segunda-feira, 25 de junho de 2018

A Rota das Emoções. 2. São Luís do Maranhão.

A minha curiosidade sobre a cidade de São Luís aumentou muito com a leitura de O Mulato, de Aluísio de Azevedo. O romance trata da aristocracia rural maranhense e pode ser considerado o primeiro grande romance que aborda a questão do preconceito racial na literatura brasileira. Ele data de 1881, antes ainda, da abolição da escravidão. Com esta leitura tive um primeiro contato com a cidade de São Luís e com o estado do Maranhão. Fiquei sabendo que São Luís é considerada como a Atenas brasileira.
Na baía de São Marcos foi fundada a cidade de São Luís.


Como não conhecia São Luís e nem Fortaleza, coloquei as duas cidades na minha agenda e fui pesquisar roteiros. Foi aí que entrei em contato com a chamada "rota das emoções". Ela interliga as duas cidades pela via costeira. Optei por começar por São Luís. O voo me levou de Curitiba para Belo Horizonte, de Belo Horizonte para Belém e de Belém para São Luís. Os serviços da Azul e do receptivo da CVC foram perfeitos. Fiquei hospedado em pleno centro histórico da cidade, no Grand Hotel São Luís, localizado entre a Catedral de Nossa Senhora da Vitória e o Palácio dos Leões. Da janela do quarto do hotel eu via as palmeiras da ala residencial do Palácio dos Leões, sede do governo do Maranhão.
O belo Palácio dos Leões, sede do governo do Maranhão.

Cheguei pelo meio da tarde e, já munido de um mapa, fiz a minha primeira incursão pela cidade. Mas logo começou uma chuva, que não mais parou. Jantei no próprio hotel, descansei cedo e esperando o city tour marcado para as 8h20 do dia seguinte. Mais pontual seria impossível. A minha guia seria a Fátima, que além de formada como guia se enveredou também pelo estudo dos causídicos. Tive o privilégio de ser o único turista do dia. Nos painéis do hotel, construído no local onde se situava o forte dos portugueses, fui me inteirando dos momentos fundadores da cidade. São Luís foi a única cidade brasileira fundada pelos franceses (1612), invadida pelos holandeses e, finalmente, colonizada pelos portugueses. Os holandeses, que professavam o credo calvinista, puseram diante de seu forte uma estátua de São Benedito, crentes de que os portugueses não atirariam contra o santo. Os portugueses, no entanto, atiraram e consagraram o seu feito para Nossa Senhora da Vitória, nome com que homenageiam a catedral da cidade.
 A catedral de Nossa Senhora da Vitória e o antigo colégio dos padres jesuítas.

Fátima me conduziu primeiramente para a rua Grande, a grande rua do comércio. Ela fica na parte alta da cidade, para onde os comerciantes tinham migrado, vindos da parte mais baixa, que ainda hoje é tomada pelo comércio de artesanatos e sedia inúmeros movimentos culturais. Nesta rua Grande estão começando a chegar as lojas das grandes redes. O assunto do momento era a chegada do Magazine Luíza. As lojas são obrigadas a manter as fachadas. Da rua Grande voltamos para outros pontos históricos: Igreja do Carmo, teatro Arthur Azevedo, fruto dos tempos do algodão, o ouro branco, a fonte Ribeirão, por monumentos em homenagem a Benedito Leite e ao grande batalhador pela liberdade Othelino Nova Alves. Benedito Leite fora governador (1906-1908) e ficou famosa uma história sua, retratando tempos de crise. Pediram-lhe para fazer cortes na educação para conter gastos e ele respondeu de pronto, que preferia perder a mão do que fazê-lo. O monumento lhe oculta a mão, em alusão ao fato.
São Luís sempre foi fortemente marcada pela cultura. O teatro Arthur Azevedo.


