sábado, 9 de outubro de 2021

Uma cena de escravidão. Em Gramado - RS. Em 01.10.2021.

Depois de mais de um ano e meio vivendo uma espécie de confinamento por causa do Coronavírus, convidado pelo meu filho, empreendemos uma viagem de férias para o Rio Grande do Sul. Ele estava com um sentimento de saudosismo, querendo revisitar os lugares onde eu nasci. A minha cidade natal é Harmonia, no vale do rio Caí. Os meus filhos nasceram em Umuarama e conheceram essa região do Rio Grande do Sul, ainda em sua infância. 

Procurei traçar um roteiro que misturava visitas turísticas e familiares. Começamos por Antônio Prado, considerada a mais italiana das cidades brasileiras, com mais de 40 casas tombadas pelo IPHAM. Continuamos na Serra Gaúcha no dia seguinte, visitando o Santuário de Nossa Senhora de Caravaggio, em Farroupilha e o Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves. Rica culinária e excelentes vinhos. O dia seguinte foi dedicado a visitas familiares em Tupandi e Harmonia. Voltamos ainda para a Serra Gaúcha, visitando Garibaldi, Carlos Barbosa e Salvador do Sul. Aí empreendemos a viagem de volta, visitando Nova Petrópolis, Gramado e Canela. Lugares encantadores. A parte turística terminou em Cambará para ver os cânions de Fortaleza e Itaimbezinho. Uma forte neblina nos tolheu a vista durante a visita. Só valeu a primeira meia hora. Escolhemos a cascata do Caracol, como a mais bela atração em toda a viagem.

A igreja matriz de São Pedro, na cidade de Gramado.

Mas vamos ao motivo deste post. Uma cena vista em Gramado, cidade encravada na Serra Gaúcha. Ela é belíssima. Tem um pouco menos de 40 mil habitantes e a sua economia é quase totalmente voltada ao turismo. Consta que recebe 6,5 milhões de turistas por ano. Ela é um Shopping a céu aberto, tal o luxo do centro da cidade, na Avenida Borges de Medeiros e ruas próximas. Nela ocorre o famoso Festival Brasileiro e Latino de Cinema, que distribui Kikitos, as programações do Natal Luz e a Festa da Colônia, uma festa de integração dos povos colonizadores, especialmente alemães e italianos. Em Gramado está localizada a igreja de São Pedro, a igreja matriz da cidade. Foi nesta igreja que vi a cena que dá o título para o Post.

Em minhas viagens observei muitas cenas remanescentes da escravidão. Duas delas eu ainda trago muito vivas na memória. A primeira é a igreja de São Francisco, nas proximidades do Pelourinho, em Salvador. A igreja é uma das mais ricas do Brasil. Mas, a sua riqueza é encontrada apenas para além do pórtico de entrada. Na parte anterior, a dos fundos, não há riqueza alguma. A organização do espaço e a sua estética obedecia ao critério das classes sociais que, creio, não satisfazia o gosto de Jesus. A outra cena é de São João del Rei, em Minas Gerais. É uma cena de rua. A rua é a que se situa em frente à casa da família de Aécio Neves, assim pelo menos ela nos foi apresentada pelo guia turístico. A calçada dessa rua tem dois andares, um superior, outro inferior. Na parte superior andavam os senhores, na parte inferior, os escravos que os acompanhavam. A escravidão continua com as suas marcas irremovíveis. É que, citando Joaquim Nabuco, a escravidão foi  abolida, mas não a sua obra.

Agora vamos à cena de Gramado. Muito próximo da bela igreja, uma senhorinha andava ereta e elegantemente trajada. Logo atrás vinham duas crianças, meninos, provavelmente gêmeos, em torno de dois para três anos de idade, ricamente vestidos com roupas que ostentavam uma famosa marca. Atrás vinham duas moças, as pajens das crianças, devidamente uniformizadas, meio avental de professora, meio de enfermeira. Ninguém interagia. A mãe nem mesmo volvia os olhos. Acompanhei a cena meio de lado, com toda a discrição possível. Quando chegaram à igreja, a senhorinha e as crianças entraram, as pajens ficaram. A partir daí não mais acompanhei a cena e me pus a refletir. Por óbvio, não registrei fotograficamente a cena.

Uma cena de primeiro de outubro de 2021. A lei da gravidade social persiste e insiste em se manter. Uma tristeza profunda tomou conta de mim. Certamente, por muito tempo ainda manteremos as estruturas injustas de nossa origem histórica, fundada na escravidão, uma chaga, que tudo indica, é irremovível. Tudo isso, num dos mais belos e ricos países do mundo.

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