sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Guerra pela eternidade - O retorno do tradicionalismo e a ascensão da direita populista. Benjamin Teitelbaum.

Acima de tudo, um livro intrigante. Recebi Guerra pela eternidade - o retorno do tradicionalismo e a ascensão da direita populista, de Benjamin R. Teitelbaum como presente de aniversário, do meu filho, o Iuri. Comecei a sua leitura e fiquei impressionado. Fui buscar com o Iuri o como ele entrou em contato com o livro e ele me falou que foi no programa do Pedro Bial. Fiquei mais intrigado ainda. Pedro Bial é vinculado ao Instituto Millenium. O livro investiga em profundidade o pensamento ultra direitista no mundo contemporâneo. Estranhei demais uma excessiva proximidade do pesquisador com os personagens de sua pesquisa. O próprio pesquisador explica, na nota do autor, com a qual inicia seu livro:

"Sou etnógrafo de profissão, não sou jornalista. Aprendi a seguir um método de pesquisa acadêmica segundo o qual estudiosos observam, interagem com e, às vezes, vivem entre as pessoas que estudam por longos períodos. Nesse método, um objetivo importante é a empatia: compreender e interpretar o seu modo de ver o mundo". Sublinhei - "interagem" e "vivem entre as pessoas". É muita aproximação, que em alguns momentos até chega a se assemelhar com articulação entre os personagem observados. Teitelbaum é professor de etnomusicologia e assuntos internacionais na Universidade do Colorado, em Boulder. 

Guerra pela eternidade. Benjamin Teitelbaum. UNICAMP. 2020. Tradução: Cynthia Costa. 

O etnomusicólogo observa basicamente três personagens, todos ligados à ascensão da chamada direita populista: Steve Bannon, Aleksandr Dugin e Olavo de Carvalho. O primeiro, profundamente vinculado ao presidente Trump, dos Estados Unidos, o segundo, ao presidente da Rússia, Vladimir Putin e o terceiro ao presidente Jair Bolsonaro, do Brasil. Olavo de Carvalho teve influência direta na escolha de ministros de sua filiação ideológica no governo Bolsonaro, como Ricardo Vélez Rodríguez, da Educação e Ernesto Araújo, das Relações Exteriores.

Além de acompanhar as movimentações desses três personagens, ele estuda o seu modo de pensar, bem como os fundamentos desse pensar. Dois personagens originários são comuns aos três: o francês René Guénon (1886-1951) e o italiano Julius Evola (1898-1974). Ambos misturam a sua filosofia com elementos esotéricos. Guénon ataca as instituições do mundo ocidental moderno, enquanto que Evola foi influente no estabelecimento do fascismo e do racismo na Itália. Oriente e espiritualidade estão presentes nos dois. Os três personagens estudados são bastante generalistas em suas afirmações, mas tem pontos em comum, como a rejeição ao mundo moderno (leia-se, iluminismo, estado-nação, mundo liberal, instituições democráticas, tendências à generalização e universalização na questão dos direitos humanos, da igualdade e contrários à globalização). Vejamos um apontamento do autor:

"Por Tradicionalismo - com T maiúsculo - estávamos nos referindo a uma escola espiritual e filosófica alternativa, com um grupo eclético, ainda que minúsculo, de seguidores, ao longo dos últimos cem anos. Quando combinado com o nacionalismo anti-imigração, no entanto, muitas vezes é sinal de um radicalismo ideológico raro e profundo, e é por isso que o acompanho". A resenha me impede de aprofundar, mas - creio ser interessante essa observação buscada pelo autor em Evola, sobre as degradações da modernidade: "Alternativamente, ele e outros viam na modernidade a ascensão de uma idade sombria na qual democracia e comunismo resultavam de um desprezo generalizado pelo passado e de uma fé proporcional no futuro, na qual a política focava a economia, a população escurecia devido à migração do Sul para o Norte e o feminino e o secularismo forjavam uma cultura que celebrava o hedonismo sexual e a desconsideração caótica por qualquer tipo de limite". 

A pregação, portanto, de uma volta ao passado, a um longínquo passado. Aos povos hindus e iranianos, buscando a origem ariana dos seres humanos. Vejamos o encerramento do livro, a sua última frase: "Sim, os Steve Bannons de nossos tempos podem encontrar vitórias onde outros veem derrotas. Com armas e exércitos, as vezes manifestos, às vezes invisíveis, eles enxergam o mundo através de lentes radicalmente diferentes - veem o caos na estrutura, a ordem nas ruínas e o passado no futuro". Eles recorrem muito ao mundo abstrato da espiritualidade.

Bem, o livro é longo. São 285 páginas, ocupadas por 22 capítulos. O tema é árido, com muitas idas e voltas. Temas interessantes da organização de um pensamento mundial de direita são mostrados. Não negligenciam na publicação de livros. Tem até uma editora específica, a Arktos. O principal elemento de ativismo político é serem contra a universalização (choque com o indivíduo - presenças de Nietzsche e do "DASEIN" de Heidegger), a ascensão feminina, a democracia e a perda da espiritualidade. Liberalismo e comunismo, ambos são frutos da modernidade.

Para nós brasileiros, um capítulo ganha particular interesse. É o capítulo 20, que tem por título, Brasil profundo. É sobre Olavo de Carvalho e sua influência sobre o presidente Bolsonaro, especialmente através de seus filhos. O autor relata a influência na escolha de ministros do governo, das divergências com os militares e do vice, Mourão, por considerá-los pró China e contra a aproximação com os Estados Unidos. O ataque mais contundente de Olavo de Carvalho é contra as universidades brasileiras, para as quais defende a redução de verbas. Vejam uma fala sua: "Se eu te mostrasse fotos de universidades brasileiras, você só veria gente nua fazendo sexo. Eles vão para a universidade para fazer sexo e, se você tenta impedi-los, eles se revoltam, começam a chorar, dizem que você é um opressor". E um pouco mais adiante acrescenta, defendendo mais uma vez, o corte de verbas: "As universidades permaneceriam uma fachada, como todas as instituições no Brasil - nesse caso, uma fachada para a fornicação".

Em suma, o livro é altamente recomendável para todos os que querem entender melhor o mundo e o Brasil, em particular. Digamos, um mundo de horrores. Vejamos ainda a apresentação do livro pelo próprio autor, na orelha do livro: "O ciclo do tempo. O desejo de lutar pela eternidade em vez de imaginar um futuro melhor e mais promissor. É assim que você distingue um Tradicionalista real de alguém que é meramente conservador - ou um tradicionalista, com t minúsculo. É a diferença entre alguém meramente pessimista e quem acredita que vivemos um tempo de destruição, que sustenta que o desmoronamento de monumentos (General Lee - Chesterville) é algo a ser celebrado e que a vontade de construir algo grandioso não passa de uma tolice perversa. O que aconteceria se um grande número de líderes mundiais fosse aconselhado por pensadores que têm o objetivo de colocar tudo abaixo, que valorizam a estagnação em vez do progresso, que desejam que nosso universo resgate o que éramos, e não que conquiste o que sonhamos ser".

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