terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

As obras-primas que poucos leram. BABBITT. Siclair Lewis.

Se você quiser fazer um verdadeiro passeio literário, passando pelas mais belas obras da literatura universal, seguramente o livro é este: As obras-primas que poucos leram, um livro organizado pela escritora Heloísa Seixas. São dois volumes. Mas eu tenho apenas o volume de número 2. No que consiste o livro? A análise de clássicos, feita por especialistas. Um exemplo: Otto Maria Carpeaux examina Crime e castigo de Dostoievski, ou R. Magalhães Júnior analisa Babbitt, de Sinclair Lewis, que passaremos a ver.

As obras-primas que poucos leram. Vol 2. Organização de Heloísa Seixas. Record. 2005.

O romance de Sinclair Lewis, Babbitt, me impressionou muito. O livro integra a memorável coleção de 50 livros, Os imortais da literatura universal, uma publicação da Abril Cultural do ano de 1972. O livro é o de número 44. A primeira edição do livro é do ano de 1922, poucos anos após a Primeira Guerra Mundial. Os Estados Unidos estão sendo governados pelo presidente Warren Harding (1921-1923), do Partido Republicano e sob os efeitos da Lei Seca. Babbitt é um comerciante (corretor de imóveis) de uma fictícia cidade do meio-oeste norte-americano e que se torna uma espécie de símbolo, uma caricatura do comerciante que apenas pensa em enriquecer, em ganhar dinheiro, muito dinheiro! Muito espírito do capitalismo e pouca ética protestante. Deixo a resenha do livro:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/05/babbitt-harry-sinclair-lewis-1922-nobel.html 

A cidade fictícia que Lewis retrata é a cidade de Zenith, que muitos cogitam ser a cidade de Minneápolis ou Cincinati, nos relata o resenhista Magalhães Júnior. A ela está reservada a glória e a grandeza do progresso. Seus cidadãos sentem muito orgulho dela. Ele também nos retrata a maneira peculiar que o escritor tinha para escrever. Ele se inseria dentro dos grupos que ele queria retratar e assim observá-los mais de perto. Babbitt sofreu um verdadeiro bombardeio de críticas. Foi considerado um livro anti Estados Unidos, contra os seus valores e a sua moralidade. Esses valores eram falsos. Ironia! Hipocrisia! Eram tempos de isolacionismo e protecionismo econômico. Tempos da Lei Seca (1920-1933) e da radical  segunda etapa da Ku Klux Klan.

O livro se centra no modo de atuação de Babbitt, de como ele se comporta para conquistar os seus clientes. Mostra suas frustrações, sonhos desfeitos e a ânsia de vender, vender e vender sempre mais. Vejamos o resenhista: "Para vender, precisava relacionar-se, ampliar cada vez mais o círculo social em que se agitava, fazer sempre contatos novos. Por isso, ingressa em tudo quanto é tipo de sociedades, clubes, fraternidades. É sócio da Ordem Protetora e Fraternal dos Alces, do Clube Atlético, da Associação Cristã de Moços, da Associação Estadual de Juntas de Bens Imóveis, do Boosters Club, bem como de vários outros, do tipo Rotary ou Lion's, um dos quais multava os sócios em meio dólar, quando estes não se tratavam por alcunhas ou diminutivos, o que era um meio artificial de forçar a intimidade e quebrar barreiras entre eles. Em cada sócio desses clubes, Babbitt via um freguês em potencial. Seus negócios, em geral, eram limpos, mas sendo necessário também entrava em conchavos ou dava golpes rendosos. Era honesto, mas subornava fiscais, para ajeitar situações difíceis, como a aprovação de loteamentos irregulares".

A descrição de seu anti-herói continua: "Contudo, Babbitt era virtuoso. Defendia, sem praticar, a proibição do álcool. Aprovava, sem lhes obedecer, as leis contra excessos de velocidade. Pagava suas dívidas. Contribuía para as despesas do culto, para a Cruz Vermelha e a Associação Cristã de Moços. Seguia os costumes de sua classe e não trapaceava senão quando isso era autorizado por um precedente, nunca descendo à fraude positiva e direta".

Vejamos mais uma caracterização do livro: "No seu romance, que constitui um painel sociológico dos Estados Unidos no início da década de 1920, Siclair Lewis satiriza a preocupação obsessiva do dinheiro na vida norte-americana e certos processos de iludir as massas ingênuas, semelhantes ao que usou o espertalhão Dale Carnegie, com o seu processo de self-help, em cursos, conferências e no livro Como fazer amigos e influenciar pessoas". É um fervoroso adepto de cursos rápidos e práticos em vez de "latim e dramaturgia de Shakespeare". Em suma, um novo sistema educacional. Como são esses cursos aligeirados que hoje são tão comuns entre os governadores brasileiros de extrema direita Esse sistema tem também ojeriza à filosofia, à história e ás ciências sociais e artes. temem o pensar. Perda de tempo e tempo é dinheiro.

Babbitt, no entanto, teve dúvidas quanto a seus princípios. Passa a frequentar ambientes impróprios e as suas atividades comerciais entram em declínio. Então ele rapidamente se recompõe. Volta à família e aos negócios. E, alimenta uma esperança:

"Sua esperança é de que o filho possa romper o círculo das conveniências e dos interesses mesquinhos, para se afirmar como um indivíduo menos escravo das ideias feitas. Para ele próprio é que não há nenhuma esperança. Reconhece que sua vida foi vazia e fútil. É um homem oco, cujo dinamismo e eficiência não o levaram a lugar algum. Em todo caso, recupera a intermediação rendosa na nova negociata municipal com terrenos para a Companhia de Transportes Urbanos...".

Outro autor norte americano que eu aprecio muito é Philip Roth. Este é um crítico da cultura norte-americana ainda mais mais ácido do que Sinclair Lewis.


