terça-feira, 4 de dezembro de 2012

De Novo. Paulo Freire e a Gazeta do Povo.

A Gazeta do Povo de novo voltou ao tema Paulo Freire. Na página 2, página voltada para opiniões, aparece o tema: Sínteses - O legado de Paulo Freire. A favor escreve um conhecido educador, professor da USP., que exalta o caráter de Paulo Freire como Patrono da Educação Brasileira (lei 12.612/2012) e contra escreve alguém que é apresentado como jornalista e mestre em sociologia. Reduz o legado do educador a uma autoajuda marxista.

Desconheço as razões pelas quais a Gazeta do Povo levanta este debate. Simplesmente apresenta o tema, como o legado de Paulo Freire. Jornalisticamente, no entanto, desta vez  está tudo correto. Há espaço para o a favor e para o contra. Não como da outra vez, em que um de seus colunistas o destratou, sem o espaço para o contraditório. A indignação me levou ao cancelamento da assinatura do jornal. Mas ainda o continuo recebendo. Vou dar uma conferida para ver o que está acontecendo.

Não vou entrar no mérito do texto a favor, mas não consigo calar diante do que foi dito pelo jornalista, naquilo que ele julga ser uma autoajuda marxista. Não conhecia a existência de uma autoajuda marxista, pois, pelo que eu sei, é bem mais cômodo não ser marxista. Sê-lo, sempre foi motivo de muita incompreensão e sofrimento. Que a história de torturas o diga.

Confesso que muito poucas vezes ouço falar mal de Paulo Freire depois da redemocratização do Brasil. Eu imaginava que o anátema a ele e a sua doutrina tinha acabado junto com a ditadura militar. Mas a percepção que eu tenho hoje, é a de que, quanto mais as pessoas falam mal do educador, mais me dá a impressão de que essas pessoas não conhecem Paulo Freire, não lêem Paulo Freire.

Dizer que Pedagogia do Oprimido é menos um tratado que um panfleto, me dá a impressão de que leram Paulo Freire por uma cartilha, ou por um panfleto bem vagabundo, produzida por certos intelectuais ou escolas orgânicas, ligadas a teorias de perpetuação da opressão. Me parece que essas pessoas conseguem ler Paulo Freire ao contrário, pelo oposto do que ele realmente é.

Paulo Freire, se fosse panfletário não teria escrito Pedagogia do Oprimido com mais de duzentas páginas e com tantas citações de teóricos que o fundamentaram. Enumero alguns desses autores: São Gregório de Nissa, em seu sermão contra os usurários, Erich Fromm e Herbert Marcuse, entre os frankfurtianos, Sartre, Simone de Beauvoir, Karl Jaspers, Edmund Husserl, Wright Mills, Reinold Niebhur e os brasileiros Álvaro Vieira Pinto e José Luís Fiori. São citados também Marx, Engels, Lênin e também existem referências ao Chê, a Fidel e a Mao, enquanto lutaram contra sistemas opressores. O livro é em defesa dos oprimidos e jamais um elogio aos opressores.

Não foram Marx e Engels que inventaram a opressão e a lutas de classes. Eles apenas constataram a sua existência. Não me parece que Paulo Freire fosse tão pouco inteligente, que se fosse elaborar panfletos, os faria tão longos e tão recheados de teoria, inclusive, de difícil metabolização, como dá para perceber.

É sabido também que, misturar a teoria de um autor com procedimentos de sua vida particular não é um bom procedimento acadêmico. O Rousseau que entregou os seus filhos a orfanatos foi sepultado junto com o seu corpo, mas o teórico e Patrono da Revolução Francesa não morreu e muito menos o Rousseau do Discurso sobre as ciências e as artes, do Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens e o Rousseau do Contrato Social e do Emílio.

Rousseau pôs a roda da história a rodar. E uma das dimensões da história é a perspectiva de futuro. Paulo Freire fala muito da tridimensionalidade do tempo e não de sua unidimensionalidade, em que o futuro seria apenas um prolongar do tempo presente. Ninguém conseguirá deter as transformações e a história. O futuro e as suas utopias sempre brotarão qual água nova.

