sexta-feira, 1 de maio de 2020

É a vontade de Deus ou a do patrão? Um diálogo dialético. Paulo Freire,

Creio ser sabido de todos que Paulo Freire defendia ardorosamente a ideia de que não existem - nem saberes superiores, nem saberes inferiores. Nem o saber mais, nem o saber menos. O que existe são saberes diferentes. Pois bem, lendo Pedagogia da esperança - um reencontro com a pedagogia do oprimido, leio que, depois de um diálogo com camponeses, no Chile, Paulo. na volta para casa, recorda de um debate semelhante que tivera na Zona da Mata pernambucana.
24 anos depois Paulo Freire tem um reencontro com a Pedagogia do oprimido.

Nesses diálogos, os interlocutores falavam que Paulo sabia e que eles não sabiam. A razão para isso, era a de que eles eram camponeses e que Paul era doutor. Vejamos Paulo relembrando os diálogos dessa experiência:

"Depois de alguns momentos de bom debate com os camponeses o silêncio caiu sobre nós e nos envolveu a todos. O discurso de um deles foi o mesmo. A tradução exata do discurso do camponês que ouvira naquele fim de tarde.

Muito bem, - disse eu a eles. - Eu sei. Vocês não sabem. Mas por que eu sei e vocês não sabem?

Aceitando o seu discurso, preparei o terreno para minha intervenção. A vivacidade brilhava em todos. De repente a curiosidade se ascendeu. A resposta não tardou.

- O senhor sabe porque é doutor. Nós, não.

- Exato, eu sou doutor. Vocês, não. Mas por que eu sou doutor e vocês não?

- Porque foi à escola, tem leitura, tem estudo, e nós, não.

- E por que fui à escola?

- Porque seu pai pôde mandar o senhor à escola. O nosso, não.

- E por que os pais de vocês não puderam mandar vocês à escola?

- Porque eram camponeses como nós.

- E o que é ser camponês?

- É não ter educação, posses, trabalhar de sol a sol sem direitos, sem esperança de um dia melhor.

- E por que ao camponês falta tudo isso?

- Porque Deus quer.

- E quem é Deus?

- É o Pai de nós todos.

- E quem é pai aqui nesta reunião?

Quase todos de mão para cima, disseram que o eram.

Olhando o grupo todo em silêncio, me fixei num deles e lhe perguntei: - Quantos filhos você tem?

- Três.

- Você seria capaz de sacrificar dois deles, submetendo-os a sofrimentos para que o terceiro estudasse, com vida boa, no Recife? Você seria capaz de amar assim?

- Não.

- Se você - disse eu -, homem de carne e osso, não é capaz de fazer uma injustiça dessa, como é possível entender que Deus o faça? Será mesmo que Deus é o fazedor dessas coisas?
Um silêncio diferente, completamente diferente do anterior, um silêncio no qual algo começava a ser partejado. Em seguida:

- Não. Não é Deus o fazedor disso tudo. É o patrão.

Possivelmente aqueles camponeses estavam, pela primeira vez, tentando o esforço de superar a relação que chamei na Pedagogia do oprimido de "aderência" do oprimido ao opressor para, "tomando distância dele" localizá-lo "fora" de si, como diria Fanon.

A partir daí, teria sido possível também ir compreendendo o papel do patrão, inserido num certo sistema socioeconômico e político, ir compreendendo as relações sociais de produção, os interesses de classe etc. etc.

A falta total de sentido estaria se, após o silêncio que bruscamente interrompeu o nosso diálogo, eu tivesse feito um discurso tradicional, "sloganizador", vazio, intolerante". Páginas 67-9.

O Educador. Um belo perfil de Paulo Freire.

Como qualquer comentário é desnecessário, trago um episódio ocorrido na cidade de Angicos, na solenidade de formatura de um grupo de adultos, agora alfabetizados. O episódio é um comentário do general Castelo Branco ao que vira em Angicos. Disse que aquilo só serviria "para engordar cascavéis nesses sertões" e que aquilo era uma "pedagogia sem hierarquia". Este episódio é narrado por Sérgio Haddad, no livro O educador - um perfil de paulo Freire. Página 72. Esse general e, depois, com o golpe de 1964, "presidente" teve a percepção exata do pensamento dialético libertador de Paulo Freire e a que ele conduz - à superação da situação.



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