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A - Mais-Valia - em pequenos tópicos. Explicada por Leo Huberman. - A história da Riqueza do Homem.

A finalidade deste post é a de explicitar de uma maneira simples e fácil, um conceito extremamente complexo e fundamental para a compreensão do funcionamento do modo de produção capitalista. Trata-se do conceito de MAIS-VALIA, conceito pelo qual Marx fez a sua maior denúncia sobre a exploração contida no sistema capitalista, qual seja - o não pagamento de todas as horas trabalhadas e a sua apropriação pelo dono do capital, ao comprar a força de trabalho dos trabalhadores. Esta explicitação se encontra no importante livro de Leo Huberman, História da riqueza do homem.

História da riqueza do Homem. Leo Huberman. Zahar. 1983. Tradução Waltensir Dutra.

O livro de Leo Huberman está dividido em duas partes. Na primeira - Do feudalismo ao capitalismo - ele relata a formação histórica do surgimento do sistema com a superação do sistema feudal. São séculos de história. Na segunda parte o autor se dedica à análise das contradições internas desse sistema, que são irreversíveis e que trazem como consequência uma infinidade de guerras. O sistema tem como principal finalidade a obtenção de lucro e este é obtido pela Mais-valia, ou seja, pelas horas de trabalho que não são pagas ao trabalhador. Este trabalhador foi forjado dentro do próprio sistema, ao  transformá-lo de um artesão em um trabalhador "livre". Livre de tudo, despojado de tudo, menos de sua força de trabalho, que ele é obrigado a vender, por necessidade de sobrevivência. O principal teórico do valor do trabalho foi David Ricardo. Foi sobre essa teoria que Marx se debruçou para desvendá-la. Agora sim, vamos ao livro, aos tópicos explicativos do conceito.

"A teoria da mais-valia de Marx resolve o mistério de como o trabalho é explorado na sociedade capitalista. Vamos resumir todo o processo em frases curtas:

O sistema capitalista se ocupa da produção de artigos para a venda, ou de mercadorias.

O valor de uma mercadoria é determinado pelo tempo de trabalho socialmente necessário encerrado na sua produção.

O trabalhador não possui os meios de produção (terra, ferramentas, fábricas etc.).

Para viver, ele tem de vender a única mercadoria de que é dono, sua força de trabalho.

O valor de sua força de trabalho, como o de qualquer mercadoria, é o total necessário à sua produção - no caso, a soma necessária para mantê-lo vivo.

Os salários que lhe são pagos, portanto, serão iguais apenas ao que é necessário à sua manutenção.

Mas esse total que recebe, o trabalhador pode produzir em parte de um dia de trabalho.

Isso significa que apenas parte do tempo estará trabalhando para si.

O resto do tempo, estará trabalhando para o patrão.

A diferença entre o que o trabalhador recebe de salário e o valor da mercadoria que produz, é a mais-valia.

A mais-valia fica com o empregador - o dono dos meios de produção.

É a fonte do lucro, juro, renda - as rendas das classes que são donas.

A mais-valia é a medida da exploração do trabalho no sistema capitalista".

Está aí, - simples assim. Mas vale a pena seguir a leitura por mais um parágrafo. Nele encontramos uma perspicaz observação, da comparação entre Abraham Lincoln  e a teoria da mais-valia de Marx. Leo Huberman foi professor e diretor do Departamento de Ciências Sociais da famosa Universidade Colúmbia de Nova York. Vejamos:

"Kark Marx era um atento estudioso da história americana, e portanto é provável que conhecesse os escritos e discursos de Abraham Lincoln. Não sabemos se Lincoln teve a oportunidade de ler qualquer dos trabalhos de Karl Marx. Mas sabemos que sobre certos assuntos seus pensamentos eram idênticos. Vejamos esse trecho de Abraham Lincoln: 'Nada de bom tem sido, ou pode ser, desfrutado sem ter primeiro custado trabalho. E como a maioria das coisas boas são produzidas pelo trabalho, segue-se que todas essas coisas pertencem, de direito, àqueles que trabalharam para produzi-las. Mas tem ocorrido, em todas as eras do mundo, que muitos trabalharam e outros, sem trabalhar, desfrutaram uma grande proporção dos frutos. Isso está errado e não deve continuar. Assegurar a todo trabalhador o produto de seu trabalho, ou o máximo possível desse produto, é o objetivo digno de qualquer bom governo". In Leo Huberman. História da riqueza do homem. Zahar. 19ª edição. 1983. Páginas 232-234).

Deixo ainda o link da resenha do livro.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2026/01/historia-da-riqueza-do-homem-leo.html

E ainda a teoria dos modos de produção - da Contribuição à Crítica da Economia Política:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2015/11/prefacio-contribuicao-critica-da.html



sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

HISTÓRIA DA RIQUEZA DO HOMEM. Leo Huberman. 1936.

As minhas releituras. Desta vez foi a de um dos livros mais impactantes em toda a minha formação. Trata-se de A história da riqueza do homem, de Leo Huberman (1903 - 1962). Ele foi o chefe do Departamento de Ciências Sociais de uma das mais prestigiadas universidades dos Estados Unidos, a Colúmbia University, de Nova York. Foi jornalista e escritor militante. A pesquisa para o livro foi realizada na Faculdade de Economia de Londres. Um livro de enormes repercussões. A primeira edição apareceu em 1936. Esta data marca, portanto, também o limite dos fatos históricos relatados. Véspera de uma guerra previsível. Guerras inerentes ao sistema.

História da Riqueza do Homem. Leo Huberman. Zahar. 1983. Tradução: Waltensir Dutra.

