sexta-feira, 8 de maio de 2020

A Ordem do dia. Éric Vuillard. Industriais alemães apoiam o nazismo.

Primeiro capítulo - uma reunião secreta. 20 de fevereiro de 1933. Em 5 de março haveria eleições na Alemanha. 24 empresários e representantes de entidades empresariais são convocadas pelo partido nazista. E eles comparecem. O que ouvem: "Era preciso acabar com um regime fraco, afastar a ameaça comunista, suprimir os sindicatos e permitir que cada patrão fosse um Führer em sua empresa". Depois de ouvirem isso, veio a convocação: "- E agora, senhores, ao caixa!". Gustav Krupp, puxa a fila com a doação de um milhão. Com a eleição, na qual o partido nazista sai vencedor, começa a ascensão de Hitler. No segundo capítulo aprecem os nomes dos grandes empresários, dos grandes financiadores da campanha.
O maravilhoso livro de Éric Vuillard, A ordem do dia. TusQuets, editores, 2019.

O segundo capítulo tem por título - As máscaras. Por máscaras o autor fala das pessoas físicas que se transformam em pessoas jurídicas. Estou falando do livro - A ordem do dia, do escritor francês Éric Vuillard. Uma pequena nota, na contracapa, nos dá o teor do livro: "A ordem do dia é uma narrativa histórica poderosa, fenômeno de vendas no mundo. Nele, narram-se de forma particular, direta e irônica os bastidores de dois momentos-chave da Segunda Guerra Mundial: o apoio dado pelos maiores industriais da Alemanha a Hitler e a anexação da Áustria ao Reich".

O último capítulo tem um título bem significativo: Quem são todas essas pessoas? Nele teremos um reencontro com Gustav Krupp, longe das bombas, refugiado na vila Hügel, em Blünbach, no norte da Alemanha e já senil. Num de seus acessos, tornou-se assombroso. Todos se assustaram: "Mas quem são todas essas pessoas?". "Não, não eram os fantasmas da Vila Hügel que o congelavam de medo. Não, não eram as lâmias nem as larvas, eram homens de verdade, com rostos de verdade que o encaravam. Ele viu olhos enormes, figuras saíam das trevas. Desconhecidos. Ele sentiu um medo atroz. Ficou em pé, petrificado".

Quem são todas essas pessoas? "E o que ele viu, o que se ergueu lentamente da sombra, eram dezenas de milhares de cadáveres, os trabalhadores forçados, aqueles que a SS tinha fornecido para suas fábricas. Eles saíam do nada". Agora peço licença para uma transcrição um pouco mais longa. É que estão elencadas as empresas que transformaram os homens dos campos de concentração em escravos, exaurindo-lhes as últimas forças em vida, sob o "nobre" slogan do Arbeit macht frei. Eis a nefasta lista.

"Durante anos ele tinha alugado deportados em Buchenwald, em Flossenbürg, em Sachsenhausen, em Auschwitz e em muitos outros campos. A expectativa de vida deles era de alguns meses. Se o prisioneiro escapava das doenças infecciosas, morria literalmente de fome. Mas Krupp não foi o único a alugar tais serviços. Seus comparsas da reunião de 20 de fevereiro aproveitaram também; atrás das paixões criminais e das gesticulações políticas, seus interesses se encontravam. A guerra tinha sido rentável. A Bayer arrendou mão-de-obra em Mauthausen. A BMW contratava em Dachau, em Papenburg, em Sachsenhausen, em Natzweiler-Struthof e em Buchenwald. A Daimler, em Schirmeck. A IGFarben recrutava em Dora-Mittelbau, em Gross-Rosen, em Sachsenhausen, em Buchenwald, em Ravensbrück, em Dachau, em Mauthausen, e explorava uma fábrica gigantesca no campo de Auschwitz: A IG Auschwitz, que com todo cinismo colocou esse nome no organograma da firma. A Agfa recrutava em Dachau. A Shell, em Neuengamme. A Schneider, em Buchenwald. A Telefunken, em Gross-Rosen e a Siemens, em Buchenwald, em Flossenbürg, em Neuengamme, em Ravensbrück, em Sachsenhausen, em Gross-Rosen e em Auschwitz. Todo mundo tinha se aproveitado de uma mão de obra muito barata".

Dachau em fotos. A tradução do cartaz: Nossa última esperança. Triste.

E ainda uma pequena descrição de como se vivia numa dessas fábricas, a Berthawerk: "De uma chegada de seiscentos deportados, em 1943, nas fábricas Krupp, um ano mais tarde não restavam mais que vinte. Um dos últimos atos oficiais de Gustav, antes de ceder as rédeas a seu filho, foi a criação da Berthawerk, uma fábrica concentracionária com o nome de sua esposa, que deveria ser um tipo de homenagem. Ali se vivia preto de sujeira, infestado de piolhos, andando cinco quilômetros tanto no inverno como no verão em simples galochas, para ir do campo à fábrica e da fábrica ao campo. Ali se acordava às quatro e meia, ladeado por guardas SS e cachorros treinados. Quanto à refeição da noite, durava às vezes duas horas: não que alguém demorasse para comer, mas porque era preciso esperar, não havia tigelas suficientes para servir a sopa".

Bem, e os capítulos do meio do livro. Versam sobre a humilhante anexação (Anschluss) da ultra católica Áustria, sob o júbilo do povo. Inacreditável.

Tenho duas recomendações a fazer, ou duas sugestões de leitura. O primeiro é de Jean-Louis Vullierme, Espelho do Ocidente - O nazismo e a civilização ocidental, que aprofunda o tema e o outro de Philip Roth - Complô contra a América, que mostra o namoro do empresariado americano (Henry Ford, em particular) com o sistema nazista. Questão de DNA empresarial  "Um Führer em cada empresa".

Não sei o porquê, mas eu me lembrei de outro livro. Tormenta - o governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos. Vou relatar algo da páginas 43 e 44. Vejamos: "No dia 10 de agosto de 2018, o empresário Fábio Wajngarten, hoje chefe da Secretaria de Comunicação Social do governo, reuniu em sua cobertura no bairro dos jardins, em São Paulo, 62 empresários para ouvir as propostas de Bolsonaro. Em julho, o candidato já havia se reunido com pesos pesados como Candido Bracher (Itaú Unibanco), David Feffer (Suzano), José Roberto Ermírio de Moraes (Votorantim), Pedro Wongtschowski (Grupo Ultra) e Marcelo Martins (Cosan). A reunião fora organizada por Abílio Diniz (Carrefour).
Tormenta de Thaís Oyama. Companhia das Letras, 2020.

Como da vez anterior, o café da manhã na casa de Wajngarten foi cercado de discrição, já que alguns dos presentes eram visceralmente contra Lula; eles percebiam a ascensão de Bolsonaro mas não queriam seus nomes associados ao candidato do PSL - ainda. Foram poucos os que não se opuseram a ter suas presenças divulgadas, entre eles Luciano Hang (Havan), Meyer Negri (Tecnisa), Flávio Rocha (Riachuelo), Sebastião Bomfim (Centauro), Bráulio Bachi (Artefacto) e José Salim Mattar (Localiza)".


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