e 9 católicas, além de 24 escolas de língua alemã.
Um retrato de família, a do meu avô.


Frederico não seguiu uma regra muito comum entre os colonos. Casou-se com uma mulata e com ela teve 4 filhos cor café marrom. As filhas se casaram e para o orgulho da família, Lisa, a mais nova das meninas, tornou-se professora. Em 1870 morre João Pedro e em 1875, Regina, terminando assim a saga das primeiras famílias, da primeira geração, dos emigrantes do Hunsrück, os imigrantes da região do vale do rio dos Sinos. Deixaram mais de dois milhões de descendentes, numa das regiões brasileiras que desconhece a pobreza e a miséria.

O livro tem ainda outra preciosidade. Traz o nome, ou melhor o sobrenome de todos os emigrados da região do Hunsrück, até o ano de 1892. Para quem quiser levantar dados para uma pesquisa sobre a origem familiar encontra aí os primeiros dados, com os quais consegue iniciar os trabalhos. Já encomendei outro livro, A História de São José do Hortêncio, para onde se destinou Nicolau Rech, que deve ter chegado à região em 1829, com 26 anos de idade. Era militar. Ele deve ter sido o avô do meu avô. O meu pai deve ter sido já da 4ª geração de descendentes. Hoje são muito comuns os encontros de famílias. Nunca participei, mas deve ser bem interessante. Muitas histórias para contar. Selbrício conta sobre um desses encontros, o encontro da família Bohn em São Sebastião do Caí em 1999.

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