Não faço a menor ideia de como cheguei ao livro, de indicações recebidas. Mas lembro bem, eu o usei muito como professor do Ensino Médio, no Colégio Estadual de Umuarama. Também lembro de uma outra experiência. A Secretaria de Estado da Educação promovia cursos de formação continuada junto aos professores, via Núcleos Regionais de Educação. Num desses encontros me coube a tarefa de coordenar o trabalho junto aos professores de história da Rede Estadual. Não tive dúvidas. História da Riqueza do Homem foi a minha grande referência. Os resultados foram excelentes. Recentemente encontrei um participante desse encontro. Ele me falou que ele marcou a sua formação. Um bom livro sempre é muito poderoso.

Um amigo meu, com quem eu comentei que estava relendo o livro, também me falou dele. Este amigo foi militante da Ação Popular (AP), uma organização de militância cristã no combate da ditadura civil-militar de 1964. Me contou ele que este livro marcou o seu ingresso na organização, na passagem de um mero simpatizante para passar à categoria de militante. Creio que este fato marca bem a importância que foi dada a este livro como formador da consciência, da consciência de classe, obviamente. Mas o que ele tem de tão extraordinário?

No pequeno prefácio da primeira edição o próprio autor define os objetivos: "Este livro tem um duplo objetivo. É uma tentativa de explicar a história pela teoria econômica, e a teoria econômica pela história. Esta inter-relação é importante - é necessária. O ensino da história se ressente quando pouca atenção se dispensa ao seu aspecto econômico; e a teoria econômica se torna monótona quando divorciada de seu fundo histórico. A 'Ciência triste' quando divorciada, enquanto ensinada e estudada num vácuo histórico". Mais adiante, no capítulo VI, a mesma ideia reaparece:

"Mas não se enquadrava (a ideia de preço justo) na economia do mercado grande, exterior e instável. As modificações das condições econômicas provocaram uma modificação das ideias econômicas. Quando o mercado passou a constituir-se de algo mais do que compradores e vendedores de mercadorias feitas na cidade, e dos produtos das vizinhanças, e quando compradores e vendedores de uma área maior trouxeram ao mercado novas influências, abalou-se a estabilidade das condições locais. Isso ocorreu nas feiras, que não estavam sujeitas aos regulamentos sobre o justo preço. Com a ampliação do comércio, as condições relativas ao mercado passaram a ser muito mais variáveis, deixando aquele preço de ser praticável. Ele deu lugar, finalmente, ao preço do mercado" (Página 71). Ideias econômicas e fatos econômicos se interligam e se movem.

Creio que essas pequenas observações já nos dão a ideia exata do teor do livro. A formação e a análise do sistema capitalista e as suas possibilidades futuras. Mas vejamos isso, a partir da organização do livro: Ele está dividido em duas partes: Parte I - Do feudalismo ao capitalismo e Parte II - Do capitalismo ao...? A primeira parte ocupa treze capítulos e vai até a página 164. A segunda parte ocupa os capítulos de número 14 ao vinte e dois, alcançando a página 318, a página final. Como os títulos dos capítulos não são longos e bastante autoexplicativos eu os apresento, com alguma explicitação a mais.

Primeira Parte: Do feudalismo ao capitalismo. Um apanhado histórico. Capítulo I. Sacerdotes, Guerreiros e Trabalhadores (As estruturas da sociedade feudal); Capítulo II. Entra em cena o comerciante (Das cruzadas à expansão comercial. Mercados e feiras); Capítulo III. Rumo à cidade (As cidades e as corporações. Os mercadores); Capítulo IV. Surgem novas ideias (Concepção medieval sobre juros e usura em prejuízo dos comerciantes. A Igreja); Capítulo V. O camponês rompe amarras (rupturas na estrutura feudal. Novo regime de trabalho. Revoltas camponesas); Capítulo VI. E nenhum estrangeiro trabalhará (Do artesanato à indústria. As corporações de ofício. A ascensão do burguês e o declínio do senhor feudal).

Capítulo VII. Aí vem o Rei (O sentimento nacional. A burguesia se alia ao rei. A Reforma. Uma religião adaptada ao novo sistema). Capítulo VIII. Homem rico (Viagens e descobrimentos. Ouro e prata. A Revolução comercial. Os banqueiros); Capítulo IX. Homem pobre, mendigo, ladrão (Ouro e prata e a instabilidade dos preços. Perdem os trabalhadores. Revolução na agricultura); Capítulo X. Precisam-se trabalhadores - Crianças de dois anos podem candidatar-se (A expansão do mercado. Os industriais e as corporações. Os sistemas de produção); Capítulo XI. Ouro, grandeza e glória (O que faz a grandeza de um país, estímulos à indústria, o transporte marítimo, colônias e mercantilismo); Capítulo XII. Deixem-nos em paz (Os fisiocratas e o laissez-faire contra o mercantilismo. O livre comércio). Capítulo XIII. A velha ordem mudou ( As revoluções burguesas. A burguesia e os trabalhadores. O Código de Napoleão).

Segunda Parte. Do capitalismo ao ...? Uma análise do sistema. Capítulo XIV. De onde vem o dinheiro? (O capital e os meios de produção. A acumulação primitiva e a industrialização. Uma religião para o novo sistema). Capítulo XV. Revolução - Na indústria, agricultura transporte. (A máquina a vapor, o crescimento populacional, um novo estilo de vida). Capítulo XVI. A semente que semeais, outro colhe. (Os trabalhadores e a Revolução Industrial. Jornadas de trabalho e trabalho infantil, o movimento ludista, sindicatos e partidos de trabalhadores). Capítulo XVII. Leis naturais - de quem? (A economia clássica, Malthus e suas teorias, Ricardo e o valor do trabalho). 

