quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Cine Debate. Itaú Viver Mais e Portal do Envelhecimento. Nasce uma estrela.

A vida é uma grande soma de experiências. Recebi um honroso convite de um ex aluno meu, o Rudolfo Auffinger, para ser o debatedor neste projeto de cine debate, promovido pela parceria entre o Itaú Viver Mais e o Portal do Envelhecimento. O projeto visa pessoas com mais de 55 anos, com o objetivo de mantê-las envolvidas em atividade, também no campo cultural. O Itaú, que mantém o Espaço Itaú de cinema, fornece o ingresso gratuito e o Portal do Envelhecimento é o responsável pela escolha dos filmes. O portal surgiu na PUC/SP, no curso de gerontologia. O Cine Debate ocorre sempre na última terça feira do mês, entre as 14h00 e 17h00. Um debatedor é convidado para cada evento. Monique Betenheuser estabeleceu os contatos.
Cartaz promocional de Nasce uma estrela.

Mas vamos ao filme. Nasce uma estrela, direção e roteiro de Bradley Cooper. O tema do filme é muito simples. Um cantor consagrado Jackson Maine (Bradley Cooper) encontra casualmente a menina Ally (Lady Gaga), cantando num barzinho, se apaixonam e vivem uma grande história de amor. Jackson alavanca a carreira de Ally, tanto como cantora quanto como compositora. Jackson é alcoólatra e em decadência. Tanto ajuda quanto prejudica a carreira de Ally. Vivem densamente. Esta história está sendo levada aos cinemas pela quarta vez e a Netflix já está preparando uma série com o mesmo tema. Um tema universal.

A primeira vez que a história foi levada ao cinema foi em 1937. O contexto da época era marcado pela euforia da recuperação econômica da crise de 1929 e a grande ascensão da indústria cinematográfica. Era um momento de reacender esperanças. Janet Gaynor e Frederic March formavam o par. Em 1954 ela voltou às telas, estrelada por Judy Garland e James Mason. Ganhou mais música, no tempo dos grandes musicais. A terceira filmagem ocorreu em 1976, em tempos de feminismo e de rock and roll. Foi retratado um mundo pós guerra do Vietnã, de desenvolvimento econômico e das grandes estrelas do rock. O par romântico foi formado por Bárbara Streisand e Kris Kristofferson.

E o quarto remake, se assim o podemos chamar, é a sua versão 2018. Na preparação para debater o filme me chamou particular atenção o nome de Bradley Cooper. Diretor, roteirista e principal ator. É um filme de autor, um filme cabeça, com pretensões para além do entretenimento ou de um simples musical. Foi a primeira questão debatida. Houve a concordância geral de que foi para muito além de um simples musical. Propositalmente não assisti o filme antes, para sentir as emoções junto com os participantes e não ter uma visão pré elaborada. A forma como a história foi encenada me emocionou várias vezes. Confesso que me lembrei da belíssima história de amor entre Heloísa e Abelardo, que separados pelas intolerâncias da época, se comunicavam por cartas e destas cartas surgiram muitos dos fundamentos do humanismo no mundo da modernidade (Heloísa e Abelardo - Etiene Gilson - 1938). De grandes amores sempre emergem generosidades e bondades. Do grande amor entre Ally e e Jack surgiram, no mínimo, belíssimas canções.

Outra questão que emergiu nos diálogos foi a questão do ser humano. Quem é ele afinal de contas? O que pode levar alguém a não dominar a doença do álcool? O que é o sucesso, o êxito profissional e a felicidade? Existe compatibilidade entre a felicidade e o rigor moralista em que a nossa geração (o público acima de 55 anos) foi educada? Os silêncios se fizeram sentir, frutos da agitação interior. Um grande momento. O que significa "andar nos trilhos"?
Antes da despedida, um registro.

Fiz alguns apontamentos. A beleza da canção La Vie en Rose, a brincadeira com o nariz de Ally, o retorno de Jack à sua infância, sua relação com o pai e a mãe, ou a sua ausência, seus problemas de audição (Beethoven foi lembrado), as relações com o irmão. O encontro e o nascer da afeição e, para mim, o que mais me tocou, foi a parceria na composição das letras das músicas e o cantar juntos. Outra questão forte. A presença da indústria cultural. Anulação da singularidade em favor do espetáculo. A indústria cultural. Tudo ritmado, bailarinas contando passos e movimentos matematicamente calculados. Ally sucumbe. Ally, cabelos pintados, é produzida para o espetáculo. A cena de ciúme é belíssima. Grande encaminhamento para as cenas finais. A canção tema. Oscars à vista.

O filme é uma produção dos Estados Unidos, do ano de 2018. Bradley Cooper atua pela primeira como diretor, sendo também responsável pelo roteiro. No elenco, o próprio Bradley interpreta Jack e Lady Gaga interpreta a cantora Ally. Embora toda a centralidade seja ocupada pelo par romântico, existe também espaço para Sam Elliot no papel de Bobby, o irmão de Jack e para Andrew Dice Clay, o pai de Ally. A música tema é uma composição de Lady Gaga. O filme é um sucesso de público e da crítica. Da crítica, algumas restrições à atuação de Lady Gaga como atriz. Não percebi isso. Ela atua com espontaneidade.
Junto com os participantes.
 
No encerramento da atividade, sobrou também tempo para a poesia de Manoel de Barros: "Quem anda no trilho é trem de ferro. Sou água que corre entre pedras - liberdade caça jeito". Momentos de elevação.


2 comentários:

  1. Excelente texto! Obrigada pela participação no evento, foi excelente. Até a próxima

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  2. Monique, obrigado pelo seu comentário. Foi uma experiência maravilhosa. E o filme também foi muito bom.

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