A esta altura uma chuvinha começou. Nos abrigamos sob o tribunal de justiça. Logo, logo ela passou e continuamos o tour. Casarões e histórias. A mais interessante se referia a Ana Jansen, baronesa famosa pelo mau trato dispensado aos escravos. Vou pesquisar-lhe a história. São Luís também tem a sua Chica da Silva, na pessoa de Catarina Mina. Já estávamos à frente da prefeitura e do monumento a La Ravardière, o fundador da cidade. Mas ao lado da prefeitura se situa o Palácio dos Leões. Ele abriga a sede do governo e é dividido em três partes: a residencial, a administrativa e o museu. Está aberto a visitação e você ainda ganha uma fotografia (de graça) como recordação. Ele lembra tempos de muito fausto. Antes passáramos pelo Centro de Informações Turísticas e por um espaço que lembra a arte típica do estado do Maranhão.
Benedito Leite, o governador que se  recusou a fazer cortes na educação.


O tour continuou pela parte antiga da cidade, aquele em que se situava o comércio e hoje dedicado a pequenas lojas de artesanato e a espaços culturais, como o museu do reggae, o teatro João do Vale, espaços de criatividade e fortes lembranças das festas do bumba meu boi e do tambor da crioula. Num sebo, com atendimento precário, consegui comprar O ABC do Bumba-Boi do Maranhão. Num destes centros de criatividade encerramos o nosso tour. Deixo aqui registrados os meus agradecimentos para a Fátima, excelente guia. Não sei se perceberam, todo o tour foi feito a pé. Isso é São Luís. A presença muito forte de sua história e de um centro histórico inteligentemente aproveitado. São mais de 3.500 casarões tombados, que fazem parte do Patrimônio Cultural da Humanidade, desde 1997. Os bairros residenciais se situam na orla marítima, como a praia do Calhau e outras.
A parte "nobre" da cidade, na avenida beira-mar.


Almocei no restaurante do SENAC, onde experimentei o arroz de cuxá, o prato típico, além de outras iguarias da cozinha maranhense, com a forte presença do peixe. Ainda comprei o ticket para ir a Alcântara. É preciso tomar cuidado com os horários, pois, eles são determinados não pelos relógios, mas pelas marés. Fui no horário das 9h30, com volta estipulada já para as 13h00. Ainda andei bastante e de noite fui jantar em frente a Catedral de Na. S. da Vitória. Que ambiente culto.
A fonte do Ribeirão. Local cheio de histórias.


Ainda uma palavra sobre o estado do Maranhão. Ele teve grande importância econômica durante o império, com o seu ciclo agrícola, com destaque para a cultura do algodão. Com a abolição e com a modernização da agricultura começou a decadência. Hoje a sua economia se fundamenta na indústria, com destaque para alumínio e celulose, o extrativismo da madeira e dos derivados do babaçu, da moderna agricultura, dos serviços e do crescente turismo proporcionado pelos Lençóis Maranhenses. Não tem Sarneys e Lobãos a travarem a sua economia (Hoje o estado é governado por Flávio Dino do PCdoB). Além disso contam com o moderno porto de Itaqui. A palavra Maranhão deriva de Mar Anhã, isto é, mar que corre. As cidades mais importantes são as de São Luís, que fica numa ilha, Imperatriz, o novo centro agrícola, São José de Ribamar, Timon, ao lado de Teresina, Caxias, Codó, Paço do Lunar, Açailândia e Bacabal.
 Uma primeira amostra da grande atração turística: Os Lençóis Maranhenses.

São Luís e toda a sua história é hoje povoada por cerca de 1.100.000 habitantes e mais de 1.600.000 em sua região metropolitana. Sua localização é estratégica entre o nordeste e o norte do país. O seu porto, o de Itaqui é um dos de águas mais profundas e dos mais modernos e bem aparelhados do mundo. As festas populares são as do mês de junho e as do divino. Sobre o bumba meu boi, ainda falarei com maiores detalhes.E para me por ao par das histórias de São Luís já comprei, de Josué Montello, Os tambores de São Luís. E com outro filho ilustre da terra, termino este post. "Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá / as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá". Quem que não se lembra de Gonçalves Dias?

2 comentários:

  1. Olá, professor. Uma dica que minha esposa e eu damos - ela é Maranhense - e um livro de 1859 chamado Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, também maranhense. É considerado o primeiro romance abolicionista do Brasil. Abraços!

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  2. Fernando, primeiramente meus agradecimentos. Úrsula já está devidamente anotado. Estou impressionado com a força do livro do Josué Montello. Por ele, continuo andando pelas ruas de São Luís.

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