Capítulo XVIII. "Trabalhadores de todos os países, uni-vos". (Socialistas utópicos e não utópicos. Marx e o trabalho. A mais-valia. As contradições do sistema capitalista). Capítulo XIX. "Eu anexaria os planetas, se pudesse". (O livre comércio e as medidas de proteção. A grande indústria, trustes e cartéis, as crises de excesso de mercadorias. O colonialismo e o imperialismo). Capítulo XX. O elo mais fraco. (As crises do capitalismo, a tendência decrescente do lucro, a necessidade de acumulação. Remendar ou revolucionar?). Capítulo XXI. A Rússia tem um plano. (Lênin e a Revolução. O coletivo. O planejamento econômico, o comércio externo e o monopólio estatal). Capítulo XXII. Desistirão eles do açúcar? (A pobreza em meio à abundância. O planejamento capitalista. A propriedade privada dos meios de produção. Fascismo e guerra).

Como vimos, o limite do livro é o ano de 1936. Ele termina mostrando as convocações de Mussolini e de Hitler para a guerra, sobre as inconveniências de um sistema de paz. Vejamos. Mussolini: "Acima de tudo, o fascismo... Só a guerra leva a energia humana à sua tensão máxima, e põe o selo da nobreza sobre os povos que tem coragem de enfrentá-la... Assim, uma doutrina baseada no prejudicial postulado da paz é hostil ao fascismo". E Hitler: "Na guerra eterna a humanidade se torna grande - na paz eterna, a humanidade se arruinaria". E mais, dois dos parágrafos finais do livro:

"O fascismo significa guerra. Significa guerra não porque os líderes dos dois países fascistas gostem dela. Significa guerra porque a economia fascista é a economia capitalista com a necessidade de expansão, a mesma necessidade de mercados, que caracteriza o capitalismo no seu período imperialista.

Quando a economia capitalista entra em colapso e a classe trabalhadora marcha para o poder, então os capitalistas se voltam para o fascismo como a saída. Mas o fascismo não pode resolver seu problema, porque nele, do ponto de vista econômico, nada se modifica. Na economia fascista, como na economia capitalista, a propriedade privada dos meios de produção e o lucro são básicos". Em suma, o capitalismo gera crises, nas crises se recorre ao fascismo e o fascismo gera guerras. Os problemas são inerentes ao sistema e não exteriores a ele.

Deixo ainda uma texto que há muito me acompanha. A teoria dos modos de produção. É Marx - no Prefácio da Contribuição à crítica da economia política.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2015/11/prefacio-contribuicao-critica-da.html


 


sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O AGENTE SECRETO. Quatro indicações ao Oscar.

"Em As veias abertas (da América Latina), o passado sempre aparece convocado pelo presente, como memória viva do nosso tempo. Esse livro é uma busca de chaves da história passada, que contribui para explicar o tempo presente (que também faz história), a partir da base de que a primeira condição para modificar a realidade consiste em conhecê-la". Essa memorável frase foi dita por Eduardo Galeano, no posfácio do livro, sete anos depois de sua publicação, portanto, em 1978, uma vez que o livro teve a sua primeira publicação no ano de 1971.

Me lembrei dessa frase, ainda dentro do cinema, quando fui assistir O agente secreto, no dia 15 de janeiro, logo após ele ser premiado em três categorias pelo Globo de Ouro, a saber: melhor filme de drama, melhor filme em língua não inglesa e melhor ator em filme de drama. Prenúncio de indicações ao Oscar. Hoje (escrevo no dia 22 de janeiro) saíram as suas indicações. A cerimônia da premiação ocorrerá no dia 15 de março. O agente secreto recebeu quatro indicações, a maior indicação para um filme brasileiro: melhor seleção de elenco, melhor ator, - Wagner Moura - (pela primeira vez um ator brasileiro recebe essa indicação), melhor filme e melhor filme internacional. Por que da lembrança?

O agente secreto. Cartaz promocional.

O agente secreto é um filme de memória, um filme de história. Ele busca as chaves de fatos ocorridos no ano de 1977, tempos da ditadura de Ernesto Geisel, para, a partir dessa base entendermos o tempo presente, quando ainda trazemos bem vivos os fatos ocorridos no dia 8 de janeiro de 2023, de tentativa de um golpe de Estado para a implementação de um novo regime autoritário. Os fatos retratados, do ano de 1977, integraram uma interminável ditadura civil-militar iniciada em 1964 e que só veio a terminar em 1985 e sepultada com a promulgação da Constituição de 1988. De uma certa maneira, aprendemos a lição da história, quando pela primeira vez os golpistas foram julgados e estão cumprindo penas prisionais. Mas os apreciadores de golpes que buscam se beneficiar com regimes autoritários, não cessam de se movimentar. Anistia, dosimetria das penas e outras aberrações. Tempos inquietantes.

Tempos inquietantes, como foram aqueles ocorridos e narrados no filme. Os fatos de 1977. Quais são então, essas inquietações? Marcelo (Wagner Moura) é um jovem professor universitário, ligado a pesquisas em tecnologia, em conflito com um poderoso industrial. Em busca de paz e de ter uma aproximação maior com Fernando, o filho, se muda para o Recife. Mas o clima de perseguição não muda. Ele o segue. No Instituto de Identificação de Recife conhecerá a corrupção policial instituída. Nesse momento do filme me lembrei de uma frase que eu ouvia à exaustão nesses tempos de regime autoritário. Até o inspetor de quarteirão se julgava imbuído de um poder maior do que o do próprio ditador de plantão. Cenas kafkanianas. De São Paulo vem a sua sentença, a sua condenação.

As cenas passadas em Recife são belíssimas. Marcelo, agora atende pelo nome de Armando, na busca de documentos que possibilitassem, inclusive, a sua fuga do país. Ele recebe boa acolhida no local de sua hospedagem e de amigos que sabem de sua situação, bem como as raras conversas com Fernando, seu filho, que está sob os cuidados do avô, projecionista de filmes no histórico cinema São Luís. Creio ser esse pessoal no entorno de Marcelo/Armando que fizeram o filme receber a indicação de melhor seleção de elenco, com um destaque todo especial para Tânia Maria, no papel de Dona Sebastiana. Mas os seus assassinos conseguem uma aproximação cada vez maior. Cenas de gângster que nada devem a Hollywood. Rastros de sangue. O desfecho aparece em notícia de jornal, junto com a história da perna, da perna cabeluda, engolida por um tubarão.

