terça-feira, 28 de maio de 2019

O Uraguai. Basílio da Gama. Vestibular. UFPR.

Cheguei a O Uragaui, de Basílio da Gama, pela indicação do livro para o vestibular da UFPR. De início achei a indicação um tanto estranha, mas após a leitura, creio que foi plenamente justificada a sua indicação. Como é uma obra relativamente distante no tempo, ela foi publicada pela primeira vez em 1769, ela precisa ser situada e datada. Vamos então ainda datar o autor, que nasceu na atual Tiradentes, MG. e morreu em Portugal em 1795. Um detalhe interessante é o do nascimento de sua mãe, na cidade de Colônia do Sacramento, fato que certamente o levou ao tema.
A edição que eu recomendo. Facilita a leitura. A forma original era um poema.

Um velho hábito meu de professor é o de afixar bem uma data. Vamos então tomar o ano da publicação do livro como a data referência. 1769. O que aconteceu no entorno da data? Não é difícil ver duas datas importantes, logo adiante, no cenário mundial. 1776, a independência dos Estados Unidos e 1789, a Revolução Francesa. Ambas, frutos do iluminismo. Agora vamos a datas não tão visíveis. 1540, a fundação da Companhia de Jesus, ou a ordem dos padres jesuítas, fundada por Inácio de Loyola. Outra data importante é a de 1750, o ano da realização do Tratado de Madri. Por este Tratado é que se ordenou a destruição da experiência dos padres jesuítas, chamada de Missões ou de Reduções. Pelo Tratado de Madri foi trocada a cidade de Colônia do Sacramento (portuguesa) pela região dos sete povos das Missões (espanhola) e com o trato de que os dois reinos teriam que entregar a área sem a presença da experiência dos jesuítas. O Tratado teve como consequência direta a chamada guerra guaranítica, entre 1754 e 1756, ano em que se deu por concluída a missão da destruição. Esta guerra e os seus heróis são tema do poema. Heróis portugueses e indígenas e os perversos jesuítas. 

A existência da experiência das missões é consequência direta da ação dos bandeirantes em sua ação de captura dos povos indígenas para a escravidão e para a pilhagem de suas riquezas. Os padres jesuítas vieram em sua defesa, os aldearam, chegando inclusive a obter uma autorização do rei espanhol para andarem armados, diante da brutalidade dos bandeirantes. Esta experiência sobreviveu por muitos anos. Os padres, de aneira geral eram jesuítas alemães, o território era paraguaio, ocupando áreas que hoje pertencem ao Paraguai, a Argentina e ao Rio Grande do Sul. Hoje temos nesta região sete patrimônios culturais da humanidade: dois no Paraguai, quatro na Argentina e São Miguel, no Rio Grande do Sul.

As Missões são uma experiência que resistiu ao longo do tempo. Eu costumo apresentar a data de 1641, ano em que ocorreu a batalha de M'bororé, como a data em que elas se consolidaram, pois nesta batalha houve a derrota dos bandeirantes. Mas a experiência já começara muitos anos antes. Os bandeirantes foram tocando os índios para a região onde hoje encontramos as suas ruínas. Foram assim, podemos afirmar sem margens para erro, bem mais de cem anos de uma experiência coletiva bem sucedida, que obviamente foi percebida com preocupação pelos europeus, à luz do nascente liberalismo/individualismo.

Situado o tema, vamos ao autor. O Gama, do sobrenome de Basílio, remonta ao navegador Vasco da Gama. "Sangue bom", portanto, nas veias. Basílio iniciou os seus estudos com os padres jesuítas. Do Rio de Janeiro foi para a Europa, parando em Roma, participando da arcádia literária romana, provavelmente sob o amparo dos jesuítas. Depois se afasta deles para, ao que tudo indica, atender a seus interesses pessoais, junto à Coroa portuguesa, nos tempos do Conde de Oeiras, futuro todo poderoso Marquês de Pombal. Por ocasião do casamento da filha de Pombal lhe presta homenagem, exaltando, não a noiva, mas o próprio pai. Cai nas suas graças. Lembrando que em 1759 Pombal expulsara os jesuítas de Portugal e de suas colônias. Tempos do despotismo esclarecido, frutos do iluminismo, e de combate ao obscurantismo das medievais posições dos jesuítas. A ordem dos jesuítas chegou até a ser, temporariamente, extinta pela igreja católica.

Vamos à obra. Li a edição da LPM Pocket, com organização e apresentação de Luís Augusto Fischer. A edição ajuda a entender a obra, um poema, escrito em tempos em que praticamente ninguém sabia ler. Se escrevia para mostrar habilidade técnica nos versos. Com certeza, Basílio da Gama conseguiu o seu intento. Mas um poema desta época dificulta a sua leitura. O que fez então o organizador desta edição. Nas páginas à direita ele apresenta o poema e as notas do original  e nas páginas à esquerda apresenta a obra em prosa. Não é um poema longo. Ele é apresentado em cinco cantos e 1377 versos. O Uraguai também poderia ser O Uruguai. As duas grafias eram válidas na época. É uma referência ao rio. No primeiro canto o tema é apresentado. Limpar a área da escravidão imposta aos índios guaranis pelos jesuítas. Aparecem os principais personagens.

No canto segundo são apresentados os heróis portugueses e também, pela primeira vez, aparece Sepé, o herói indígena. Mas aparecem também os maldosos jesuítas que queriam, contra os portugueses, construir um império sob sua dominação. Armaram os índios contra os portugueses. O padre Balda e seu filho Baldeta são o objeto de seu ódio maior. Sepé é morto. No terceiro capítulo aparece Cacambo, que incendeia o acampamento português e volta ao acampamento para a sua bela Lindoia. passa a ser vítima das pretensões e ardis do padre Balda. Tanajura, uma velha índia passa a ter visões. Ela tem diante dos olhos e terremoto de Lisboa e a reconstrução da cidade, já livre dos nefastos jesuítas, apresentados como os filhos da ambição.

No quarto capítulo ocorre a destruição final das missões. A redução é incendiada pelo padre Balda, a começar pela velha Tanajura e o desespero de Caititu, irmão de Lindoia, morta pelo veneno da serpente.  Ocorre a fuga dos indígenas, permitida pela generosidade dos portugueses. No canto quinto, a liberdade é restituída entre os povos indígenas, Portugal viverá tempos de glória, com o confinamentos dos jesuítas para o China e para o Japão e o autor passa a viver as glórias da arcádia portuguesa.

Como veem Basílio da Gama toma o partido dos portugueses e procura defenestrar a ordem religiosa que o formou e o protegeu. Dos índios mantém uma visão romântica e lhes exalta a valentia. assim que, livres do jugo dos jesuítas. Em compensação o autor se deu "bem" na vida. São escolhas. Da minha parte eu tenho duas recomendações: a primeira é a de visitar as Missões, de preferência começando pelo Paraguai e vindo pela Argentina para São Miguel, já no Rio Grande do Sul. Foi esta a ordem dos avanços, deste movimento que Umberto Eco chamou de "santo experimento". A segunda recomendação é a leitura do livro do padre jesuíta suíço, Clóvis Lugon, A república comunista cristã dos guaranis. É a mais bela exaltação a este "santo experimento", do qual, mais uma vez, na voz de Umberto Eco, o papa Francisco é um herdeiro. Deixo, finalmente a resenha do livro do padre Lugon.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2016/05/a-republica-comunista-crista-dos.html 

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