Além de não ser um bom procedimento acadêmico, creio que também esconde muita maldade. Julgar um teórico pelo seu comportamento é uma atitude de moralistas. Creio não ser necessário citar aqui, Nelson Rodrigues sobre os moralistas. Certa vez ouvi alguém desmerecer as teorias marxistas, por ele ter tido relações sexuais com a sua empregada. Posso assegurar a todos, que se Marx teve esta relação, isso em nada emporralhou a sua teoria.

Ser comparado a Rousseau no plano teórico só pode ser considerado um elogio a essa pessoa. É cobri-la de méritos. Se é para comparar Rousseau a Paulo Freire no combate às injustiças do seu tempo, creio que a comparação é muito feliz.

Mas o auge da não compreensão de Paulo Freire está relacionada aos temas geradores. Com Paulo Freire aprendi que pelo local, pelo regional se chega ao universal. Conheço uma pessoa com uns trinta anos de idade e que sofre muito com a falta de leitura. Não é propriamente um analfabeto. Creio que agora sim, ele irá aprender a ler. Sabem adivinhar a causa disso? É muito fácil. Ele quer ler as mensagens que ele recebe de suas namoradas pelo celular.

É a isso que se chama de foco de interesse e é esse foco de interesses que produz as chamadas palavras geradoras. Arriscaria algumas dessas palavras para o caso das mensagens no celular:  meu amor, meu bem, te espero, vamos nos encontrar, você é maravilhosa, entre outras. Agora pasmem! Se ele efetivamente se letrar, ele ficará imobilizado por essas palavras, ou essas palavras serão uma ponte que o lançará a um outro mundo.

No caso de Machado de Assis, todos podem ter a certeza de que ele tartamudeou muito sobre o morro, sobre o seu bairro, sobre a sua cidade. Esse foi o seu mundo local, o seu mundo regional. E pelo domínio desse seu mundo ele alcançou o universal. Paulo Freire fala muito de limites e a apresenta como uma qualidade, pois só pela percepção de nossos limites alcançamos a superação e a transcendência. A doutrina de Paulo Freire não tem pontos estanques, imobilizações. Ela é puro movimento, ela é ascensão, ela é transcendência.

Outra coisa comum aos atuais detratores de Paulo Freire é considerá-lo como a causa dos males da educação brasileira. O educador esmiuça a fundo a história desta nossa educação e lhe busca as raízes de sua má qualidade. Esta educação sofreu uma passagem de boa para má. Quando ela era para poucos, apenas para uma elite ela era de ótima qualidade. Quando é que ela se transformou? Quando ela foi aberta para as camadas populares. Aí se descuidou da sua estrutura, se descuidou da formação de professores, dados qualitativos foram substituídos por dados quantitativos e assim por diante. A má qualidade da educação brasileira jamais poderá ser atribuída a uma única pessoa, por mais má que ela seja e, isso não vem a ser o caso de Paulo Freire. É muito reducionismo. Existem causas estruturais e conjunturais.

Recorro ao humor para concluir. Ao barão de Itararé. Dizia ele que aspirava um mundo em que os conceitos de bem e de mal fossem substituídos pelos conceitos de ignorância e conhecimento. Recorro ainda a uma nova companhia, que encontrei essa semana. Valter Hugo Mãe. Li o seu O Filho de Mil Homens. Nesse livro as pessoas sozinhas são apresentadas como pessoas pela metade. Quando se encontram, as pessoas passam a ser inteiras e quando buscam ainda mais encontros elas se expandem, elas dobram. Vejam bem, elas dobram. Não está escrito que elas se dobram. A riqueza do mundo está no mundo das relações. As relações são a beleza da descoberta dos outros, em relações de igualdade e jamais de opressão. Do contrário, nos fala o escritor, as pessoas caem para dentro.

A pedagogia de Paulo Freire é um grito de libertação, de autonomia e de transcendência. O legado de Paulo Freire sempre será esse e dele só poderemos abrir mão no dia em que não houver mais, nem oprimidos, nem opressores. E isso é um legado de difícil aprendizado. Invoco a todas as forças superiores para que sejamos tocados por esta alta ajuda.

   

2 comentários:

  1. Paulo Freire + construtivismo + progressão continuada = plantação de analfabetos. A começar pelo autor deste blog...

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  2. Vejam só. Não seria o anonimato um refúgio seguro para a falta de caráter? Publico para efetivamente tornar pública a maneira como certas pessoas pensam.

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