O filme é longo (2h40m) e não termina aí. Começa a terceira parte. Flávia é uma pesquisadora, que investiga a vida de Elza (Maria Fernanda Cândido), que é uma das pessoas com quem Marcelo/Armando teve muitas relações em sua passagem pelo Recife. Flávia irá doar sangue num hemocentro do Recife. Lá se encontra com o médico de nome  Fernando. Este recebe os documentos da pesquisa de Flávia, cujos originais ela teve que entregar para a universidade privada em que ela trabalhava. Cenas de rara sutileza. Pesquisa, memória, sensibilidades.

O filme tem roteiro e direção de Kleber Mendonça Filho e a segura e já premiada atuação de Wagner Moura. Um brinde ao cinema, à história, à memória e especialmente à democracia. E no meu modesto entendimento, as entrevistas dadas por Wagner Moura sobre o filme, são, no mínimo, tão boas quanto a sua premiada atuação. Orgulhoso com o cinema e a cultura brasileira, que provocou tanto furor na extrema direita, sempre avessa à cultura. E como começamos com uma frase, vamos também terminar com uma citação. Recorro a um livrinho de Umberto Eco, a transcrição de uma palestra na verdade. Nele ele elenca as características do fascismo. Transcrevo todo o item três:

"O irracionalismo depende também do culto da ação pela ação. A ação é bela em si e, portanto, deve ser realizada antes de e sem nenhuma reflexão. Da declaração atribuída a Goebbels ('Quando ouço falar em cultura, pego logo a pistola') ao uso frequente de expressões como 'porcos intelectuais', 'cabeças-ocas', ' esnobes radicais', 'as universidades são um ninho de comunistas', a suspeita em relação ao mundo intelectual sempre foi um sintoma de Ur-fascismo. Os intelectuais fascistas oficiais estavam empenhados principalmente em acusar a cultura moderna e a inteligência liberal de abandono dos valores tradicionais" (ECO, Umberto. Fascismo eterno. Record. Rio de Janeiro. São Paulo. 2018. Páginas 47-49).

Em suma, um filme absolutamente imperdível. Orgulho do cinema e da cultura brasileira e um tributo às instituições da democracia. Profundamente humano.





sábado, 17 de janeiro de 2026

As Missões dos jesuítas no Paraguai, vistas em - As veias abertas da América Latina.

O tema das Missões sempre me chamou muita atenção. Sobre elas li bastante e já visitei as reduções que são encontradas no Paraguai, na Argentina e no Rio Grande do Sul. Ao longo deste ano de 2026, há no Rio Grande do Sul, uma extensa programação em comemoração aos 400 anos deste tão significativo fato histórico. As festividades ocorrerão tanto em Porto Alegre, quanto em Santo Ângelo, a principal das cidades missioneiras no estado. As ruínas de São Miguel são Patrimônio Cultural da Humanidade. Os chamados Sete Povos das Missões foram cenário de muitos acontecimentos. Portugueses e espanhóis se empenharam em sua destruição. Pelo Tratado de Madri (1750), houve a troca da portuguesa cidade de Colônia do Sacramento pelos espanhóis Sete Povos das Missões. Além da troca, os assinantes do Tratado deveriam também dar um fim ao experimento dos jesuítas. Segue a sangrenta Guerra Guaranítica e o extermínio dos povos indígenas.

As veias abertas da América latina. Eduardo Galeano. Paz e Terra. 2007. 

Ao reler As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, encontrei uma preciosa referência sobre este experimento jesuítico paraguaio. E como no Brasil estamos comemorando o evento de seus 400 anos, trago para este post, o relato encontrado. Inicia com uma referência aos jesuítas em geral e depois, sobre a sua experiência no Paraguai.

"Os fanáticos padres da Companhia de Jesus, 'guarda negra do papa', haviam assumido a defesa da ordem medieval ante as novas forças que irrompiam no cenário histórico europeu. Entretanto, na América espanhola, as missões dos jesuítas desenvolveram-se sob um signo progressista. Vinham para purificar, mediante o exemplo da abnegação e do ascetismo, uma Igreja católica entregue ao ócio e ao gozo desenfreado dos bens que a conquista pusera à disposição do clero. Foram as Missões do Paraguai as que alcançaram o maior nível; em pouco mais de um século (1603-1768), definiram a capacidade e os fins de seus criadores. Os jesuítas atraíram, mediante a linguagem da música, os índios guaranis que tinham buscado amparo na selva ou que nela haviam permanecido sem se incorporarem ao processo civilizatório dos encomenderos e donos de terra. 

Cento e cinquenta mil índios guaranis puderam, assim, reencontrar a sua organização comunitária primitiva e ressuscitar suas próprias técnicas nos ofícios e nas artes.  Nas missões não existia o latifúndio: a terra era cultivada em parte para a satisfação das necessidades individuais e em parte para desenvolver obras de interesse geral e adquirir os instrumentos de trabalho necessário, que eram de propriedade coletiva. A vida dos índios estava sabiamente organizada; nas oficinas e nas escolas, tornavam-se músicos e artesãos, agricultores, tecedores, atores, pintores, construtores. Não se conhecia o dinheiro; estava proibida a entrada de comerciantes, que deviam negociar a partir de hotéis instalados a certa distância. A Coroa sucumbiu finalmente às pressões dos encomenderos criollos, e os jesuítas foram expulsos da América. Os cadáveres pendiam das árvores nas missões; povoados inteiros foram vendidos nos mercados de escravos do Brasil. Muitos índios voltaram a encontrar refúgio na selva. As bibliotecas dos jesuítas foram parar nos fornos, como combustível, ou foram utilizadas para fazer cartuchos de pólvora". A referência, como explica a nota de rodapé, é uma citação de Jorge Abelardo Ramos, retirada do livro Historia de la nación latino-americana. Buenos Aires, 1968. (Nota 45. Página 248).

