segunda-feira, 4 de maio de 2020

Tormenta. O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos. Thaís Oyama.

Oh horror! Oh horror! Depois de uma série de livros, envolvendo especialmente Paulo Freire, fiz uma inflexão total em minhas leituras. Quando na ativa, na qualidade de professor de Teoria Política, eu não ficava apenas na teoria, acompanhava também os fatos, sempre bem de perto. Uma parte da aula sempre era dedicada a este acompanhamento. Isso gera hábitos. E esse hábito me levou ao livro de Thaís Oyama, Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos. O livro vale muito a sua leitura. Com certeza, você estará diante de um filme de horrores. É tudo muito pior do que você imagina. O livro é uma lançamento 2020, da Companhia das Letras.
266 páginas de Tormenta. Companhia das Letras 2020.

O livro se limita ao primeiro ano de governo, como só poderia ser, pela delimitação do tempo. Ele mergulha fundo no personagem Bolsonaro, na sua família, nada cristã, ao menos pelo ponto de vista mais tradicional da visão de cristianismo, mas bem de acordo com o pós-moderno entrelaçamento entre o neoliberalismo e o neo pentecostalismo, da chamada teologia da prosperidade. Mergulha fundo ainda no pessoal que o cerca, na sua base de sustentação, constituída por uma ala militar, e outra econômica e, uma grande novidade de nossos tempos, as mídias sociais. Estas são comandadas pelo chamado "gabinete do ódio", comandado pelo Zero Dois de seus filhos, uma figura para a observação da psiquiatria.

O livro se estrutura em torno de um prólogo e capítulos não numerados, dez ao todo. Seriam os dez tópicos principais do livro. O prólogo, como não poderia deixar de ser, é uma introdução ao até então insignificante personagem da política brasileira, o obscuro parlamentar do chamado baixo clero, com sucessivas eleições, sempre garantidas por um eleitorado fiel, oriundo dos quarteis e dos batalhões da polícia militar. A luta por melhores soldos sempre garantiram esses votos corporativos, tanto para ele, quanto para os seus familiares.

Se os capítulos não tem numeração, eles tem porém, títulos: Eu os apresento com numeração, para facilitar a sequência, para depois apontar alguns destaques. 1. O capitão e os generais; 2. A bancada do Jair; 3. Paranoias, ideias fixas, medos e outros tormentos; 4. Zero Dois; 5. O governo estremece; 6. O governo das pequenas coisas; 7. Tchutchuca é a mãe; 8. O inimigo das árvores; 9. Bolsonaro contra a Lava Toga; 10. Traições. Pela ordem de relevância eu destacaria o primeiro e o último. Após os capítulos seguem as notas, que, de maneira geral, são uma remessa às fontes.

Vamos às abordagens: 1. O capitão e os generais: Uma grande curiosidade minha pairava sobre a relação de Bolsonaro com os generais, uma vez que a saída do "Capitão" dos quadros do exército não foi nada cordial. A sua saída foi motivada por um ato de terrorismo. Ele sempre foi considerado avesso às grandes virtudes da carreira militar: o respeito à hierarquia e o consequente respeito à disciplina. Como presidente o "Capitão" seria o comandante dos generais. O que os aproximou? Vou abrir um parêntesis na resenha, para relatar uma frase de uma fala que ouvi de Adolfo Pérez Esquivel, o argentino Nobel da Paz, do ano de 1980. "Sobre a impunidade não se constrói a democracia". Voltando, a aproximação entre Bolsonaro e os generais se deu com a instauração da Comissão da Verdade (2011), no governo Dilma Rousseff. Os generais Villas Boas (acometido de ELA - por isso só anda em cadeira de rodas) e Augusto Heleno são os mais ativos. São remanescentes da linha ligada ao General Sílvio Frota, da linha dura. O que os une é anti-petismo. Nesse capítulo também estão citados os empresários que aderiram na primeira hora: Luciano Hang (Havan), Meyer Nigri (Tecnisa),  Flávio Rocha (Riachuelo), Sebastião Bonfim (Centauro), Bráulio Bachi (Artefacto) e José Salim Mattar (Localiza).