A música continua muito forte entre os herdeiros dos missioneiros guaranis. São Luiz Gonzaga é uma espécie de capital da música e de outras tradições missioneiras. Ela abriga os chamados quatro troncos missioneiros: Jaime Caetano Braun, Cenair Maicá, Noel Guarany e, o ainda vivo, Pedro Ortaça. Este, agraciado com títulos de Doutor Honoris causa, de universidades gaúchas, em reconhecimento pelo cultivo das tradições missioneiras. Deixo um link sobre eles. Também é missioneiro um outro monstro sagrado da música missioneira, já falecido, Luiz Carlos Borges. Outro missioneiro é o famoso galo missioneiro, o ex-prefeito de Porto Alegre e ex-governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra, da Bossoroca. E o Chamamé, então, o que falar!

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2016/01/a-musica-missioneira-os-4-troncos.html

Deixo também o Érico Veríssimo falando das Missões em sua memorável obra O tempo e o vento.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/03/erico-verissimo-descreve-as-missoes-o.html

E ainda o melhor livro que li sobre o tema: A República comunista cristã dos guaranis, do padre jesuíta suíço Clovis Lugon.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2016/03/a-republica-comunista-crista-dos.html 

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

AS VEIAS ABERTAS DA AMÉRICA LATINA. Eduardo Galeano.

Há muito eu desejava fazer a releitura do livro de Eduardo Galeano, As veias abertas da América Latina. Creio que não poderia ter havido melhor oportunidade do que a do momento, por causa do sequestro praticado por Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos, de Nicolás Maduro, o governante da Venezuela,. É sabido que o país possui as maiores reservas de petróleo do mundo. Mais explícito do que o foi Trump sobre o motivo desse sequestro, é absolutamente impossível: A posse e o controle do petróleo. Não quero aqui emitir qualquer juízo sobre o governo ou o regime de Maduro. Apenas afirmar que tudo o que aconteceu, se deu às margens do Direito Internacional. A vontade de Trump foi superior a toda a legislação construída ao longo de todo um processo civilizatório. Os governadores de estados brasileiros, ligados à extrema direita, tiveram ou simularam orgasmos múltiplos, ao contemplarem a ação não civilizada de Trump.

As veias abertas da América Latina. Eduardo Galeano. Paz e Terra. 2007. Tradução: Galeno de Freitas.

Dito isso, vamos ao livro, um dos maiores marcos da história. Galeano nos conta sobre seus propósitos: "Esse livro é uma busca de chaves da história passada, que contribui para explicar o tempo presente (que também faz história), a partir da base de que a primeira condição para modificar a realidade consiste em conhecê-la" (Do posfácio de 1978. Página 341). Galeano terminou a escrita do livro no ano de 1970 e a primeira edição apareceu já em 1971. No Brasil ele apareceu bem tardiamente. Apenas no ano de 1978. Lembro-me bem de sua leitura e de seu uso em sala de aula. Um furor!

É, sem dúvida, um dos maiores livros de denúncia que se possa imaginar. A sangria das riquezas da América Latina, que escorriam pelas "veias abertas", drenadas assim para os países colonialistas e mais tarde imperialistas. É a história da pirataria praticada pelos exploradores espanhóis e portugueses, tanto de nossas riquezas minerais e vegetais, das provenientes da agricultura e, mais tarde, de nossos minerais, nossas riquezas de subsolo. E, ainda mais tarde, a partir dos processos de independência, ou melhor, da troca da dependência da Espanha ou de Portugal, pela Inglaterra, tão ou mais perversa quanto aquelas. Uma história de piratas.

O livro é denso. Tanto em volume quanto em fatos. A edição que tenho em mãos é da Paz e Terra, 46ª edição, do ano de 2007. Presente de um amigo. Ele possui 365 páginas, sob as quais se estendem as duas partes, com os seus cinco capítulos do corpo do trabalho, mais um prefácio de autoria de Isabel Allende, uma introdução e um posfácio, este escrito em 1978. Aos pés da páginas estão centenas de notas explicativas e referências bibliográficas. As duas partes tem os seguintes títulos: Primeira parte: A pobreza do homem como resultado da riqueza da terra; Segunda parte: O desenvolvimento é uma viagem com mais náufragos do que navegantes.

A primeira parte tem três capítulos. De maneira geral, se ocupa dos tempos coloniais. Colônias espanholas e portuguesas. Exploração pura. Nenhuma colonização. Devastação predatória no mais elevado grau. Vejamos os títulos dos três primeiros capítulos e algumas considerações: 1. Febre de ouro, febre de prata. Aí é tratada mais a questão espanhola, já que encontraram essas riquezas logo de saída. O ouro dos maias e dos astecas, a prata de Potosi; os mecanismos de dominação: entre a cruz e a espada, a cruz do convencimento e o desenraizamento das tradições culturais e a espada da violência. O extermínio das populações indígenas. E, mais tarde, o ouro de Ouro Preto. Essas riquezas e o desenvolvimento industrial europeu, predominantemente inglês. 

2. O rei do açúcar e outros monarcas agrícolas. O capítulo é aberto com o açúcar do nordeste brasileiro e a devastação dos solos. O mesmo acontece, logo em seguida, com os países caribenhos. Os trabalhadores da economia açucareira e a volta do trabalho escravizado e seus horrores. Depois o ciclo da borracha, do algodão e do café. O sistema de latifúndio e a fome como um subproduto seu. As primeiras lutas em torno da reforma da estrutura fundiária: a Reforma agrária. O autor ainda faz um importante contraponto com o ocorrido nas 13 colônias ao norte. Uma contraposição entre a Lei de Terras do Brasil (1850) e o Homestead Act (1862) dos Estados Unidos

3. As fontes subterrâneas do poder. A avidez em torno das riquezas de subsolo. Vejamos um subtítulo bem ilustrativo: - A economia norte-americana precisa dos minerais da América Latina como os pulmões necessitam de ar -. Uma história de espionagens e de sublevações. Os temas presentes são o guano e o salitre, os fertilizantes tão necessários; o cobre do Chile, o estanho e os seus pobres mineradores, o ferro e outros componentes e o petróleo, ah sim! Até hoje, o petróleo.

A segunda parte tem dois capítulos: os de número quatro e cinco. 4. História da morte prematura. Os ingleses e a independência das colônias. O desenvolvimento industrial. Protecionismo e livre-cambismo. A ditadura dos portos. Uma bela análise da Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai. As raízes missioneiras do Paraguai e sua economia autossuficiente. Protecionismo e nacionalismo. Os empréstimos e as ferrovias. A drenagem das veias na direção dos portos exportadores de matérias primas e importadores de bens de consumo das elites. E mais uma vez, um belo contraponto com as 13 colônias e os seus êxitos, especialmente após a Guerra da Secessão. 

5. A estrutura contemporânea da espoliação. O comportamento das burguesias nacionais. As bandeiras que tremulam sobre as máquinas da industrialização. Os mecanismos da dominação pós Segunda Guerra Mundial: O Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial. Empréstimos e endividamentos. Os mecanismos das dívidas externas. A farsa das integrações latino-americanas. A industrialização e a exportação do produto de braços baratos. A industrialização e a nova geração de desigualdades. As profecias de Simão Bolívar. "Nunca seremos afortunados".

No posfácio, Galeano faz uma retomada do livro, sete anos depois. Belíssimas páginas, em 18 diferentes tópicos. Tomo duas frases; A primeira é de Brecht: "Nos países democráticos não é revelado o caráter de violência que a economia tem; nos países autoritários acontece o mesmo com o caráter econômico da violência". A segunda é de um jornal conservador argentino, revoltado com a rotulação de que a Argentina seria um país subdesenvolvido. Vejamos a sua indignação: "Como uma sociedade culta, europeia, próspera e branca podia ser medida com o mesmo metro com que se media um país tão pobre e negro como o Haiti". Vejam o preconceito!

E a frase final: "Nessas terras, o que assistimos não é a infância selvagem do capitalismo, mas a sua cruenta decrepitude. O subdesenvolvimento não é uma etapa do desenvolvimento. É a sua consequência. O subdesenvolvimento da América Latina provém do desenvolvimento alheio e continua a eliminá-lo. Impotente pela sua função de servidão internacional, moribundo desde que nasceu, o sistema tem pés de barro. Postula a si próprio como destino e gostaria de se confundir com a eternidade. Toda memória é subversiva porque é diferente. Todo projeto de futuro também. Obrigam Zumbi a comer sem sal: o sal, perigoso, poderia despertá-lo. O sistema encontra o seu paradigma na imutável sociedade das formigas. Por isto se dá mal com a história dos homens: pelo muito que esta muda. E porque, na história dos homens, cada ato de destruição encontra a sua resposta - cedo ou tarde - num ato de criação". Um livro escrito com muita gana e muita indignação. E por falar em indignação, uma bela frase sobre a esperança: " A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem. A indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão. A coragem, a mudá-las".

E que momento para a leitura! O episódio da Venezuela não contém nenhuma novidade. As veias da América Latina continuam abertas e a sangrar muito. Deixo ainda a resenha de outro belo livro sobre o tema da exploração da América, sob os auspícios da liberdade apregoada pelo iluminismo.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2021/09/o-seculo-das-luzes-alejo-carpentier.html

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

O Diabo no imaginário cristão. Carlos Roberto F. Nogueira.

Haja imaginário! E acima de tudo imaginário doentio. Estou falando do livro O diabo no imaginário cristão, do professor de História Medieval, Carlos Roberto F. Nogueira. Da primeira leitura do livro lembrei perfeitamente - que num determinado catecismo, o número de referências ao diabo era maior do que o número de citações de Jesus Cristo. Com facilidade localizei novamente a passagem:

O diabo no imaginário cristão. Carlos Roberto F. Nogueira. Edusc. 2002.

"A essa situação (da teologia aterrorizante - e muitas vezes incompreensível - da cultura erudita) a Igreja respondia com a missão de convencer os ignorantes da verdadeira identidade do Maligno, através dos sermões, dos catecismos, das obras demonológicas e dos processos de bruxarias. Os demônios tudo podem, e sua presença nos discursos religiosos é muito maior do que a de Deus. No Grande Catecismo de Canisius, tornado obrigatório em diversas regiões no século XVI, o nome de Satã é citado 77 vezes, enquanto o de Cristo, apenas 63, como de resto na maioria das obras demonológicas" (Página 99).Satã maior do que Cristo. O que é isso?!

Antes de entrar na resenha do livro quero destacar uma parte de minha formação inicial, totalmente religiosa. Nasci em meio a uma comunidade de católicos de origem alemã, em que tudo na vida se centrava na prática religiosa. Tudo mesmo. Assim, já aos doze anos de idade eu me mandava para o seminário, para ingressar na vida religiosa. Seria a suprema honra para a família e meio seguro para eles obterem a sua salvação. Mas posso afirmar aqui, que o tema do demônio, raras vezes me assombrou. Já na comunidade havia a pregação de missões e, depois, no seminário, havia os chamados retiros espirituais. Aí sim, havia cenas de apavoramento, com a lembrança dos Novíssimos. Eram pregações sobre o pecado, a morte, o inferno e o paraíso. Tudo terminava numa grande confissão, confissão da vida toda. Foi numa dessas pregações que eu me encontrei. Me fez muito bem. De Deus não vem os temores, d'Ele vem apenas o Bem. Repito, isso me fez muito bem.