2. A bancada do Jair: É outro capítulo bem interessante. O principal personagem é Augusto Bebiano, um dos homens mais importantes da campanha. Não caiu nas graças do Zero Dois, e emplacou menos de dois meses no governo. Onix Lorenzoni, Magno Malta e Hélio Negrão, o "Negão" de Bolsonaro são outros personagens, além do pernambucano Luciano Bivar. 3. Paranoias, ideias fixas, medos e outros tormentos: Neste capítulo afirma-se que Bolsonaro não tem adversários, apenas inimigos e você pode sê-lo a qualquer momento, mesmo sem motivos aparentes. Trata também do episódio da facada e da demissão de Bebiano.

4. Zero Dois: Outro capítulo notável que envolve, possivelmente, o mais problemático dos filhos de Bolsonaro. Jair é Carlos, afirma Oyama. Carlos vive com o pai uma relação de amor e ódio. Com ele rompe, some do cenário e só volta ao ser atendido em 100% de suas pretensões. Assim foi com Bebiano e com Mourão, o vice. A escolha do vice também ganha destaque. Só foi escolhido no prazo final  das inscrições, depois de desacertos com Magno Malta, vetado pela futura primeira dama, com o general Augusto Heleno, com Janaína Paschoal e com o príncipe Luiz Philippe, um olavista de primeira, vetado por um possível envolvimento em suruba gay. Ser o quinto de uma lista, gera consequências.

5. O governo estremece: O foco é a crise de maio, que envolve a demissão do general Santos Cruz, o caso Flávio e as rachadinhas com o Queiroz e a mais forte crise estudantil. A crise terminou com uma espécie de alinhamento entre os três poderes. 6. Presidente das pequenas coisas: O título é sugestivo: o presidente das pequenas coisas, como o fim do horário de verão, fim das multas nas rodovias...

7. Tchutchuca é a mãe: Agora a bola da vez é ministro Paulo Guedes, o "valentão diante dos pequenos e tchutchuca diante dos poderosos", na acusação do deputado Zeca Dirceu. O revide de Guedes, de que tchutchuca é a mãe, simplesmente suspendeu a sessão da Comissão de Justiça que tratava da reforma da previdência. 8. O inimigo das árvores: O tema em questão são os incêndios na amazônia e a briga com a França, Alemanha e Noruega. 9. Bolsonaro contra a Lava Toga: Aqui é mostrado o esforço de Bolsonaro pelo arquivamento da CPI da Lava Toga. Toffoli precisa ser protegido.

10. Traições: É o outro capítulo notável. O recurso às traições é a recomendação do "filósofo" Olavo de Carvalho. Ele as sugere para serem usadas nas brigas políticas em substituição à lógica do raciocínio. Em vez de lealdade, agressões e destruição de perfis. Mostra também Bolsonaro usando subterfúgios para desviar de assuntos incômodos com as suas habituais bobagens, como "cocô dia sim, dia não". É a assimilação das aulas do dito "filósofo". Inacreditável. Mas a abordagem fundamental é a montagem e a atuação do "gabinete do ódio", sob o comando dos olavistas Filipe Martins e do Zero Dois. A grande lição do grupo, para além da pauta liberal na economia é a introdução da pauta moral e dos costumes e o envolvimento nelas de todos  os adversários. Frota, Hasselman e o delegado Waldir que o digam. Mostra ainda um Bolsonaro que já não mais treme com o ritual do poder e que tem os olhos fixos em 2022. Acompanhemos a frase final do livro: "No final do primeiro ano de mandato, os lábios de Jair Bolsonaro não tremiam mais, nem seus olhos se movimentavam de um lado para o outro. Estavam fixos em 2022". O livro termina com um catálogo de fotografias. 

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