Uma outra cena também me perturbava bastante. Os enterros na vida da comunidade eram solenes. Missas de corpo presente, com cantos fúnebres. Não faltava o Dies irae, dies illa e muitos asperges com água benta. Mas a cena que mais mexia comigo ocorria no cemitério, ao final do enterro. O padre puxava um último Pai Nosso, destinado para aquele "que entre nós haverá de morrer em primeiro lugar". Quem seria? Era a dúvida que persistia. Isso acontecia na comunidade de Harmonia, então terceiro distrito de Montenegro. Mas vamos ao livro.

Ele tem apenas 125 páginas. Tem Prefácio e Introdução. O prefácio é de autoria de Luís Adão da Fonseca. Ele destaca os momentos maiores da eterna briga entre o Bem e o Mal, com destaque para os efeitos diabólicos que se impregnaram na Moral. Na Introdução o autor retoma esta mesma luta e os seus efeitos nas lutas do cotidiano, com um destaque todo especial para o Juízo Final, a data do Grande Desfecho. Seguem sete capítulos, onde estão incluídos Epílogo, Vocabulário Crítico e Bibliografia. Capítulos mesmo, então somam quatro, que eu destaco:

I. As origens do anjo rebelde; II. Cristianismo e demonolatria; III. Deus e o diabo: a pedagogia do medo. IV. O triunfo de Satã. No primeiro capítulo encontramos a construção do arquétipo do demônio, qual seja a do anjo caído, o anjo derrotado na rebelião contra Deus. Por óbvio, como o cristianismo deriva do judaísmo e da Bíblia, na parte do Antigo Testamento, encontramos aí as raízes de sua construção. Como os hebreus passaram por diversas andanças, eles receberam as influências dos povos por onde passaram e onde se cristalizou a imagem da dualidade, da luta entre o Bem e Mal.

No segundo capítulo, com o advento do cristianismo e a sua destinação como uma religião universal, novas incorporações foram feitas. O demônio passa a ser visto como o Pai da desobediência e ele se impregna nos dogmas cristãos. A construção de um demônio institucionalizado levou ao surgimento de muitas heresias. O demônio passa a ser visto como alguém muito poderoso e em permanente combate com Deus. A eterna luta do Bem contra o Mal. No terceiro capítulo, já alcançamos a Idade Média. Como afirmado no título, se instaura uma pedagogia do medo, o medo da força diabólica. A mulher é identificada como a vítima preferida pelos demônios e se promove a caça às bruxas. São criados os instrumentos da Guerra, como o sinal da cruz e a água benta. As representações apavorantes do Demônio, do Inferno e do Juízo Final como componentes da pedagogia do medo. O medo chega a superar a confiança.

No quarto capítulo nos é mostrado o Império do Demônio e a sua relação com os pecados capitais. Novas imagens de apavoramento das consciências e a identificação do Demônio com os inimigos. A disseminação do ódio. A vinda do Anticristo. Quem é o Anticristo? Novas heresias. O otimismo cede à angústia generalizada. Um mundo em pânico. Sobre o número de demônios. (Para ilustrar - "No meio do caminho em nossa vida // eu me encontrei por uma selva escura" - o início de A Divina Comédia, de Dante Alighieri). No quinto capítulo, ou epílogo temos uma retomada do tema da luta do Bem contra o Mal e criação de uma espécie de estética do satanismo com o surgimento das seitas satânicas e o ocultismo, um verdadeiro flerte com o Demônio. Vejamos o Mefistófeles de Goethe.

Vamos ainda às orelhas do livro: "O diabo é uma das figuras centrais do imaginário cristão ocidental. Entretanto, o estudo de suas origens e dos papéis históricos que esta figura curiosa desempenhou ao longo dos séculos não tem merecido a atenção necessária.

Nesta obra, Carlos Roberto Nogueira aprofunda com a erudição necessária esta problemática, pesquisando e apresentando a fusão existente entre a história do Cristianismo e a história do próprio Diabo. O papel decisivo desempenhado pela presença deste personagem e seus agentes dentro de uma crença oficial - o Cristianismo - é analisado a partir da necessidade desta crença personificar um elemento como o representante do Mal.

A tentativa, tão característica ao longo da história do Cristianismo, de tranquilizar e uniformizar as consciências é aqui estudada em suas causas e efeitos, destacando-se que estes últimos não foram os definidos e esperados segundo seus objetivos originais, pois acabaram gerando aspectos considerados nefandos por seus proponentes, que culminaram até num certo "prazer estético" em relação ao Mal.

Após as revoluções burguesas na Europa, há uma certa reabilitação do Diabo, possibilitada sobretudo pela separação entre Igreja e Estado. Este momento merece uma análise especial do autor, que comenta e aprofunda abordagens existenciais e mesmo consagradas deste novo período histórico. É o momento em que o Demônio passa a ser um dos símbolos da revolta humana, encontrando seu ápice em muitos autores do romantismo".

Mas eu não posso terminar um post sobre a questão do Diabo sem me remeter a José Saramago. A dois de seus mais memoráveis livros. Caim é um acerto seu com o Antigo Testamento e O Evangelho segundo Jesus Cristo, um acerto com o Novo Testamento. Neste tem a memorável cena em que o Demônio e Deus passam 40 dias numa barca. Nela o Demônio promete abrir mão de sua missão se Deus fizer o mesmo, de continuar a ser apenas o Deus do povo judeu e não um Deus universal. Eu deixo o link desses livros, onde há elucidações a respeito do comentado.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2024/09/saramago-e-os-temas-religiosos-caim-e-o.html